O poema é só um disfarce um jeito de arrumar lembranças nos ombros da saudade
tudo que comenta preenche a vontade de permitir-se em versos construir a liberdade
a palavra é só trejeito dos sentimentos e atos em que cabe.
130
Itinerário frequente
A Rogério Benevides e Bebeto, in memoriam
Nem a bruta pedra resvalará em nosso medo quando a vida se tem a custo e não se custa aquilo que é tão cedo
por certo que abismos fruiremos no estranho equilíbrio que nos tenha e velejaremos pelo vão da vida na exata proporção que nos convenha
mas nem civis nos restaremos ainda sãos a não ser nos bolsos da memória onde se guardam cidadãos e, assim, inconsumidos na competência farta da gente ainda restarão pequeno dotes para se sentirem quando ausentes
e nessa surda inequação tão imatemática e fugaz a vida é sempre rumo de se seguir, e sempre e mais.
83
Poema de amar repente
É preciso amar e amar tão precisamente com a força do coração e a certeza latente de quem milita a vida nessa constância de gente
não um amor comprimido contado a quatro paredes não um amor lacrimoso contado no vão dos dedos
mas um amor combatente tecido no chão do peito e que guerrilheiro se apresente e que da paz se acrescente e que varando a manhã da pátria afogue a noite que se sente.
108
Das certezas e das destemperanças
Tudo em nós é flagrante: a vida sempre teima em ser avante.
Não que o sonho não possa ser a gesta de traçar um futuro em que coubesse.
É que ao tempo é dada a contradição de parecer um sim mesmo não.
É que se, às vezes, ao fim desborda do sentimento nada detém mais espaço que os alvoroços do tempo.
121
Das ranhuras de tudo
A vida é uma morte invertida tudo que em uma sobra na outra é mantida
é que não há condição de tê-las divididas tudo que em uma medra na outra é desmedida
a síntese de todas é a própria vida uma morte paulatina quase consentida.
140
Do desmazelo temporal do medo
Nunca é tarde para dizer o que é cedo à história, às vezes, é um disfarce do medo e o tempo inventa porções para demorar seus atropelos
ao homem cabe gritar e construir seu enredo.
128
Acróstico ao Camarada Che Guevara
Camarada, vives pelas almas Herdadas do vão dos teus atos Empilhadas em grávido desacato
Gastas as memórias Urdidas em tua luta Espaços bordados da história Varando os céus de Cuba Até que o coração do povo, Ruas, cidades e todo a terra Avance pelo mundo a casa geral de todos
161
Da panfletária razão da luta
Meu coração frequentemente traça a razão das ruas com a mesma insistência com que os lampiões infringem a noite de todas as escuridões da consciência
e o verbo – persistente – lava as manhãs do peito tão profundamente que constrói todos os andaimes de que os homens se ressentem
é que a luta é um gesto tão urgente que nada do que é futuro deixa de ser da gente.
102
Dos vincos da verdade em laicos gestos
Eis o fato: a verdade é sempre menor que o ato fazê-la é um jeito duvidoso de torna-la exata é como se fora proporção entre o que se sente e o que prolata
é que nos ombros do mundo a verdade é uma balsa que singra nosso peito com ares de astronauta
109
Carta VIII
A rosa que te dei tinha a feição exata das flores que eu trazia lavradas na alma
se ela não resumia nos seus limites de planta algum carinho concreto uma realidade mais tanta é que se perderam no caminho as raízes do meu peito e a veracidade da lembrança
mas assim mesmo fugida do seu teor mais profundo ela guarda um abraço latente que se desfaz no teu riso das correntezas do mundo.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.