Morto Fidel indica que a história é apenas um degrau da vida
tudo que lhe leva fica a revolução é sempre gesto de permanecer invicta
116
Do ofício e das horas
cabe ao poeta engolir as madrugadas e amanhecer o verbo no peito das palavras cabe ao poeta a estranha lida de construir andaimes nos sonhos que exercita cabe ao poeta insurgir a vida e praticar rebeliões sob medida cabe ao poeta alinhavar o tempo e caminhar pelas calçadas impunemente cabe ao poeta ser quase marinheiro e navegar as âncoras gerais que se cravam no peito cabe ao poeta promover os sábados à condição de domingos e distribuir horas de riso como gerente dos sentidos cabe ao poeta não se pentear a não ser em espelhos que apenas comente sua face cabe ao poeta abster-se da morte à tarde e nunca morrer sem verbo que lhe resguarde cabe ao poeta os infartos não os do corpo mas os da alma cabe ao poeta todo discurso que não sendo palavra tenha lógica mais justa cabe ao poeta guardar a outra face e tanger a noite do mundo com seu grito de liberdade cabe ao poeta viver cedo mesmo tarde.
103
Poema à Pátria Grande
cidadão! companheiro! irmão! camarada! quem gritará o futuro nos ombros da madrugada? por certo, amontoados, nos braços urgentes do povo o tempo será nosso abraço na persistência do novo. por certo, inventados pela paciência dos Andes lavraremos irmanados a vasta e infinda construção da Pátria Grande.
140
Auto de ano novo em resumo e amplidão
O tempo pode ser espaço de viver-se em vão quando não se entende que apesar de todo não a vida é um sim cronometrado do tamanho do coração que corre pelos ponteiros sem alguma conclusão e que só se resume nas dobras de cada mão que constrói seu próprio tempo inventando a amplidão
o tempo é sempre espaço de se traçar sem compasso pois seu ângulo é quase sempre da largura do nosso abraço
130
Pequena ode à transgressão da ordem
Nenhuma bala cala o que vai dentro da alma. A idéia é plástica salta nos ombros de quem a lavra e cai no jeito do povo como palavra. E, assim, verbo admite-se na alma coletiva que transmite e flui em rios de amor na exata proporção do que se lute e grite.
106
A cada um de tudo
Cada um é um sol inadimplente que tenta brilhar o tudo na parcimônia de gente
cada tudo é um um inconcluso que teima em brilhar os sóis atravessados no mundo.
250
Shakespeareana
Eis a questão: no meio da filosofia teus olhos nascem e crescem sobre mim, aéreos, como andorinhas reticentes que pousassem no meu cérebro
a cada página o teu olhar desmaia e a custo eu invento filosofias pela alma
sou e não sou quando em ti constato todas as possibilidades dos meus filosóficos atos.
93
Do poema como autor
O poema é só um disfarce um jeito de arrumar lembranças nos ombros da saudade
tudo que comenta preenche a vontade de permitir-se em versos construir a liberdade
a palavra é só trejeito dos sentimentos e atos em que cabe.
129
Poema acerca da recorrência e dos abusos
O tempo nunca é lucro falta-lhe a essência de parecer-se avulso e derramar-se na vida a qualquer custo
o tempo frequentemente tem-se inadimplente das tentativas e dos usos de torná-lo moenda de suores e abusos
o lucro nunca é hora apesar dos cálculos que o dão pela história assim uma simples competência de quem maneja o açoite pelas consciências
é que lhe falta o jeito de um quê humano se dependesse apenas da vontade do dono
o que lhe regra constantemente é a necessidade bruta de fazer-se público e tornar-se de poucos o que se fez de muitos
o tempo nunca é lucro por sobre sua cabeça pesa o futuro e a compreensão de que todos constroem seu imenso curso
146
Rondó dos Orixás
I – de onde é possível Exu e sua encruzilhada
a energia incide naquilo que é possível em cada lide arma e desarma o simples carma de fazer impossíveis pela alma Exú é um exército de todos os eus e de todos os outros em que se arma
a encruzilhada é só um jeito de lançar a liberdade dentro do peito Exú estendido à contraluz e só um desejo de mim que me conduz
II – Ogun exército de todos
A energia agride todos os caminhos que permite
e dos passos alavancados na força de uma paz amordaçada Ogun constrói insone todas as estradas as que dão em mim as que dão em nada porque vivê-lo é sempre deixar-se na batalha
III – Oxossi flecha num futuro pleno
a energia engravida na fartura de Oxossi pela vida a mata é apenas bandeira de tremular a paz na noite brasileira e dançando em todos os seus trilhos o mundo se esconde de seus esconderijos
IV – Ossain inventa a folha e borbulha
A energia explica o verde da terra de sua notícia
da manhã das folhas assim declaradas invente-se a sassanha do mundo e das madrugadas
é que o tempo é só esconderijo das naturezas que inventas pelo meu juízo
V – Oxumaré inventa o infinito
A energia expande a grandeza dos mundos que tange arco-íris nem te poupas em desfazer as manhãs com que me ocupas
Oxumaré guarda em si os passos do infinito de que me vesti
VI – Omolu planta a terra no seu grito
A energia atesta a profundidade da terra em sua gesta tudo que lhe saiba é só um texto com palavras que inventa pelo meu silêncio meus pés te pisam nos sonhos que comento e sentem teu abraço telúrico nos ombros dos tempos.
VII – Obá luta seu destempo
A energia avança obá luta em tudo sua esperança
perdida no vão de sua dor inventa-se guerreira de todo desamor
VIII – Ewá ilude a tarde
A energia espreita nos ombros da tarde os mistérios da deusa lúdica e sempre dançarina Ewá transgride sua própria sina: a de parecer-se noite com jeito de menina
IX – Xangô explode no tempo
A energia incendeia todas as vias todas as veias
Xangô caminha trovoando a vida e inventa-se no tempo de suas desmedidas e laça a razão dos homens pelas avenidas
X – Iansan navega o vento
a energia explode todas as manhãs de quem se move o vento despenteia a vida e Iansan passeia todas as medidas
XI – Logunedé enlaça a vida
A energia espelha toda a natureza com o jeito da beleza
Logunedé passeia todas as manhãs em suas teias enquanto seus encantos as ruas incendeiam
XII – Oxum penteia o tempo
A energia clareia todos os rios da alma em que se penteia Oxum, em seu abebé, espreita todos os metros da vida em que se enfeita
é que se dá a uma razão que a todos incendeia
XIII – Iemanjá laça os mares
A energia nada todos os mares e filhos que prolata Iemanjá nem suspeita as áfricas todas que leva em suas tetas é que rio sempre desagua no mar absoluto de sua calma
XIV – Nanã na paz da origem
A energia é lama tudo que da paz Nanã inflama onda de danças origem de tempos o orixá é jeito de conter o pensamento
XV – Oxalá, construtor de horizontes
A energia aplaca todos os mares da alma Oxalá sorrindo só constata a exata rebelião da calma
jangada de tudo inventa horizontes como se tivesse hoje todos os ontens.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.