Não se enquadre o fato de o homem parecer-se resoluto com qualquer dessemelhança entre sua prática e seu discurso
é que retorne sempre ao tudo o quanto só se foi do nada somadas todas as esperanças do que se gastou nas madrugadas
e, enfim, conte-se pelos dias que restaram no peito dos viventes tudo que se construiu tão amiúde no transcurso de todos seus repentes.
125
De tempo e de vezes
no meio da alma e dos ventos voam meus ancestrais nas palavras do tempo
tudo que havia deles como um mapa indeciso hoje cabe indócil no jeito do meu riso
e é por sê-los e tê-los assim que sempre me admito como uma alma intensa adredemente infinita.
150
Das andaduras do tempo
Do século passado trago-me infante ao futuro com as dúvidas nas mãos e as certezas no discurso
nada do tempo me limita e invade palavras são atos diagramados na vontade
resta encostar os verbos nos atos da liberdade.
110
Da extrema condição da vida
Ao Camarada Moses Mabida
Na cordilheira dos andes brutalmente descansada eu vi a noite que trazias arquivada no vão da tua face
eu vi a imensa pedra derramar-se incontrolada nos ombros de minhas pupilas nos olhos de minha mágoa
eu vi meus irmãos negros destravando a madrugada na mesma peripécia insone com que os povos lavram a alma
eu vi no colo das serras os verbos que ainda não temos e sonhos que de tão sonhados estavam gastos de paciência eu vi o grito de Neruda espalhar-se por inteiro e construir todos os vãos desde Manágua até Soweto
eu vi a fímbria da tarde descrever esquinas no meu peito e me propor ângulos tão vastos quanto a extensão dos meus desejos.
127
Poema ao povo de Gregório Bezerra
o coração, camarada, é um cigano desgarrado que ainda pulsa a vida apesar dos fardos
o povo, camarada, ainda arranha o futuro com a persistência do tempo e a insistência do discurso
a revolução, camarada, ainda é jeito apressado de esparramar a verdade nesse imenso descampado.
143
Palavras ao Camarada Maia no fragor da luta
Quantos vulcões restarão na tua boca que ainda cuspiremos a vida em tão extremo desconforto?
assim renhido na batalha tanta quem adivinhar te possa a esperança?
és um inifinitivo que ninguém alcança convulsa a realidade enrolada em suas tranças.
112
Do desmazelo temporal do medo
Nunca é tarde para dizer o que é cedo à história, às vezes, é um disfarce do medo e o tempo inventa porções para demorar seus atropelos
ao homem cabe gritar e construir seu enredo.
127
Das ranhuras de tudo
A vida é uma morte invertida tudo que em uma sobra na outra é mantida
é que não há condição de tê-las divididas tudo que em uma medra na outra é desmedida
a síntese de todas é a própria vida uma morte paulatina quase consentida.
139
De caminhos e outros tais
Nos andares de minha patria descabem quase de si uns tantos milhões de passos que não passam por ali caminham por sobre muros na alma assim declarados e nem disfarçam o futuro do que ficou no passado
nos muros de minha terra há um grito disfarçado que trava o peito do homem como se for a um arado que rasgasse a alma do tempo como um imenso pecado.
161
Discurso em avante afeto
A pedra no meu peito tem a largura do teu grito e voa e rasga a manhã montada em meu sorriso
a graça do meu peito é ser teu abrigo e armazenar todos os abraços uns musculares, outros implícitos
a estrela da manhã é teu indício guardadas as infinitas proporções em que te sinto
e ao fim e ao cabo és, assim, tão constantemente, que tudo é um verbo tenaz de explicar o que se sente.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.