Procissão
a santa
posta em andor, refém,
avança a procissão
com ares de trem
os trilhos,
postos nas cabeças,
desobedecem as retas
nas curvas da consciência
a santa, nos ombros que a levam,
derrama milagres pela calçada
com seu disfarce de pedra
Poema em navegação aberta
o poema
envergonhado
afaga a América
em seu latino salto
deixa-se militante
em seu panfleto
livre do eu lírico
contrafeito
o poema apenas dorme
a forma em seus trejeitos
como se fora um bólide
dos conteúdos do peito
Humana natureza em pensante correr
a natureza,
posta em consciência,
da-se no homem
como presença
flui como estranha,
incauto movimento,
no apartar-se de si
pelo pensamento
os verbos nem percebem
esse enganar-se no tempo
Dos olhares grávidos
no vão dos olhos
a imagem delata
os flagrantes avisos
dos vincos da alma
o pulsar da vista
nos desvãos do tempo
alinhava um amor
no pensamento
e flui em verbo pela boca
como um convite ao sentimento
Dos locais históricos da fala
no lugar da fala
consciência em vagas
de todos os cânticos
da palavra
as que teimam ouvir-se
as que partem da alma
largas estradas da vida
remoendo verbos pelas horas
como uma usina estendida
plantada nas costas da história
do verso em mim adredemente
dou-me ao verso
como recato
esse guardar o rumo
das letras do fato
e quando avesso
cavalga meu juízo
guarda em meu peito
pequenos infinitos
no descampado de mim
o verso é só um tempo
de sentir a vida correndo
e apalavrar o sentimento
Do sonhar como futuro
durmo as noites
como dias exaustos
em que me debruço no tempo
com ganas de astronauta
o sonho arquitetado
nas curvas do que durmo
é só um repetido recado
das coisas do futuro
sonhar é construir a vida
em cada caminho de tudo,
nos dias que sejam claros,
nas noites todas do mundo
Comício em acelerado canto
a multidão
entoando versos
canta o futuro
em cada gesto
as vozes
como serpentinas
balançam a história
em cada rima
a multidão é o artefato
dos tempos que oficina
Da lógica retilínea da fome
a lógica engenheira,
posta em riste,
espalha razões
pelas marquises
alinhadas em prumo
em grave continência
cobrem, exatas, a fome
de retilíneos viventes
da marquise que vestem
com suas magras andaduras
nem percebem os cifrōes
e a palidez inata das ruas
Citadina vazão em concreta forma
debruçado na vida
em largo sobressalto
o homem vê-se natureza
derramada pelo asfalto
os edifícios em marcha
tangem o espaço
em imobiliárias razōes
dos cifrōes amealhados
a fome veste o tempo
em humanos concretos
na passeata geral de si
num faminto manifesto
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.