O ANDARILHO
Cala-te se não sabes dizer, apenas ouça para aprender dos grandes, dos sábios, dos notórios, dos ilustres, mas cuidado com os embustes!
Aguce os sentidos, não fique aí perdido, paralisado, aturdido, ouça, anote e grave tudo o que te edifica, mas cuidado com os embustes, eles te complicam.
- Boa tarde seu moço! Donde vem dessa feita? Perguntou um senhor curioso que sempre observava muito ansioso um andarilho a passar em sua cidade sempre a perambular.
- Respondeu o andarilho: boa tarde! Vagando por este país onde não criei raiz em lugar nenhum, de caminho a caminho, cidades a cidades sou apenas mais um. Neste mundo me tornei um vagabundo sem valor algum.
- Mas por que essa vida? Se podes ter uma dignidade ao invés de vagar de cidades a cidades? Me desculpe as curiosidades, mas sou intrigado, sei que tem gente por todo lado, mas se continuar assim um dia estará acabado, veja o seu estado.
- Sim senhor, eu fui imprudente quase estou demente não tenho semente, tampouco me vejo junto as gentes. Meu mundo é vazio de dores e frio, meu olhar é sombrio que dá calafrios se fitam a minha face frente a frente.
- Sim, isso eu não consigo, pois mais parece um mendigo, tem semblantes caídos, traços perdidos em um corpo sofrido, pelo que tenho visto são pavores vividos. Em tantas andanças não tem esperanças?
- As minhas esperanças ficaram perdidas há muito tempo, estou vivo, mas não sei se morro por tantos espantos que me apavoram, pois toda a sorte a minha alma e o meu espírito ignoram, meus olhos choram lagrimas de dor, não sei o que é o amor.
- Sei que não cabe mais me responder, mas queria saber o por que dessa vida perdida? Por tantas andanças sem encontrar nenhuma guarida, porquê te vejo sempre por aqui passar e nunca parar, somente continuar o seu caminho trilhar.
- Deixei-me levar pelo mal, era um ser humano normal, fui fraco provei o que não devia. Foi droga, foi álcool, eu fumava e bebia, então num dito dia me pus no mundo a perambular sem rumo, perdi o prumo, pois fui sugado pelos vícios danados que me levaram acorrentado.
- Hoje isto tudo me corrói, pois nada de bom em mim se constrói, me esforço, luto, combato, como se fosse ao vento, vivendo ao relento eu tento, mas o que planto logo que nasce se destrói, isto muito me dói, mas a frieza drenou os meus sentimentos, todos eles foram levados aos ventos.
- Queria parar com estas andanças, ter de volta a minha dignidade, minha família não tem mais esperanças, por eu viver assim de cidades a cidades, eu sei que tudo isto é castigo, não duvido, pois pratiquei muitas maldades.
- Há muitos anos vivo desta maneira, eu mesmo sou testemunha por tanta loucura, se ainda não morri já encerraram a sepultura, que aberta me esperava com a boca em sua largura.
- Já estive em prisões por estes mundões, testemunhei confusões, vi a morte a milhões, minha alma nas mãos de miseráveis vilões. Que assim como eu, quem matou não morreu, todavia sofreu e pagou as duras penas na angústia fria.
- O que me diz me assombra, já estou sem palavras, de um ser humano nunca se zomba sem saber os motivos que os levaram às sarjetas, imaginava que fosse apenas mais um escorado em muletas, por ter escolhido essa vida sem responsabilidades afetas.
- Não meu senhor, eu não quis isto pra mim, há muito imaginava ser o meu fim, que não havia mais esperanças no ar em que eu pudesse me agarrar e nunca mais soltar, mas pensei, que por tudo o que já passei, o morto-vivo que andei, e ainda respiro, nem que seja no último suspiro por redenção eu clamarei.
- Agora não mais partirei, por aqui ficarei e esperarei o meu fim, tenha certeza nunca mais me verá nesta cidade passar como antes me via, sentado nessa cadeira à beira da estrada como se fosse um vigia, pelo jeito o que eu vejo, o senhor é aposentado e está regalado pelo que foi trabalhado ano a ano contado.
- Eu estou malfadado, não tenho recursos, sou de meia idade, beirando a velhice, mas vendo meu estado mais pareço um ancião em plena caduquice, tudo isto por causa de tantos anos vagando, caminhando, e mal alimentando.
- Pois então companheiro, se ficará por aqui te desejo boa sorte, que o Deus dos Céus te aparte da morte, te dê um norte, te arranque a fraqueza e te faça forte, e redima seus pecados. Ficarei satisfeito se eu vê-lo com todo respeito despido e lavado desses trajes esfarrapados, e bem alimentado.
- Pode deixar meu senhor, estarei me esforçando com todo labor, pra endireitar meus caminhos, mesmo vivendo sozinho, sem recursos e no dissabor das minhas tristezas, vejo luzes acesas que me dão a esperança de ainda encontrar neste lugar aceitável bonança.
Em toda esta conversa não se apresentaram, seus nomes não se revelaram, aquele senhor ficou maravilhado por saber do estado daquele andarilho malfadado, que para ele era apenas mais um que escolheu a vida vadia, sem responsabilidades, pois nada de bons frutos recolheu dia após dia andado de cidades a cidades. Enquanto que o andarilho ficou tão satisfeito, por ter tido o respeito daquele senhor, que com coragem o indagou sobre a sua vida vazia e por que aquilo fazia vagando à própria sorte se entregando à morte que ainda não o queria.
SERÁ ELA NOVAMENTE?
Tudo me leva a crer que será ela a dona do meu coração que veio para ficar eternizada em mim, porquê quanto mais o tempo passa, mais a imagino cheia de graça com o perfume das flores, envolta comigo, me enchendo de amores nos lençóis de seda vermelho-carmesim.
Estou muito otimista, tendo em vista a grandeza dos meus sentimentos, que a espero na lógica dos reais fundamentos da paz, da luz e da alegria de viver, num verdadeiro ato de se enternecer, em um lar acolhedor e afetivo onde a transformação seja todo o motivo para se apegar e amar.
Quando a vejo, a sinto em meu coração, e busco uma razão para o sentimento maior, que será ela a senhora da minha vida, que me dará valor e a dona do meu querer com sabedoria, e singela, tão pura, santa e mais bela, que reinará sobre mim nesta vida, numa só comunhão a minha esposa mais querida.
O OPOSTO DO PROPOSTO
Descobri que o seu desgosto é o oposto do proposto, duas faces em um rosto, sem disfarces e preposto. De janeiro a agosto vai buscando pressuposto antes de dezembro chegar, antes que finde o ano para a razão não encontrar. Se se opõe a si mesmo como pode ir a esmo nessa vida triunfar, levante essa cabeça jogue fora essa tristeza e comece a caminhar, se não der a cara a tapas não vencerá as etapas pelas quais tem que passar. Duas faces em um rosto, ser ou não ser, se não sabes o que queres, vai logo aprendendo o que é mister a escolher. Do proposto não seja oposto, vire o rosto, deixe as faces tomarem gosto porquê já não tem mais agosto e dezembro chegará e passará, assim será mais um ano que se foi e as oportunidades que se vão e tudo acabará como antes ante tanta indecisão.
A CASA DE CERA
A casa era de cera em formato de pera, que grande era ela não tinha janela, mas morávamos nela. Eu, meu irmão, e minha mãe, lá na favela, quando o nosso pai nos deixou bagatela.
Mas que loucura era aquela! Não havia energia lá na favela, na casa à noite não se acendia vela, pois ela era de cera, fogo nem ver, já dizia minha mãe: cuidado para esta casa não se derreter.
O mais engraçado é que não ficávamos no escuro, haviam sempre pirilampos nos iluminando, piscando suas luzes eu juro, parecia magia e enxergávamos tudo como se fosse de dia.
As paredes eram macias e pegajosas, eu e meu irmão escondíamos nelas, brincando de polícia e ladrão, enquanto nossa mãe no trabalho permanecia a buscar com o seu suor o nosso pão, na labuta de cada dia.
Quanta alegria eu sentia naquela casa, mas num dia de sol escaldante, a nossa moradia de cera em forma de pera não suportou o calor sufocante e começou a se derreter incessantemente.
Saímos correndo, deixamos tudo para trás, vendo a nossa casa de cera derretendo. Senti os meus sonhos num instante morrendo, vendo chorando minha mãe e meu irmão, imaginando que pesadelo horrendo, agora não temos mais casa, apenas o chão.
Ipatinga, 14/10/2018
Erimar Lopes.
CRIANÇA, LUZ E CALOR DO SOL
Vem ver o sol, como é linda a sua luz, como fonte maior que provém vida, como aquece a alma agradecida e às claras nos conduz. Que com a chuva faz germinar a terra, suar e arder a pele dos ceifeiros e carpideiros e de dia ser o clarão dos caminheiros.
Olhe nas faces e dentro dos olhos e veja esta luz na almas felizes, sinta o calor do espírito com forças para lutar na alegria sem ter lágrimas para chorar, um confiante olhar vendo que em tudo que existe ainda no íntimo subsiste o desejo de amar.
Veja no céu a liberdade das aves pelo calor que as aquece por esta luz que força as fornece. Que voam a dezenas, que migram a centenas porquê o tempo vai mudar, que viajam continentes, buscando estações em que possam se alimentar. Sinta um coração faminto buscando o alimento que o possa saciar.
Dê abraços e acalente em seus braços como a luz do sol em seus fachos cantando antigas saudades dos prazeres daqueles amores, que de provados sabores alimentaram os desejos das suas bocas em seus beijos.
Observe uma criança com suas atitudes inocentes, ela é a luz pura que ilumina os olhos das gentes, a luz do sol fulgente, que clareia a senda dos viventes. A criança é o futuro em crescimento que leva a luz, o brilho que nos dá entendimento que devemos ser tais a elas em nossos relacionamentos.
RAIOS E TROVÕES
Quando o tempo precipita-se, e observa-se no céu, nuvens escuras feito breu, densas feito metal, raios despertam corações, ressurgindo emoções, o meu amor se rende ao seu num evento fenomenal aos estrondos dos trovões.
Quando torrencial a chuva cai, formando grandes enxurradas, com suas águas avolumadas, levando tudo pela frente, leva também a minha mente ao meu amor que está ausente um desejo bem presente.
Quando vem a estiagem, cessam os relâmpagos e os trovões, abrandando os corações meu e da minha amada, que nas grandes enxurradas se misturaram em paixão, um é relâmpago e o outro é trovão, que para o céu se elevaram.
UM QUALQUER NA MULTIDÃO
Eu sou um homem qualquer na multidão, com todos os sentidos perfeitos, sou normal, sou apenas mais um, vivo em sociedade, tenho emprego, família com esposa e filhos. Saio cedo para trabalhar e retorno à tarde. Sempre tem alguém me esperando, dificilmente não tem. Tenho problemas que todos os normais tem, como dívidas, alguns pequenos ou grandes desentendimentos com a esposa ou filhos, algumas divergências, mas tudo dentro do padrão da normalidade. Tiro férias, viajo com a família, tenho folgas nos finais de semana e feriados, tenho amigos que visitam minha casa, companheiros de trabalho que não são amigos, tenho parentes que muitas vezes enchem o saco, outras vezes são agradáveis, tenho carro e gosto de dirigir, tenho motocicleta, contudo piloto mas sou meio cismado. Pagava aluguel, todavia com muita luta comprei um apartamento, o sonho da família. Tenho uma esposa que diz sempre que me ama, e tenho filhos que me consideram e respeitam. Mas quem realmente eu sou, além de ser apenas mais um na multidão? Aí tem inúmeras possibilidades: posso ser o amante, posso ser um informante, posso ser o algoz sobre muita gente, posso fraudar, posso enganar, posso me transformar, também posso ser realmente quem eu sou, posso ser o outro, posso estar preso ou domesticamente solto. Quem eu sou? Não me conheces? Pensas mesmo que sou apenas mais um na multidão? Se pensas está correto em pensar, não passo de um mero e coitado a sonhar, no que algumas pessoas podem se tornar, além do que são como pessoas normais na multidão.
QUERO IR ALÉM
Quero ir além dos meus pensamentos tolos, daquilo que não entendo na vida de nós viventes, do que andam carregadas as nossas mentes, ir além da dor que assola os nossos corpos, da tristeza que desfigura os nossos rostos, quero sim, afastar tudo isto de mim, e jamais desejar ao meu próximo a dor, a tristeza, e o asco das amarguras que não parecem ter fim. Ir além do imaginável que torna inimaginável pensar o que somos, para aonde vamos, que destino tomamos, se é aqui que ficamos ou apenas vagamos esperando partir. Queria ir além do amor, mas na dúvida pensei: e se eu for? Já estive lá antes e amei as amantes que não foram bastantes e nem suficientes para dar-me valor. Queria ir além do sabor das bocas que beijei, dos sonhos que sonhei, que em outros braços desejei estar, ir de volta ao meu lar onde um dia foi o meu lugar que eu pude repousar e as ânsias assim deixar da porta para fora ao entrar, e com a amada encontrar toda razão para a saciar em nossa cama ao deitar, e em silêncio ofegar as palavras de conforto a meditar. Quero ir além da vida, que eu não sei quando e nem onde termina, que de Deus a morte é quem domina e quem descansa e dá guarida a um corpo em sobrevida exaurindo-se a penar.
OS SEGREDOS DAS PAREDES
Eu vi a vida que sofrida foi, as mãos ásperas que onde tocam dói. Dói na ferida da alma que chora horas de desconsolo, suspirando em angústias sem apelo. Eu li os olhos que fechados foram, foram abertos em prantos desaforos tantos, que as lágrimas levaram com tristeza os seus tesouros, feito ovelhas com destino aos matadouros. Eu vi a virgem com calor que queima, queima quente na carne que sente, o desejo que lança tanta gente, na fornalha com calor ardente. Eu vi a casa que habitada foi, que as paredes ocultam os segredos dela, que alí aos olhos de uma sentinela viveu oprimida uma doce donzela. Eu vejo o amor perdido nos caminhos, em encruzilhadas a clamar, eu sei que as rosas têm espinhos, espinhos que nos impedem de amar. Eu não desisto de ouvi-lo um dia, eu sei que um dia me chamará, pela vida que sofrida foi e as mãos ásperas que onde tocam dói, pelos olhos que abertos foram, em prantos desaforos tantos, pela virgem com calor que queima, queima quente na carne que sente, que habitarão a casa da doce donzela, que oprimida foi aos olhos de uma sentinela, e desvendarão os segredos das paredes dela.
FORA CORRUPÇÃO!
Precisamos deter as corrupções , manietá-las abruptas e conduzi-las às prisões, sequestrar os bens delas destituindo suas ações, pois não têm misericórdia da plebe, disseminam a discórdia. São rapinas de olhos apurados, com visões aguçadas, veem por todos os lados as oportunidades pelas presas abatidas. Abrem largas feridas, conduzem às violências, são sugadoras de vidas. Fazem gemer as massas que por tantas cargas são circunvaladas nas desgraças e nos infortúnios sem causas. Deseducam, enfermam, desprotegem, despejam e abandonam à própria sorte, minam as forças de um bravo sedento que pelo trabalho de suas mãos labuta pelo pão que provém o seu sustento. O poder é puro e bom, é branco e transparente, é dado ao homem e o eleva de forma excelente, mas a ganância, a cobiça, e o amor aos numerários são camisas de forças que levam às forcas e lesam os erários. Eles não têm piedade de ninguém, miram seus próprios umbigos, são ambíguos. Serão culpados pelos sangues derramados, pelas vidas ceifadas antes do nascimento, pelos recursos ora desviados, pelas almas deixadas ao relento, porquê é do povo para o povo, não para que peça socorro pelo sangue que clama por ter sido apagada a chama da esperança de viver um dia novo.