JOGO DA VIDA
Saia lá fora e veja o mundo, a vida, como numa despedida, lance as cartas, se não tem trunfos descarta todas as possibilidades inexatas de vencer ou perder a cabeça, os sentidos em etapas. Feche os olhos um instante, respire o bastante, não se avexe, franqueie as apostas, não dê as costas às portas, defenda-se, não renda-se aos desejos tolos, medite e não dê palpites, fuja de enrolos, não sofra nem faça sofrer, melhor estático se não podes correr, esconda-se, mova-se aos olhos do inimigo e fuja do perigo iminente, esteja ciente de que as fraquezas surgem de repente, não experimente a sensação da ausência sem clemência. Volte fique onde está porque no jogo da vida é difícil de ganhar sem ter alto pra apostar, se perder ganho eu ou ganhe você as migalhas da soberba que alimentam-nos as falhas de podermos enriquecer os desejos sem virtudes que nos cercam amiúde com a ganância de crescer. Em todos os sentidos seja comedido, não jogue com a vida nessa ânsia enlouquecida, vai ter com os prudentes, estude suas mentes e dispa dessa jactância, total alternância das correntes bem e mal, e entre na frequência sem apostar a valência da sua alma colossal.
O MAR QUE CLAMA POR SEU AMOR
Eu sou a candeia que tenho a chama e estou no velador.
Eu sou o velejador que tenho a vela que não tem a chama, mas tenho o mar que clama por seu amor.
Eu sou a cama do velejador que tem a vela que não tem a chama, mas tem o mar que clama por seu amor, alumiada pela candeia que tem a chama e está no velador.
Eu sou a alma daqueles que amam em toda cama, alumiada pela candeia que tem a chama e está no velador, que alumia a cama e a alma do velejador, que tem a vela que não tem a chama, mas tem o mar que clama por seu amor.
Eu sou a chama da candeia que está no velador, se algum dia apagada eu for, não haverá mais luz na alma daqueles que amam em toda cama, nem na alma do velejador, restará apenas a vela que não tem a chama, mas terá o mar que clama por seu amor.
ROSTOS NA MULTIDÃO
Ando pela cidade e contemplo rostos na multidão, pessoas indo e voltando a trabalho, passeio, perambulando, uns em veículos, outros não, vejo nas faces distintas sensações, quem me dera saber dos corações dessas gentes em grandes turbilhões. Emoções são constantes, de tudo acontece, há cidades que não param nem dormem e a muitos pelo estresse entristecem, mas voltando às faces observo seus disfarces, vestimentas de altas classes mendigando o pão, há falsos mendigos dormindo em papelão, prostitutas de plantão, um é policial o outro ladrão. Muitos olhares não enganarão, vejo semblantes caídos ao chão, apatia, desilusão, mas também vejo disposição. E o trabalho? Enquanto uns deixam, outros estão iniciando, uns agradecendo, outros murmurando, e estes rostos vão mudando com o tempo passando, e tudo evoluindo, novas faces vão surgindo se misturando na multidão, novos corações, carregando sentimentos idênticos, lidando com as mesmas situações, parece que tudo é igual como antes, que nada de novidade se fez, que tudo que há, um dia já havia sido feito outra vez, mudou apenas as aparências e os jeitos, mas com todo respeito são novas as exigências e outras experiências, com o aumento avançado da ciência demanda competências para estes rostos na multidão, que desde a formação desta Terra irresoluta observo as condutas destas mentes nestes corpos, nestes corações, nas faces, nas multidões, rostos sem uniões que misturam sem diapasões, entre cores raças e sexos, afinidades sem causas de nexos, que me deixam tão perplexo por causa dos seus complexos sistemas de comportamentos, incluam-me aí dentro, porque se observo também sou observado, talvez até mais perscrutado que os que andam lado a lado, pois um rosto adorado, popularizado, e isolado, chama mais a atenção do que dezenas de milhares num ror de multidão.
SE QUERES QUE EU MORRA
Se me vires chorando e perguntares por quê? Responderei francamente: é porque não quis me querer. E se insistires em saber se esse é realmente o motivo, te direi: não me querer já é duro demais, ademais ter-me como amigo. E se fores mais persistente ainda e não se deres por satisfeita, julgando o motivo estupefata, bradarei a plenos pulmões: se queres que eu morra deste jeito, me mata, faça assim fique longe de mim não me dê seu amor e será o meu fim.
EMBRIAGADO
Quando o vinho cai na taça e a enche de graça,
Os olhos ávidos, a boca seca, o espirito sedento,
A viagem corpo adentro, em instantes euforia,
Repetidas doses, esforçando-te na sobriedade a cabeça cambaleia,
Calor, torpor, tudo em descompasso, letargia,
Embriagado, não somente vinho, mas todo álcool tragado,
Carregado, vomitado, depressivo, enojado, e enjoado,
Devaneios são realidades, às vezes choros ou alegria,
Na noite deste dia tudo ficou perdido, aturdido,
Seria muito proveitoso suportar o desejo e não ter bebido.
A vontade de esquecer o que não pode ser esquecido,
Se a mente momentaneamente perde os sentidos.
Amnésia alcoólica caso tão sabido, das desculpas pelos escândalos cometidos.
OLHE O MAR
Olhe o mar como é lindo e parece infindo!
Águas bravias escumantes a calmas
Que banham a terra nos limites findo
Que tem toda a sorte de criaturas almas
E quando a gente vê pela primeira vez
Se encanta e se indaga: como isso se fez?
Olhe o mar com toda a sua majestade
Com todas as suas forças e belezas
Coitado! Está preso na porção seca
Restando por consolo suas profundezas
Cheia de criaturas almas, nisto não peca
Alimentando homens na árdua pesca.
Olhe o mar que recebe tudo às beças
Todos os organismos que o infesta
Ainda assim suas águas não são insossas
Tem o sal em abundância que presta
Este mar que o homem interpreta
E sabe um pouco dos mistérios acerca.
Da escuridão no centro da massa
Das profundezas e criaturas almas
Somente Deus sabe por onde passa.
A CONFISSÃO DE UMA DONZELA
Tenho um véu sobre a minha cabeça
Na castidade vivo sem desejos tolos,
Venho aqui antes que eu me entristeça
Me derramar confessando desaforos.
Dos que insultam a minha pureza
E me veem como objeto de desejos,
Que os dentes são afiada destreza
E os olhos luzes cegas, faróis negros.
Que a boca escancaram até às orelhas
Num sorriso falso, frio, e alardeador
Tal qual o lobo espreitando as ovelhas
Na fome escondendo-se do justo pastor.
Rogo-te não os condene por suas ações
São desfavorecidos de entendimento
Tudo que sentem em seus corações
São armadilhas de empobrecimento.
Não materialmente expressando,
Mas do espírito e da alma do ser
Que vive neste mundo vagando
Na miséria das dores sem crer.
Ipatinga, 23/09/2018
Erimar Lopes.
MALES LONGE DE MIM
Estou jogando fora tudo que não presta
Tudo que me cerca e oprime calado
Mantendo o que de bom ainda me resta
Lançando longe de mim, indignado!
Nem que me paguem um preço danado
Quero de volta estes males zangados
Que me afligem e me deixam passado
Tiram o sono dos meus olhos cansados.
Estou arrancando todos eles pela raiz
Nem que seja a mais longa e profunda
Apartando-me do que me faz infeliz
Eliminando tudo que me suga e afunda.
Que auxiliem-me prisões nos profundos
Trancá-los-eis nos inalcançáveis abismos
Para que não voltem aqui imundos
E me atormentem com seus anarquismos.
CHORO SEM LÁGRIMAS
Queria chorar, mas não me restou nem mais uma lágrima, pois todo choro já secou, quem amou, amou! Será que me amaste? Ficaste em cima do muro, não desceste, esperei tempos vazios, não creste. Queria de novo um choro por tanto riso canoro, pássaros canoros me consolando em orquestra em dia de festa. Contesta o que ainda te resta que é chorar, choro seco sem lágrimas, quem as colheu? Amor meu recebeste medida recalcada transbordante, guardaste e ensoberbeceste, por isso choro porque não doaste-me porção, retém-no. Doá-lo-ia para alguém se não ao meu coração?
NÃO CONSIGO ESQUECER-TE
Podes não mais querer-me, mas confesso
Não consigo esquecer-te, são memórias
Que de mim não saem, os bons tempos
Nossos juntos que os ventos não esvaem.
Você cuidando de mim quando solícita a
Encontrei, senti tanto carinho e a você me
Entreguei, com sentimentos sinceros me
Inclinei, desejando te amar mais que sei,
Por tudo que fruiria do seu zelo, pensei.
Sabemos que o coração nem sempre
Expressa a razão dos nossos propósitos
Desta feita surgiram fatos que nos
Levaram à ação por rumores insólitos.
Travamos lutas em paz, no que satisfez
Ao desgaste e a mercê, das idas e vindas
Entre mim e você, e o tempo curará tudo,
E que seja absorto o amor como escudo.
Para que sejamos agora fiéis, e sigamos
Unidos em outros anéis, neste caminho
Elevado e firme, esperançosos naquilo
Que não vemos, todavia todo dia cremos.