Princípios são a correnteza dos rios que permito melhor cabe-los impunes no meio do meu riso
princípios há que tê-los tão a prumo como se fossem asas do meu rumo
princípios há que mantê-los como pássaros contritos na imensidão humana dos sentidos.
133
Das dosagens humanas em africanos moldes
Minha raça é o povo e a constatação inequívoca de que a África habita, como uma bandeira enorme, os recônditos da vida
trazê-la em braços,pelos caminhos é só um jeito, uma medida, de quem a traz pelas ruas como uma festa coletiva
tudo do que é humano é memória das áfricas da vida.
138
Do verso em razões
antigo meu verso não diz mais do que eu consigo é que dizê-lo tanto é mais indício de que a palavra é sempre um precipício onde descambam verbos e infinitos
contrito meu verso nunca é mais do que eu digo é que lhe falta o jeito e a prática de ser mais explícito coisa de ser palavra que diga mais do que é preciso
baldio meu verso inaugura espaços e tempos e nem cuida das permanências da vida e das distâncias da rua antes é mais avulso que as primaveras um tempo incontido de descuidos e esperas
invicto meu verso derrota as mágoas que entorno em minhas portas como se fosse um vendaval de verbos incontidos que palmilhassem comigo todos meus sentidos
transeunte meu verso caminha aos solavancos como se fora um barco num mar de espantos navegante de si adredemente se conjuga aos gritos das praças aos ruídos da luta
enfim, meu verso nunca é mais do que eu digo é que palavras só viajam na constância dos sentidos.
99
De amores em circunlóquio
meu amor é público como as ruas de leningrado e nem é tão pouco que não se diga largo por cabe-lo tanto en tudo que eu ajo
meu amor é geométrico em progressão incauta e tanto lhe faz ser bicho como astronauta
meu amor é louco pelo que lhe arma e mais anda quando se infinita com o que me sobra pela alma.
106
Ao povo
o povo não contém a lua mas há vários sóis no meio da rua
o povo não se individua apenas se divide entre o que está posto e o que não atua
o povo diz-se em cordas nós que desatam todas as horas
não lhe cabe a desculpa de ser apenas um no meio da luta pois agregado numa compleição infinda nada lhe resta da culpa indivídua e restrita
o povo não se conjuga verbo subversivo não lhe cabe o modo antes se explicita como se fora uma verdade que precisa ser dita
não trai no seu gesto qualquer melodrama o povo é um amor que nem se ama pois para cabe-lo numa proporção restrita era preciso desfazê-lo de sua força infinita e trança-lo em peitos avulsos por sobre os descaminhos e encontrar todos os passos do seu desalinho
o povo nunca cogita do que não disse apenas todas as palavras estão em riste e por contê-las tantas no vão da vida sobra-lhe o infinito como medida
o povo deve ser apenas a régua da vida.
156
Palavras ao Camarada Gagárin
A terra não é azul Camarada Gagárin tú é que esquecestes a tinta para pintar de rubro esses teus óculos de astronauta. Onde estará gravada a cor indefinida dos explorados de minha pátria? Onde estarão grafadas as palavras de rosa do teu povo?
Fora azul, por certo talvez por certos mares em que navios singram os homens com a desfaçatez da cobiça e a inconstância dos ares
fora azul, entretanto, não conteria os matizes do meu espanto em ver irmãos cavalgando a fome como se fosse naus sem horizontes
fora azul, todavia, não teria, certamente, essa cor indivisível dos martírios das gentes
a terra não é azul Camarada Gagárin onde estarão trançadas as mágoas avaras dessa gente que, poucos, vivem a razão de sobreviventes de viventes
fora azul, malfadadamente, não conteria a mística fruição de tudo que não é de repente antes teria a contrafação à tudo que não é dizente e que rola no peito dos homens como matéria inconsequente
fora azul, Gagárin, não habitaria teus olhos com a fartura das correntes que, assim rios, inventam as manhãs como um tempo diferente ainda que escondam noites no coração desses viventes
fora azul, talvez, não tivesse a contextura de uma democracia com um quê de ditadura que prende o sonho em teias espalhadas nos vãos das ruas
a terra não é azul, Camarada Gagárin, antes fosse branca como a certeza de que a ética é um ofício de permanente natureza que teima em ser do homem apesar de toda incerteza
fora azul, assim à meias, não havia de ser inteira como o canto infinito de todas as lavadeiras que ainda lavam nos rios os rios em que vagueiam
fosse azul, meu camarada, não teria a consequência de ter todas as cores postas na consciência das cores que levam um jeito um certo quê de descrença
fosse azul, assim equânime, não haveria essa África e o gesto que infinitam a noirte desses homens que creem mais nessa noite que na eficiência do abdômen porquanto nem seja clara da desfaçatez da fome
fosse apenas azul, Camarada Gagárin, como escutar o grito de quem ainda há de? Como sonhar essa manhã que chega quando a gente tarde?
Ainda bem, Camarada Gagárin, que guardadas estão numa luta as cores variadas da verdade a devida proporção e memória do grande tempo da liberdade.
106
Reverso
O contrário de mim sou eu mesmo e é por sê-lo assim que me transgrido e deixo de ser meu avesso na exata proporção em que estou comigo
o contrário de mim não é um avesso é uma proporção incauta em que transfiro de mim o que nem falta
o contrário de mim é tão urgente que não há como mantê-lo impunemente
o contrário de mim desabita o próximo com as intimidades de um tempo em que me mostro.
132
Desrazão
Minha razão é quase um não com um sim atravessado é metro desconforme é légua controlada é fração informal é infinito contado e chove no meu juízo como um rio ordenado fluindo do seu mister de ser riso encantado.
98
Pequena ode à transgressão da ordem
Nenhuma bala cala o que vai dentro da alma. A idéia é plástica salta nos ombros de quem a lavra e cai no jeito do povo como palavra. E, assim, verbo admite-se na alma coletiva que transmite e flui em rios de amor na exata proporção do que se lute e grite.
107
Ode aos meus possíveis
Meus complexos não os meço melhor cabe-los todos no meu verso
e sempre os trago à algibeira guardados inúteis como brincadeira
e mesmo que a noite os entenda eu os deixo pela madrugada pendurados numa alma que me contenha.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.