dê-se ao tempo a contradição de parecer-se um sim, mesmo não
dê-se à vida a compreensão de parecer avante, mesmo em vão
dê-se ao homem a condição de inventar-se humano na razão
94
Poemeto de razões e tanto
Mais não tenha a razão humana que o invólucro inteiro de um fato e que sobrepasse o mero espelhar de tudo que o olho lhe retrata
e não se diga inteira quando farta por lhe faltar um quê de completude pois o ser assim quase completa é que denota a escassez que lhe pune
e vague pelos sonhos mansamente armada com os versos que lhe caibam e adormeça em torno desse canto com a presteza exata dos que amam
mais não tenha a razão humana que os metros todos da verdade e que só se perca e se encontre e se eternize assim quando se invada
o mais é cabe-la pela vida no grito, na palavra e na vontade e consumi-la aos tragos quando cedo e permiti-la avante quando tarde.
88
Rondó dos Orixás
I – de onde é possível Exu e sua encruzilhada
a energia incide naquilo que é possível em cada lide arma e desarma o simples carma de fazer impossíveis pela alma Exú é um exército de todos os eus e de todos os outros em que se arma
a encruzilhada é só um jeito de lançar a liberdade dentro do peito Exú estendido à contraluz e só um desejo de mim que me conduz
II – Ogun exército de todos
A energia agride todos os caminhos que permite
e dos passos alavancados na força de uma paz amordaçada Ogun constrói insone todas as estradas as que dão em mim as que dão em nada porque vivê-lo é sempre deixar-se na batalha
III – Oxossi flecha num futuro pleno
a energia engravida na fartura de Oxossi pela vida a mata é apenas bandeira de tremular a paz na noite brasileira e dançando em todos os seus trilhos o mundo se esconde de seus esconderijos
IV – Ossain inventa a folha e borbulha
A energia explica o verde da terra de sua notícia
da manhã das folhas assim declaradas invente-se a sassanha do mundo e das madrugadas
é que o tempo é só esconderijo das naturezas que inventas pelo meu juízo
V – Oxumaré inventa o infinito
A energia expande a grandeza dos mundos que tange arco-íris nem te poupas em desfazer as manhãs com que me ocupas
Oxumaré guarda em si os passos do infinito de que me vesti
VI – Omolu planta a terra no seu grito
A energia atesta a profundidade da terra em sua gesta tudo que lhe saiba é só um texto com palavras que inventa pelo meu silêncio meus pés te pisam nos sonhos que comento e sentem teu abraço telúrico nos ombros dos tempos.
VII – Obá luta seu destempo
A energia avança obá luta em tudo sua esperança
perdida no vão de sua dor inventa-se guerreira de todo desamor
VIII – Ewá ilude a tarde
A energia espreita nos ombros da tarde os mistérios da deusa lúdica e sempre dançarina Ewá transgride sua própria sina: a de parecer-se noite com jeito de menina
IX – Xangô explode no tempo
A energia incendeia todas as vias todas as veias
Xangô caminha trovoando a vida e inventa-se no tempo de suas desmedidas e laça a razão dos homens pelas avenidas
X – Iansan navega o vento
a energia explode todas as manhãs de quem se move o vento despenteia a vida e Iansan passeia todas as medidas
XI – Logunedé enlaça a vida
A energia espelha toda a natureza com o jeito da beleza
Logunedé passeia todas as manhãs em suas teias enquanto seus encantos as ruas incendeiam
XII – Oxum penteia o tempo
A energia clareia todos os rios da alma em que se penteia Oxum, em seu abebé, espreita todos os metros da vida em que se enfeita
é que se dá a uma razão que a todos incendeia
XIII – Iemanjá laça os mares
A energia nada todos os mares e filhos que prolata Iemanjá nem suspeita as áfricas todas que leva em suas tetas é que rio sempre desagua no mar absoluto de sua calma
XIV – Nanã na paz da origem
A energia é lama tudo que da paz Nanã inflama onda de danças origem de tempos o orixá é jeito de conter o pensamento
XV – Oxalá, construtor de horizontes
A energia aplaca todos os mares da alma Oxalá sorrindo só constata a exata rebelião da calma
jangada de tudo inventa horizontes como se tivesse hoje todos os ontens.
136
Poema à Pátria Grande
cidadão! companheiro! irmão! camarada! quem gritará o futuro nos ombros da madrugada? por certo, amontoados, nos braços urgentes do povo o tempo será nosso abraço na persistência do novo. por certo, inventados pela paciência dos Andes lavraremos irmanados a vasta e infinda construção da Pátria Grande.
140
Auto de ano novo em resumo e amplidão
O tempo pode ser espaço de viver-se em vão quando não se entende que apesar de todo não a vida é um sim cronometrado do tamanho do coração que corre pelos ponteiros sem alguma conclusão e que só se resume nas dobras de cada mão que constrói seu próprio tempo inventando a amplidão
o tempo é sempre espaço de se traçar sem compasso pois seu ângulo é quase sempre da largura do nosso abraço
134
Poema acerca da recorrência e dos abusos
O tempo nunca é lucro falta-lhe a essência de parecer-se avulso e derramar-se na vida a qualquer custo
o tempo frequentemente tem-se inadimplente das tentativas e dos usos de torná-lo moenda de suores e abusos
o lucro nunca é hora apesar dos cálculos que o dão pela história assim uma simples competência de quem maneja o açoite pelas consciências
é que lhe falta o jeito de um quê humano se dependesse apenas da vontade do dono
o que lhe regra constantemente é a necessidade bruta de fazer-se público e tornar-se de poucos o que se fez de muitos
o tempo nunca é lucro por sobre sua cabeça pesa o futuro e a compreensão de que todos constroem seu imenso curso
150
Da passeata no vão da crise
A luta bruta sua a praça com suores e verbos, andarilhos e astronautas montados no sonho urgente de abraçar a pátria
a luta consome as léguas de povo que adredemente prolata costurando os verbos da vida no peito infante da massa
e o grito da multidão ecoando pelas marquises é a construção escalonada das arquiteturas da crise.
159
Das avenças do amor em rápida simbiose
o amor é avença desregrada tudo do que é tudo é quase nada e é boiar-se no sólido como se fora bólide de atingir as luas de quem ame de faltar às tardes de quem tarde
o amor é avença desregrada é um consumir-se sobrando é um expandir-se na falta é como se fora um oceano que coubesse em todas as almas e que restasse pelos dias nas noites em que se declara
o amor é uma avença incauta nada do que é cautela lhe desata antes é imprevisto como um intenso salto que se dá ao coração com ganas de astronauta
o amor é uma avença sutil como a felicidade nada do que lhe tange inventa-se público ou como concessão de quem lhe invade
o amor é uma avença avulsa de veias e de vias é convergência inata de cada alegria e um desandar de ruas nas desoras do dia.
O amor é uma avença cogente tudo que tange os olhos atiça a alma tão sempre que nada do que é humano desencarna-se da gente
o amor é uma avença tardia tudo que lhe chega a cedo é de um tempo tão difuso que chega sempre a ser tarde nas serventias do uso
o amor é uma avença plástica tudo que lhe seja forma unanimemente lhe declara na urdidura das normas na ditadura da prática
o amor é uma avença drástica guardada a desproporção de todas as almas nada do que não seja todos poderá sê-lo na prática
100
Do caminho grávido das manhãs do povo
ao povo e ao mundo dê-se a sintonia um farfalhar intenso das veias e das vias
porque de entendê-la como construída salpiquem-se os fatos com o tempero da vida
e os combates, ao fundo, sejam apenas o sinal de que a manhã enfeitou-se dos acordares do mundo.
106
Odes africanas
Primeiro a noite noticia a pela negra do homem que por ser noite amanhecia
não lhe vai na alma qualquer desmedida tudo é exato na manhã em que nascia
e as sinapses que em si vigiam cobriam o dia de uma razão que nem sabiam porque o futuro resguardava um tempo de vigília
era um princípio que nem sabia que a pela negra do homem era uma estranha serventia de cobrir de noite a razão que em cada um vivia,
II
O continente contém mais do que a si pois de sua soma assim desregulada inventam-se todas as cores de uma cabal desnatureza manhã que nem seja tanta como tão pouca é a certeza a terra carrega em cada útero uma rebelião tão incontida que explode na cara dos afetos na plástica feição de uma guerrilha
o grito simula uma nação que fosse assim compreendida entre o que falta para ser repente e o que sobra da urgente revelia
III
África seja apenas o batismo de quem nasceu desmedida de ser uma noite desgarrada do tamanho de todas essas vidas
África seja o desconforto que habita cada sentimento de sentir que homens não são estrelas que possam estar sob moendas por fluírem num céu tão mais pacato que a maioria de todos os firmamentos
África seja indizível pelo futuro que cogita e que vive entranhado em todas as raízes as da terra como prenúncio as do homem como matrizes de uma vida tão larga como vasta é a consciência de quem mesmo sendo noite carrega o dia na paciência
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.