AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

Da ética fração da vida

Princípios
são a correnteza
dos rios que permito
melhor cabe-los impunes
no meio do meu riso
 
princípios
há que tê-los
tão a prumo
como se fossem asas
do meu rumo
 
princípios
há que mantê-los
como pássaros contritos
na imensidão humana
dos sentidos.
133

Das dosagens humanas em africanos moldes

Minha raça é o povo
e a constatação inequívoca
de que a África habita,
como uma bandeira enorme,
os recônditos da vida
 
trazê-la em braços,pelos caminhos
é só um jeito, uma medida,
de quem a traz pelas ruas
como uma festa coletiva
 
tudo do que é humano
é memória das áfricas da vida.
138

Do verso em razões

antigo
meu verso não diz mais
do que eu consigo
é que dizê-lo tanto
é mais indício
de que a palavra é sempre
um precipício
onde descambam verbos
e infinitos
 
contrito
meu verso nunca é mais
do que eu digo
é que lhe falta o jeito
e a prática
de ser mais explícito
coisa de ser palavra
que diga mais
do que é preciso
 
baldio
meu verso inaugura
espaços e tempos
e nem cuida
das permanências da vida
e das distâncias da rua
antes é mais avulso
que as primaveras
um tempo incontido
de descuidos e esperas
 
invicto
meu verso derrota
as mágoas que entorno
em minhas portas
como se fosse um vendaval
de verbos incontidos
que palmilhassem comigo
todos meus sentidos
 
transeunte
meu verso caminha
aos solavancos
como se fora um barco
num mar de espantos
navegante de si
adredemente se conjuga
aos gritos das praças
aos ruídos da luta
 
enfim,  meu verso nunca é mais
do que eu digo
é que palavras só viajam
na constância dos sentidos.
99

De amores em circunlóquio

meu amor é público
como as ruas de leningrado
e nem é tão pouco
que não se diga largo
por cabe-lo tanto
en tudo que eu ajo
 
meu amor é geométrico
em progressão incauta
e tanto lhe faz ser bicho
como astronauta
 
meu amor é louco
pelo que lhe arma
e mais anda quando se infinita
com o que me sobra pela alma.
106

Ao povo

o povo
não contém a lua
mas há vários sóis
no meio da rua
 
o povo
não se individua
apenas se divide
entre o que está posto
e o que não atua
 
o povo
diz-se em cordas
nós que desatam
todas as horas
 
não lhe cabe a desculpa
de ser apenas um
no meio da luta
pois agregado
numa compleição infinda
nada lhe resta da culpa
indivídua e restrita
 
o povo
não se conjuga
verbo subversivo
não lhe cabe o modo
antes se explicita
como se fora uma verdade
que precisa ser dita
 
não trai no seu gesto
qualquer melodrama
 o povo é um amor
que nem se ama
pois para cabe-lo
numa proporção restrita
era preciso desfazê-lo
de sua força infinita
e trança-lo em peitos avulsos
por sobre os descaminhos
e encontrar todos os passos
do seu desalinho
 
o povo nunca cogita
do que não disse
apenas todas as palavras
estão em riste
e por contê-las tantas
no vão da vida
sobra-lhe o infinito
como medida
 
o povo deve ser apenas
a régua da vida.
156

Palavras ao Camarada Gagárin

A terra não é azul
Camarada Gagárin
tú é que esquecestes a tinta
para pintar de rubro
esses teus óculos de astronauta.
Onde estará gravada
a cor indefinida dos explorados de minha pátria?
Onde estarão grafadas as palavras de rosa
do teu povo?
 
Fora azul, por certo
talvez por certos mares
em que navios
singram os homens
com a desfaçatez da cobiça
e a inconstância dos ares
 
fora azul, entretanto,
não conteria os matizes
do meu espanto
em ver irmãos cavalgando a fome
como se fosse naus
sem horizontes
 
fora azul, todavia,
não teria, certamente,
essa cor indivisível
dos martírios das gentes
 
a terra não é azul
Camarada Gagárin
onde estarão trançadas
as mágoas avaras dessa gente
que, poucos, vivem a razão
de sobreviventes de viventes
 
fora azul, malfadadamente,
não conteria a mística fruição
de tudo que não é de repente
antes teria a contrafação
à tudo que não é dizente
e que rola no peito dos homens
como matéria inconsequente
 
fora azul, Gagárin,
não habitaria teus olhos
com a fartura das correntes
que, assim rios, inventam as manhãs
como um tempo diferente
ainda que escondam noites
no coração desses viventes
 
fora azul, talvez,
não tivesse a contextura
de uma democracia
com um quê de ditadura
que prende o sonho em teias
espalhadas nos vãos das ruas
 
a terra não é azul,
Camarada Gagárin,
antes fosse branca como a certeza
de que a ética é um ofício
de permanente natureza
que teima em ser do homem
apesar de toda incerteza
 
fora azul, assim à meias,
não havia de ser inteira
como o canto infinito
de todas as lavadeiras
que ainda lavam nos rios
os rios em que vagueiam
 
fosse azul, meu camarada,
não teria a consequência
de ter todas as cores
postas na consciência
das cores que levam um jeito
um certo quê de descrença
 
fosse azul, assim equânime,
não haveria essa África e o gesto
que infinitam a noirte desses homens
que creem mais nessa noite
que na eficiência do abdômen
porquanto nem seja clara
da desfaçatez da fome
 
fosse apenas azul, Camarada Gagárin,
como escutar o grito de quem ainda há de?
Como sonhar essa manhã
que chega quando a gente tarde?
 
Ainda bem, Camarada Gagárin,
que guardadas estão numa luta
as cores variadas da verdade
a devida proporção e memória
do grande tempo da liberdade.
106

Reverso

O contrário de mim
sou eu mesmo
e é por sê-lo assim
que me transgrido
e deixo de ser meu avesso
na exata proporção
em que estou comigo
 
o contrário de mim
não é um avesso
é uma proporção incauta
em que transfiro de mim
o que nem falta
 
o contrário de mim
é tão urgente
que não há como mantê-lo
impunemente
 
o contrário de mim
desabita o próximo
com as intimidades de um tempo
em que me mostro.
132

Desrazão

Minha razão
é quase um não
com um sim atravessado
é metro desconforme
é légua controlada
é fração informal
é infinito contado
e chove no meu juízo
como um rio ordenado
fluindo do seu mister
de ser riso encantado.
98

Pequena ode à transgressão da ordem

Nenhuma bala
cala
o que vai
dentro da alma.
A idéia é plástica
salta nos ombros
de quem a lavra
e cai no jeito do povo
como palavra.
E, assim, verbo
admite-se
na alma coletiva
que transmite
e flui em rios de amor
na exata proporção
do que se lute e grite.
107

Ode aos meus possíveis

Meus complexos
não os meço
melhor cabe-los todos
no meu verso
 
e sempre os trago
à algibeira
guardados inúteis
como brincadeira
 
e mesmo que a noite
os entenda
eu os deixo pela madrugada
pendurados numa alma
que me contenha.
72

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado