Lista de Poemas

Marighella em ondas recorrentes

Carlos Marighella
debruçado na rua
é uma bandeira exata
do sentido da luta

morto, 
vive tão profundamente
que nem se apercebe
das vidas que consente

Marighella é um mar
de ondas recorrentes
138

Da África em resumido propósito

negra
a áfrica pontifica
desde a origem
o universo humano da vida

solta pelas faces
em continentes vestígios
resume o gosto da terra
espalhado nos sentidos

a África é um pedaço vivo
de todos os humanos infinitos
 

132

Do amor em valsa induzida e permanente

nas brechas dos bemóis,
na valsa, mansamente,
o amor fustiga os sentidos
em ondas recorrentes

nada da noite adormece,
e nos passos, assim jogados,
o tempo ondula os sentimentos
na amplitude exata do abraço

a valsa é só complemento
das notas que criamos pelas faces
174

Temporais ataques em gestão perene

aos recados do tempo,
impostos com insistência,
há como avançar
os drones da paciência

é que assim deflagrados
nos veios da liberdade
transmudam todos os ritmos
dos dias e dos enfados

e se alojam em agoras
grávidos de futuros compassados
222

da saudade como lapso de tempo

a saudade
é só um distrato
entre o presente
e o passado

tudo que foi 
preenche na mente
as curvas de um agora
vazio e reticente

o desejo de vivê-lo
é um recado recorrente
169

Das lavraturas do poema em roçados aparentes

assim lavrado
no eito das palavras
o poema é um roçado
nos canteiros da alma

flui tão desenfreado
pelas bordas da consciência
como um rio encantado
que desemboca de repente

o poema é um recado
bordado dentro da gente
ao poeta cabe colhe-lo
e bebe-lo como semente
108

Legislativa decretação do futuro

no artigo primeiro
fica decretado:
todos os humanos
serão abraçados

e em parágrafo,
único, como instituto,
diga-se desse abraço
a amplitude de seu custo

no artigo segundo,
fique assim definido
tudo será de todos
em todos os sentidos
131

Paisagem III

o sertão adormece
como um abraço ardente
que aquece o coração
de quem lhe sente

o sol, pela terra,
traindo sua insônia,
acorda nos cactos e tange
os horizontes que sonha

o sertão é só um aviso
da parcimônia das sombras
260

Infantes jornadas em sonolento acinte

a calçada 
rasga a carne
no sono intransigente
da cidade

o menino
coberto de papéis
bebe o frio da noite
nas letras dos jornais

o mundo ressona podre
as vergonhas em que jaz
170

À guisa de samba em bemóis verbais

no meio da noite desatado
como uma cachoeira incontida
o samba acorda a madrugada
enchendo de favela a avenida 

e o surdo cantando pelo vento
imita os corações em seu compasso
tamborins entoam seus lamentos
voando nas mãos todos seus pássaros 

o samba é um comício recorrente
da vontade de todos os abraços
160

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.