A terra não é azul Camarada Gagárin tú é que esquecestes a tinta para pintar de rubro esses teus óculos de astronauta. Onde estará gravada a cor indefinida dos explorados de minha pátria? Onde estarão grafadas as palavras de rosa do teu povo?
Fora azul, por certo talvez por certos mares em que navios singram os homens com a desfaçatez da cobiça e a inconstância dos ares
fora azul, entretanto, não conteria os matizes do meu espanto em ver irmãos cavalgando a fome como se fosse naus sem horizontes
fora azul, todavia, não teria, certamente, essa cor indivisível dos martírios das gentes
a terra não é azul Camarada Gagárin onde estarão trançadas as mágoas avaras dessa gente que, poucos, vivem a razão de sobreviventes de viventes
fora azul, malfadadamente, não conteria a mística fruição de tudo que não é de repente antes teria a contrafação à tudo que não é dizente e que rola no peito dos homens como matéria inconsequente
fora azul, Gagárin, não habitaria teus olhos com a fartura das correntes que, assim rios, inventam as manhãs como um tempo diferente ainda que escondam noites no coração desses viventes
fora azul, talvez, não tivesse a contextura de uma democracia com um quê de ditadura que prende o sonho em teias espalhadas nos vãos das ruas
a terra não é azul, Camarada Gagárin, antes fosse branca como a certeza de que a ética é um ofício de permanente natureza que teima em ser do homem apesar de toda incerteza
fora azul, assim à meias, não havia de ser inteira como o canto infinito de todas as lavadeiras que ainda lavam nos rios os rios em que vagueiam
fosse azul, meu camarada, não teria a consequência de ter todas as cores postas na consciência das cores que levam um jeito um certo quê de descrença
fosse azul, assim equânime, não haveria essa África e o gesto que infinitam a noirte desses homens que creem mais nessa noite que na eficiência do abdômen porquanto nem seja clara da desfaçatez da fome
fosse apenas azul, Camarada Gagárin, como escutar o grito de quem ainda há de? Como sonhar essa manhã que chega quando a gente tarde?
Ainda bem, Camarada Gagárin, que guardadas estão numa luta as cores variadas da verdade a devida proporção e memória do grande tempo da liberdade.
105
Das militares reservas da continência
O soldado em posição de sentido nem se apercebe das continências da vida
atiça-lhe o patriotismo o sistema em descanso e uma falsa impressão de conjunção de planos
a farda é só uma bandeira das aparências e dos enganos.
145
Vigência
no meio de mim, impunemente, tudo é sempre.
148
Do pincel e do artista em resumida prosa
O pincel nem sabe que a cor é um verbo em que desaba e inventa desenhos e discursos no colo das palavras não as das letras mas as da alma
o pincel é só um transeunte das encruzilhadas do artista aquelas que ele inventa e as que estão na sua vida
é que o pincel é microfone dos comícios tonais de sua lida.
125
Da passeata no vão da crise
A luta bruta sua a praça com suores e verbos, andarilhos e astronautas montados no sonho urgente de abraçar a pátria
a luta consome as léguas de povo que adredemente prolata costurando os verbos da vida no peito infante da massa
e o grito da multidão ecoando pelas marquises é a construção escalonada das arquiteturas da crise.
157
Da ética fração da vida
Princípios são a correnteza dos rios que permito melhor cabe-los impunes no meio do meu riso
princípios há que tê-los tão a prumo como se fossem asas do meu rumo
princípios há que mantê-los como pássaros contritos na imensidão humana dos sentidos.
131
Dilema filosófico de reparação
O absoluto é tão relativo que nem precisa ser fato para decretar-se vivo
foge-lhe da razão a condição avara de apenas poder sê-lo onde o infinito acaba
é que o absoluto é quase assim só um trejeito da alma.
143
À guisa de haicai
entre mim e a paisagem dói a tarde.
104
Versos ao sol sustenido menor
assim composto tens na pauta a mesma compleição da madrugada e te revelas e te resvalas como uma garça impune pela salas
e caças a mim desenfreado eu transposto em som nessa estranha matemática que me prega na pauta de todas as minhas mágoas
a música é só a fala das engrenagens da alma.
83
Da esperança em tons
No sono a saudade do futuro alinhava um tempo que discurso
é como se fora um rio sem curso tudo que lhe leva é meu impulso e a certeza de tê-lo tempo de todos os usos a luta é somente combustível de todos os futuros.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.