A máquina atiça um jeito monótono de mostrar a vida e o mundo no cartório dos trilhos sonha velocidades nos meus risos
o trem de mim na sua lógica itinerante inventa estações por onde eu ande
como não amar tudo que me tange?
71
de águas e almas e outros tantos
mares são planícies de líquida andadura não se prestam aos passos e à rapidez dessas ruas antes caminham lentos nas rédeas desses seus barcos resguardada a violência de todos seus descompassos é como se fora uma paz lavada nesses abraços que a água dá nos viventes como um recado do nada e nas velas que o vento penteia como bandeiras desatadas tremulam todas as ondas da condição dessas almas.
139
discurso em andante compasso
haverá manhãs em que meu pai me faltará e eu, jogando à vida, inventarei as tardes em que ele esteja
haverá manhãs em que me faltarei e caminharei pelas noites como um falido vagalume
haverá manhãs em que as manhãs faltarão e os homens caminharão sem tempo pelos sovacos do mundo
haverá espaços em que as noites faltarão e a estrela da manhã adormecerá encoberta nas dobras do teu vestido de tule
haverá corações engordurados e a estranha sensação de vãos pecados
haverá razões desencontradas e a urgente razão dos astronautas
haverá senões em cada face e haverá um verbo que me baste
haverá um caos em cada esforço e o exato ângulo do peito em que me morro
haverá vontades que não se aprestem a remoer os fatos através dos séculos
haverá soluções de problemas não postos e uma leve fímbria de tarde em cada nesga de remorso
haverá manhãs em que meu pai me faltará e eu amolgarei os tempos em que ele estivesse
haverá desusos frequentemente e a leve compreensão do que se sente
haverá multidões que se farão sozinhas e canções de mil invernos nas esquinas dos dias
102
De Olinda em carnaval de tudo
até parece que o frevo inventando a emoção escreve assim pelas pernas um infinito no chão
e assim descendo a Ribeira, ladeiras no coração, Olinda toda me chama em cada ângulo de casa em cada palma de mão
as pernas fogem pro peito ensaiam a rebelião dos sons que o ouvido engole com a exata compreensão de que olinda não é cidade é apenas uma saudade misturada com a razão
e todos pulam seus jeitos com a mesma sofreguidão com que o sol esperneia nas faces de uma canção
até parece que o frevo espreguiçando-se em vão adormece já sonhando as coisas da ilusão
e assim fingindo ser tarde a noite mal principia e monta toda a manhã que meu peito consentia
e a hora nem se apercebe de que o tempo é relativo e esconde seus minutos nas curvas dos meus sentidos
Olinda é quase uma guerra de generais consentidos soldados que sejam tantos nas marcas de seus sorrisos
até parece que o frevo despenca já lá do alto e cai no peito da povo com a mesma simplicidade com que os neurônios inventam as máscaras em que se cabe
Olinda assim já é tarde pra essas coisas de cidade antes é um grito tão tanto barganha da liberdade
e ainda assim o perigo de esquecer a própria vida e nem pensar que amanhã atravessado na avenida o homem passeará sua dor nos frevos que lhe consintam
II
Olinda então já chorava Olinda enfim já sorria e sem caber no meu peito em carnaval se explodia como uma nave desfeita em mares que eu nem sabia
o frevo assim parecia uma alegre matemática que dividia todo meu medo nas contas que eu não usava
e urdia nos cabelos uma ventania inexata que deslocava meus sonhos no rumo infante da praça
Olinda então consentia arrumar esses viventes num jeito de alegria a que às vezes se consente sem perceber que a vida é muita menos verdade e muito mais de repente
o frevo descendo a praça é quase uma liberdade é um jeito desajeitado de inventar a cidade na ponta palma dos pés na pronta face da tarde
o frevo medra solene nos ombros na multidão peso que nem seja tanto tomado em comparação aos pesos tantos da vida que se carrega em vão
III
a nota clara do frevo não é música, é uso, apenas publica o povo na pauta do seu susto
o frevo não é tudo mas abarca um jeito de inteiro no prazer incontrolável de se dizer brasileiro
cai pela face do povo assim misturado à tristeza que desce rindo nas pernas de quem lhe cobra a certeza o bloco é um sanguessuga que ferve o peito de Olinda e invade suas carnes com a sanha de uma sina
IV
Olinda, morena, moreno, senzala da liberdade revolves no passo do frevo um futuro que nem se sabe
e denuncias no canto das pedras em que te cabes os infinitos que jogas nos ombros de tuas tardes
Olinda sabe a desejo como uma força que invade a franja incauta do peito de quem do frevo nem há de
e a Sé repousa sem jeito numa contrição desmedida que arruma o canto da gente no frevo exato da vida
coqueiros balançam a tarde numa preguiça infinita e ventam todos os barcos com os frevos à deriva
como uma tristeza escondida, Olinda, nua assim na alegria, drapeja bandeiras tantas que nem sabe que sabia
Olinda, assim bailarina de palcos e de coxias joga o frevo no peito com a mesma melancolia com que arrasta o sonho em passos que não havia e nem se importa que a vida contivesse o que se sentia e que explodisse na sem razão do que cada corpo pedia
Olinda, assim transeunte de ruas que não devia pesava em vão pelos passos dos caminhos da alegria ornada em mágoas e mágicas de intransitiva serventia e completava as curvas da dança com a certeza da esperança e um certo quê de agonia
Olinda, assim tão seu povo cerzida às costas do frevo inventa um carnaval dentro de todo o medo e nem sobra nas ladeiras qualquer ângulo mais exato em que não se visse da vida uma vida em sobressalto
pulando assim na Ribeira nos quatro cantos de tudo Olinda cria a razão um sentimento profundo e constrói nas suas mãos nas pernas do coração o sentimento e o rumo de montar uma esperança nos descampados do mundo
Olinda inventa um jeito de nave em cosmos que nem habita e trai um jeito de infinda apesar de tão contida
Olinda contraria a tristeza com a mesma euforia com que o mar lhe inventa pelos navios dos dias
Olinda é quase um tempo é continente e conteúdo e mesmo assim relativa deixa-se estar absoluta o coração de quem lhe vê no frevo intenso da luta é somente um continente da ilha de quem lhe usa um jeito incauto de ser nada mesmo sabendo tudo
destempo e minuto, hora desapercebida, que flui no vão do cérebro nos sentidos pela avenida
e se vê Olinda na textura do tato na carência dos dedos na sola dos meus sapatos na timidez do medo na intrepidez do enredo que a gente ensaia sem palco
e tem-se assim Olinda enquanto te despossuem e ao mesmo tempo que te fazem desfazem tanto teu uso num carnaval diferente que trava o peito da gente num frevo que nem se escuta
descendo Olinda e ladeira descamba a cidade avulsa presa de passos e pesos prenha de segredos e sustos
no Carmo chego sem medo Olinda ainda é alegre tarde que já é cedo noite que é quase um dia num tempo que é só começo
Olinda flutua na mansidão dessas águas que se dizem suor e sangue ou mesmo baldias lágrimas choradas pelo vão riso como senões imatemáticos
Olinda não se conta pelas casas que possua mas pelo jeito que engendra no íntimo de suas ruas
Olinda não descansa de ser vária e avulsa e pesa os tempos que alinha na cara de todos os sustos
cidade nem se apercebe que a história continua entrançada em suas pedras nos passos de quem lhe usa morena, nem se acalma com a graça de seus viventes e se deixa desesquecida no coração de quem sente
V
Olinda não é porto é parto e nem é perto, quando em barco se escreve no mar como um salto e nem é longe mesmo ao largo quando constrange a praia com jeito de ancoradouro de tudo que é exato
Olinda não é tanta é toda e nem é limitada pois existe um jeito de Olinda nos palmos da madrugada em todo raio de lua que no seu colo deságua
VI
nos Bultrins, quem sabe? não se conte a alegria que se desce assim do Amparo rompendo o ventre do dia pois se lhe ajeita um modo de viver a serventia que tem o cartório geral dos sentimentos que alinha
nos Bultrins, quem sabe? permaneça uma agonia um tanto ou quê de provisória que seus viventes presenciam mas que traz uma nesga de riso nas dobras urgentes do pranto que escorre assim pelas ruas com um jeito intenso de canto
nos Bultrins, a fantasia é um sentimento inato que recolhe no coração a simplicidade do fato de que o povo leva no peito a a paciência e o trato da força bruta das pedras que lhe põem pelos sapatos
Nos Bultrins, o tempo nem se apercebe que bebe o peito do povo numa proporção imatura que faz um segundo ser tanto no riso de quem lhe usa
nos Bultrins, constantemente, a vida se planta sem sementes e sem orgulho o povo se afirma no seu pulo
nos Bultrins há um cheiro de cidade que se pretende desurbana campo que nem lhe cabe pois trai um gesto cosmopolita na sua ruralidade fazenda de homens e meninos trânsito da felicidade
nos Bultrins a alegria se anuncia nas letras do estandarte que balança a vida do povo numa tal intensidade que chega a querer ser tanto apesar do pouco que lhe cabe
Nos Bultrins, há reis que nem sabem dos reinos que ainda sentem embutidos nas camisas como uma máquina urgente que pulsa o tempo e o homem com a força do presente
nos Bultrins, quem sabe? ainda existe a compreensão da liberdade
VII
no Amparo tudo desce o tempo e a cidade e a gente que lhe preenche as veias lúdicas de pedra que tapetes são do tempo de quem ainda há de
no Amparo a alegria se permite habitar cada garganta como um frevo ou uma frase que contivesse palavras futuros e lembranças
e nessa mistura de verbos e sentimentos o amparo se permite afirmar o que se segue: o Amparo é um estado de insensatez da matéria mas é dessa sem razão que contém a simetria dos gritos que a vida engendra no cartório da alegria
no Amparo, havido o carnaval, o tempo não se conta como um coisa precisa é uma fração que se traz no bolso da camisa e que se espalha na rua à medida que o frevo atua e espalha o resto da vida.
no Amparo, finalmente, nunca se acaba uma alegria Impunemente pois o riso é interno ao frevo que se sente.
VIII
Ouro Preto que lhe diga os versos que desalinha na pauta ingente dessas ruas por que o povo caminha. porque de ser desmedido caiba-lhe a contrafação de remar contra a corrente nos rios do coração
Ouro Preto nem se ilude com a textura do som um frevo que inventa um povo com um jeito de ser de novo o inventor da manhã
Ouro Preto nem se apercebe nas manhãs de carnaval que a vida tornou-se um palco de um teatro informal que joga os medos da vida no meio da avenida nos passos de um frevo tal
que desmente até a cidade naquilo que não contém pois traz uma felicidade que não pertence a ninguém pertence ao passo do frevo e àquilo que lhe convém.
IX
Até parece que o frevo tricotando a solidão inventa assim pelas pernas as urgências da multidão.
118
das vertentes democráticas e outros desígnios
ao homem dê-se a impressão da controvérsia do fato e da inconstância do não
ao homem dê-se a completude de que se subtraia cada atitude
ao homem dê-se a ilusão de que habita a si em todos os desvãos
ao homem dê-se o comprimento das léguas todas de si e da andadura dos ventos
ao homem dê-se a contradição de parecer-se um sim mesmo não
ao homem dê-se o descaso de perder-se pelo tempo em cada passo
ao homem dê-se a andadura de um bólide avesso a desventuras
ao homem dê-se a constância de parecer-se líquido em cada esperança
ao homem dê-se o fim de construir todos os inícios em todos os confins e que a tanto se diga mais pacato tanto mais medre a paz em sobressaltos ainda que sobrem passos nas solas dos sapatos
134
Das larguras do sonho e seus detalhes
o sonho é sempre coletivo tudo que lhe tange é infinito e, mesmo particular, dá-se ao desplante de parecer viés de todos horizontes é que lhe sobra uma nesga de matéria itinerante que conjuga todos os passos de quem esteja sonhante.
104
Das íntimas refregas
a vida é um armistício entre o que faço e o que digo
o verbo e o braço apenas consolidam esta dimensão dos meus indícios
a guerra é só um descompasso do pulsar do meu ofício
150
De olhos e tempos em trânsito
olhar o tempo sempre tange tudo que é de nós e que está longe é que cabe ao homem olhar com olhos de hoje o que fora ontem e descontruir os futuros de tudo que lhe constrange
145
de tempos e tantos
assim que a vida invente tudo que de novo se procure nunca se tenha como isento aquilo que o tempo inaugura é que assim talvez a sintonia do que tange um futuro prometido possa restar assim como um passado que não se derramou em vão pelos sentidos.
100
Das intimações da alegria e seus mandamentos
fica decidido: nada do que é humano é menor que um sorriso.
antes é tanto em tamanho e gesta como cachoeira itinerante dos rios a que se empresta.
fica decidido: nada do que é tanto é maior que cada ofício
é que lhe tange na urdidura do jeito um construir-se do homem na condição de sujeito
fica decidido: tudo que é do homem vale menos que seu riso
é que lhe sobra a razão de ser assim coletivo como se fora de todos a construção do sorriso
fica decidido: tudo que é o outro é a condição do meu ofício.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.