A um ódio antigo
A um ódio antigo que trago comigo
A uma raiva amarga que embarga
Pensamentos coerentes em displicentes
Não sabeis vós
Não sabeis vós
O que nunca vos confessarei
Do que restará enterrado
Apartado, nada, ausência de legado
Pois quem já partiu nunca terá chegado
Pois quem vos diz
Pois quem vos diz
É filho de um ódio antigo e nunca partido
É quem levantará ferro de deixará um berro
Um ulular incessante uma raiva lancinante
Que nunca haverá doravante
Precipício
Adiante de uma porta raramente aberta
Há uma lânguida sexualidade desperta.
Vermelho desbotado, tarado, crente
numa vida que podia ser e não é,
Gozadas, orgasmos que corro a pontapé
Num precipício em que anseio por este pé,
O outro no ar num salto de fé, não sei se é,
Ou toda esta doença de saúde adiada
Apenas uma macabra festa sonhada,
Psicopatia de uma besta aprisionada.
Salto de anseio
Adiante de uma porta raramente aberta
Há uma lânguida sexualidade desperta.
Vermelho desbotado, tarado, crente
numa vida que podia ser e não é,
Gozadas, orgasmos que corro a pontapé
Num precipício em que anseio por este pé,
O outro no ar num salto de fé, não sei se é,
Ou toda esta doença de saúde adiada
Apenas uma macabra festa sonhada,
Psicopatia de uma besta aprisionada.
Balada do irrelevante
Hei-de estar morto quando a vossa perna
Me alcançar e pisar deitado no meu leito
Ferido de mil golpes infligidos, mil golpes
Derrotado na pedra tão fria como o cadáver
Que um dia nunca se deu por vencido,
Que menos o imaginam, de si esquecido
Que todo o mundo é apenas todo um globo
Povoado pela vida de tantas extinções,
Ó povo
Hei-de encarar-vos morto, tão partido, torto,
Minha face esfacelada calma e persistente
Tão certa de si, tão descrente, ora ausente.
Eu que persigo a Chimera que me espera
Esfíngica e à qual nunca responderei,
As mesmas respostas que nunca vos dei.
As que amei, ao revolto destino abandonei,
As crianças que riem no sonhos suprimidos,
O sangue escorrido dos membros feridos
Em mãos atadas no cume dos esquecidos.
Os sonhos que não sabem que sonhei,
O coartado acto que não, nunca vos prestei.
Ignomínia antiga, dum vivamus, vivamus
É um ponto na planta onde já não encontramos
As coordenadas possíveis de alguma presença,
Um passo congelado no fim destes anos,
Agora que as árvores velhas que passamos
São testemunhas que já cá não estamos.
A vós a vida que levaram por mim
A vós uma ode insana e sem fim
Pois comecei a partir bem antes de cá vir.
Sede, que eu fui e esfumei-me
No loop do coup-de-grâce
Como se não me amasse
Neste idílico momento, abracei-me
E esse sangue escorreu-me exangue
Eu que não me dou por vencido
Na louca teimosia, já esquecido.
Eixo
A espera acabou
O leite azedou
E o vento rodou no seu eixo
Como eu que há tanto vos deixo
Sangue matinal
Tenho muito sono de manhã
Esqueço o amor daquela noite
Que amanheceu na cobardia
De não encarar de frente o novo dia
Tenho mil coisas solitárias
Panfletária natureza isolada
Um milhar de sonhos de concretização negada
Vem para mim amor dessa matina
Deixa eu acordar
Devolve essa sina
Qualquer palavra tua para vestir
Aquecer esta alma nua
Haja sangue na na rua
Haja sirene, o homem do Leme
Olhar fito naquilo que teme,
Olhar perdido no que há por vir
Poema de um minuto
Poema de um minuto feito por mim
Quem se irrita de ser lento assim
Dando razão ao ritmo de Shenzhen
Pois nunca direi amém com ninguém
Que não respeite a produção do espírito
A ideação da razão de viver
Uma produção do muito querer
E admire os deuses como protuberância
Produto da voluntas da nossa ânsia
De transcendência, de sentido,
De um ser mais sofrido
Do irmão sempre ter rido.
De não encontrar carteiras na rua,
Da fundamental incoerência natural
Que começa por criar o bem e o mal
Eventualmente a genealogia da moral,
Uma razão para obedecer ao sem sentido
Do erigir de qualquer complexo normativo
Lex humana, Lex divina, antes da afronta.
Ateu coerente que vê a utilidade dum deus presente,
Não se esconde atrás da sua certeza,
Cego para a realidade de que o ateísmo
É menos útil do que um reinventar de deus,
E que o fundamentalismo deriva duma carência
Exacerbada pela raiva de se saber na crença errada.
O pior deus é o materialismo post moderno
A insidiosa ideia colaborativa é monetarização
Exploração da natureza competitiva
Que trazemos insita no codex da vida
Nessa hélice helicoidal que se tem por banal
Na venda da nossa essência às ulteriores
Obrigações face às futuras gerações
Da passagem do testemunho, S João em Junho,
Tradição restaurada, identidade renovada, a mão em punho,
Andar em frente é progresso, a chave do sucesso,
Pendência é abusar da nossa paciência na indolência,
Que todavia quer comprar agora e fruir dentro de uma hora,
Logística, codificar ao microsegundo, modificar o mundo.
Então da escravidão paralela, uns perdidos,
Outros numa vida bela, passamos para a sucessiva
Todos somos escravos duma para outra vida
Filhos, netos, responsabilidade social., infernal não banal...
Recompensa é viver a vida numa incessante corrida.
Aumentar o rendimento em nosso próprio provento.
O vento do rendimento o desprezo da Indolência,
A vergonha da insolvência, da resistência, uma presciência...
À verdade da vidente sociedade,
Aprovada demonstrada testada.
As sociedades ocidentais infiltram o oriente,
While os think tanks cogitam o pensamento.
Enquanto a taxa do bem estar é um valor ascendente
Mesmo admitindo tudo o que está errado
O globo continua amarrado a uma crença
Cada vez mais subliminal e menos natural
E patentemente bem, bem sucedida,
Como prova a nossa vida nem divertida.
Invocamos os caçadores da savana para capitalizar o Gana,
Construímos a estrada da seda e nasce o Make Use Of,
Como em Portugal se investe em capital intelectual ,
Capitalização da instrução condition sine qua non.
O Benelux é um portento de saúde em rendimento.
A força irresistível da totalidade,
A beleza é a fé na verdade
A crença na humanidade
A ribalta cosmopolita da cidade,
Evolução sem poluição, sustentabilidade.
Desmaterializado o vil metal
Não se sabe qual a causa do mal
A prova de esforço ou de envolvimento,
Perpétua a inevitabilidade do movimento,
Porque parar é morrer, andar para falecer.
Pergunto muito humildemente;
É só por estar doente de solidão
Sem ninguém que me dê a mão
Que uma profunda emoção de inquietude
Se instala em mim como uma certitude?
Por ter derrubado a parede e poder ver para fora,
Para além deste perfeito conforto agora,
E saber que a tal descontinuidade é só meia verdade...
Assim calmo e confiante de que realmente,
Nunca tanta gente esteve tão pouco doente,
Na certeza de uma incerteza insita na natureza.
Não aceito responsabilidade pelo futuro da humanidade
E acredito que essa é a condição essencial da minha utilidade.
Aceitar tudo, compreender, incapaz de fazer
Há-de haver uma razão de ser,
Que evidente pode ser apenas nada
E, assim sendo, ser o motor da manada
Enquanto isso vivo as vidas ficcionadas
Habito realidades alteradas
Visito mundos paralelos
Impávido face ao legado de folículos que crescem
Atento aqui, alheio em geral,
Ausente da natureza natural.
E suspiro ao saber que este minuto de relatividade
Durou para outros toda uma eternidade.
Larghetto
Rostos, partidos e presentes, que me fitam
Pessoas que me olham e me mostram
A simples verdade de ter algo para dizer e fazer
Essa era uma bênção que me prezaria ter
Nós atados, dados viciados, passos calados
Como tanto pode ser quase nada
Como uma pessoa que está isolada
Apesar de lamentar, se sente abençoada?
O mundo além
A casa onde me abrigo
A roupa que visto
A mulher com que me avisto,
Noite após noite,
Enquanto dou voltas
Na cama onde me deito,
É tão minha como
As filhas que trouxe
Ou os que me deu
Não sendo ninguém
Pertença do próximo,
Uns são mais
Próximos
Que outros
A mim
Ninguém me é próximo
Sou ausente
De tudo
E assim quero ser...
Nascida alta
Notável acreditava ser um dia,
Charmosa nesta hora imediata,
Mulher que os ata pela pose,
Erotismo com que se retrata.
Nascida alta o pai lhe dera o nome
A mãe a formação para o carregar.
Hoje a inclinação do vento, dobra
Suas costas, fitadas, fundo no rio,
Sentem o correr do sombrio arrepio,
A esticar o passo na umbra, desvario.
Beleza dominada por Newton
Porque cais agora, que és tudo
O que nunca fiz de mim, sobretudo?
A sereia já nada nas vagas do rio,
Ou assenta no fundo um segundo,
Fleuma para despedida do mundo.
Nascida alta descansa no lodo.
Todos mortos na família,
Não haverá vigília
Não há mais quem a procure,
Nem um sinal que perdure.