a baía amanha a praia com um gesto de navalha cospe a areia já prestante à luta como se fora garça paciência da desculpa e finge-se mar de vasta cabeleira renhidos os ombros das ondas pela tarde inteira
a baía bebe o chão como um gole compassado de rebelião e mansa arranha o vão de todos os calculos de sua insuspeita fração
a baía, assim urgente é quase um leão que tecesse na juba as tranças da solidão.
136
Contradita
O inverso não é contrário é apenas um jeito de ser vário
pois em sê-lo uno como contradita não lhe sobra o ritmo de atravessar a vida
e assim, adredemente conjugado sempre lhe cai o modo de ser ainda contrário
é que a vida repousa nesse choque imaginário
128
Balada patriótica e arruamentos gerais
I
a patria não explica o jeito do amor nem a notícia
a patria apenas explicita nas esquinas do tempo os rigores da vida
a patria é em tudo a negação do mundo
a patria nunca está onde a quiseram fundar antes se exercita em transitar nos mapas indecisa
a patria, em verdade, é um futuro jacente que mais que geografia traz o peito da gente construído nos andaimes de todos que se apresentem
II
A patria é um riso invertido tudo que sorri é restrito e indiviso
só a patria é muito pouco para caber em si as léguas todas do povo.
188
Carta II
A gente sempre morre do tamanho da vida fardos de amores intactos lastros de revolta febres de riso
a gente sempre engole pedaços do infinito rompida a pulsação do tempo escasso o espaço na avenida
a gente sempre ama do tamanho do abraço guardada a desproporção do peito limitado
e raras vezes a gente morre completo pois sempre sobra um amor alguma nesga de afeto
102
Cordel da vida inteira
é de ter como a vida um jeito assim coerente que não viaje pelo tempo como razão diferente que nunca dissesse a tanto a como e quanto se pertence
porque dizê-la maior que uma vida insurgente seria tê-la em custos que não se dá a viventes porquanto merecê-la fosse tarefa inconsequente
e se fosse distribuida avulsa como se sente melhor seria contê-la trincada assim pelos dentes do que fazê-la material adrede e talvez urgente é que de urgências se exclua pela razão desmedida de não ter as consequências do que se tem pela vida é que falta-lhe a certeza e talvez a simetria das esquinas que a natureza constrói pelo vão do dia
é de ter só por ser vida a vazão e a geometria de recipiente dispostos numa mesa tão baldia que não lhe sabe a vivente o que viventes presenciam é que é dado ao sujeito um quê de predicado e nunca sobra no seu jeito a contrição substantiva que lhe permite ser essência dos adjetivos da vida
e nessa lida entornado pelos tonéis da memória nunca lhe chega à lembrança o viés de sua história onde esteve tão vário apesar de transitório
é que lhe cabe a desmedida de uma vã matemática que faz sobrar pela vida um certo quê de imaginário que nunca constrói frações nos inteiros em que cabe
e nesse tão desalinho em que se permite arranjado flui uma vida inversa a tudo aquilo que sabe e nunca constroi o sonho do tamanho do que lhe invade
o sonho é sempre constrito numa lembrança adversa que trai um jeito de morte mesmo inventando a gesta de quem permite que a manhã seja uma noite sem festa
é que para ser tanto era preciso a modéstia de ser, mesmo um, um milhão de et ceteras jungido a todos os rios de correntezas modernas que não se dissessem águas mas memórias que se internam
é que no vão do juízo existe sempre a reticência de não se ter da liberdade a compleição tão exata de sempre se inventar livre apesar de ser escravo
pois é esse artifício que constrói a urdidura de uma liberdade úbiqua que se retrata na luta de quem sendo escravo sempre abole a escravatura seja pelas vias do interno seja pela via das ruas
é que ao homem descabe tudo que lhe construa como mecanismo automático de máquinas avulsas que teimam em fazê-lo inóquo na pauta do seu susto
é de tê-la assim absurda apesar de tão querida como se fora razão de adentrar nessa liça que teima em ser da paz apesar de tal notícia
não tinge a pele do peito nem sempre com a vontade de declarar-se rural no coração da cidade e de construir assim agrária um cenário em que nem cabe
é de se ter pelos caminhos em descompasso frequente como se fora um passo que não coubesse na gente pelo dorso dos calcanhares tenazes de nossa urgência
e se rompe encruzilhadas com a textura indigente de quem escolhe o melhor como se fora urgente é que lhe falta a parcimônia de dizer frequente
é de tê-la amiúde em um tempo inconsequente em que as horas nem contam como produto da gente antes se tem como lapsos algo assim tão pingente que cai pelos minutos em que o homem nem sente
mas é por desenha-la inversa a tudo aquilo que procura que ao homem é dada a controvérsia de ser em sendo criatura coisa urdida nos seus poros e na imensidão das luas não lhe cabe a fixidez da intransição dessas culpas que teimam em ser caminhos por onde o homem flutua como uma marcha desordenada que entorna assim pelas ruas
mas é de vê-la inteiriça nessa descompostura que lhe faz saber a astronauta mesmo ancorado em amarguras que lhe moem o peito nos dias dessa humana aventura
mas é de vê-la coerente nos vieses mais exatos que lhe põem em armaduras de guerras que nem desata como se terçasse as manhãs com as noites que constata
é que ao homem exalta aquilo que individido soma ao peso dos passos como se fora preciso levar o mundo nas costas de todos os seus indícios
mas é de vê-la maior em leitos constrangidos que nem sempre lhe dizem tudo que é preciso pois palavras sempre são apenas verbos intransitivos que batem no peito da gente e se desfazem no infinito.
130
Coplas narcísicas
no meio do desejo finjo que é medo a vontade de brincar com meu segredo
no meio do medo finjo que é segredo a clara escuridão do meu espelho
no meio do segredo finjo que é enredo a vontade de inventar um outro espelho
no meio do espelho meu segredo é em vão um desejo de ter medo de outros eus que já nem são
e cuspo esse tempo pelos vãos dos dedos como um retrato de mim em que me desabito e me perco
133
Da onírica vertente do combate
É que no transverso da vida assim como um arremate o sonho virou a divisa de se enfrentar o combate e avaliar as medidas de todos nossos impasses
pois no transcurso do sonho assim como uma verdade a gente enfeita a vida para lutar por liberdade.
162
De onde se apresenta Nicodemus Hazalaia, feitor de si mesmo, e as raízes do seu sonho
Nicodemus Hazalaia entrante aqui em romance diga assim pelos gestos o que lhe fez tão avante pra que tivesse num sonho as razões desse instante que espalhou sua razão nos ombros do levante?
e assim falou Nicodemus de Hazalaia sobrenome: “com a força da natureza e os pendores de homem quis o sonho de repente escrever-se em minha fronte como uma resposta da vida que tramita no horizonte e eu descendo do sono montei o sono apressado e caminhei pelos tempos como um incauto cavalo que galopasse a vida com a força dos seus saltos.”
mas que fazias no sono assim desembestado pra que pudesse a vida ter tamanho sobressalto?
“é que dormia apressado num tempo assim comprimido que descontava a madrugada dos tempos já vividos e inventava uma noite enviesada nos sentidos que via, ria e chorava nos tamanhos do infinito
e eu descendo as ladeiras de ruas que nem sentia eu vi os bairros de gente que não cobram serventia e vi favores que o tempo aos poucos subtraía de suas carnes incautas de suas mentes vazias como se fora usina de fabricar apatia tudo que lhes mandavam em ordens obedecidas era contrapor o tempo ao ombro magro da vida
e quando parei de repente nas entrelinhas da estrada meus passos todos quedaram no vão esquerdo da mata deram de me achar em Matirão da Jandaia
e fui assim resumido nos desvãos da consciência que havia chegado em terras - se num sonho a gente pensa – que viviam escondidas nos ombros da paciência
e quando me apresentei no primeiro arruado senti o corpo tremer com o peso do passado é que as horas tinham partido e tinham me abandonado enviesado num tempo de quem sonha acordado.”
mas por que tanta surpresa nesse chegar apressado que vinco da natureza você não tinha passado?
“os vincos da solidão de quem pensa compassado que a vida é só uma razão de não se estar apressado construindo um corrimão que serve quase de passo de quem sobe pela vida esmagado em desabraços
os vincos da maldade que socavam a natureza inventando os passados que o futuro não veja e espalhando no tempo umas horas de incerteza como se a dúvida coubesse naquilo que a enseja e fosse assim como um rio de escassa correnteza
o vinco da tristeza que acomoda e valida um tempo sem horas ao redor dessa vida como se fosse plural o singular com que lida
o vinco da vaidade que parece um desafio de quem sendo espelho reflete o desatino de inventar uma vontade que desdobrasse o destino e o estendesse na vida como toalha de linho
o vinco da ingratidão da incompleta atitude de replicar pela vida um tempo de desajuda embrulhado na rebelião de todas as amarguras como se gente fosse caminho de uma estrada obtusa.”
e como lhe pareceu a Matirão da Jandaia essa terra que um dia o sonho lhe jogou pela cara?
“primeiro vi-lhe as encostas dos arredores mais frugais chegando ia eu de repente no meio dos matagais quando me apareceu pela frente numa curva mais audaz a face dessa cidade que ainda hoje me traz
e era um desperdício eivado de concisão era como se fosse um infinito que coubesse na mão e que se esparramasse lento nas dobras do coração eu vi assim a vontade de conhecer mais de perto aquilo que sendo cidade parecia um desrespeito a toda a arquitetura que a gente traz pelo peito.”
mas o que tinha a Jandaia no teu sonho consumida de construções e de casas de vielas e avenidas?
ela as tinha nas gentes que se enrugavam na lida num tempo que se aninha nos bolsos das camisas como se fora caneta de escrever nossas vidas e essas ruas de gente amolgadas pela tristeza caminhavam seus passos como se tivessem a certeza de que o caminho caminha no inverso da natureza
mais que as taipas das casas fluía a imensidão das taipas inscritas nas faces do povo de Matirão era como se homens coubessem na mais profunda tristeza chorando prantos aguados pelos vãos da natureza.”
e por que em sonho vigente não havia a satisfação de inventar uma alegria no meio da multidão?
é que o sonho se ressente de toda e qualquer volição se o sujeito que lhe sente não a traz pela mãos como se fosse carneiro de um ego amanhecido construído nessas cidades em que todos são amigos
era difícil num sonho obter minha permissão de construir uma alegria nas dobras do coração é que mesmo adormecido nos vincos da ilusão sempre resta um pedaço da vida na nossa mão
e assim adentrei Matirão com o peito amolecido sentindo no sonho o gosto das parcimônias do infinito como quem mede o espaço com o tamanho dos gritos e era fácil ver os metros de todos os meus princípios estendidos pela cama como um lençol consentido
e como se dava esse fato de, assim adormecido, ainda ruminares as nesgas dos teus princípios?
“é que princípios convivem com qualquer rebelião são assim como indícios que sempre nos tem à mão e ficam até quando mortos ressuscitando a razão desconstruindo as verdades vividas na contramão
habitam o imo do peito com tanta sofreguidão que inventam nessas ruas a grande rebelião de quem atado à verdade nas dobras da confusão se deixa levar pela tarde com a certeza na mão
é assim como um infinito medido em cada homem é como se fosse o sorriso de quando se deixa a fome e tanto mais se declare e tanto menos consome das alegrias que a gente fabrica com nosso nome
é que princípios se ajeitam nas franjas da liberdade como se fossem sujeitos de cada humanidade que a gente carrega sem jeito nas dobras da vontade e que se firmam na luta nas costa da vaidade.
mas diga assim Nicodemus continue a sua lida quem colocou Matirão nos passos de sua vida?
um sonho arquitetado creio eu, sem medida, que me sonhou acordado nos sonos em que me via assim como uma tristeza plantada numa alegria que sai do peito da gente com a força da ventania e deixa pelo juízo um cheiro de rebeldia
então eu vi os viventes de Matirão da Jandaia no meu sonho, de repente, surgirem na sua lida como se fossem bonecos com cordas consentidas jogando todo seu tempo ao contrário de suas vidas
tinham nos olhos a faca de cortar as alegrias o peito fundo das mágoas que se arrecada cada dia como se fosse colheita sem nenhuma serventia servindo só pra marcar as datas dessa agonia
e desses viventes todos arrumados nessa agonia eu pude ver as correntezas de rios que nem havia era como se a cidade inteira nos palmos de suas mãos caminhasse o sofrimento em passos de procissão e no sonho nem havia o contorno de sua fome o sono, às vezes, engana aquilo que se consome como se sonhar fosse resposta às querenças do estômago tramitando o homem pela noite com a parcimônia no lombo.
e como foi a jornada assim que tivestes prumo de sair do sono pro sonho pelas encostas do mundo?
“assim que caminhei da cama para o espaço dei-me à rebelião de me achar compensado em ver as dores do mundo como se fossem enfado que a gente cansa de ver mas se sente conformado
mas de repente o sonho começou a vigiar-me como se fosse sentinela daquilo que eu pensasse e pos na minha cabeça um quase exato vexame de ver que em Matirão a paciência desandam
e parti pelas ruas indagando a cada homem o que os fazia entender os quilos todos da fome por que não inventavam todos uma vida mais robusta que fosse esquina de tudo das ruas todas da luta?
e a maioria dos viventes cansados das disputas afirmavam que a sua vida era apenas uma desculpa que o divino arranjava pra botar nas suas culpas como se fosse penitência por toda e qualquer luta
falavam assim de manso como incautas andaduras elipsando as palavras no meio de suas juras é que o verbo empaca no jeito exato dos fatos é assim como uma fala que saísse no retrato
diz que a vida assim nas costas desses viventes teimou em ser um sim com todos os nãos reticentes como se fosse uma festa das tristezas da gente
é que nos ombros do tempo as horas nem perceberam que a vida tinha passado como se não fosse tê-lo perdida em descaminhos nas curvas do desmazelo
fugiu assim num rompante das amarguras do dia e inventou pelas noites uma estrita sinergia com as conjunturas do homem cujos desejos nem via
afogou-se intransigente nas funduras de si mesmo e nadou todos os mares em que cabiam seus medos assim como uma barcaça que inventasse seus ventos
e houve por bem que fazia como todo este destempero as coisas que sua infância não construíra por medo de explodir as certezas nas dúvidas que ia tendo
e mediu todos os sonhos numa estranha dosimetria com os metros da consciência que seu desejo permitia juntando todos os passos nos descaminhos do dia
e veio tangendo a vida na coleira da vontade construindo cada veia nas vias dessa verdade como se a estrada coubesse em todos os passos da cidade
e fez-se assim o indício de que tudo a que se presta depende de como engendra a vida que se completa quando o trabalho de todos muito mais que uma gesta é usufruto de um e muitos et ceteras
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das inflorescências e tais
minha luz é só um recado que a vida me dá quando me invado
vivê-la é o exercício de tangê-la pelo mundo como fora bandeira hasteada em tudo
adiar sua chama nas encruzilhadas é afogar as fogueiras que se tem na alma.
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À guisa de prólogo e admoestações acerca da gesta humana e sua cristalina história
dar-se-á como infanta a vida que se leva ao início de uma gesta que a todos encerra assim como um conto que se esqueceu na memória de todos os contrapontos à contraluz da história
dar-se-á como querência a mínima contrafação de quem se isenta em medo dos gostos da multidão é que o amor é trejeito de tudo que a vida faz é assim como um respeito àquilo que a gente traz
dar-se-á como enredo que a nuvem nem dizia é que sobrava do tempo dos ventos que trazia o alvoroço exato de cada dia as horas nem se contavam nos minutos que seguia aos homens apenas restava viver sua agonia
dar-se-á como bruta a rosa infante da vida que teima em ser desregrada apesar de tão contida pois que pulula no peito como uma rosa amarga que finge ser de sorrisos o drama que arremata
e o tempero da vida era um tricô complicado o tempo fazia fila com espaços desgarrados como se fosse um futuro a inventar um passado
é que jogada no tempo no descampado do mundo sua lógica é o enredo de um teatro profundo que joga a cena da vida que se aninha nas calçadas como se a alma do homem fosse um pedaço do nada
é que caminho avulso aparentemente à vontade a vida teima em ficar ancorada pelas tardes em que os dias dos homens apesar das verdades espancam a eficácia de quem vive a liberdade
e, assim, presa ao espaço de um universo caduco joga-se pelos peitos como se fosse um discurso em que as palavras são verbos do mais estranho uso servem apenas ao teatro dos paradigmas do lucro.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.