Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo.
Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente. https://www.facebook.com/faatimarodrigues [email protected]
Eu creio! Ainda que os meus lugares de orações não sejam as catedrais e os meus totens não virem estátuas. Gosto mesmo é de acariciar a terra, as plantas, os animais e de cuidar das pessoas por sua mera existência. Vejo o retorno à natureza como a reintegração ao universo. Em noites de lua cheia me encanto com a claridade e a incandescência Em noites escuras vislumbro o que nunca vi Em dias de sol me abrigo na sombra ou deixo que a luz e o calor penetrem o meu corpo cansado até torná-lo um abrigo pleno, um saara a acolhê-los. A natureza tem muitas faces.Não reclamo de suas estações. Luz! Ressuscita em mim o que és, para que eu abrigue todo o teu calor e luminosidade num emaranhado só. Na natureza tudo me é encantador Tudo me traz aromas e sensações desconhecidas, além de lembranças, revivescências Não há palavras para descrever o que me evoca um encontro do rio com o mar Rio São Francisco! que li nos livros de Geografia e o imaginei antes de conhecê-lo. Rio Parahyba! De águas e força tão feminina descendo montes e atravessando vales. Rio que supõe altruismo ao atender aos Senhores, e por isso alimenta a cana de açúcar, mas geme de dor com a fome que o cerca. Rio Cariús! Nome de destemida tribo que orgulha a prole que o nomeou. Estás a sumir como sumiram teus filhos naturais, mas, teu tronco maior, o Jaguaribe, se encolhe e se expande em resistência Rios que alimentam braços e pernas de outros. Uma dor que não estanca me habita Mas prefiro chamar à mim a minha senhora, a mãe, a mulher, a que sempre acolhe a cria, a que não se desvencilha por que é guia. Tua estrela me traz o dia e me dá forças para sair das noites escuras. Mãe senhora! As minhas catedrais eu mesma ad construo. São templos de orações consagrados a ti, nos verdes vales ou nos desertos, onde repito : "Ave,Maria!" Tu me ouvistes, me socorrestes e eu aqui estou em nome do filho e do pai. Fátima Rodrigues
Expedicionários, João Pessoa, Paraiba- Brasil, em10 de novembro de 2022.
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Ditos e hiatos
Um seio vazio murcho Um útero em repouso sem função Uma casa desolada inutil? - Em adequação. Um corredor parado no tempo -"Semsons", surdo! Um estado de escuta permanente Contradição? Uma dor que doi e doi - Que aflição! Um inconsciente que se corrói na escuridão Um escudo no escuro - Porque razão? Resistência e porvir esperança e devir - Será em vão? Um vazio se abre lá no meu chão Há desertos e escusas -Sim ou não? Não é fenda à toa tem suas razões A vida segue na cegueira ou na promissão. Vem cá e me aconchega isso é perdão O amor perece na solidão O amor se embaraça No sim e no não O amor é veredito se dito ou não dito. Vê-se então que é chegado o reencontro - Não diga não De que vale o ser oculto na multidão Ser com o outro exige o ti Não diga não!
João Pessoa, Paraiba, Brasil em 23 de dezembro de 2023.
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Velejando
Um barco a perder-se de vista me fascina fico a mirá-lo até que a sua proa se esconda, além do horizonte Ao ver o céu e o mar em sua pureza novas rotas e descobertas me guiam Imagens fazem-se vivas em mim como fantasias da minha infância Penso em portos e em paradas em idas e vindas em novas descobertas e em novos lugares Sinto a brisa que adentra às janelas abertas de uma Geografia que me ressuscita Imagino diferentes pessoas Horizontes infinitos somam-se ao meu olhar Vasto é o mundo de cada um e o de todos nós Finita é a vida, mas a língua não Expressar-se é busca Se faltam palavras nos meus versos imagine as emoções nas entrelinhas Nem tudo precisa ser dito Se o dizer segue aquém o viver segue além Me entrego ao ócio.
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Mãe
Uma mãe caminha nas nuvens segue os filhos acolhe Estará sozinha?
Estar sozinha? (são instantâneos) Não há ausência os filhos acolhe ela os aninha
A língua trava o braço acolhe os filhos abriga ela os aninha
Mãe, mamãe, mainha! o som ecoa à noite os acolhe o tempo some
Uma mãe sozinha? ninguém duvide ninguém designe ela supera até o destino!
Fátima Rodrigues, Benfica, Fortaleza, Paraíba, Brasil em 08 de maio de 2022.
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Tua liberdade!
Foi com pura alegria, à luz do dia Foi com fé e poesia, em oração Caminhando sozinha, em movimento Ecoando o lamento, "sem pressão" Que de mim me fiz confidente, e consciente auscultando a memória e a imaginaçao Me vi plena, sem pesos, e "sem pressão" Eras tu em liberdade, por que não? Um amor se revoga? E então? Se for peso... há de ir sem omissão Se voltar... há de ser só com perdão Esquecer ou lembrar? Tempos de ser! Em pasárgada nos veremos Pode ser? "Lá a existência é uma aventura". "Sem pressão!"
Fátima Rodrigues, expedicionarios, João Pessoa, Paraíba Brasil em 15 de abril de 2022.
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Um sonho de mulher
Se eu soubesse dizer para além do que se diz Se eu pudesse criar para além do que se faz Se eu pudesse amar para além do que sou capaz inventaria um mundo em que todas as mulheres seriam respeitadas Das ladeiras do pelô às escadas do Cristo Redentor Nos milhares de metrôs e nos restaurantes retrô Das calçadas da fama às favelas em chamas Dos plantios regados a canções às mais doces emoções Tudo para elas criaria e num só canto diria dos meus afetos mais puros e da mais sublime admiração Embalaria seus sonhos Aliviaria suas dores Acalantaria seu pranto e dele faria orações sem nenhuma religião que as esteriotipassem Faria acima de tudo uma ode que as apaziguassem em seus sobressaltos e dores.
*Dedico às mulheres do meu convívio famíliar e dos coletivos acadêmicos e políticos que participo
Fátima Rodrigues Expedicionários, João Pessoa, Paraíba-, Brasil em 08 de março de 2022.
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Degustação da palavra
A palavra que degusto com paixão e desapego sem pressa ou alvoroço diz muito da minha sina e do continente que sou Com os olhos iluminados e o coração disparado palavras me atravessam e riscam o meu caderno com clarões de sons e tons De forma lenta e tenaz planto, lavro e colho versos numa estrada ao reverso onde as palavras se-dão Nessa oculta digressão com metafísica e escuta traduzo com ou sem rima as dores que a vida traz Nos limites do viver e muito além do horizonte escrevo ensimesmado ao modo de D. Quixote que de moinhos fez arte até com reis e rainhas Seguindo esse itinerário a palavra voa livre com ou sem identidade em registros pontuados ao modo dos trovadores ou de anônimos repentistas.
Expedicionários , João Pessoa, Paraíba - Brasil em 18 de fevereiro de 2015
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A forma do falso e a forma dita
A forma do falso e a forma dita Fátima Rodrigues
( Para a cantora Elza Soares) Eu atravesso fronteiras, sem nenhuma permissão,
promovo ocupações, e por assim ser sou clandestina,
crio grafias no chão, nos ares, em mim e nos outros.
Me inscrevo em ações voluntárias
só pelo puro gosto de ultrapassar a forma dita
Quem sabe ler a forma do falso?
A forma que se diz Lei resistirá ao veredicto?
Caminho entre labaredas sem senti-las,
pois me fiz errante, desde as primeiras viagens.
Errar por subversão é algo que me sobra na vida.
Séculos já vivi e ninguém crê
E só quando atravesso os desertos é que retorno revigorada
Abraço as brisas nomeadas como o vento do Aracati, só para me aliviar...
E as brisas que são anônimas?
Para além da cena, adoro o anonimato!
porque ele me permite ser a forma perfeita.
Quando me mostro, a nudez me torna estranha a mim em razão do outro.
Persigo caminhar na escuridão, no deserto, e até mesmo no lamaçal que marca as tempestades,
após esses eventos vislumbro uma herança pura, recomeço de alma lavada.
O novo ali ressurge das vagas, sem nada a dar, mas com orgulho de ser.
É preciso recomeçar com a pureza de quem nada têm, nada herdou e nada é,
porque é do nada que viemos, e é para o anonimato que retornaremos
Ser natureza é o nosso destino, assim creio. "Com Deus me deito com Deus me levanto" Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil 26 de janeiro de 2022
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Retalhos de um estrangeiro
Retalhos de um estrangeiro
Retalhos da vida, de dores e de alegrias é o que sou Se gargalhei e rodopiei numa avenida segurando o standarte foi porque encarnei o teu ser de tal forma que me perdi de mim Via os teus morros sangrando, ruas festivas, e as mães em puro lamento! Dias longos desfilavam frente aos meus olhos cansados Noites insones se refletiam em opacidade nas poças d'água e nas ruas de chão batido Almas exasperadas com as perdas juvenis explodiam em canções e em oraçoes ao meu redor Em certos dias, o meu rosto cobria-se de serpentinas em vôo livre pelas arquibancadas afora Me via num bailar sem fim e num gracejar insano. Uma alegria pura como a de mulheres livremente prenhes me cobriam as vestes Me envergonhava das dores dos pavões, dos avestruzes, dos exilados, e do martírio dos meus parentes e vizinhos violentados em seus habitats Em instantes me via acompanhado naquela encenação carnavalesca onde a dor veste-se de euforia Depois ficava a sós e nu a me indagar: - Como recompor o palco da vida? E que vida meu Deus! Oh! Cidade amada! Me leva em tua alma, em tuas madrugadas e em teus dias ensolarados Repete comigo as orações dos meus Orações em retalhos que nunca as apreendi por ser apenas estrangeiro Apenas isso: estrangeiro de mim e exilado dos outros.
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Travessia
Seguras com afeto as minhas mãos mas o teu olhar só vislumbra o longínquo horizonte Te revelas a cada instante em dobras infindas ora marejadas, ora ressecadas Teus matizes me incandeiam Me encolho como faz o mar antes que chegue o furacão Eis que nos escutamos no frenesi da vida - Quem és ? - Quem sou? Me instigas a voar para dentro a varar as profundezas a penetrar em noites escuras e a cultivar canteiros em manhãs claras Te sigo por vielas incontornáveis em urbes mutiladas O breu não te emudece Em mim calas o choro o pesar a virulência da dor Ao escutá-lo as tuas angústias ressoam em mim em uníssono! Somos andarilhos nessa caminhada onde a dor do retorno a nós não tem limites Somos um amálgama ao inverso ao reverso no infinito de nós mesmos Nesse universo em verso somos a multidão a penetrar as visceras do mundo a cavalgar o nada à beira do abismo Somos a incompletude a sangrar até que as luzes do teu ser acendam em ti o que és Anseio por teu crescer só para que tenhas aconchegada em ti a tua própria liberdade Enquanto vicejas guardo uma certeza És um grande homem!
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 30 de novembro de 2021- na dor pela ausência que me aparta da minha filha e do meu filho, e dos demais "meus", nessa vida diaspórica.