futuros , engavetados na memória, sonhos dizem apenas o óbvio: sonhos são apenas os tempos do que eu posso.
80
Das infantes vidas em rumo aberto
a vida de Severino tinha uns nós engraçados quanto mais lhe apertava a angústia mais lhe afrouxava a gravata é certo que não tinha Londres para remoer suas tristezas ao som intransponível e fluido das metrópoles mas, no fundo de si, guardava uma noite inteira que bem poderia caber em Londres com um quê de brasileira. A alma que levava presa no vão do cérebro era dessas comuns que pastam a Europa e se empanturram da América. Ah se lhe coubera um futuro exato dentro dos pés no meio dos passos! Mas o futuro sorria complexo travoso e irremediável o gosto da liberdade. Os cachos da mulher que seu amor vestia cheiravam a rosa embrulhada nos abraços corroendo o dia mas o infinito teimava em não lhe vir à mão para que o despejasse incólume e transparente sobre seu corpo de flor ou de mulher e gente. Dos olhos de seus irmãos como um concreto estranho pendiam grossas lágrimas que a custo desabavam e se partiam amarelecidas na espinha bruta das calçadas. Tinha uns nós engraçados a vida de Severino quanto mais vivia o homem queria ser menino e empinar os sonhos como uma pipa urgente e não tão murchos como os olhos do seu povo queria coser os risos numa imensa colcha e deitá-la nas costas da gente brasileira. Queria ter um dia guardado em cada bolso da camisa pra jogá-los no meio das noites que se teimam infinitas. De cada nó partia uma ponta do corpo e eram nós desatáveis apesar de muito esforço tinha a largura tanta do gosto da injustiça costurado ao chão do mundo como uma telúrica intriga.
68
De gentes e carimbos
o funcionário lança o despacho como quem subscreve um desabraço nada do que é vida lhe constata apenas uma grave inapetência e algum cansaço
o funcionário nas entrelinhas desmede a vida e a desídia como se o carimbo fosse o leito de todas as notícias e urge em trânsito pelos meandros do papel e nos verbos de um chefe de militares decibéis
o funcionário assina sua sentença nada do que é a vida lhe convém
o funcionário ao indicar-se tácito alinha os carimbos de sua vida em todos os seus atos como se pudesse inventar o trânsito de todos os seus passos é que nada lhe sobra como viés do que não fosse inexato: palavras não serão verdadeiras quando impressas em sobressalto
o funcionário lida com o papel com a mesma solicitude com que desmancha os borrões de suas atitudes o leito da sua lida é de tamanha completude que chega a parecer uma saída das portas todas em que urge
o funcionário tem da ordem a compreensão de que o mundo se ordena em todos os nãos nada do que seja seu sim pode lhe estar à mão
o funcionário tem da lei a exata compostura de um verbo que não transita no meio de suas ruas é que lhe falta a textura das grandes avenidas com que os chefes alinham o fulgor de suas vidas
II
o carimbo leva o funcionário com os freios todos da vida como se verbos fossem cadeias que apreendessem adjetivos que indicassem o rumo das gentes ou que desfizessem os indícios de que a liberdade é o destino de todos os exercícios
o carimbo trunca o funcionário na sua veia mais latente que lhe joga contra a sentença de tudo que não se consente como se a vontade do homem fosse matéria incoerente
é que lhe ordena a ordem assim estabelecida que um carimbo vale mais que qualquer de suas vitimas pois subentende a partição das coisas todas da vida
o carimbo assim aposto é um latifúndio resumido dos verbos todos que o chefe traz como subentendidos e que lhe cobram os dirigentes em todos os seus sentidos
III
o ente público não tem veias o sangue que lhe promove é a certeza de que os lucros serão privados em sua toda inteireza
o ente público por dentro da lei é dito como se fora a social sensatez que vige em cada humano na sua feição mais lúdica com ares de particular na sua razão mais pública
o ente público é tão desnaturado que um carimbo, às vezes, lhe trai a incerteza de que nunca foi coletivo apesar da natureza
IV
a assinatura posta no carimbo comprova a razão de todos os destinos nada do que seja verbo é tão cristalino
e mesmo quando não aposto em sua forma mais crua o carimbo informatizado tem a mesma compostura pois quando se assina a razão se assassina a textura de um carimbo tão avançado apesar da escravatura
cada verbo do carimbo é a contradição de quem inverte a vida com a mesma satisfação com que se contém a ordem nas vias todas do não
V
e assim o funcionário nessa lida incoerente destrava cada carimbo e se trava em cada ente em mostrar que toda ordem quando posta adredemente desvincula a vida da vida e rói o sonho da gente
116
De ações e direções
Empírico, nada é tão lúdico que me faça viver a qualquer custo
é que viver mais que um discurso é a travessia de um tempo a longo curso
é construção de uma praça coletiva guardada a proporção dos singulares que se viva
empírico, nada é tão lógico que me faça viver fora dos ossos viver é apenas a função dos verbos que eu possa.
131
De terras de onde vier, quem virá?
das terras de onde não venho nem o medo me acontece pois tudo que me é outro ainda assim me parece como as luas que invento e que se põem no meu tempo
das terras de onde não venho melhor deixar-me alheio que navegar nesse vau de rios que me concedo em que a correnteza nem teima em lavar-me do meu medo
das terras de onde não venho a poesia não medra como o mel inconsumível que brota de toda pedra e que descompassa o coração com a insistência da guerra
das terras de onde não venho melhor fincar-se a bandeira no espaço da consciência em que drapeja a centelha do tanto que seja o sonho de tudo que não se queira
das terras de onde não venho o outro me aconselha a ver em tudo só terra de uma mesma bandeira que escorrega pela alma e o coração incendeia
das terras de onde não venho proceda meu coração com a certeza do rumo de um país temporão que teima em ser usina de fabricar solidão
das terras de onde não venho tenha-se enfim a certeza de que nem sempre me é estranho o descaso da natureza que meu peito teima em conceber apesar de uma vã incerteza
II
outro a terra o bruto grito e guerra de tudo que não sou e pedra
outro eu incorre e torna-se em mim e morre como se não estranhas fossem a posse e a morte
outro sou eu e como eu divirjo da consciência que não outro nem duvido
outro sou eu pelas calçadas das ruas em que me abraço
outro sou eu pelos destinos em que nem caibo
outro sou eu pelo desuso das almas
outro sou eu a tanto custo pelo que sou eu e luto.
III
das terras de onde venho invento a compreensão que outras terras dizem de todos e tão assim servirão que nas dobras do futuro de uns e outros serão
as terras de onde venho sempre em mim caberão apesar de sobrarem fartas na simples sem razão de ser uma pátria só quando todas já nem são
pois a pátria do homem é sempre o coletivo não a terra que lhe cabe como espaço restrito é antes a compreensão de que as pátrias acabam e só indicam a verdade de que apenas habitam, no homem, a carteira de identidade.
123
De lutas e dizeres
estava dito: tudo que palavra me exercita deixa um gosto de luta pela vida
estava dito: tudo que luta me instiga a deixar o coração pela avenida.
é que ao homem sempre se dá a possibilidade da vida.
68
Desmedida II
não é de ser absoluta a parte que se tenha infinita antes é de tê-la provisória coincidente ao modo de uma luta travada sempre entre o um e o todo e tudo que equilibra essa disputa
não é de ser também restrita a parte que se tenha assim medida antes é de tê-la infinita avara, porque inconseqüente, no rol de suas desmedidas.
146
Das impresenças do mundo
não me iludo a saudade é apenas um resto de tudo nada do que é você permanece ausente do mundo
108
Descaminho
a ponte estava lá entre mim e a verdade quanto menos pudesse mas havia a possibilidade não que a houvesse definitiva como um estatuto que contivesse a saída mas um tênue indício de que a vida pode, às vezes, ser vivida ex oficio
a ponte estava lá dentro de mim inconstruída como se fosse um caminho de inventar a vida
a ponte estava lá e, no entanto, distraída permanecia assim como uma lembrança esquecida.
120
De viver
a vida em vão é intifada do coração
e é difícil sê-la assim à pulso e dar-se jeito melhor de mantê-la em uso
a vida é rio de nado duvidoso nas braçadas gerais desse meu povo
e é tardio vê-la não obstante o que desregra o modo de sê-la avante
a vida é piracema de exercício adrede e que não cabe numa lógica onde não seja breve
e é não se ter tempo de consumi-la vasta guardada a desproporção porquanto tê-la baste
a vida é reticência da grave compleição da paciência
e é difícil tê-la individida e levá-la plena nos bolsos da camisa
melhor é tê-la no peito quase completa numa certidão exarada em muitos et ceteras
a vida é navio e gaivota nas âncoras gerais em que aporta
e é constante vê-la em voo conjugado com os sonhos que se traz em grandes cachos
a vida é absurda onde não exercê-la em desculpas
e é trânsito de rara urdidura nas esquinas que o peito em vão atura
a vida é genérica mesmo que seja única sua matéria
e é de dar-se ao homem na proporção exata de toda sua fome.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.