AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
314 641 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

Dissertação pronominal à liberdade

não vá de hoje a liberdade

como pássara em vão do desatino
construir andaimes pela alma
como se fora posta em desalinho
 
mas é de tê-la assim constante
nessa latência de fato do destino
que nunca se arvora em substância
sem que para tanto flua o raciocínio
 
pois de engenho tal é tanto feita

que pulsa escondida em cada veia

e nunca está à mão quando se apresta
em ser fibra de cada descaminho
 
é preciso pois compreendê-la
na latitude exata da manhã

e resumi-la à fração do peito
adequado à pulso em cada vão
 
que se mais não tem que vê-la

é cometê-la assim impunemente
e consumi-la quase tanta

como se fora quase uma razão
consumida em adrede esperança
 
e é querê-la vasta
quando mínima

e é querê-la justa
quando indigna
 
e é de querê-la aos sábados
quando em terças

e é querê-la manhã

quando adormeça
 
que se mais não tem que havê-la
é esperança-la nas esquinas

e construir-lhe andaime vasto
que lhe caiba em todo desatino
e que se queira assim tão franca

com esse jeito infante de estrada

por onde caminham todos os homens
construindo a infinita madrugada.
 
144

do desejo e seus circunlóquios

o desejo

não é um jeito
de querer

o que não devo
 
o desejo

é apenas caminho
de espantar o mêdo
 
o desejo

não é um jeito
de desdizer

o que não creio
 
o desejo

é transeunte

de muitos mares
nas avenidas

e tudo que tange
meus olhares
 
o desejo

não transige

com a parcimônia
do que se vive
 
o desejo, enfim,

é quase um sobressalto

de quem mergulha humano
na certeza do que acha.
125

Do futuro e suas medições

meu horizonte

é do meu tamanho

tudo que lhe mede

são as réguas do meu sonho.
 
nada lhe traz assim

tão perdulário e conciso
quanto as vezes em que mede
todos meus infinitos
 
meu horizonte quase sempre
são os rumos que consigo.
113

Dizeres a Ângela Maria

ainda assim, Abelim

terás do tempo

a compreensão verbal

de quem ousa gritar o mundo
pelos dentes

porque se cantas

não admites

que anjos tramitam pela garganta
nas notas em que insistes

e é de vê-los insones

nos bemóis mais destacados
 inventando dizeres

cheios de pecados
 
quando cantas

nem adivinhas

que teu povo em tua voz caminha

 
como uma canção que tenta
construir um canto

de tudo que se lamenta.
121

do mister da vida

diz que era preciso

tecer um dia fecundo

e boiar frequente em cada abraço
e entranhar-se nas coisas

e perder-se no mundo

diz que era preciso

truncar cada soluço

e beber os sais e as lágrimas

e espantar da face cada susto

diz que era preciso

engravidar a noite

e parir-se de lua

e beber os beijos que pulam
perdidos em cada rua

diz que era preciso

amanhar o corpo

e trançar no peito a saudade

e engolir no vão dos sentimentos
a textura bruta da vontade

diz que era preciso

empalmar o horizonte

com a nesga infinita

do olhar da tarde

diz que era preciso

consumir o dia

e dividir a boca

da largura da alegria
diz que era preciso

enfunar a vela dos cabelos

e partir-se do mar

e fugir-se do mêdo

diz que era preciso

amansar a incoerência

e afagar a vida

com a solicitude exata

com que se constrói a consciência
diz que era preciso

empregar o mundo

na placidez inconstante

dos sentidos

diz que era preciso

consumir o sonho

com a sofreguidão e a tática

dos grandes oceanos
diz que era preciso
nutrir-se do verso

e se achar palavra

e se nutrir do verbo

diz que era preciso

rasgar-se o peito

nos arames humanos

da grande incompreensão
diz que era preciso
amar-se o irmão

com a força do abraço

e o jeito do coração

diz que era preciso
suportar os fardos

e engolir as culpas

e inventar pecados
 
diz que era preciso
batalhar o pão

e compartir a fome
e fartar-se de não;
diz que era preciso
conclamar o povo

e fundir-se na praça
e fazer-se novo;
 
diz que era preciso, enfim
julgar o carrossel da vida
com a exatidão da anatomia
de quem se joga no mundo
com a força da alegria.
129

do exercício da ida

a morte é nada

de repente

e a um tempo é tudo 
quando se deixa de si 
como ausente

é como construir a ponte 
entre um futuro

que nem se sente

e um passado que pulou 
no coração da gente.
 
morrer é um viver 
de tempo diferente.
 

134

ditos da paisagem

                     A Lane Pordeus 
 
 
ao te dares infinita

alonjas a eternidade

como quem se inventa com o ilimite
de consumir-se tarde
 
é que te cabe um espaço

de um tempo inconsumido
em que brincas com a vida
na proporção exata de todos teus sentidos
97

De gestos pátrios e efemérides outras

a emoção preside
tudo quanto a vida
diz em riste
 
e não se arvora em calma
mesmo o coração tranquilo
por merecer-se norma

de profundo desatino
 
que não se diz dos homens
quando em verbo

que não se quer das coisas
quando em verso
 
pois parecer-se a tal

talvez convenha

a quem em verso tenha n'alma
a compleição de tal problema
 
da pátria
 resta apenas

um vago bemol de hino

e uma nesga de bandeira

que verdeamarelece o desatino
 
o raciocínio não medra
quando em bruta fome aporta
a sofreguidão das pedras
e a palidez das portas

 
e vige o latente

com definitiva pose

como se fora definitivo

o que não houve
 
 
e rói o peito da pátria

a pan-nacional sentença
de que cada nação
 é instante

da indefinitiva
 hora da consciência
 
depende o coração

de brasileiras fomes

que pulsam a inconsciência

e desconstroem o homem
 
a pátria é a ciência
de que o mundo
 é um só mundo
mesmo que no peito de cada
seja quase tudo
 
e o  homem

nem sentia
que a pátria se restringe
ao que em si vigia
 
desculpem-me os filhos
mas nem se sabia

que compreender a pátria
assim doía
 
minha pátria viralata

quase não se diz na prática
porque tê-la como amada
é quase uma fração desordenada

em que o homem 
é numerador
e denominador de nada.
130

Das razões da caminhada

que aquilo que alinhavo pela vida

na extensão inteira do seu curso
possa dizer exatamente tanto
quanto de verbo tenha meu discurso
 
pois por te- la assim sob medida
em todos os seus vãos desenfreada
admita a hipótese de morrê-la

com a certeza de todas as estradas
 
é que o vão de te-la assim disposta
é um terçar de armas diuturno

em que o braço quase sempre tenta
atravessar o vão do seu discurso
 
e a meta de vivê-la fartamente

nos contornos mais simples da vontade
é quase um exercício dos abraços

nas avenidas do país que se abrace
 
e assim caminhem verbo e vida
pelas estradas grávidas do povo
construindo o futuro que vigia

a plenitude de tudo que é novo.
92

Da saudade como futuro

Ah! saudade
que prende o tempo no peito
e joga a manhã pelo mundo
que brinca nos olhos da vida
que salta nos ombros de tudo

Ah! saudade
um dia será a esperança
de quem espera a verdade
por certo será no futuro
o canto da liberdade

Ah! saudade
um dia virá como paz
vestida assim na cidade
perdida nos sonhos da gente
vivida nas ruas da tarde.
116

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado