antigo meu verso não diz mais do que eu consigo é que dizê-lo tanto é mais indício de que a palavra é sempre um precipício onde descambam verbos e infinitos
contrito meu verso nunca é mais do que eu digo é que lhe falta o jeito e a prática de ser mais explícito coisa de ser palavra que diga mais do que é preciso
baldio meu verso inaugura espaços e tempos e nem cuida das permanências da vida e das distâncias da rua antes é mais avulso que as primaveras um tempo incontido de descuidos e esperas
invicto meu verso derrota as mágoas que entorno em minhas portas como se fosse um vendaval de verbos incontidos que palmilhassem comigo todos meus sentidos
transeunte meu verso caminha aos solavancos como se fora um barco num mar de espantos navegante de si adredemente se conjuga aos gritos das praças aos ruídos da luta
enfim, meu verso nunca é mais do que eu digo é que palavras só viajam na constância dos sentidos.
98
Dilema filosófico de reparação
O absoluto é tão relativo que nem precisa ser fato para decretar-se vivo
foge-lhe da razão a condição avara de apenas poder sê-lo onde o infinito acaba
é que o absoluto é quase assim só um trejeito da alma.
143
Poemeto de razões e tanto
Mais não tenha a razão humana que o invólucro inteiro de um fato e que sobrepasse o mero espelhar de tudo que o olho lhe retrata
e não se diga inteira quando farta por lhe faltar um quê de completude pois o ser assim quase completa é que denota a escassez que lhe pune
e vague pelos sonhos mansamente armada com os versos que lhe caibam e adormeça em torno desse canto com a presteza exata dos que amam
mais não tenha a razão humana que os metros todos da verdade e que só se perca e se encontre e se eternize assim quando se invada
o mais é cabe-la pela vida no grito, na palavra e na vontade e consumi-la aos tragos quando cedo e permiti-la avante quando tarde.
87
A cada um de tudo
Cada um é um sol inadimplente que tenta brilhar o tudo na parcimônia de gente
cada tudo é um um inconcluso que teima em brilhar os sóis atravessados no mundo.
250
Versos ao sol sustenido menor
assim composto tens na pauta a mesma compleição da madrugada e te revelas e te resvalas como uma garça impune pela salas
e caças a mim desenfreado eu transposto em som nessa estranha matemática que me prega na pauta de todas as minhas mágoas
a música é só a fala das engrenagens da alma.
83
Via operária
Era de ser pedreiro seu destino mais urgente e alinhar pedras e sonhos no seu mister de vivente
era de ser partido seu grito mais pungente e engolir os soluços sua tarefa latente
era de ser preciso uma fome mais estreita pra consumir outra fome da morte que lhe isenta
era de ser tão fecundo no exercício das fêmeas pra vingar em outras carnes o futuro que lhe convenha
era de ser maltratado pelas rodas do engenho pra descobrir no seu braço melhor mister e empenho
era de ser emudecido pelo coice do chicote pra descobrir a largura do que a palavra pode
era de ser humilhado nos desvãos de cada dia pra pescar no fundo de si o que seja a alegria
era de ser entristecido pela pouquidão do riso que invertia seu canto no sentido do martírio
era de ser sempre magro habeas corpus da fome gravado em poucas costelas e num minguado nome
era de ser explorado em cada palmo da vida somando os metros de morte chorando o peso dos quilos
era de ser comprimido o seu trabalho tão largo que até do suor se tire algum lucro ou trocado
era de ver-se infinito embora tão limitado no revés do ser ofício na produção encantado
era de ver-se gritando no coice da passeata enrolado em cada bandeira numa intimidade inata
era de ver-se em grades molde brutal do desfuturo pungida a cada do povo escrita em todos os muros
era de ver-se aos seus cerzidos nos vãos das salas traçando o gosto da vida rompendo a face da alma
120
Do Rio Sanhauá em rápida trama
Deitado no colo da terra o Sanhauá é bandeira desfraldada dos sonhos que a gente inventa nas costas da madrugada.
88
Das avenças do amor em rápida simbiose
o amor é avença desregrada tudo do que é tudo é quase nada e é boiar-se no sólido como se fora bólide de atingir as luas de quem ame de faltar às tardes de quem tarde
o amor é avença desregrada é um consumir-se sobrando é um expandir-se na falta é como se fora um oceano que coubesse em todas as almas e que restasse pelos dias nas noites em que se declara
o amor é uma avença incauta nada do que é cautela lhe desata antes é imprevisto como um intenso salto que se dá ao coração com ganas de astronauta
o amor é uma avença sutil como a felicidade nada do que lhe tange inventa-se público ou como concessão de quem lhe invade
o amor é uma avença avulsa de veias e de vias é convergência inata de cada alegria e um desandar de ruas nas desoras do dia.
O amor é uma avença cogente tudo que tange os olhos atiça a alma tão sempre que nada do que é humano desencarna-se da gente
o amor é uma avença tardia tudo que lhe chega a cedo é de um tempo tão difuso que chega sempre a ser tarde nas serventias do uso
o amor é uma avença plástica tudo que lhe seja forma unanimemente lhe declara na urdidura das normas na ditadura da prática
o amor é uma avença drástica guardada a desproporção de todas as almas nada do que não seja todos poderá sê-lo na prática
98
Verbo intimorato
Palavras – quem as digam? Com a certeza do sempre e a inconstância da vida. Quem as oprimam, para que assim, constrangidas, possam chegar aos homens com a força da vida? Quem as arrumem no vão do armário geral das avenidas? Quem as construam em praças, as de pedra e as da lida? Quem as coincidam com a esperteza do tempo e a informalidade dos bolsos das camisas? Palavras sempre serão tantas, Aquelas não ditas e as ditas apenas na garganta que nem chegam a molhar as ruas em que se dança. É certo que as temos na potencialidade dos neurônios no exímio processo das sinapses e na ingênua fatuidade dos enganos mas, quase sempre, as soltamos com a força de uma catarata que nunca está, realmente, onde nós estamos.
139
Desrazão
Minha razão é quase um não com um sim atravessado é metro desconforme é légua controlada é fração informal é infinito contado e chove no meu juízo como um rio ordenado fluindo do seu mister de ser riso encantado.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.