Infância
Sou pequeno
e penso em coisas grandes:
pomares e mais pomares,
jardins de flores e flores
e pelas montanhas e vales
grama verdinha e bosques,
com milhões de árvores
e asas de passarinhos.
Rios e mares de peixes
— aquários largos e livres
— ar dos campos e praias,
a manhã trazendo o dia
com o sol da esperança
e a noite de sonhos lindos,
nuvens calmas, lua e astros,
minhas mãos pegando estrelas
neste céu de doce infância.
E pelas estradas claras
meu cavalinho veloz
no galopar mais feliz:
— eu e ele sorrindo,
levando nosso cristal
para os meninos do mundo.
O Rio
A água vai passando
limpinha, limpinha,
espelho do caminho
onde muita gente para,
a se mirar...
Fico olhando...
é bom ver a água passar.
Fraquinha,
na gruta escondida nasceu.
Bebeu o orvalho da serra,
pelo vale desceu,
retratando a paisagem.
E as folhas emurchecidas,
a sua frescura,
reverdeceram-se
milagrosamente.
Rio, recebeu riachos e córregos,
cresceu... ficou importante,
e pontes ganhou
para a estrada
que o engenheiro
traçou.
Encontrou umas pedras,
tropeçou... e, em caídas e quedas,
morro abaixo rolou,
virou cachoeira,
girou, girou,
energia e força
fazendo gerar.
Ergueu-se
em saltos de espuma
e, lá longe, longe
se abriu em remanso...
Foi descansar
junto aos boizinhos
que estavam a pastar...
Depois , as cidades
irá limpar,
antes de correr pro mar.
Destino de água corrente,
faz a gente pensar.
Meu Presépio
Ponho o Menino
que é o principal.
Faço estradinhas,
levanto montinhos,
coloco as pedras
e muitas plantas,
o poço dágua
em bom lugar.
O galo bem no alto
para cantar Cocoricó!
Espalho os carneirinhos
e paro pensando:
— Eu queria ser o pastor
para conversar com eles.
Aula de Português
Na lição de substantivos,
cansada de concretos,
começo a pensar abstrato
e me faz bem.
Alegria de brincar,
nesta branca manhã,
com anjinhos nus,
na pureza do céu.
Olhar de piedade,
gestos de amor
vão colar as asas
do passarinho caído.
Vida e graça Deus dá,
mas a gratidão é um dom.
O bem muita gente não faz
e é tão fácil de fazer.
Doença e dor não, não,
nem quero saber.
O Sino
Os braços longos
nas longas cordas,
a torre e o bronze
os sons do sino.
Cresce a capelinha,
o cruzeiro se eleva,
mais puro e santo
aos sons do sino.
Em pleno dia
de luz e brilhos
badaladas de sol
os sons do sino.
Dormem as plantas,
animais se recolhem
na tarde de sombras
aos sons do sino.
Também me recolho
bem dentro de mim,
guardando a melodia
dos sons do sino.
E minha alma em paz
é uma colina azul,
paisagem do céu
pelos sons do sino.
Humildade
Há dois mil anos, ali, Menino Jesus, se eu fosse um bem-te-vi!
De vela em vela dos barcos, ia a Belém bem-te-ver de um galho da figueira da Gruta de David.
Asas encolhidas, ante Teus bracinhos e bico fechado para ouvir Teus murmúrios de neném.
Cabeça mexendo,as perninhas nos panosque Sara teceu.pés tocando a manjedoura,o olhar brilhando tudo:meu peito mais amareloà Tua luz.
O semblante manso de Maria, José de joelhosTe abençoando.
E na manhã de espanto, ao vôo de volta, mil voltas à terra — a palhinha no bico para mostrar Tua lição .
Passarinhos
No fio grosso,
um molho de fios,
passarinhos pousam
e cantam de manhãzinha.
São fios do telefone,
vão levar recados pra alguém,
trazer recados pra mim.
Mas o canto fica,
— trinados de alegria
que vêm com o sol do dia.
O Sol
O sol é estrela enorme
fulgurante, dourada
e sua luz vem de longe
foco de imensa lanterna,
dardejando raios.
O sol é trabalhador,
desde o alvorecer
acorda os homens
— Sabem para quê?
O sol fertiliza as plantas,
aclara e aquece
campos e cidades.
Não dorme, não descansa,
nem fica tonto
com tantos planetas
girando à sua volta.
Quando aqui é noite,
está em outros lugares,
onde de novo impera
como "Rei do Dia".
Luisinho
Na manhã de luz
e "deveres para casa",
preso no apartamento,
Luisinho, tonto, não sabe
controlar o pensamento.
Faz subir às paredes
árvores, passarinhos
e põe no chão a nadar
lindos peixinhos.
Olha a altura do teto
pensa e pergunta enfim:
— Será que cabem na sala
as palmeiras do jardim?
Do campo da imaginação
vem uma bola pulando
entre cadernos e livros.
E o menino erra as contas,
desalinha a escrita
e feia torna a letra bonita.
Depois sobe no patinete,
rodando sobre o carpete,
logo tirando um fininho...
Porque a mãe aparece,
zanga e ralha com Luisinho
que quer estudar e brincar
ao mesmo tempo!... Bobinho,
ele ainda não aprendeu
que cada coisa tem hora
e tem também seu lugar.
Poesia e Flor
Uma rosa de alegria
não pode durar um dia.
Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.
Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.
Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.
Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.
Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.
Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.
Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.
Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.
E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.