Caminho do Alento
ao Luís Amaro
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
Entre Tarde E Noite
Liguei-te, na minha febre seca, ao dia dos meus passos.
Lâmina justa contra o peito — um dorso obscuro e doce
entre tarde e noite.
Adormecida moita à minha beira,
com olhos de silêncio.
É noite já, entre tarde e noite.
O Sol da Casa
Sou o que veio por um momento
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
Hausto
No terreno nu, pobre papel,
arranco este hausto
sobre as mãos.
Pelo rosto me abandono ao ar.
As ervas flutuam.
O bafo do mar sobre o carvão.
Para acender a terra fatigada
abro este sulco
sobre o ar
nas minhas mãos.
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
Bloco Intacto
Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
Onde o Caminho
Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.
A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.
Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.
O fragor branco do céu.
O dia não estala.
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
A Coexistência No Muro
A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
Aderência
A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda