Honoré DuCasse

Honoré DuCasse

n. 1799 FR FR

Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.

n. 1799-06-29, Paris

Perfil
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Aforismo

Somos todos iguais na diferença.
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade
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Poemas

97

Marés

Diz-me, quantas luas te habitam,

Sem que a noite se dê conta?

Que margens te sobram depois das fragas?

Entre marés e rugas desenhadas pelo tempo

Deixaste partir a idade ao vento

Na maresia de ontem

Morta, ao degelo

Sem alento
283

Naquela janela

Vejo-me naquela janela

Que se olha por dentro

Sentado no tempo

Voei para longe

Empurrado pelo vento

E quanto mais vejo

Mais longe me leva o vento

Para lá da memória

Ao sabor do barlavento

 
327

Confinamento

Confina o medo

Depura as estrelas

Deixa que a viagem te ausente

E sintas o cheiro da vida

Pinta hoje o teu dia

Dá-lhe a cor do amor

Faz das sombras um poema

E em cada nascer do sol

Abraça-o

E sê tu

Uma vez mais
376

Depois dos 50

Depois dos cinquenta
Os dias ficam tímidos
Agigantam-se as noites
E a ilusão
Do tamanho do crepúsculo
 
Depois dos cinquenta
Pesa-nos o passado
Vivem-se pretéritos
Nem sempre perfeitos
Somam-se capítulos
À vida
De alguns parágrafos
Desfeitos
 
Depois dos cinquenta
Escuta-se a voz
Começa a contagem
Vira-se a folha
Bebem-se os anos
E os instantes
dessa viagem
391

Anoitecer

A história de um homem

Faz-se ao anoitecer

Quando as sombras quedam

E a cegueira se faz ao caminho

 


330

Forma alada

Morro na lenta agonia 
que me sobra
Até o sono não ter voz
O amor é o que me resta
Depois do poema
Ergo-me na forma alada
O corpo incinerado já não dói
Apenas o choro de preto
Daqueles que abalam
E o olhar queimado
Das cinzas que ficam
382

Claridade

Já a noite cai madura,

Do alto daquela estrela

Trovam os poetas

No mar da liberdade

A claridade soa perto

Solta as aves do paraíso

Nas guitarras da Mouraria

Fundem-se abraços

Entre amantes improváveis

Meu cravinho vermelho

teu rosto no mar

Estes são os artistas,

Os homens

E os amigos,

No palco da vida

(Poema dedicado à memória de Mário Piçarra 1947-2019, músico e poeta, inspirado
no seu último CD - Claridade)


 
457

Noite ao céu

Cala-se ao noite ao céu
o frio debrua o rosto
a cada passo
o lento avançar da idade
e a certeza que o chão 
me sabe firme
311

Amor dos teus olhos

Não te apaixones pelos olhos das bocas que falam

Porque as manhãs são impuras

e o acordar

o fim de uma promessa

Apaixona-te pelo amor dos teus olhos

E pelo sorriso da criança que passa

Apaixona-te pelos dias que se dão à vida

E pela incerteza do momento

Ama a dúvida e o sonho

Jamais a noite das bocas que beijam

e

dos lábios que aos teus olhos te falam
427

Azul

O mar fica-te tão bem
quando vestes de azul
Não sei ao certo de que estrela
nasceu o teu encanto
se do teu sorriso
se das manhãs de Orfeu
629

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