Creio Em Teu Silêncio, Na Tua Pele de Luz,
Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
A Franja de Terra E o Labirinto
A franja de terra e o labirinto
onde cego caminho ou em branco.
A mesa lisa é necessária à linha.
A visão do animal obceca-me, fascina-me.
É como um corpo em fala, castanho,
negro ou branco. Seja qual a cor,
arde de ser todo ele a densidade
de uma dança imóvel na parede.
Escrevê-lo é tentar tenacidade,
persistência de pé, arrojo mudo,
dizer o que diz inteiro o nome.
Já Alguém Viu o Cavalo? Vou Aprendê-Lo
Já alguém viu o cavalo? Vou aprendê-lo
no jogo das palavras musculares.
Alento alto, volume de vontade,
força do ar nas ventas, dia claro.
Aqui a pata pesa só a mancha
do cavalo em liberdade lenta
para que o cavalo perca todo o halo
para que a mão seja fiel ao olhar lento
e o perfil em cinza azul aceso
de clareira de inverno. Bafo, o tempo
do cavalo é terra repisada
e sem véus, de vértebras desenhadas,
lê o cavalo na mancha, alerta,
na solidão da planície E uma montanha.
No Lugar da Árvore
No lugar da árvore. Longa e ampla.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
Se Me Detivesse
Se me detivesse
neste quarto em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema
Em Torno Um Espaço
Em torno um espaço
— e já a noite ou a sombra
desta mão?
Um espaço. Um espaço
de equilíbrio.
Ausente sempre.
Existe ou não existe?
Que me importa? Um espaço
o cerca. Um equilíbrio.
Onde se encontra? Como
saber se nele tropeço, ou o desfaço?
Se o visse, como o diria?
Direi que é nada. Nada.
Que digo eu? Que é nada
ou só o muro que o tapa.
Fumo de palavras. Nada,
a raiva torpe, o negro
inútil destas linhas.
E todavia o espaço,
o equilíbrio,
o equilíbrio do espaço.
Como, como se,
um sopro submerso,
um feixe de haustos,
um novo corpo
num espaço de equilíbrio.
(Efémero desde sempre?
Irredutível?
A palavra o recolhe
mas não o diz?
E que digo eu agora?
Apenas que ele existe?)
Um espaço. Um equilíbrio.
Um espaço
de equilíbrio.
Em torno ao que
às vezes chamo árvore
ou tronco.
As Tuas Armas São Lentas
As tuas armas são lentas
servas compreendem lúcidas reflectem
as tuas armas secretas e patentes
Sorves-te como um sopro em corpo e firmas-te
As tuas ancas desligam-se despenham-se
As tuas servas surpreendem
Nunca têm a febre alta
Caminham no silêncio das tuas pernas
As tuas armas são pequenas e longas
Tecem no espaço as linhas de uma águia
Desfazem um a um os mitos dos enlaces
A tua vista alcança o ponto cego da luz
A tua linguagem é o silêncio sem eco
Tornaste-te num muro alto que não vejo:
o espaço nu
Alto Campo o Dia
Alto campo o dia, para as mãos do rosto.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
A Pobreza de Certas Palavras
É para ouvires o som de um buraco,
certas palavras despidas, certas palavras pobres:
o som de um buraco.
O sopro que ouvires, não o ouves, não é o sopro da árvore.
Aqui esqueceu-se o peso das pedras.
Por isso outras palavras: as que sobram.
Não as que restam.
Não será um grito. Certas palavras, só.
A quebra muda, nem sequer um baque.
Eis o que elas produzem depois de ti:
o som de um buraco.
Entre nós: não o ouvido. Certas palavras mais pobres,
obsessivas, mortas.
Persistem. Morrem.
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda