Era de ser pedreiro seu destino mais urgente e alinhar pedras e sonhos no seu mister de vivente
era de ser partido seu grito mais pungente e engolir os soluços sua tarefa latente
era de ser preciso uma fome mais estreita pra consumir outra fome da morte que lhe isenta
era de ser tão fecundo no exercício das fêmeas pra vingar em outras carnes o futuro que lhe convenha
era de ser maltratado pelas rodas do engenho pra descobrir no seu braço melhor mister e empenho
era de ser emudecido pelo coice do chicote pra descobrir a largura do que a palavra pode
era de ser humilhado nos desvãos de cada dia pra pescar no fundo de si o que seja a alegria
era de ser entristecido pela pouquidão do riso que invertia seu canto no sentido do martírio
era de ser sempre magro habeas corpus da fome gravado em poucas costelas e num minguado nome
era de ser explorado em cada palmo da vida somando os metros de morte chorando o peso dos quilos
era de ser comprimido o seu trabalho tão largo que até do suor se tire algum lucro ou trocado
era de ver-se infinito embora tão limitado no revés do ser ofício na produção encantado
era de ver-se gritando no coice da passeata enrolado em cada bandeira numa intimidade inata
era de ver-se em grades molde brutal do desfuturo pungida a cada do povo escrita em todos os muros
era de ver-se aos seus cerzidos nos vãos das salas traçando o gosto da vida rompendo a face da alma
121
Das militares reservas da continência
O soldado em posição de sentido nem se apercebe das continências da vida
atiça-lhe o patriotismo o sistema em descanso e uma falsa impressão de conjunção de planos
a farda é só uma bandeira das aparências e dos enganos.
146
Paisagem
A estrela pousada no ombro da tarde tinha a mesma textura do tempo descontrolada em vão na sua idade e tanto mais brilhasse era mais singela afagando o dorso do navio insone que escrevia horizontes na arcada geral da minha fome
e porque fosse tanta era assim tão limitada que cabia inteira no meu olho e me perdia pela alma
era estrela envolvida com o infinito com a mesma desfaçatez e a restrição de um grito
e eu queria a estrela para joga-la no bolso e toca-la, distraidamente, nas tardes do meu desconforto.
104
Das lagoas dos viventes
Que esse espelho de águas pareça assim a vertente dos rios que a gente nada atravessando a gente.
135
Verbo intimorato
Palavras – quem as digam? Com a certeza do sempre e a inconstância da vida. Quem as oprimam, para que assim, constrangidas, possam chegar aos homens com a força da vida? Quem as arrumem no vão do armário geral das avenidas? Quem as construam em praças, as de pedra e as da lida? Quem as coincidam com a esperteza do tempo e a informalidade dos bolsos das camisas? Palavras sempre serão tantas, Aquelas não ditas e as ditas apenas na garganta que nem chegam a molhar as ruas em que se dança. É certo que as temos na potencialidade dos neurônios no exímio processo das sinapses e na ingênua fatuidade dos enganos mas, quase sempre, as soltamos com a força de uma catarata que nunca está, realmente, onde nós estamos.
139
Arquitetura e drama
Desarquiteto o voo na vontade de consumir em vão todos os meus ares
e, pássaro, nem me sinto nos sonhos que não me consinto
e, por vezes, quando, à noite, tardo rasgo as manhãs da minha face.
189
Do ofício e das horas
cabe ao poeta engolir as madrugadas e amanhecer o verbo no peito das palavras cabe ao poeta a estranha lida de construir andaimes nos sonhos que exercita cabe ao poeta insurgir a vida e praticar rebeliões sob medida cabe ao poeta alinhavar o tempo e caminhar pelas calçadas impunemente cabe ao poeta ser quase marinheiro e navegar as âncoras gerais que se cravam no peito cabe ao poeta promover os sábados à condição de domingos e distribuir horas de riso como gerente dos sentidos cabe ao poeta não se pentear a não ser em espelhos que apenas comente sua face cabe ao poeta abster-se da morte à tarde e nunca morrer sem verbo que lhe resguarde cabe ao poeta os infartos não os do corpo mas os da alma cabe ao poeta todo discurso que não sendo palavra tenha lógica mais justa cabe ao poeta guardar a outra face e tanger a noite do mundo com seu grito de liberdade cabe ao poeta viver cedo mesmo tarde.
103
Aos moldes de cordel, com entrelinhas
Era assim de parecer-se a uma vida que se quisesse tanta que não pudesse se engasgar quando dita em verbo na garganta e que transitasse pelos poros com a mesma contradita com que transitam as verdades nos desvãos de quem as diga
era assim de parecer-se a uma faca carente já de corte que se desfizesse como arma na placidez de quem a porte porque resto de uma guerra desusada que tramitasse em vão em cada grito e que permeasse uma paz inteira nas melhores dobras do infinito
era de parecer-se quase um contrário desmedido em vão na sua teia cerzido a toda liberdade construído em todas as centelhas como se fora um desalinho que subisse de cada desapego e que permitisse uma feição humana aos erros que decreta como medo
era de parecer-se inconcluso em sua mais carnal postura porquanto fosse homem em desuso de alma transparente e algo pura que não coubesse no discurso que às vezes se constrói ausente mas que contivesse um povo inteiro na compleição exata do que sente
era de parecer-se astronauta de cosmos de tão diversa trama que estrela não houvesse na alma senão daquelas que são chama e que brilham no rosto dos homens com a mesma similitude com que o fogo queima as fogueiras em que ardem todas as virtudes
era de parecer-se adrede da mais suspeita constatação de que a alma dói muito menos que as ausências da razão é como se fora um humano trasladado a outro rumo que não lhe permitisse o tempo de quem cumprisse seu mundo
era de parecer-se um mar de placidez tão avara que todas as ondas que pudesse fossem apenas a da calma e que não pudesse lutar contra as marés do seu jeito e construísse jangadas que navegassem seu peito
era de parecer-se frugal e ao mesmo tempo tão diverso que se permitisse como prosa no meio de cada verso como se fora um verbo de tão intestinal textura que contivesse todas as almas de quem anda pelas ruas
era de parecer-se informal como uma tarde estrangeira que teima em fingir-se de noite num tempo de tal certeza que envolvendo o coração com horas de vaidades constrói uma vida avulsa pelo meio das cidades
era de parecer-se praça de todas as latitudes que permitisse às estrelas os cosmos que nem pude e que brilhassem à sombra todos os seus caminhos e que homens assim fartos andassem todos sozinhos
era de parecer-se estrada de todas as direções que conduzissem a tudo e a todos os senões como se fora um rio que contivesse nos passos a certeza dos destinos a vontade dos abraços
era de parecer-se imberbe na sua senilidade e que dispusesse da vida com tal celeridade que chegasse a montar o sonho com a certeza das tardes
era de parecer-se homem nas praças de sua luta com a intimidade do tempo e a parcimônia das disputas na inadimplência maior de todas as suas culpas era enfim de parecer-se tanto no roldão da humanidade como se fora um marco de sua própria liberdade construindo todos os poros no coração das cidades.
117
Da palavra e sua compleição em sentido estrito
A palavra nada todos os mares de que fala
transeunte não se admite como passagem de tudo que se disse
é que esconde no seu jeito de bólide as imanências todas que recolhe
a palavra quase sempre é um disfarce relativo e displicente nunca lhe cabe tudo do verbo que se sente.
111
Da esperança em tons
No sono a saudade do futuro alinhava um tempo que discurso
é como se fora um rio sem curso tudo que lhe leva é meu impulso e a certeza de tê-lo tempo de todos os usos a luta é somente combustível de todos os futuros.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.