O QUE QUERES QUE EU TE FAÇA?
O que queres que eu te faça? se o meu amor te dei de graça e o jogou fora como uma taça que vai ao chão e estilhaça. Por que fez isso comigo? Agora junto todos os cacos, só enxergou o seu umbigo, como me sinto tão fraco e ainda me diz que sou amigo, se estou correndo perigo de cair em um buraco. Nos seus laços me amarrei, nas suas teias me enredei, meu amor te entreguei, só numa coisa não pensei, que um dia choraria e a ti imploraria para saber o que eu não sei, o que te levou à soberba depois de tanto tempo que eu te amei. O que queres que eu te faça? Diga pra mim não disfarça, não seja esse o meu fim, mesmo só os cacos fugindo do buraco, meu amor você é o meu frasco com perfume de jasmim.
MAR DE FOGO
Eu vejo um mar de fogo, seus navios, suas criaturas, marinheiros a remar, suas velas, sopram os ventos, águas de fogo a navegar. Eu vou nas praias deste mar, praias de fogo com muitas gentes a banhar, não há sol nem sombra, somente fogo a queimar, peles vermelhas como num lindo bronzear. Olhos azuis, cabelos loiros, nas ondas de fogo a surfar, apenas assisto tenho medo de mergulhar, neste mar de fogo que é majestoso e me afogar. Não tem salva-vidas pra te acudir, se porventura vier a sumir, nas águas de fogo, como se fosse partir. Ele é um mar diferente, mesmo de fogo não queima a gente, nem tanto calor nele se sente, olha que este mar é atraente! Nele nada a astuta serpente, e em suas praias ela é residente, ela vive agitando as suas águas ferventes e formando ondas de tamanhos gigantes. Este mar de fogo é o mundo das gentes, que pela vaidade veem nele coisas excelentes, estão boiando no fogo deste mar atraente, sendo levadas nas ondas gigantes. Vou te confessar, já nadei neste mar, só que um dia consegui me queimar, quando percebi já estava a me afogar, clamei por socorro, sem ninguém pra me salvar, com muito esforço consegui me libertar, das águas de fogo deste impetuoso mar, e falei pro meu Deus: Não me deixe tornar a surfar naquelas ondas de fogo, porquê quando se está a equilibrar tem-se o controle do jogo, mas se da prancha cair e a onda quebrar de tão gigante que é, dificilmente vai conseguir escapar sem se queimar, e se vier a se afogar talvez não tenha mais fôlego que te leve a terra tocar.
LÁGRIMA DE UM GUERREIRO
Tornou-se um homem frio em decorrência da profissão, são muitos anos na luta perdoem seu coração, que não é de todo endurecido por tudo que tem vivido, fraqueza, euforia, tristeza, e desilusão, mesmo forte lutando contra a morte às vezes uma lágrima tímida cai pelo chão.
São muitos os casos que viu e ainda vê nesta missão, mães chorando os filhos, irmãos lamentando irmãos, esposas maldizendo maridos como se tivessem total razão, mães abandonando crianças por causa da diversão.
Menores indo e voltando imediatamente da prisão, a moça que ficou sem o telefone na mão, chorando de tristeza porque pagou somente a primeira prestação. Ligações dando conta de corpos em vão, outro enforcado sem remissão, que aos seus olhos são abominação.
Mas no seu canto de solidão, chora por dentro em oração, renova o espirito e não desiste não, mesmo sabendo que não há solução, que enquanto houver mundo, haverá maldição e que pra muitos o crime tem compensação.
FICTO, CONCRETO E ABSTRATO
Seja fogo ou um agente que o consome
Não a ferrugem que desgasta o aço
Seja um homem sincero sem codinome
Não um falso caráter com estardalhaço
Seja um longo tempo de amor na fome.
Seja o óleo aromático que unge o corpo
Que lubrifica a ferrugem dos abraços
Não seja negligente e ame com escopo
Como o fogo que ferve íntimos laços
No desejo bebido forte em um copo.
Seja a luz que dissipa todas as trevas
Seja o mar, o ar, a vida, a ferida que dói
Seja o remédio para a ferida, as ervas
Uma lágrima que cai, a mão que constrói
Seja a vida mais que vivida sem reservas.
Seja as mãos afáveis aos que choram
Os lenços que secam as lágrimas
Os apertados abraços dos que namoram
As raras confissões de amor legítimas
Os acalentados beijos dos que se adoram.
Seja a generosa e graciosa esposa
Os alvos e límpidos lençóis do leito,
O louvável e honroso esposo em prosa
Seja o matrimônio quase perfeito.
Seja os olhos coloridos, anegrados
Acastanhados, não sejam acanhados
Seja a visão, esverdeados ou azulados
Não sejam ou se tornem consternados.
Seja a razão, a lei, a temperança
Não seja cego, nem a causa do conflito
Seja a inocência de uma criança
Seja o conselho, o socorro do aflito.
Seja as algemas nos pulsos, a liberdade
A falha, a palha que queima, a cinza
Seja os esteios, a coluna, a saudade
Todos os fins, não seja a fraqueza
Seja todos os meios que tire a maldade.
Seja a vitória, a coragem, e o medo
A pergunta e também uma resposta
Seja todo lugar, a verdade e o segredo
Seja lugar nenhum por nenhuma aposta.
Seja o tudo ou o nada de forma decisória
Não alma enfadada por ficto-abstrato ser
Não viva artificialmente outra vida ilusória
Seja o concreto e objetivo modo de viver.
Ipatinga, 05 de outubro de 2018.
Erimar Lopes.
OLHOS VERMELHOS, CARAPAÇAS DE JOELHOS
Entendam as razões porque tudo é ruina e desconsolo, se deveras andam tortos menos vivos e mais mortos que os que sobem e descem as escadarias da perdição, veja a intuição daqueles que fogem da lâmina afiada e dão risadas dos néscios que são traspassados porque não têm a visão. Quem é louco dispensa loucura, quem é doce dispensa doçura, os afoitos se queimam em fervura, aliás quem dorme cedo descansa a armadura. Mas os que perambulam tem olhos vermelhos, lutam com a noite por não ouvirem conselhos, olhos de coelhos, sangues vermelhos, carapaças de joelhos. Ai daqueles que discorrem pelos becos largos, vielas espaçosas, julgando milagrosas suas armas de brinquedo, que em todos metem medo pelo zunido ratátátá, descubram um segredo não haverá mais nem um dedo que puxe o gatilho pra produzir este sonido que o instrumento pode dá.
PÁSSARO MISTERIOSO
Canta um pássaro misterioso um canto triste em minha janela, fazendo-me lembrar do dia em que ela partiu com a parentela, fui aos seus pés lhe implorar para que comigo ficasse, mas só fez me ignorar e deu-me as costas num impasse. Assim seguiu a tua parentela para onde eu não sei, os motivos não me disse, confesso que esperei uma satisfação da parte dela por tanto amor que lhe doei. Doeu meu coração dias e noites sem parar, imaginando o por quê que meu amor foi me deixar, seguindo a sua parentela sem nada me explicar, transformando meu riso em prantos num duro golpear, que ruiu as minhas bases me fazendo rastejar. Agora que eu estou em pé vem este pássaro aqui cantar, este canto de tristeza para mistérios me revelar que o que foi em beleza, em realeza há de voltar, para que eu a receba com festas sem nada argumentar. Canta pássaro canoro um misterioso canto alegre à minha alma e não deixe eu chorar por meu amor que foi embora, só me faça alegrar na esperança dela voltar e novamente me amar como fizeste outrora.
O MAR QUE CLAMA POR SEU AMOR
Eu sou a candeia que tenho a chama e estou no velador.
Eu sou o velejador que tenho a vela que não tem a chama, mas tenho o mar que clama por seu amor.
Eu sou a cama do velejador que tem a vela que não tem a chama, mas tem o mar que clama por seu amor, alumiada pela candeia que tem a chama e está no velador.
Eu sou a alma daqueles que amam em toda cama, alumiada pela candeia que tem a chama e está no velador, que alumia a cama e a alma do velejador, que tem a vela que não tem a chama, mas tem o mar que clama por seu amor.
Eu sou a chama da candeia que está no velador, se algum dia apagada eu for, não haverá mais luz na alma daqueles que amam em toda cama, nem na alma do velejador, restará apenas a vela que não tem a chama, mas terá o mar que clama por seu amor.
IGUAL A UM RIACHO SECANDO
Eu tenho que admitir que te amo,
Estou privado do seu amor e desejos.
Na solidão é o seu nome que clamo,
Com saudade do sabor dos seus beijos.
Se não sabes, posso dizer-lhe agora,
Aceite por favor as minhas desculpas,
Não se assuste sou um homem que chora
Arrependido implorando em súplicas.
Se não mais me quiseres fadado estarei,
A perambular pelas madrugadas vazias,
Sem destino e desorientado andarei,
No sofrimento pelo amargo dos dias.
Sem a sua companhia ao meu lado,
Me sinto igual a um riacho secando,
A cada ano em seu leito assoreado,
Sem as perenes chuvas chegando.
Assim acabarei na sequidão perecendo,
Restando apenas o meu curso vazio,
Carregado de organismos morrendo,
Por causa dos longos períodos de estio.
ROSTOS NA MULTIDÃO
Ando pela cidade e contemplo rostos na multidão, pessoas indo e voltando a trabalho, passeio, perambulando, uns em veículos, outros não, vejo nas faces distintas sensações, quem me dera saber dos corações dessas gentes em grandes turbilhões. Emoções são constantes, de tudo acontece, há cidades que não param nem dormem e a muitos pelo estresse entristecem, mas voltando às faces observo seus disfarces, vestimentas de altas classes mendigando o pão, há falsos mendigos dormindo em papelão, prostitutas de plantão, um é policial o outro ladrão. Muitos olhares não enganarão, vejo semblantes caídos ao chão, apatia, desilusão, mas também vejo disposição. E o trabalho? Enquanto uns deixam, outros estão iniciando, uns agradecendo, outros murmurando, e estes rostos vão mudando com o tempo passando, e tudo evoluindo, novas faces vão surgindo se misturando na multidão, novos corações, carregando sentimentos idênticos, lidando com as mesmas situações, parece que tudo é igual como antes, que nada de novidade se fez, que tudo que há, um dia já havia sido feito outra vez, mudou apenas as aparências e os jeitos, mas com todo respeito são novas as exigências e outras experiências, com o aumento avançado da ciência demanda competências para estes rostos na multidão, que desde a formação desta Terra irresoluta observo as condutas destas mentes nestes corpos, nestes corações, nas faces, nas multidões, rostos sem uniões que misturam sem diapasões, entre cores raças e sexos, afinidades sem causas de nexos, que me deixam tão perplexo por causa dos seus complexos sistemas de comportamentos, incluam-me aí dentro, porque se observo também sou observado, talvez até mais perscrutado que os que andam lado a lado, pois um rosto adorado, popularizado, e isolado, chama mais a atenção do que dezenas de milhares num ror de multidão.
QUANDO A VI TÃO BELA
Assim quando a vi tão bela, a sensação no coração de querê-la tão singela em minha vida, sem despedida aos meus olhos que fitavam as maravilhas tuas como paisagens nuas de altas montanhas nas densas florestas, que em suas entranhas abrigam seres que amam folhagens espessas. Com todas as sortes sonhar nas alturas por teus sentimentos, que fortes me levam a cair nas branduras dos teus afagos, que fazem toar os batimentos da fonte que pulsa em meu peito, uma ponte lingando aos desejos teus, no leito, ávidos desejos meus. Assim quando a toquei tão suave, correspondeste-me em silêncio em delícias, que de provadas carícias sentidas deste-me, em excelso fulgor por provar do teu sabor nos arrochos sem dor aos céus elevaste-me. Assim quando de mim não soltaste, quanto mais jubilaste de alegrias sem risos, lágrimas de regozijos a brindar com o tempo para que durasse a contento, pelos corpos ardentes e exaustos por tanto amor portento, que de doce a fugaz nos levando ao êxtase, lânguido, imenso, e intenso gozo traz.