Amor da Palavra, Amor do Corpo
a Maria Aliete Galhoz
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
Órbita de Verão — 1
As duas vertentes — mar e terra
numa só folha lúcida.
Respiro a larga oval,
sólida lâmpada
de pedra
e ar.
Seguro a corda
nova e nua
deste campo.
Volante Branco
Percorro as ruas contra o sol
numa dança fácil.
As pedras são de praia entre árvores.
O meu volante branco.
Este grande pé de terra, eira do vento.
Sóbrio bêbedo de nua fronte aérea.
Aterro entre casas altas caixas.
Verde leve brincos trémulos verde.
Alegre de fogachos.
Terra Imponderável
Uma toalha de água e de ar,
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
Na Fronteira da Sede
Onde chegam na fronteira da sede,
onde perdem ou ganham lábios felizes, instantâneos,
onde chegam e se perdem, à altura
do chão que se ouve e vê,
espuma do meio-dia,
uma espádua desce longa pela mão,
à altura inteira chegam,
onde se erguem e caem em plena sede.
Queda branca
através de anéis rubros,
na saliva e no suor a estrela viva forma-se,
se desfaz e refaz,
matéria modelada corpo a corpo,
fugacíssima estrela presente,
peso de dança extrema,
a terra se coloca em seu centro de chão,
a estrela ganha lábios de barro em rodopio,
que da raiz dos braços e das virilhas nasce.
Onde chegam, onde chegam, e se consomem, no sumo,
lento, extremo círculo, ténue, pleno círculo
da luz em que se entregaram e beberam,
e soltos pousam livres membros que pesam doces,
cientes dessa água última que se estende e perdura,
doce água última em que se alongam
extensos, perdurando.
A Fogo E Pedra
Neste campo — qual campo?
não me entrego,
rompo.
Avanço a fogo e pedra
e terra.
*
O triângulo da fronte
pulsa com o ventre
magramente
ao vento.
Arde nuamente
arde alto
com o ventre
ao vento.
*
Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra
*
Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.
*
Digo para dizer — esta parede
que não vês,
este ar que não respiras.
Entre a palavra e a figura
treme o nada
a boca branca
*
Nada, ou ainda a pedra, ou ainda a terra, ou ainda o fogo. Nada. A fronte nua interior, boca de ar e morte. E uma pequena rua longa e branca, a rua nua, a rua de um corpo para a via láctea do dia. As árvores brancas. Caminho sem cessar. Não sou vosso habitante de comércio entre portas. Rebento as minhas barricas de ar.
*
Adiro
à minha boca
de terra
ó carne da carne
tumor
de silêncio
vermelho
*
No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva da identidade.
*
A breve lâmina que nos separa, ou muro ou chama. Contra a esquina, arde. Contra o céu, arde. Na terra, ondula e chama, chama. A breve lâmina, ou rasga ou chama.
*
Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
— de quem são?
*
Demasiado alto para
o sono
e o amor.
Contra a vertigem
sonâmbula
esta barragem de pedra
*
Por um país mais lento, filho do ócio
armado ao ombro do ócio,
no ócio da alegria
do ócio.
Ervas de ócio, folhas de ócio,
inimaginável figura do ócio
descabelada, branca e nua
caindo lenta
lenta
lenta,
imponderável, lenta,
interminável.
*
Minhas armas quotidianas para rir, para quebrar, para desarmar.
*
Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. E aí brilha uma lâmpada, uma pedra, o ar. Uma linguagem de restituição.
*
Algo se soltou no corpo
algo se abriu
e a boca.
O corpo abriu-se.
A boca em uníssono com o corpo.
Pela primeira vez
pela primeira vez
a boca foi a boca do corpo.
Até Onde Ou de Onde o Olhar Se Perde
Inesperada e lenta
como sem esforço, lenta
a folha no seu espaço
sem mais que a luz, e verde,
se limita, própria, e se repete
em ramos negros.
No meio o tronco, mas
a seiva não se verte (nem se sente).
Um pouco mais distante é a onda da folhagem,
mais do que as folhas e não um verde espaço,
mas um volume denso e leve,
que nada diz ainda
e vem e vai,
alheio e próximo, e mais alheio
que próximo.
Ou são palavras que tremulam,
ou o visível silêncio
no extremo olhar que não se diz.
Mas se nem próximas nem alheias são
nesse vai-vem tão lento
mais do que a solidão do seu silêncio
algo serão. Quase. Iminentes
na lentidão.
Uma folha? Não.
Nem o seu espaço, nem
o seu contorno nítido.
Só o volume verde escuro,
sem forma quase
e sem distância ou horizonte.
Demasiado perto ou longe.
Um murmúrio de ameaça?
O que dizer? Como
mudar o espaço do olhar?
Digo: a sombra verde.
Será silêncio ou puro ruído?
Não há espaço nem olhar.
Uma folhagem alheia, escura
e sua sombra de ameaça.
Um fogo verde — um tigre?
Que animal me chama?
É desta sombra próxima, longínqua,
que a linguagem surge. E o meu olhar.
O corpo se abre sobre a boca escura.
Eu não sei onde. Mas
se a linguagem surge, é esta
casa, este dia, este corpo
que vos fala? Este o lugar?
Contra o silêncio e o rumor,
nos seus limites a folhagem
tornou-se a árvore, não vista mas a ver-se.
Ou talvez apenas um tremor estremece?
Se a linguagem surge, a árvore vive,
olhar e espaço se reúnem,
se eu vejo a árvore viva
a linguagem surge,
ou só vive a linguagem,
só vive o tremor destas palavras,
só este espaço treme?
Ou o espaço se abre e sou eu que tremo
de um esplendor entrevisto?
Ou o vácuo audível?
Onde estou? Só o tremor
do desejo e eu?
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
Entre Tarde E Noite
Liguei-te, na minha febre seca, ao dia dos meus passos.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
Onde o Caminho
Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.
A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.
Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.
O fragor branco do céu.
O dia não estala.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda