AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

De sonhos como sentido

futuros
,
engavetados na memória,
sonhos dizem apenas

o óbvio:
 sonhos
são apenas
 os tempos
do que eu posso.
80

Das infantes vidas em rumo aberto

a vida de Severino

tinha uns nós engraçados

quanto mais lhe apertava a angústia
mais lhe afrouxava a gravata

é certo que não tinha Londres

para remoer suas tristezas

ao som intransponível

e fluido das metrópoles

mas, no fundo de si,

guardava uma noite inteira

que bem poderia caber em Londres
com um quê de brasileira.

A alma que levava

presa no vão do cérebro

era dessas comuns

que pastam a Europa

e se empanturram da América.

Ah se lhe coubera

um futuro exato

dentro dos pés

no meio dos passos!

Mas o futuro

sorria complexo

travoso e irremediável

o gosto da liberdade.

Os cachos da mulher

que seu amor vestia

cheiravam a rosa

embrulhada nos abraços

corroendo o dia

mas o infinito

teimava em não lhe vir à mão

para que o despejasse

incólume e transparente

sobre seu corpo de flor

ou de mulher e gente.

Dos olhos de seus irmãos

como um concreto estranho
pendiam grossas lágrimas

que a custo desabavam

e se partiam amarelecidas

na espinha bruta das calçadas.
Tinha uns nós engraçados

a vida de Severino

quanto mais vivia o homem
queria ser menino

e empinar os sonhos

como uma pipa urgente

e não tão murchos

como os olhos do seu povo
queria coser os risos

numa imensa colcha

e deitá-la nas costas

da gente brasileira.

Queria ter um dia guardado
em cada bolso da camisa

pra jogá-los no meio das noites
que se teimam infinitas.

De cada nó

partia uma ponta do corpo

e eram nós desatáveis

apesar de muito esforço

tinha a largura tanta

do gosto da injustiça

costurado ao chão do mundo
como uma telúrica intriga.
68

De gentes e carimbos

o funcionário

lança o despacho

como quem subscreve

um desabraço

nada do que é vida

lhe constata

apenas uma grave inapetência
e algum cansaço
 
o funcionário

nas entrelinhas

desmede a vida e a desídia
como se o carimbo fosse o leito
de todas as notícias

e urge em trânsito

pelos meandros do papel

e nos verbos de um chefe

de militares decibéis
 
o funcionário

assina sua sentença
nada do que é a vida
lhe convém
 
o funcionário

ao indicar-se tácito

alinha os carimbos de sua vida
em todos os seus atos

como se pudesse inventar

o trânsito de todos os seus passos
é que nada lhe sobra como viés
do que não fosse inexato:
palavras não serão verdadeiras
quando impressas em sobressalto
 
o funcionário lida com o papel
com a mesma solicitude

com que desmancha os borrões
de suas atitudes
o leito da sua lida

é de tamanha completude

que chega a parecer uma saída
das portas todas em que urge
 
o funcionário
tem da ordem a compreensão
de que o mundo se ordena
em todos os nãos

nada do que seja seu sim
pode lhe estar à mão
 
o funcionário

tem da lei

a exata compostura

de um verbo que não transita
no meio de suas ruas

é que lhe falta a textura

das grandes avenidas

com que os chefes alinham

o fulgor de suas vidas
 
II
 
o carimbo leva o funcionário

com os freios todos da vida

como se verbos fossem cadeias
que apreendessem adjetivos

que indicassem o rumo das gentes
ou que desfizessem os indícios
de que a liberdade é o destino
de todos os exercícios
 
o carimbo trunca o funcionário
na sua veia mais latente

que lhe joga contra a sentença
de tudo que não se consente
como se a vontade do homem
fosse matéria incoerente
 
é que lhe ordena a ordem
assim estabelecida

que um carimbo vale mais
que qualquer de suas vitimas
pois subentende a partição
das coisas todas da vida
 
o carimbo assim aposto

é um latifúndio resumido

dos verbos todos que o chefe
traz como subentendidos

e que lhe cobram os dirigentes
em todos os seus sentidos
 
III
 
o ente público

não tem veias

o sangue que lhe promove
é a certeza
de que os lucros serão privados
em sua toda inteireza
 
o ente público

por dentro da lei

é dito como se fora

a social sensatez

que vige em cada humano
na sua feição mais lúdica
com ares de particular

na sua razão mais pública
 
o ente público

é tão desnaturado

que um carimbo, às vezes,
lhe trai a incerteza

de que nunca foi coletivo
apesar da natureza
 
IV
 
a assinatura

posta no carimbo
comprova a razão

de todos os destinos
nada do que seja verbo
é tão cristalino
 
e mesmo quando não aposto
em sua forma mais crua

o carimbo informatizado

tem a mesma compostura
pois quando se assina a razão
se assassina a textura
de um carimbo tão avançado
apesar da escravatura
 
cada verbo do carimbo

é a contradição

de quem inverte a vida

com a mesma satisfação
com que se contém a ordem
nas vias todas do não
 
V
 
e assim o funcionário

nessa lida incoerente
destrava cada carimbo

e se trava em cada ente

em mostrar que toda ordem
quando posta adredemente
desvincula a vida da vida
e rói o sonho da gente
116

De ações e direções

Empírico,

nada é tão lúdico
que me faça viver
a qualquer custo
 
é que viver

mais que um discurso

é a travessia de um tempo
a longo curso
 
é construção

de uma praça coletiva
guardada a proporção

dos singulares que se viva
 
empírico,

nada é tão lógico

que me faça viver

fora dos ossos

viver é apenas a função
dos verbos que eu possa.
131

De terras de onde vier, quem virá?

das terras de onde não venho
nem o medo me acontece
pois tudo que me é outro
ainda assim me parece
como as luas que invento

e que se põem no meu tempo
 
das terras de onde não venho
melhor deixar-me alheio

que navegar nesse vau

de rios que me concedo
em que a correnteza nem teima
em lavar-me do meu medo
 
das terras de onde não venho
a poesia não medra

como o mel inconsumível

que brota de toda pedra
e que descompassa o coração
com a insistência da guerra
 
das terras de onde não venho
melhor fincar-se a bandeira
no espaço da consciência

em que drapeja a centelha
do tanto que seja o sonho
de tudo que não se queira
 
das terras de onde não venho
o outro me aconselha

a ver em tudo só terra

de uma mesma bandeira
que escorrega pela alma
e o coração incendeia
 
das terras de onde não venho
proceda meu coração

com a certeza do rumo

de um país temporão
que teima em ser usina
de fabricar solidão
 
das terras de onde não venho
tenha-se enfim a certeza

de que nem sempre me é estranho
o descaso da natureza

que meu peito teima em conceber
apesar de uma vã incerteza
 
II
 
outro

a terra

o bruto

grito e guerra

de tudo que não sou
e pedra
 
outro

eu
 incorre
e torna-se em mim
e morre
como se não estranhas fossem
a posse e a morte
 
outro

sou eu

e como eu divirjo
da consciência
que não outro
nem duvido
 
outro

sou eu

pelas calçadas

das ruas

em que me abraço
 
outro

sou eu

pelos destinos

em que nem caibo
 
outro

sou eu

pelo desuso
das almas
 
outro

sou eu

a tanto custo
pelo que
 sou eu

e luto.
 
III
 
das terras de onde venho
invento a compreensão

que outras terras dizem de todos
e tão assim servirão
que nas dobras do futuro
de uns e outros serão
 
as terras de onde venho
sempre em mim caberão
apesar de sobrarem fartas
na simples sem razão
de ser uma pátria só
quando todas já nem são
 
pois a pátria do homem
é sempre o coletivo

não a terra que lhe cabe
como espaço restrito
é antes a compreensão
de que as pátrias acabam
e só indicam a verdade
de que apenas habitam, no homem,
a carteira de identidade.
123

De lutas e dizeres

estava dito:

tudo que palavra

me exercita

deixa um gosto de luta
pela vida
 
estava dito:

tudo que luta

me instiga

a deixar o coração
pela avenida.
 
é que ao homem
sempre se dá

a possibilidade da vida.
68

Desmedida II

não é de ser absoluta

a parte que se tenha infinita

antes é de tê-la provisória
coincidente ao modo de uma luta
travada sempre entre o um e o todo
e tudo que equilibra essa disputa
 
não é de ser também restrita

a parte que se tenha assim medida
antes é de tê-la infinita

avara, porque inconseqüente,

no rol de suas desmedidas.
146

Das impresenças do mundo

não me iludo
a saudade é apenas
um resto de tudo
nada do que é você
permanece ausente
do mundo
108

Descaminho

a ponte estava lá

entre mim e a verdade
quanto menos pudesse

mas havia a possibilidade
não que a houvesse definitiva
como um estatuto

que contivesse a saída

mas um tênue indício

de que a vida pode, às vezes,
ser vivida ex oficio
 
a ponte estava lá
dentro de mim
inconstruída

como se fosse um caminho
de inventar a vida
 
a ponte estava lá

e, no entanto,
distraída
permanecia assim

como uma lembrança esquecida.
120

De viver

a vida

em vão

é intifada do coração
 
e é difícil sê-la

assim à pulso

e dar-se jeito melhor
de mantê-la em uso
 
a vida

é rio de nado duvidoso
nas braçadas gerais
desse meu povo
 
e é tardio vê-la

não obstante

o que desregra o modo
de sê-la avante
 
a vida 
é piracema

de exercício adrede

e que não cabe numa lógica
onde não seja breve
 
e é não se ter tempo

de consumi-la vasta
guardada a desproporção
porquanto tê-la baste
 
a vida

é reticência

da grave compleição
da paciência
 
e é difícil tê-la
individida

e levá-la plena

nos bolsos da camisa
 
melhor é tê-la no peito
quase completa
numa certidão exarada
em muitos et ceteras
 
a vida

é navio e gaivota
nas âncoras gerais
em que aporta
 
e é constante vê-la

em voo conjugado

com os sonhos que se traz
em grandes cachos
 
a vida

é absurda

onde não exercê-la
em desculpas
 
e é trânsito

de rara urdidura

nas esquinas que o peito
em vão atura
 
a vida

é genérica

mesmo que seja única
sua matéria
 
e é de dar-se ao homem
na proporção exata

de toda sua fome.
144

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado