Lista de Poemas

Da infância fluvial em saltos

nas curvas do rio,
como um bailado,
as águas traziam mansa
a natureza nos braços

da ponte, aos saltos,
os meninos incontidos
lançavam-se foguetes
no colo morno do rio

a vida era uma armadilha
montada no desafio
da felicidade que havia
escondida pelo rio
71

Verbos em silente e verbal jornada

o poema
nunca cala
seu silêncio
é alvoroço da alma

o poema
nunca grita
seus alaridos
imitam a vida

o poema é um astronauta
em órbita nas avenidas
à procura dos labirintos
que os verbos lhe permitam
50

Do curso da refrega

renhida, em ondas,
a luta sempre entorna
o coração dos homens
no peito da revolta

ângulo intacto
dos olhos do futuro
alinhava-se como imensa
nas curvas do seu curso

ao homem basta apenas
afundar em si nesse mergulho
107

Da construção vivente

a vida não está posta
como se fora um guia
em que o autor esquece
os passos de sua via

antes, convergente,
dada ao coletivo,
dá-se como instrumento
de construir-se consigo

a vida é um diagrama exato
das teimosias do infinito
61

Oníricas vicissitudes

esqueço-me nos sonhos
como tentativa
de construir andaimes
pela vida

o fazer onírico
talvez sirva
para medir as léguas
que eu consiga

o sonho é só um trampolim
das necessidades da lida
77

do riso como semente larga

o riso não é um disfarce,
tudo que lhe trama nasce
como se fora um vendaval
nas curvas da face

é uma alegria semeada
nos ângulos do rosto
nos leirões montados
nos roçados do corpo

sorrir é tanger o mundo
nas estradas de tudo.
101

Tchaikovsky em lances

na valsa, em flores,
Tchaikovsky intenta
navegar os mares
da consciência

burla o tempo
cria infinitos
e constrói balsas
pelos ouvidos

a música é só um disfarce
da profundidade dos sentidos
32

do amor em construção

o amor, fundante,
dá-se como recorrente
quando a fábrica de si
habita larga os viventes

funda âncoras esvoaçantes
com ganas de astronauta
e inventa todos os cosmos
no colo imenso da alma

confundi-lo com a vida
é vivê-lo na intensa trama
de quem constrói a si
no peito de quem se ama
64

Volitiva inação

o infinito
talvez nem caiba
nos senões da vontade
que se tem na alma

buraco negro
de vazão avara
engole o tempo
como máscara

nada do que tem de tanto
dá-se pelo menos que declara
97

Legislatura informe do futuro

quando o futuro
deitar no tempo
lavre-se o termo
de livramento

o povo que o construa
decrete seu destempo
e de-lhe o timão
dos cursos do presente

revoguem-se todos os passados
em que se houve como ausente
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.