Eixo
A espera acabouO leite azedou
E o vento rodou no seu eixo
Como eu que há tanto vos deixo
Quinta dissonante
Estou na casa que não tenho.
Vou para a rua e seu desdenho?
Ó Amores, eu nunca vos tive.
Ó mãe, perversidade às escuras,
Ó filhos que nunca mantive
Ó estrelas escuras, razões obscuras,
Meu céu noturno, firmamento
Que não ouço teu negro vento.
Rodeado de pressões,
Atentamente ignorado.
Plaino povoado de gente,
Ora ora, epifania intermitente,
Ondas mil de sensações.
Nada há, São João passado,
Amnésia de ter provado rojões.
Plaino empedrado, não vamos cantar
A balada dissonante onde vamos parar
Oitavas e quintas, la quinte du loup.
Cactus ensimesmado, ausência de troupe.
A faca de dois legumes
Dorme e acorda e ama todos vocês que me criticam
Vós que me desejam retorno dos defeitos tantos que tenho e carrego.
Minhas filhas, incríveis forças, sabem a minha fé
E vós hão dizer coisas que não projeto para este futuro
Cego enledo de amores perdidos.
Onde estão os raios dos sois amigos da melanina
Amiga morena, água morna da cachoeira,
As cobras de água em festa de verão, hoje melhor,
Amanhã lindo de morrer na praia,
Praia do inferno, ponta do ardor deste pau
Que é o fim do coxasso e a antecipação da menina linda filha querida,
Melhor o sexo, mais querida a descendência. O resto é racionalização
Somos centelhas de coração selvagem num livro meio impresso,
Um vídeo meio postado, nunca será acabado, depois do fim vem os créditos,
E a raiva de viver acumulada acorda a fera preparada para enganar,
Pronta sem o saber, a reagir parada, a fazer amor num olhar decidido
Pronto para roubar se assim for o blues a tocar, insanamente.
Nós somos ladrões sem ocasião, a natureza de querer o alheio está no sangue.
E olhamos as estrelas sem querer saber, só bebemos a beleza do cintilar,
Uma noite de lua nova e as estrelas aos milhares, erguidas no alto do mar.
As crianças a crescer, as mulheres a mandar, a roda a girar, eu que vou parar.
Domingos a penas
Domingos apenas, inutilmente sofridos
Tão raramente vividos nestes anos corridos,
Onde me desejam planos a reparar danos
Melhor quando saía lombrado sem dormir
Cansado do amor suado, skoll matinal,
O papo pouco banal, os cães a conversar
As pessoas a comprar pão e eu a disfarçar
A comprar o que não havia de emborcar
Ou até fumar uma preta, que era raro,
Uma loira com a branca de qualidade,
Essa era a dona do domingo de verdade.
Domingos cheios de intencionalidade
Tardes de calor, água ,sexo, insanidade,
De família,no jeito que se traz no peito
Até sobrevir a corrente de decidir sob ameaça de prisão
Optar pela saúde sem pão, a matar-me desde então,
A lutar contra a minha natureza, a minha certeza
A amarrar-me à decadência sem qualquer beleza,
Instilada dor, falar em amor, induzir estupor, temor.
Pois mais vale uma manhã das belas que este recorrente pardieiro,
Trocava uma dessas por um ano frio, de fosso, inteiro,
Que prescindo do canudo da faculdade, das Senhoras de Fátimas,
De existir, realmente, de inspirar ar seco, da ansiedade.
Olhos velhos, refratados em miríades de lágrimas
Vertidas sem soluço, lágrimas escorridas, páginas vazias,
Arredado na proximidade, falso, ciente da verdade,
Os certos e eu errado, tertio non datur, onda e reverberação,
Conversão irrecusável, subtil humilhação
Transição ao pior dos eu-mundos possíveis
Em micro degraus invisíveis, desníveis
Certos, que solidão não é não ter tostão ou não poder ganhar
É ser apagado a pincel, restaurado fora do painel,
Ostracizado, depredado, enganado, pisado,
Como eu, o impiedoso, haveria esmagado,
Egoístico-narcisicamente iludido,
Os que outrora julgara ter amado.
A justiça será feita e a criatura desfeita,
O pobre coitado, alienado, carente,
Um farrapo doente, mais um demente,
A reabilitação, inserção, prevenção especial de socialização.
A revolta do urbano rebanho dos integrados,
Assim por bem banirá o egoísmo do alterado.
O dados antigos ainda rolam, cubos lançados,
Planos esmiuçados em forks traçados,
Que no dia de ficar mudo, hei-de sorrir
Ao lembrar todo o dia o que vos ouvi mentir
A tentar trazer uma razão
Que não aceito neste porvir
Quisera jazer contorcido
Num plano esburacado, perdido.
Sempre, estejam certos, a final,
Deitarei onde quiser, ou, se não puder
Numa simbólica Pasárgada qualquer.
Sem ser amigo do rei, nem toque de roque,
Um salgueiro vergado na onda de choque.
Um peão coartado no alheio chão, quimera,
João sem mera terra, afastado da galera
Tal o pigmeu do ateu, carvāo sem ambição,
Banido, sem piedade, pela hoste da realidade
Que seja esquecido e nunca referido
Que seja ignorado e nem sequer mirado
Que não seja incluído
Seja ele tentado e sempre recusado
Que se sinta amargado e para sempre apartado
Que entre num Loop inescapável
Seja um completo e total miserável
Um Midas moderno tornado eterno.
A constante de Hubble, a Friedman equation,
Sobrevivem, attention, entretanto,
Drake's equation nem tanto,
Nicole Kidman, Moss e Gwendolyn
Não estão nem aí, entretanto
E eu habito um mundo finito
Num instante que balança numa trança
Que seguro enquanto danço
E rio da seriedade e da verdade,
Sem desmerecimento, convosco empatizo,
E sempre que me coloco no vosso lugar
Uma lua de sangue, um estranho luar
Cassandriza no meu pêndulo a vossa ilusão,
A razão da importância que dão à noção,
E como v/o chão afundaria na minha posição
Perdida ilusão de instabilidade evolutiva
A noção de luta pela vida, a vossa base
Ponto de equilíbrio, obra da humanidade
A necessidade de manter a glutamil transferase
Gama GT, não tem de quê.
Não sei que vos dê, não sei que faça
Ajuízo que é mais isso que vos ameaça
Como o receio de um contágio
Como um mau presságio no intestino
Um pavor enraizado de desatino
O ruir dos padrões, a falta de normas,
O furacão que roda na orla da verdade
O destroyer da fundamentação
Desordem da ação e consequência,
Como garras a raspar dentro da cabeça
Uma coisa que ninguém quer que aconteça
Assim procuram um amor que tudo supere
Um amor que eu tenho roubado do mundo
E me sustenta neste lugar fundo.
,
Ausente presente d/no dia
Porque hoje é sábado, tantas vezes li
Porque hoje é sábado, querido Vinicius.
Hoje, morituri, Si vis pacem, para bellum,
Se quero paz a guerra é inevitável,
E então estou hoje derrotado,
porque hoje é Sabado,
Todos os dias massacrado e mais,
Porque hoje é Sábado.
Amanhã, acordarei ou não e o Sol,
O Sol da alegria, esse o não o verei
porque estou emparedado,
Cansado de terem feito força comigo,
De eu ser amigo de quem não enganei.
Amanhã é a repetição de hoje,
Escreverei coisas dispensáveis
Lamentarei não ter a estirpe do matador
E assim ser eu o vaso da dor
E não aqueles que deveria dispor.
Poderei ter sido enganado e vendido.
Poderei ter sido um boneco sem decisão
Poderá não haver amanhã cor de rosa
Poderei mandar-vos foder em prosa.
E hoje, ficar com o poeta,
no sábado de Ipanema,
Alheio,
Se é esse o do poema,
Pois, na verdade, aqui,
o Sábado, sem poena,
é por demais triste e feio.
Nascida alta
Notável acreditava ser um dia,
Charmosa nesta hora imediata,
Mulher que os ata pela pose,
Erotismo com que se retrata.
Nascida alta o pai lhe dera o nome
A mãe a formação para o carregar.
Hoje a inclinação do vento, dobra
Suas costas, fitadas, fundo no rio,
Sentem o correr do sombrio arrepio,
A esticar o passo na umbra, desvario.
Beleza dominada por Newton
Porque cais agora, que és tudo
O que nunca fiz de mim, sobretudo?
A sereia já nada nas vagas do rio,
Ou assenta no fundo um segundo,
Fleuma para despedida do mundo.
Nascida alta descansa no lodo.
Todos mortos na família,
Não haverá vigília
Não há mais quem a procure,
Nem um sinal que perdure.
Escala de Mohs
Cada olhar de faca enferrujada,
É uma estocada, cada vez que a ira
O ignoto desprezo, o juízo sem peso
Me tocam, eu regozijo, esquivo, altivo,
Alimento a distância que nos separa.
Esquecida vara que me açoita, atitude afoita,
O meu passo parece esquecer as grilhetas
E o seu peso ausente, ilusão de não mais preso,
Sentenciado, todavía, todo o santo ou profano dia.
Cada censura perdura em mim numa carapaça,
Uma coisa dura que me ultrapassa,
Não sei o que seja,
Não é que se veja,
Uma subida de Mohs, um salto na escala,
Até que um dia, breve, riscados sereis apenas, afinal, vós!
Que nos leve a ceifadora desta estada breve,
Que nada afinal transpareça do que ora
Se escreve.
Não interessa essa ideia de tantos conteúdos,
Como um velho lord inglês tinha de sobretudos.
Varanda de prece
Emoldurada varanda verde além da porta,
Aberta para o perfumado jardim ao poente,
Uma mulher tinha uma ideia premente.
Os seus caracóis ruivos brilhavam ao Sol
A sua Pele de marfim e olhos de azul sem fim.
Jolin, jolin, jolin, jolin,
S. João dá cá um balão e olha essa Jolin,
Protege o meu homem dessa lindeza.
João por favor não o deixe arrastar por seu poder,
A voz dela é como a briza que vem de Espanha,
E não há varão que resista ao chamado.
S. João ò padroeiro por favor te peço agora,
Não a deixes levar o homem que me enamora.
Ele chama e grita o nome dela de noite
Enquanto, agarrado à almofada eu murcho e choro;
O sorriso dela é como o sol da matina
E no seu corpo manso tudo desatina.
Por favor jolin não mo leves a mal
Por favor não mo leves só por levar,
Jolin, contigo eu não posso lutar para ganhar.
S. João, S. João, S. João, S. João!
S. João, vou lançar um balão, brincar e sonhar,
E ai de mim, jolin deixa tudo assim.
Tu tens qualquer homem que viva,
Não leves o meu que é meu, só por levar.
Jolin, estou a pedir, deixa, que amor só tenho este,
Ninguém mais me resta para consagrar o amar.
Jolin, quando ele te olha assim, para mim, isso é o fim.
Jolin, Jolin, Jolin, Jolin,
O Douro antigo desagua fecundo no oceano profundo.,
S. João, não a deixes levar o meu homem, hoje começa o verão.
Neste balcão de prece o rio é testemunha, estou nua na emoção.
Jolin é verão, não o leves mais não!
Jolin não me deixes sem os meus ruivos caracóis flamejantes.
Tira estas rugas sem fim da minha pele marfim!
Jolin, Jolin, Jolin, Jolin,
Leva todas estas coisas alheias que agora surgem em mim...
Jolin, Jolin, Jolin, Jolin...
(adptação a rever) 2017-06-23
Ditos de incompleto
A fala de fulano que encontrou no café
E como depois disso não vai mais lá por pé.
B refere o prazer de abraçar o amigo que acaba de chegar de longe
C não entende como um mulherengo da Bohemia é hoje respeitado monge
D descreve o Sábado em que decidiram parir a Maria num belo futuro dia.
Eu tenho uma mangueira no terraço parada como serpente cansada
Que a última vez que engoliu uma ratazana bacana faz mais de um ano.
Rodeada de ervas e receosa de sofrer dano.
Eu tenho ideias que ninguém quer ouvir e está claro para mim
Que isso não acontecerá
Nem que a vaca tussa e tussa
Nem que a herbívora seja russa.
Não que haja toxicidade envolvida
Alguma cariátide chocante, caída,
Ou um presunto não defumado
Que se sinta intimamente prejudicado.
F é uma elegia da Salsa que se dança
G conta da marota da gatinha da vizinha.
Hoje não se liga mais a Hollywood nem a Mafamude,
Conta-se do som calmante junto ao açude.
Indo mais além há quem derrube catedrais para fazer mais.
Junte-se tudo isso, seja escrita uma ode ao chouriço bem tostado
Literalmente tostado, em álcool a arder, e chegou a hora.
Mal mal, maravilha ou maldição de usar este alfabeto,
Maldito modo de destratar o danado, pobre coitado.
(este idioma que permite esta vergonha tem dado a gente distinta a oportunidade de o ver elevado e louvado).
(para quem sofre de ideias persecutórias note-se que me refiro ao sr precioso tempo quando digo maldito modo de ser ocioso)
Sangue matinal
Tenho muito sono de manhã
Esqueço o amor daquela noite
Que amanheceu na cobardia
De não encarar de frente o novo dia
Tenho mil coisas solitárias
Panfletária natureza isolada
Um milhar de sonhos de concretização negada
Vem para mim amor dessa matina
Deixa eu acordar
Devolve essa sina
Qualquer palavra tua para vestir
Aquecer esta alma nua
Haja sangue na na rua
Haja sirene, o homem do Leme
Olhar fito naquilo que teme,
Olhar perdido no que há por vir