Se o todo é parte o infinito é só disfarce que a vida teima em dar nas léguas em que se bate
o todo é só sentir os metros todos do que tarda e dos infinitos mais afoitos dos mares em que se nada
a infinitude é só uma brisa nas jangadas da alma.
111
A vida em descampados
E no meio do descampado como se fora um repente a vida parece um sonho atravessando a gente.
95
Palavras ao Camarada Gagárin
A terra não é azul Camarada Gagárin tú é que esquecestes a tinta para pintar de rubro esses teus óculos de astronauta. Onde estará gravada a cor indefinida dos explorados de minha pátria? Onde estarão grafadas as palavras de rosa do teu povo?
Fora azul, por certo talvez por certos mares em que navios singram os homens com a desfaçatez da cobiça e a inconstância dos ares
fora azul, entretanto, não conteria os matizes do meu espanto em ver irmãos cavalgando a fome como se fosse naus sem horizontes
fora azul, todavia, não teria, certamente, essa cor indivisível dos martírios das gentes
a terra não é azul Camarada Gagárin onde estarão trançadas as mágoas avaras dessa gente que, poucos, vivem a razão de sobreviventes de viventes
fora azul, malfadadamente, não conteria a mística fruição de tudo que não é de repente antes teria a contrafação à tudo que não é dizente e que rola no peito dos homens como matéria inconsequente
fora azul, Gagárin, não habitaria teus olhos com a fartura das correntes que, assim rios, inventam as manhãs como um tempo diferente ainda que escondam noites no coração desses viventes
fora azul, talvez, não tivesse a contextura de uma democracia com um quê de ditadura que prende o sonho em teias espalhadas nos vãos das ruas
a terra não é azul, Camarada Gagárin, antes fosse branca como a certeza de que a ética é um ofício de permanente natureza que teima em ser do homem apesar de toda incerteza
fora azul, assim à meias, não havia de ser inteira como o canto infinito de todas as lavadeiras que ainda lavam nos rios os rios em que vagueiam
fosse azul, meu camarada, não teria a consequência de ter todas as cores postas na consciência das cores que levam um jeito um certo quê de descrença
fosse azul, assim equânime, não haveria essa África e o gesto que infinitam a noirte desses homens que creem mais nessa noite que na eficiência do abdômen porquanto nem seja clara da desfaçatez da fome
fosse apenas azul, Camarada Gagárin, como escutar o grito de quem ainda há de? Como sonhar essa manhã que chega quando a gente tarde?
Ainda bem, Camarada Gagárin, que guardadas estão numa luta as cores variadas da verdade a devida proporção e memória do grande tempo da liberdade.
105
Do caminho grávido das manhãs do povo
ao povo e ao mundo dê-se a sintonia um farfalhar intenso das veias e das vias
porque de entendê-la como construída salpiquem-se os fatos com o tempero da vida
e os combates, ao fundo, sejam apenas o sinal de que a manhã enfeitou-se dos acordares do mundo.
105
Do ofício e das horas
cabe ao poeta engolir as madrugadas e amanhecer o verbo no peito das palavras cabe ao poeta a estranha lida de construir andaimes nos sonhos que exercita cabe ao poeta insurgir a vida e praticar rebeliões sob medida cabe ao poeta alinhavar o tempo e caminhar pelas calçadas impunemente cabe ao poeta ser quase marinheiro e navegar as âncoras gerais que se cravam no peito cabe ao poeta promover os sábados à condição de domingos e distribuir horas de riso como gerente dos sentidos cabe ao poeta não se pentear a não ser em espelhos que apenas comente sua face cabe ao poeta abster-se da morte à tarde e nunca morrer sem verbo que lhe resguarde cabe ao poeta os infartos não os do corpo mas os da alma cabe ao poeta todo discurso que não sendo palavra tenha lógica mais justa cabe ao poeta guardar a outra face e tanger a noite do mundo com seu grito de liberdade cabe ao poeta viver cedo mesmo tarde.
103
Do coração em regras e repiques
praça de guerra meu coração permite a contrição e a fartura de todos os limites é que de usá-lo avesso ao que em mim insiste possa traze-lo avante a tudo que é triste e descompassá-lo amiúde nos desvãos da vida como uma razão adrede, avulsa e infinda
meu coração é apenas indício da contradição do seu ofício: amar a longo curso como se fora pouco o infinito
107
Poema ambiental
Toda árvore acima de tudo é uma bandeira hasteada no peito urgente do mundo
e assim tremulando é uma cachoeira latente que inventa a vida do povo nos pulnões que se consentem em ser fábricas de risos nas matas todas da gente
toda árvore, em suma, é uma súmula cogente.
157
De tempo e de vezes
no meio da alma e dos ventos voam meus ancestrais nas palavras do tempo
tudo que havia deles como um mapa indeciso hoje cabe indócil no jeito do meu riso
e é por sê-los e tê-los assim que sempre me admito como uma alma intensa adredemente infinita.
152
Da verdade em rompante estrito
A verdade é sempre elástica tudo que lhe mede é a prática
a dúvida é só um modo de torná-la plástica
montá-la pela história é divertimento da alma.
177
Discurso em avante afeto
A pedra no meu peito tem a largura do teu grito e voa e rasga a manhã montada em meu sorriso
a graça do meu peito é ser teu abrigo e armazenar todos os abraços uns musculares, outros implícitos
a estrela da manhã é teu indício guardadas as infinitas proporções em que te sinto
e ao fim e ao cabo és, assim, tão constantemente, que tudo é um verbo tenaz de explicar o que se sente.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.