Eu creio!
Eu creio!
Ainda que os meus lugares de orações não sejam as catedrais e os meus totens não virem estátuas.
Gosto mesmo é de acariciar a terra, as plantas, os animais e de cuidar das pessoas por sua mera existência.
Vejo o retorno à natureza como a
reintegração ao universo.
Em noites de lua cheia me encanto com a claridade e a incandescência
Em noites escuras vislumbro o que nunca vi
Em dias de sol me abrigo na sombra ou deixo que a luz e o calor penetrem o meu corpo cansado até torná-lo um abrigo pleno, um saara a acolhê-los.
A natureza tem muitas faces.Não reclamo de suas estações.
Luz! Ressuscita em mim o que és, para que eu abrigue todo o teu calor e luminosidade num emaranhado só.
Na natureza tudo me é encantador
Tudo me traz aromas e sensações desconhecidas, além de lembranças, revivescências
Não há palavras para descrever o que me evoca um encontro do rio com o mar
Rio São Francisco! que li nos livros de Geografia e o imaginei antes de conhecê-lo.
Rio Parahyba! De águas e força tão feminina descendo montes e atravessando vales.
Rio que supõe altruismo ao atender aos Senhores, e por isso alimenta a cana de açúcar, mas geme de dor com a fome que o cerca.
Rio Cariús! Nome de destemida tribo que orgulha a prole que o nomeou.
Estás a sumir como sumiram teus filhos naturais, mas, teu tronco maior, o Jaguaribe, se encolhe e se expande em resistência
Rios que alimentam braços e pernas de outros.
Uma dor que não estanca me habita
Mas prefiro chamar à mim a minha senhora, a mãe, a mulher, a que sempre acolhe a cria,
a que não se desvencilha por que é guia.
Tua estrela me traz o dia e me dá forças para sair das noites escuras.
Mãe senhora! As minhas catedrais eu mesma as construo. São templos de orações consagrados a ti, nos verdes vales ou nos desertos, onde repito : "Ave,Maria!"
Tu me ouvistes, me socorrestes e eu aqui estou em nome do filho e do pai.
Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraiba- Brasil, em10 de novembro de 2022.
Ditos e hiatos
Um seio vazio
murcho
Um útero em repouso
sem função
Uma casa desolada
inutil?
- Em adequação.
Um corredor parado no tempo
-"Semsons", surdo!
Um estado de escuta permanente
Contradição?
Uma dor que doi e doi
- Que aflição!
Um inconsciente que se corrói
na escuridão
Um escudo no escuro
- Porque razão?
Resistência e porvir
esperança e devir
- Será em vão?
Um vazio se abre
lá no meu chão
Há desertos e escusas
-Sim ou não?
Não é fenda à toa
tem suas razões
A vida segue
na cegueira
ou na promissão.
Vem cá e me aconchega
isso é perdão
O amor perece
na solidão
O amor se embaraça
No sim e no não
O amor é veredito
se dito ou não dito.
Vê-se então
que é chegado
o reencontro
- Não diga não
De que vale
o ser oculto
na multidão
Ser com o outro
exige o ti
Não diga não!
João Pessoa, Paraiba, Brasil em 23 de dezembro de 2023.
Velejando
Um barco a perder-se de vista me fascina
fico a mirá-lo até que a sua proa se esconda, além do horizonte
Ao ver o céu e o mar em sua pureza
novas rotas e descobertas me guiam
Imagens fazem-se vivas em mim
como fantasias da minha infância
Penso em portos e em paradas
em idas e vindas
em novas descobertas e em novos lugares
Sinto a brisa que adentra às janelas abertas
de uma Geografia que me ressuscita
Imagino diferentes pessoas
Horizontes infinitos somam-se ao meu olhar
Vasto é o mundo de cada um e o de todos nós
Finita é a vida, mas a língua não
Expressar-se é busca
Se faltam palavras nos meus versos
imagine as emoções nas entrelinhas
Nem tudo precisa ser dito
Se o dizer segue aquém
o viver segue além
Me entrego ao ócio.
Mãe
Uma mãe caminha
nas nuvens segue
os filhos acolhe
Estará sozinha?
Estar sozinha? (são instantâneos)
Não há ausência
os filhos acolhe
ela os aninha
A língua trava
o braço acolhe
os filhos abriga
ela os aninha
Mãe, mamãe, mainha!
o som ecoa
à noite os acolhe
o tempo some
Uma mãe sozinha?
ninguém duvide
ninguém designe
ela supera
até o destino!
Fátima Rodrigues, Benfica, Fortaleza, Paraíba, Brasil em 08 de maio de 2022.
Tua liberdade!
Foi com pura alegria, à luz do dia
Foi com fé e poesia, em oração
Caminhando sozinha, em movimento
Ecoando o lamento, "sem pressão"
Que de mim me fiz confidente, e consciente
auscultando a memória e a imaginaçao
Me vi plena, sem pesos,
e "sem pressão"
Eras tu em liberdade, por que não?
Um amor se revoga? E então?
Se for peso... há de ir sem omissão
Se voltar... há de ser só com perdão
Esquecer ou lembrar? Tempos de ser!
Em pasárgada nos veremos
Pode ser?
"Lá a existência é uma aventura".
"Sem pressão!"
Fátima Rodrigues, expedicionarios, João Pessoa, Paraíba Brasil em 15 de abril de 2022.
Um sonho de mulher
Se eu soubesse dizer
para além do que se diz
Se eu pudesse criar para além do que se faz
Se eu pudesse amar para além do que sou capaz
inventaria um mundo
em que todas as mulheres seriam respeitadas
Das ladeiras do pelô
às escadas do Cristo Redentor
Nos milhares de metrôs e nos restaurantes retrô
Das calçadas da fama às favelas em chamas
Dos plantios regados a canções às mais doces emoções
Tudo para elas criaria
e num só canto diria
dos meus afetos mais puros
e da mais sublime admiração
Embalaria seus sonhos
Aliviaria suas dores
Acalantaria seu pranto
e dele faria orações
sem nenhuma religião
que as esteriotipassem
Faria acima de tudo uma ode
que as apaziguassem
em seus sobressaltos e dores.
*Dedico às mulheres do meu convívio famíliar e dos coletivos acadêmicos e políticos que participo
Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba-, Brasil em 08 de março de 2022.
Degustação da palavra
A palavra que degusto
com paixão e desapego
sem pressa ou alvoroço
diz muito da minha sina
e do continente que sou
Com os olhos iluminados
e o coração disparado
palavras me atravessam
e riscam o meu caderno
com clarões de sons e tons
De forma lenta e tenaz
planto, lavro e colho versos
numa estrada ao reverso
onde as palavras se-dão
Nessa oculta digressão
com metafísica e escuta
traduzo com ou sem rima
as dores que a vida traz
Nos limites do viver
e muito além do horizonte
escrevo ensimesmado
ao modo de D. Quixote
que de moinhos fez arte
até com reis e rainhas
Seguindo esse itinerário
a palavra voa livre
com ou sem identidade
em registros pontuados
ao modo dos trovadores ou
de anônimos repentistas.
Expedicionários , João Pessoa, Paraíba - Brasil em 18 de fevereiro de 2015
A forma do falso e a forma dita
A forma do falso e a forma dita
Fátima Rodrigues
( Para a cantora Elza Soares)
Eu atravesso fronteiras, sem nenhuma permissão,
promovo ocupações, e por assim ser sou clandestina,
crio grafias no chão, nos ares, em mim e nos outros.
Me inscrevo em ações voluntárias
só pelo puro gosto de ultrapassar a forma dita
Quem sabe ler a forma do falso?
A forma que se diz Lei resistirá ao veredicto?
Caminho entre labaredas sem senti-las,
pois me fiz errante, desde as primeiras viagens.
Errar por subversão é algo que me sobra na vida.
Séculos já vivi e ninguém crê
E só quando atravesso os desertos é que retorno revigorada
Abraço as brisas nomeadas como o vento do Aracati, só para me aliviar...
E as brisas que são anônimas?
Para além da cena, adoro o anonimato!
porque ele me permite ser a forma perfeita.
Quando me mostro, a nudez me torna estranha a mim em razão do outro.
Persigo caminhar na escuridão, no deserto, e até mesmo no lamaçal que marca as tempestades,
após esses eventos vislumbro uma herança pura, recomeço de alma lavada.
O novo ali ressurge das vagas, sem nada a dar, mas com orgulho de ser.
É preciso recomeçar com a pureza de quem nada têm, nada herdou e nada é,
porque é do nada que viemos, e é para o anonimato que retornaremos
Ser natureza é o nosso destino, assim creio.
"Com Deus me deito
com Deus me levanto"
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil 26 de janeiro de 2022
Retalhos de um estrangeiro
Retalhos de um estrangeiro
Retalhos da vida, de dores e de alegrias é o que sou
Se gargalhei e rodopiei numa avenida
segurando o standarte
foi porque encarnei o teu ser de tal forma que me perdi de mim
Via os teus morros sangrando, ruas festivas, e as mães em puro lamento!
Dias longos desfilavam frente aos meus olhos cansados
Noites insones se refletiam em opacidade nas poças d'água e nas ruas de chão batido
Almas exasperadas com as perdas juvenis explodiam em canções e em oraçoes ao meu redor
Em certos dias, o meu rosto cobria-se de serpentinas em vôo livre pelas arquibancadas afora
Me via num bailar sem fim e num gracejar insano.
Uma alegria pura como a de mulheres livremente prenhes me cobriam as vestes
Me envergonhava das dores dos pavões, dos avestruzes, dos exilados, e do martírio dos meus parentes e vizinhos violentados em seus habitats
Em instantes me via acompanhado naquela encenação carnavalesca onde a dor veste-se de euforia
Depois ficava a sós e nu a me indagar:
- Como recompor o palco da vida?
E que vida meu Deus!
Oh! Cidade amada!
Me leva em tua alma, em tuas madrugadas e em teus dias ensolarados
Repete comigo as orações dos meus
Orações em retalhos que nunca as apreendi por ser apenas estrangeiro
Apenas isso: estrangeiro de mim e exilado dos outros.
Travessia

Seguras com afeto as minhas mãos
mas o teu olhar só vislumbra
o longínquo horizonte
Te revelas a cada instante
em dobras infindas
ora marejadas, ora ressecadas
Teus matizes me incandeiam
Me encolho como faz o mar
antes que chegue o furacão
Eis que nos escutamos
no frenesi da vida
- Quem és ?
- Quem sou?
Me instigas a voar para dentro
a varar as profundezas
a penetrar em noites escuras
e a cultivar canteiros em manhãs claras
Te sigo por vielas incontornáveis
em urbes mutiladas
O breu não te emudece
Em mim calas o choro
o pesar
a virulência da dor
Ao escutá-lo
as tuas angústias ressoam em mim
em uníssono!
Somos andarilhos
nessa caminhada
onde a dor do retorno a nós
não tem limites
Somos um amálgama ao inverso
ao reverso
no infinito de nós mesmos
Nesse universo em verso
somos a multidão a penetrar as visceras do mundo
a cavalgar o nada
à beira do abismo
Somos a incompletude a sangrar
até que as luzes do teu ser
acendam em ti o que és
Anseio por teu crescer
só para que tenhas
aconchegada em ti
a tua própria liberdade
Enquanto vicejas
guardo uma certeza
És um grande homem!
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 30 de novembro de 2021- na dor pela ausência que me aparta da minha filha e do meu filho, e dos demais "meus", nessa vida diaspórica.