AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
314 636 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

De critérios e formas

dê-se ao tempo
a contradição
de parecer-se um sim, mesmo não
 
dê-se à vida
a compreensão
de parecer avante, mesmo em vão
 
dê-se ao homem
a condição
de inventar-se humano na razão
94

Poemeto de razões e tanto

Mais não tenha a razão humana
que o invólucro inteiro de um fato
e que sobrepasse o mero espelhar
de tudo que o olho lhe retrata
 
e não se diga inteira quando farta
por lhe faltar um quê de completude
pois o ser assim quase completa
é que denota a escassez que lhe pune
 
e vague pelos sonhos mansamente
armada com os versos que lhe caibam
e adormeça em torno desse canto
com a presteza exata dos que amam
 
mais não tenha a razão humana
que os metros todos da verdade
e que só se perca e se encontre
e se eternize assim quando se invada
 
o mais é cabe-la pela vida
no grito, na palavra e na vontade
e consumi-la aos tragos quando cedo
e permiti-la avante quando tarde.
88

Rondó dos Orixás

I – de onde é possível Exu e sua encruzilhada
 
a energia
incide
naquilo que é possível
em cada lide
arma e desarma
o simples carma
de fazer impossíveis
pela alma
Exú é um exército
de todos os eus
e de todos os outros
em que se arma
 
a encruzilhada
é só um jeito
de lançar a liberdade
dentro do peito
Exú estendido
à contraluz
e só um desejo de mim
que me conduz
 
 
II – Ogun exército de todos
 
 
A energia
agride
todos os caminhos
que permite
 
e dos passos
alavancados
na força de uma paz
amordaçada
Ogun constrói insone
todas as estradas
as que dão em mim
as que dão em nada
porque vivê-lo
é sempre
deixar-se na batalha
 
 
III – Oxossi flecha num futuro pleno
 
a energia
engravida
na fartura de Oxossi
pela vida
a mata é apenas bandeira
de tremular a paz
na noite brasileira
e dançando
em todos os seus trilhos
o mundo se esconde
de seus esconderijos
 
IV – Ossain inventa a folha e borbulha
 
A energia
explica
o verde da terra
de sua notícia
 
da manhã das folhas
assim declaradas
invente-se a sassanha
do mundo e das madrugadas
 
é que o tempo
é só esconderijo
das naturezas que inventas
pelo meu juízo
 
V – Oxumaré inventa o infinito
 
A energia
expande
a grandeza dos mundos
que tange
arco-íris
nem te poupas
em desfazer as manhãs
com que me ocupas
 
Oxumaré
guarda em si
os passos do infinito
de que me vesti
 
VI – Omolu planta a terra no seu grito
 
A energia
atesta
a profundidade da terra
em sua gesta
tudo que lhe saiba
é só um texto
com palavras que inventa
pelo meu silêncio
meus pés te pisam
nos sonhos que comento
e sentem teu abraço telúrico
nos ombros dos tempos.
 
VII – Obá luta seu destempo
 
A energia
avança
obá luta em tudo
sua esperança
 
perdida
no vão de sua dor
inventa-se guerreira
de todo desamor
 
VIII – Ewá ilude a tarde
 
A energia
espreita
nos ombros da tarde
os mistérios da deusa
lúdica
e sempre dançarina
Ewá transgride
sua própria sina:
a de parecer-se noite
com jeito de menina
 
 
IX – Xangô explode no tempo
 
A energia
incendeia
todas as vias
todas as veias
 
Xangô caminha
trovoando a vida
e inventa-se no tempo
de suas desmedidas
e laça a razão dos homens
pelas avenidas
 
 
X – Iansan navega o vento
 
a energia
explode
todas as manhãs
de quem se move
o vento
despenteia a vida
e Iansan passeia
todas as medidas
 
XI – Logunedé enlaça a vida
 
A energia
espelha
toda a natureza
com o jeito da beleza
 
Logunedé passeia
todas as manhãs
em suas teias
enquanto seus encantos
as ruas incendeiam
 
XII – Oxum penteia o tempo
 
A energia
clareia
todos os rios da alma
em que se penteia
Oxum, em seu abebé, espreita
todos os metros da vida
em que se enfeita
 
é que se dá a uma razão
que a todos incendeia
 
 
XIII – Iemanjá laça os mares
 
A energia
nada
todos os mares e filhos
que prolata
Iemanjá nem suspeita
as áfricas todas que leva
em suas tetas
é que rio
sempre desagua
no mar absoluto
de sua calma
 
XIV – Nanã na paz da origem
 
A energia
é lama
tudo que da paz
Nanã inflama
onda de danças
origem de tempos
o orixá é jeito
de conter o pensamento
 
XV – Oxalá, construtor de horizontes
 
A energia
aplaca
todos os mares
da alma
Oxalá sorrindo
só constata
a exata rebelião
da calma
 
jangada de tudo
inventa horizontes
como se tivesse hoje
todos os ontens.
136

Poema à Pátria Grande

cidadão! companheiro!
irmão! camarada!
quem gritará o futuro
nos ombros da madrugada?
por certo, amontoados,
nos braços urgentes do povo
o tempo será nosso abraço
na persistência do novo.
por certo, inventados
pela paciência dos Andes
lavraremos irmanados
a vasta e infinda construção
da Pátria Grande.
140

Auto de ano novo em resumo e amplidão

O tempo pode ser espaço
de viver-se em vão
quando não se entende
que apesar de todo não
a vida é um sim cronometrado
do tamanho do coração
que corre pelos ponteiros
sem alguma conclusão
e que só se resume
nas dobras de cada mão
que constrói seu próprio tempo
inventando a amplidão
 
o tempo é sempre espaço
de se traçar sem compasso
pois seu ângulo é quase sempre
da largura do nosso abraço
134

Poema acerca da recorrência e dos abusos

O tempo
nunca é lucro
falta-lhe a essência
de parecer-se avulso
e derramar-se na vida
a qualquer custo
 
o tempo frequentemente
tem-se inadimplente
das tentativas e dos usos
de torná-lo moenda
de suores e abusos
 
o lucro
nunca é hora
apesar dos cálculos
que o dão pela história
assim uma simples competência
de quem maneja o açoite
pelas consciências
 
é que lhe falta o jeito
de um quê humano
se dependesse apenas
da vontade do dono
 
o que lhe regra constantemente
é a necessidade bruta
de fazer-se público
e tornar-se de poucos
o que se fez de muitos
 
o tempo nunca é lucro
por sobre sua cabeça
pesa o futuro
e a compreensão
de que todos constroem
seu imenso curso
150

Da passeata no vão da crise

A luta bruta sua a praça
com suores e verbos,
andarilhos e astronautas
montados no sonho urgente
de abraçar a pátria
 
a luta consome
as léguas de povo
que adredemente prolata
costurando os verbos da vida
no peito infante da massa
 
e o grito da multidão
ecoando pelas marquises
é a construção escalonada
das arquiteturas da crise.
159

Das avenças do amor em rápida simbiose

o amor
é avença desregrada
tudo do que é tudo
é quase nada
e é boiar-se no sólido
como se fora bólide
de atingir as luas
de quem ame
de faltar às tardes
de quem tarde
 
o amor
é avença desregrada
é um consumir-se sobrando
é um expandir-se na falta
é como se fora um oceano
que coubesse em todas as almas
e que restasse pelos dias
nas noites em que se declara
 
o amor
é uma avença incauta
nada do que é cautela
lhe desata
antes é imprevisto
como um intenso salto
que se dá ao coração
com ganas de astronauta
 
o amor
é uma avença sutil
como a felicidade
nada do que lhe tange
inventa-se público
ou como concessão
de quem lhe invade
 
o amor
é uma avença avulsa
de veias e de vias
é convergência inata
de cada alegria
e um desandar de ruas
nas desoras do dia.
 
O amor
é uma avença cogente
tudo que tange os olhos
atiça a alma tão sempre
que nada do que é humano
desencarna-se da gente
 
o amor
é uma avença tardia
tudo que lhe chega a cedo
é de um tempo tão difuso
que chega sempre a ser tarde
nas serventias do uso
 
o amor
é uma avença plástica
tudo que lhe seja forma
unanimemente lhe declara
na urdidura das normas
na ditadura da prática
 
o amor
é uma avença drástica
guardada a desproporção
de todas as almas
nada do que não seja todos
poderá sê-lo na prática
100

Do caminho grávido das manhãs do povo

ao povo e ao mundo
dê-se a sintonia
um farfalhar intenso
das veias e das vias
 
porque de entendê-la
como construída
salpiquem-se os fatos
com o tempero da vida
 
e os combates, ao fundo,
sejam apenas o sinal
de que a manhã enfeitou-se
dos acordares do mundo.
106

Odes africanas

Primeiro
a noite noticia
a pela negra do homem
que por ser noite
amanhecia
 
não lhe vai na alma
qualquer desmedida
tudo é exato na manhã
em que nascia
 
e as sinapses
que em si vigiam
cobriam o dia de uma razão
que nem sabiam
porque o futuro resguardava
um tempo de vigília
 
era um princípio
que nem sabia
que a pela negra do homem
era uma estranha serventia
de cobrir de noite a razão
que em cada um vivia,
 
II
 
O continente contém mais do que a si
pois de sua soma assim desregulada
inventam-se todas as cores
de uma cabal desnatureza
manhã que nem seja tanta
como tão pouca é a certeza
a terra carrega em cada útero
uma rebelião tão incontida
que explode na cara dos afetos
na plástica feição de uma guerrilha
 
o grito simula uma nação
que fosse assim compreendida
entre o que falta para ser repente
e o que sobra da urgente revelia
 
III
 
 
África seja apenas o batismo
de quem nasceu desmedida
de ser uma noite desgarrada
do tamanho de todas essas vidas
 
África seja o desconforto
que habita cada sentimento
de sentir que homens não são estrelas
que possam estar sob moendas
por fluírem num céu tão mais pacato
que a maioria de todos os firmamentos
 
África seja indizível
pelo futuro que cogita
e que vive entranhado
em todas as raízes
as da terra como prenúncio
as do homem como matrizes
de uma vida tão larga
como vasta é a consciência
de quem mesmo sendo noite
carrega o dia na paciência
124

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado