O ser da palavra
Se está entre
é interstício
No presente
é herança e patrimônio
A sua falta
desafia o silêncio
Ao se adequar
encanta-se no ato
Nos confrontos
é coragem assimilada
Em seus rodeios
se desvela em metáforas
Se endurece
é rocha cristalizada
Quando contida
é água aprisionada
E se liberta
é torrente apaziguada
Quando cala
é explosão represada
Se desafia
é duelo em linguagem
Ser e renascer é o desafio da palavra.
A Terceira Via “à direita”
A Terceira Via sentada em berço esplêndido, combina submissão e alienação à direita de todas as situações;
A Terceira Via ignora as veias abertas e sangrentas do Brasil na pandemia;
A Terceira Via ignora até mesmo cenas que no carnaval promovem os cortes-reais, quando vidas negras são negligenciadas nas alturas de modernos edifícios, expressão e ápice do racismo estrutural;
A Terceira Via esconde de si as mulheres e nega-lhes a política, deixando ao seu encargo o sangue escorrendo por suas virilhas, enquanto o presidente veta a lei e vocifera: segurem suas veias, estômagos e ventres!
A Terceira Via ignora os inocentes ardendo em febre e fome, enquanto esses famélicos esperam os céus dos evangélicos e concordam com os católicos negacionistas;
A Terceira Via desconhece as famílias unidas nos cruzamentos urbanos, com suas placas encardidas, a nos lembrarem da crua miséria humana;
A Terceira Via é o leite e o pão de cada dia entregues em fartas cotas ao agro pop no Congresso Nacional, e se “à direita” em todas as estações e dias do ano;
A Terceira Via agrega bilionários arrumadinhos que sonham em colonizar Marte, para não ouvir os ecos dos tiros das favelas, e às escondidas higienizam suas mãos sujas de sangue;
A Terceira Via tenta roubar a cena da luta dos trabalhadores contra a mentira, golpes de consciência desfechados por diferentes linguagens nas Ditaduras: ecos do Auto do Frade, o Frei Caneca, executado nos teatros das salas de aula, narrativas como Os Sertões sobre a destruição de Canudos casa a casa, e filmes como Mariguella, enredo de um militante executado em via urbana;
A Terceira Via esmaga - sob o jugo do capataz da vez no Congresso Nacional -, a memória da Guerra dos Bárbaros, enquanto avança em territórios indígenas com toda a sua boiada;
A Terceira Via oculta, com suas potentes mídias, as mãos solidárias das periferias posicionadas em defesa dos que tombaram em prol da Reforma Agrária, e de Mariele Franco, executada no Brasil, e em Paris homenageada;
A Terceira Via legítima a Necropolítica fascista de todos os dias, mantida pelas milícias-militantes-militares do Estado;
Sentados na precária invenção da Terceira Via os ricos dizem-se sem liberdade para respirar ar puro, e reclamam da opressão em seus carros blindados, helicópteros, heliportos, enquanto gravitam assombrados com as hélices giratórias dos seus pesadelos em noites insones;
Estão os ricos acuados pelas imagens de famílias pobres e confinadas em sua horrível miséria, por idosos- fantasmas e suas famílias piedosas, todos a clamarem por justiça em depoimentos na CPI da Covid 19;
Os ricos do Brasil engasgados com a própria comida - que regurgita em suas estreitas gargantas, em seus estômagos azedos, nas suas bocas sedentas de moedas-, são espectros harmonizados por cirurgias sem-fim, e navegam em busca do desfiladeiro da Terceira Via, sua grande esperança de redenção, Via que os manterão no mesmo lugar, no conforto do seus bankers, ressecados e retesados pelos marca-passos dos dólares, e dos paraísos monetários, confinados e alimentados pelos grilhões insanos da miséria humana.
Será mesmo essa a nossa via?
Fàtima Rodrigues,
João Pessoa, 15 de novembro de 2021
A Força do Silêncio
No principio fez-se doído o silêncio
Que em latência manteve-se à retaguarda
Tu fostes sombra
Sempre tão presente
E imersa em mim
Jamais te ausentastes
E eu fiquei então aprisionada
Envolta estive em lágrimas vicejantes
Que inocentes
Me lavavam a alma!
Vi o silêncio
A ocupar-me inteira
Num movimento além do tempo-espaço
Foi quando o luto
em sua plenitude
Abriu-se em luz na escura madrugada
Ao aplacar em mim a dor profunda
E o desencanto que me ocupava
A luz candente me guiou serena
A transpor fronteiras antes impensáveis
Ergui-me em meio à cascata de lágrimas
Que estagnada mostrou-me as veredas
Da misteriosa cartografia humana
Que para além da sua vã cegueira
Nada enxerga além da própria sombra!
Revivido e pleno se fez o entendimento
Que em vigilia
Nasceu pacificado
Em douta e cabal
descoberta do humano
João pessoa, 24 de outubro de 2021.
Travessias do ser
Atravessei ruas, becos e vielas
não via e nem era avistada
Senti as madrugadas geladas
e o silêncio a contornar-me
Um rio caudaloso fez-se em mim
de margem à margem
Se fez pleno
sem barqueiro
Só um imenso e angustiante vazio
me invadia
e eu procurava o calor de um abraço
Encandeada
atravessei desertos e pântanos
e nem na multidão me encontrei
Sobram desertos
nesse amalgama
que é a minha vida
Mas em meu ser
a graphia é generosa
E os mapas ?
Desnudam a terra
conforme a vista alcança
Não desnudam a mim
onde o aço e o vazio se alternam
numa valsa insana
Ser é incongruente, Sei!
e nem isso me faz temer
Na lua crescente me ergo incólume
A vida requer coragem.
Transgressões
Eu me embaraço com as minhas emoções
É que elas não são duradouras como eu gostaria
E por ti fico inquieta a justificar-me
Sou fiel até onde posso
Até onde chega uma outra emoção e me leva na correnteza
Poderia ter heterônimos, pseudônimos, mas de que adiantaria se tudo transparece?
Há em minhas profundezas uma montanha de sentimentos que me divide, me distancia e me ajunta
Nesse lugar sou cativa de um pensar tão frouxo que alço vôos de toda envergadura
Difícil é aterrisar no plano
Quero as montanhas
Mesmo quando o olhar de cima para baixo me causa vertigens
Sou tola quando penso nisso
- Melhor é existir.
Acordar
Leve e tênue pulsar Híbrido
que nos traz luz e sombra
Sentidos de si e solidão
No abrir e fechar dos olhos
um quê se indaga
enternecido ou decaído Ato
em si
aberto par a par
ante o insólito
O novamente visto De novo
a crer ou descrer
Querer ou negar o ser
Acordar
sem querer a si Acordar
na madrugada enlutada
Dar cor de si
No amanhecer pleno
luzes se esvaindo Ao vento
galáxias a perderem-se Na imensidão do cosmos
juntam-se e separam-se
num circuito entre pequenez e grandeza
Na poeira .... Do nada
o ser se escuta.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 26 de janeiro de 2021
Haicai
Eu planto canções
grafando versos livres
Colhendo emoções
Memória de um rio
Rio que abracei a nado
Me acolhes inteira
Desde a minha Ribeira
És por mim amado !
De longe ouço os teus brados
Te navego à vela
e escuto os teus ecos da minha janela
... sons tão afinados !
Quando o ausculto ao vento
Sinto uma calmaria
Que sem ti não viria
Com tamanho alento !
Pensas que És somente
Um andante líquido
a desaguar fluido
um mero rio corrente ? !
Em mim tua memória tudo evoca
lembranças tão cálidas
postas em camadas
fábulas inequivocas !
(Em homenagem ao Rio Cariús- Nova Betânia_ Distrito de Farias Brito, Ceará, rio da minha infância, que me acompanha todos os dias)
Fátima Rodrgues.
Um ano por inteiro
Ao ganhar um ano novo
que o tenhas por inteiro
Reveja o vivido ponto a ponto
Anote e repare, se for o caso,
o que fez com intenção
Anule os afetos
que trazem a desesperança
Apague o que passou do prazo
ou renegocie-o com quem puder
A vida pede passagem
Se mágoas são apagadas
o perdão é teu
Não deixes que façam dele troféu
Caminhar mirando horizontes
nos traz belas paisagens e renova as utopias
Se durante o dia veem-se pontos obscuros
em simulacros ou em explosão de cores
à noite tem-se constelações a brilharem
Dentro de nós um mundo é dado
torna-o grande
como somente tu podes
Mas se a invenção do tempo te perturba
sê inteiro
Inventa o teu próprio tempo
no comando da tua vida
Para cada ser há um horizonte
a descortinar novidades
em pedaços de festa, de júbilo ou de dor
Ano velho?
Memórias de nós
Terra fertilizada, arrasada ou replantada?
seja o que for !
Na simplicidade
podemos semear grãos e renunciar naturalmente a essa contagem do nada
O tempo é pura invenção
Ser é o que em si se reinventa.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 31/12/2020.
Tic -tac do amor
Tic -tac do amor
são apenas dois sonzinhos
que anunciam bem de leve
- vai chegar um bebezinho!
Tic-tac, tic-tac
agora é o meu coração
a imitar o relógio
provocando confusões
Tic-tac, tic-tac
Não me atormente a cabeça
pulsando tão lento assim
pois o esperar das horas
descompassa as emoções
Tic-tac , tic-tac
Pisa firme no andar
pois sem a tua cadência
como o tempo chegará ?!
tic-tac, tic-tac
bate calmo,
bate lento
não me provoque tensões
atente ao acontecer
pois um bebê já chegou
e me faz imaginar
que é tempo só de amor.