Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
Primavera Material
É a noite em pleno dia. Uma luva que avança, esteira invisível. A mão que não vê o sulco, a planta do pé que assenta sobre a delgada película.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
Hausto
No terreno nu, pobre papel,
arranco este hausto
sobre as mãos.
Pelo rosto me abandono ao ar.
As ervas flutuam.
O bafo do mar sobre o carvão.
Para acender a terra fatigada
abro este sulco
sobre o ar
nas minhas mãos.
A Face do Ar
O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
Um Espaço Resta
ao Ruy Cinatti
Um primeiro sim no espaço incerto
entre a página e o dia.
Pátios desertos brilham,
nuvens ou velas tensas, movimentos
do instante. Em arco para
a inimaginável paz só respirada
tendo (Caminhai, nuvens!).
Este astro sobre o chão
às primeiras palavras transparentes.
Todas para a terra, para o peso
que vai do pulso à boca,
tremendo do muro em que as projecto.
Corpo que levanto, não sonhado,
não lembrado, ou de que origem rastro,
é o solo que limpo, o olhar que lê
a nudez da página, sinais pobres,
para que os lábios se detenham sobre os lábios
e o rosto veja na água as cicatrizes.
Tudo o que as palavras acendem sobre o solo
passa pela sombra e pelo silêncio do olhar.
Do fogo do dia à mão que hesita um espaço resta
para as árvores vivas.
Imóveis, Enquanto a Luz Declina…
Imóveis, enquanto a luz declina,
harmoniosas plantas unidas no repouso,religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Duas Palavras
Alta
alta e branca
quase a extinguir-se,
um triunfo do ar.
Distancia-se
na distância
donde nasce.
Nasce
nesta página —
alta e branca.
Duas palavras
bastam
para te ver.
No Lugar da Árvore
No lugar da árvore. Longa e ampla.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
Alta No Chão
Alta no chão,
ainda há pouco erguida.
Agora lâmina,
lenha penetrável,
ardente, cega.
Rastejante boca
que a língua me inunda.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda