AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
314 636 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

Da intifada e laicos pormenores

A primeira manhã
é palestina
rubra temporada
de homens e metralhadoras
e uma noite que teima
em ser quase menina
 
a primeira manhã
é morte e esperança
laica displicência
de uma conjuntura vã
 
a primeira manhã
é palestina
em cores desregradas
traçadas a muque
na rasa madrugada
 
mísseis e dramas
em conjugação disforme
uma tristeza tanta
uma saudade enorme
dos dias que não viveu
de mortes já truncadas
da cara geral da luta
do canto geral de nada
 
garça a vida
em vôo displicente
nos rios que nunca árabes
voaram esses viventes
 
grave a morte
em cambulhadas
traste da manhã
teúda e armada
 
magra a flor
das esperanças
arábicos logaritmos
da pouquidão de trânsito
 
a primeira manhã
é palestina
súbita revoada
dos pássaros atômicos
da palavra
 
a primeira manhã
é palestina
e quão desarvorada
com o abraço contundente
da noite mais avara
 
a primeira manhã
é estrela das estradas
rugindo no colo da noite
a grande intifada.
121

Do divino e suas demarches

No divino
terça o homem
seu destino
 
o divino
como luva
cai em mãos
em que nunca coube
todos seus rezares
vigem em tempo
que não houve
 
da sua alma
se adivinha
os quilos de pecado
que a si convinha
para ter-se impávido
sem entrelinhas
 
no divino
houve o homem
como proscrito
nas léguas da razão
de todos os seus gritos
 
no divino
quase sempre
o homem é civil
militarmente
nada de suas guerras
turva  ordem de estar ausente
tudo que lhe marcha
é o absoluto exercício
de estar obediente.
88

Dos oníricos assaltos

Dou-me
ao assalto
de furtar meus sonhos
do meio dos fatos
é que por trazê-los
assim rendidos
sobra-me o tempo
de tê-los pelos sentidos
como argamassa construtiva
de todos meus infinitos.
116

Dos assassinatos noturnos e dos fardos

Assassinado
por fuzis fardados
o homem explicita
a farda dos fardos
nada do sistema
eletrocutado
desencapa os fios
da elétrica cidade
todo o futuro
é um alarde
da construção que a revolta
em cada peito cabe
na morte daqueles
que trazem apenas como culpa
a noite no corpo e na face.
163

das quilometragens da vida

O tempo é apenas
um espaço enviesado
que se mede por horas
os metros do seu estado
com as fitas da memória
e as saudades no braço
 
O espaço é apenas
um tempo a desoras
que se mede nas léguas
dos enredos da história
com metros que nem cabem
nas paredes da memória
 
é que os quilometros da vida
são as estradas das horas.
90

Das ações e das formas

por mais viver
não vingue o dia
em espalhar a noite
pelas entrelinhas
é que o discurso
é só uma forma
de enquadrar o fato
em cada norma
viver é cavalgar o tempo
com as rédeas da lógica
e a certeza guerrilheira
das revoltas.
146

Do sono em marinha lógica

O mar assim espalhado
como uma rua de tudo
espelha no meio da gente
as maravilhas do mundo
 
e dormir em suas areias
é um sentir tão profundo
que o sono chega a sorrir
por cima de nossos ombros.
115

Verso a meu pai e sua constância

Habitante agora de mim
meu pai dá-se a jardineiro
que semeia saudades
nas ruas inteiras do meu peito
 
e é de ver-lhe assim
transgredindo normas
e alinhavando poemas
nos decretos da alma
 
é que morrer nem sempre
é o que a vida informa
há  muitas léguas de todos
depois da última história.
112

Das estradas do meu país

A estrada adivinhava
no seu lúdico curso
os passos de quem viaja
com a certeza do discurso
é que o povo que lhe caminha
tem um jeito do futuro.
110

No amanhecer em tardes

E quando o sol amanhece
nas costas da terra dormida
o mundo acorda a preguiça
e a gente lembra da vida
 
E quando o sol se esconde
querendo brincar de tarde
a gente inventa uma noite
no meio dessa saudade.
93

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado