Não Que Dance, a Folha
Não que dance, a folha
que dirias contra
a noite. Não que a febre
um incêndio pelo pulso alastre
até à terra obscura. Nada,
esta ligeireza simples, estas palavras
ninguém as grita. Espero que
a sombra de outro corpo ao meu
as dei. Um canto
que eu não sei se
as move, ou outro espaço
mas só a sombra
delas.
Antes, depois, já,
quando, um frémito feliz
as traça, o nó
desata, outras minhas
no intervalo que abrem
cessam,
quando, e sem porquê.
Perto do Mar
A água de uma floresta
onde todos os pássaros são dedos submersos
O lugar dos corpos
até ao fundo arde
Podemos subir descer
perto do mar
a longa escada verde inteira e leve
até à beira das grandes pedras
onde o silêncio da terra
cresceu à altura das árvores
unânime sabor enorme das folhas que nas mãos
se enrolam frescas
somos quase a água de um segredo
como se nascêssemos
com os punhos rolados no mar
o solo até à boca
os ossos vivos no abraço
a cinza verde que se sorve é a seiva
de um ar ardente e novo
para uns lábios juntos
no silêncio das palavras jovens
Vivos entre as hastes pelos olhos
os elos do ar ligam-nos a um corpo único
todas as gavetas se dissolvem
e delas sai a pomba da água unida
cujo bico aponta o sol na clareira
Animais do sol levíssimos
propagamo-nos no azul da terra
nos verdes claros nos castanhos densos nos negros
comemos os frutos das cores dadas
as pedras as pinhas as agulhas
cantando quase o mar
Cai a noite
sobre um muro branco
a plenitude da folhagem no silêncio
nos nós verdes inundados pela sombra
não nos perdemos entre as árvores e as espigas
sentindo o áspero gosto das pedras
o pó miúdo e solto sobre as faces
o grande sorvo fresco da aragem
noite ou mar
por um caminho em que as estrelas se dispersam
como as palavras de um texto
os lábios sobram do excesso suave e grande
e soletram no silêncio do ar nocturno
Trielo de Poetas
A fonte e a escada. A fonte. E a escada.
No centro o terror ou a loucura. É uma alta árvore.
Este é o primeiro poeta.
O outro caminha no quarto. A cor pousa na página.
Leve. Ou na parede. A praia é extensa.
O terceiro vê um homem de costas. Lê anúncios.
O homem é mortal, caminha à chuva.
Um átrio rodopia na aldeia branca.
Sem o saber combatem entre si.
Por uma lâmpada. Um muro. Ou um zenabre.
Entre mulheres e plátanos traçam linhas
que se encontram em tufos negros, verdes.
Um dirá inocência. Inocência.
Outro dirá pedra ou braço. Pedra ou braço.
O terceiro seguirá ao longo da rua até ao fim da sua idade.
Três poetas que se ignoram e se conhecem.
Três léxicos. Um vermelho. Outro branco. Outro cinza.
Vermelho. Branco. Cinza.
Se um só poeta. Um só escrevesse o poema.
Vermelho branco cinza.
A fonte na parede. Alta no braço. A chuva
caminhando. O jornal aceso.
São três braços, três palavras numa página.
O mesmo fogo violento nos cabelos.
Um só pulso. Uma haste viva. Rompendo
da parede.
E o mesmo ventre. Ou o mesmo muro.
A boca da ausência
beijando as suas sílabas.
Ó poeta da tua idade e do esplendor do ventre
no centro flutuante a mesma lâmpada vazia
que as palavras acendem. As do jornal do dia.
Ó poeta das três idades.
O da lâmpada. O do ventre. O do jornal do dia.
Três da mesma idade. Ao pé da mesma árvore.
Um desfolha o vocabulário violento.
Outro pousa lentamente a mão na árvore.
O terceiro está ausente. As folhas secas rodopiam.
Árvore Aberta
Dobrei os teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
a faca rasgou a barreira do ventre
a tua face abriu-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti
exílio
pátria sobre o chão
e fuga
furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio
Quem Bate a Uma Porta de Folhas
Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas
Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
Caminho do Alento
ao Luís Amaro
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
Bater o Metal
É para bater e para ver. Para bater e para ver. Para bater. Para bater na fronte do silêncio. Bater na fronte. Bater.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Fora do Arco
Quem constrói?
Ninguém mais. Só
onde me lanço. E é terra ou não.
Nada quero dizer.
Nada se alcança.
Música, a necessária:
boca do desejo
que inicia a perda ou
o espaço em branco.
Quem escuta ou quem atende?
Fora do arco, no papel
a pedra não é pedra. É onde
nada imploro, mas avanço ou caio.
E sem a força, o aro flexível,
inscrevo, abrindo o branco
para onde não sei.
Não me nego. Mas cedo
ao duro arbusto que estremece
à minha frente.
Será a árvore, é para ti
se eu for
no alvo que atravesso.
Alto Campo o Dia
Alto campo o dia, para as mãos do rosto.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda