A faca de dois legumes
Dorme e acorda e ama todos vocês que me criticam
Vós que me desejam retorno dos defeitos tantos que tenho e carrego.
Minhas filhas, incríveis forças, sabem a minha fé
E vós hão dizer coisas que não projeto para este futuro
Cego enledo de amores perdidos.
Onde estão os raios dos sois amigos da melanina
Amiga morena, água morna da cachoeira,
As cobras de água em festa de verão, hoje melhor,
Amanhã lindo de morrer na praia,
Praia do inferno, ponta do ardor deste pau
Que é o fim do coxasso e a antecipação da menina linda filha querida,
Melhor o sexo, mais querida a descendência. O resto é racionalização
Somos centelhas de coração selvagem num livro meio impresso,
Um vídeo meio postado, nunca será acabado, depois do fim vem os créditos,
E a raiva de viver acumulada acorda a fera preparada para enganar,
Pronta sem o saber, a reagir parada, a fazer amor num olhar decidido
Pronto para roubar se assim for o blues a tocar, insanamente.
Nós somos ladrões sem ocasião, a natureza de querer o alheio está no sangue.
E olhamos as estrelas sem querer saber, só bebemos a beleza do cintilar,
Uma noite de lua nova e as estrelas aos milhares, erguidas no alto do mar.
As crianças a crescer, as mulheres a mandar, a roda a girar, eu que vou parar.
Precipício
Adiante de uma porta raramente aberta
Há uma lânguida sexualidade desperta.
Vermelho desbotado, tarado, crente
numa vida que podia ser e não é,
Gozadas, orgasmos que corro a pontapé
Num precipício em que anseio por este pé,
O outro no ar num salto de fé, não sei se é,
Ou toda esta doença de saúde adiada
Apenas uma macabra festa sonhada,
Psicopatia de uma besta aprisionada.
Domingos a penas
Domingos apenas, inutilmente sofridos
Tão raramente vividos nestes anos corridos,
Onde me desejam planos a reparar danos
Melhor quando saía lombrado sem dormir
Cansado do amor suado, skoll matinal,
O papo pouco banal, os cães a conversar
As pessoas a comprar pão e eu a disfarçar
A comprar o que não havia de emborcar
Ou até fumar uma preta, que era raro,
Uma loira com a branca de qualidade,
Essa era a dona do domingo de verdade.
Domingos cheios de intencionalidade
Tardes de calor, água ,sexo, insanidade,
De família,no jeito que se traz no peito
Até sobrevir a corrente de decidir sob ameaça de prisão
Optar pela saúde sem pão, a matar-me desde então,
A lutar contra a minha natureza, a minha certeza
A amarrar-me à decadência sem qualquer beleza,
Instilada dor, falar em amor, induzir estupor, temor.
Pois mais vale uma manhã das belas que este recorrente pardieiro,
Trocava uma dessas por um ano frio, de fosso, inteiro,
Que prescindo do canudo da faculdade, das Senhoras de Fátimas,
De existir, realmente, de inspirar ar seco, da ansiedade.
Olhos velhos, refratados em miríades de lágrimas
Vertidas sem soluço, lágrimas escorridas, páginas vazias,
Arredado na proximidade, falso, ciente da verdade,
Os certos e eu errado, tertio non datur, onda e reverberação,
Conversão irrecusável, subtil humilhação
Transição ao pior dos eu-mundos possíveis
Em micro degraus invisíveis, desníveis
Certos, que solidão não é não ter tostão ou não poder ganhar
É ser apagado a pincel, restaurado fora do painel,
Ostracizado, depredado, enganado, pisado,
Como eu, o impiedoso, haveria esmagado,
Egoístico-narcisicamente iludido,
Os que outrora julgara ter amado.
A justiça será feita e a criatura desfeita,
O pobre coitado, alienado, carente,
Um farrapo doente, mais um demente,
A reabilitação, inserção, prevenção especial de socialização.
A revolta do urbano rebanho dos integrados,
Assim por bem banirá o egoísmo do alterado.
O dados antigos ainda rolam, cubos lançados,
Planos esmiuçados em forks traçados,
Que no dia de ficar mudo, hei-de sorrir
Ao lembrar todo o dia o que vos ouvi mentir
A tentar trazer uma razão
Que não aceito neste porvir
Quisera jazer contorcido
Num plano esburacado, perdido.
Sempre, estejam certos, a final,
Deitarei onde quiser, ou, se não puder
Numa simbólica Pasárgada qualquer.
Sem ser amigo do rei, nem toque de roque,
Um salgueiro vergado na onda de choque.
Um peão coartado no alheio chão, quimera,
João sem mera terra, afastado da galera
Tal o pigmeu do ateu, carvāo sem ambição,
Banido, sem piedade, pela hoste da realidade
Que seja esquecido e nunca referido
Que seja ignorado e nem sequer mirado
Que não seja incluído
Seja ele tentado e sempre recusado
Que se sinta amargado e para sempre apartado
Que entre num Loop inescapável
Seja um completo e total miserável
Um Midas moderno tornado eterno.
A constante de Hubble, a Friedman equation,
Sobrevivem, attention, entretanto,
Drake's equation nem tanto,
Nicole Kidman, Moss e Gwendolyn
Não estão nem aí, entretanto
E eu habito um mundo finito
Num instante que balança numa trança
Que seguro enquanto danço
E rio da seriedade e da verdade,
Sem desmerecimento, convosco empatizo,
E sempre que me coloco no vosso lugar
Uma lua de sangue, um estranho luar
Cassandriza no meu pêndulo a vossa ilusão,
A razão da importância que dão à noção,
E como v/o chão afundaria na minha posição
Perdida ilusão de instabilidade evolutiva
A noção de luta pela vida, a vossa base
Ponto de equilíbrio, obra da humanidade
A necessidade de manter a glutamil transferase
Gama GT, não tem de quê.
Não sei que vos dê, não sei que faça
Ajuízo que é mais isso que vos ameaça
Como o receio de um contágio
Como um mau presságio no intestino
Um pavor enraizado de desatino
O ruir dos padrões, a falta de normas,
O furacão que roda na orla da verdade
O destroyer da fundamentação
Desordem da ação e consequência,
Como garras a raspar dentro da cabeça
Uma coisa que ninguém quer que aconteça
Assim procuram um amor que tudo supere
Um amor que eu tenho roubado do mundo
E me sustenta neste lugar fundo.
,
Outrora
Outrora uma hora livre ou ocupada.
Agora a hora passa pensando nela.
Outrora passava uma hora de carros,
Agora passa a hora a saber se morre.
Outrora lia revistas de astronomia
Agora Eta Pegasi, não sendo, é de matar.
Outrora a hora não pensava em matar
Agora a hora diz q talvez seja morrer só,
Outrora não gostaria que o sangrassem
Numa tarde comum, por um motivo fútil
Como a hora muda ao longo do tempo!
Salto de anseio
Adiante de uma porta raramente aberta
Há uma lânguida sexualidade desperta.
Vermelho desbotado, tarado, crente
numa vida que podia ser e não é,
Gozadas, orgasmos que corro a pontapé
Num precipício em que anseio por este pé,
O outro no ar num salto de fé, não sei se é,
Ou toda esta doença de saúde adiada
Apenas uma macabra festa sonhada,
Psicopatia de uma besta aprisionada.
Hora do bote
Na hora do bote dos Bots e ataque de drone
A epidemiologia a disseminar fake news a toldar nossa vista
Não há muito quem assista e mesmo assim resista
Tinge-se a manhã no sangue místico
Explosão dos horrores derrotados
Forças de balanço contra o ranço,
Odor do demi monde sem saber aonde.
Mata-se sem piedade aqui e acolá
Mata-se, sem razão, aonde quer vão
Gente nas diversas Igrejas Ora toda a hora
E nunca reclamam de toda a demora.
Aspira-se a justificar a maldade no mundo.
Como se a cabal explicação do tempo
Parasse as nevascas do Alasca
Ou twisters no show me state.
Tudo são perspectivas e vistas antigas
Dos pais fundadores desta e daquela sociedade
Onde as verdades se penam fora da confissão, escondidas
Onde só as lucrativas explicações, proferidas com probidade
Exalam dos mass media, redes sociais, bots e outros que tais
O bote de uma Slytherin pós WYSIWYG sem medida
Uma fenda na gente, desumanização desmedida,
Esperança sempre aludida, nunca cumprida
Poema de um minuto
Poema de um minuto feito por mim
Quem se irrita de ser lento assim
Dando razão ao ritmo de Shenzhen
Pois nunca direi amém com ninguém
Que não respeite a produção do espírito
A ideação da razão de viver
Uma produção do muito querer
E admire os deuses como protuberância
Produto da voluntas da nossa ânsia
De transcendência, de sentido,
De um ser mais sofrido
Do irmão sempre ter rido.
De não encontrar carteiras na rua,
Da fundamental incoerência natural
Que começa por criar o bem e o mal
Eventualmente a genealogia da moral,
Uma razão para obedecer ao sem sentido
Do erigir de qualquer complexo normativo
Lex humana, Lex divina, antes da afronta.
Ateu coerente que vê a utilidade dum deus presente,
Não se esconde atrás da sua certeza,
Cego para a realidade de que o ateísmo
É menos útil do que um reinventar de deus,
E que o fundamentalismo deriva duma carência
Exacerbada pela raiva de se saber na crença errada.
O pior deus é o materialismo post moderno
A insidiosa ideia colaborativa é monetarização
Exploração da natureza competitiva
Que trazemos insita no codex da vida
Nessa hélice helicoidal que se tem por banal
Na venda da nossa essência às ulteriores
Obrigações face às futuras gerações
Da passagem do testemunho, S João em Junho,
Tradição restaurada, identidade renovada, a mão em punho,
Andar em frente é progresso, a chave do sucesso,
Pendência é abusar da nossa paciência na indolência,
Que todavia quer comprar agora e fruir dentro de uma hora,
Logística, codificar ao microsegundo, modificar o mundo.
Então da escravidão paralela, uns perdidos,
Outros numa vida bela, passamos para a sucessiva
Todos somos escravos duma para outra vida
Filhos, netos, responsabilidade social., infernal não banal...
Recompensa é viver a vida numa incessante corrida.
Aumentar o rendimento em nosso próprio provento.
O vento do rendimento o desprezo da Indolência,
A vergonha da insolvência, da resistência, uma presciência...
À verdade da vidente sociedade,
Aprovada demonstrada testada.
As sociedades ocidentais infiltram o oriente,
While os think tanks cogitam o pensamento.
Enquanto a taxa do bem estar é um valor ascendente
Mesmo admitindo tudo o que está errado
O globo continua amarrado a uma crença
Cada vez mais subliminal e menos natural
E patentemente bem, bem sucedida,
Como prova a nossa vida nem divertida.
Invocamos os caçadores da savana para capitalizar o Gana,
Construímos a estrada da seda e nasce o Make Use Of,
Como em Portugal se investe em capital intelectual ,
Capitalização da instrução condition sine qua non.
O Benelux é um portento de saúde em rendimento.
A força irresistível da totalidade,
A beleza é a fé na verdade
A crença na humanidade
A ribalta cosmopolita da cidade,
Evolução sem poluição, sustentabilidade.
Desmaterializado o vil metal
Não se sabe qual a causa do mal
A prova de esforço ou de envolvimento,
Perpétua a inevitabilidade do movimento,
Porque parar é morrer, andar para falecer.
Pergunto muito humildemente;
É só por estar doente de solidão
Sem ninguém que me dê a mão
Que uma profunda emoção de inquietude
Se instala em mim como uma certitude?
Por ter derrubado a parede e poder ver para fora,
Para além deste perfeito conforto agora,
E saber que a tal descontinuidade é só meia verdade...
Assim calmo e confiante de que realmente,
Nunca tanta gente esteve tão pouco doente,
Na certeza de uma incerteza insita na natureza.
Não aceito responsabilidade pelo futuro da humanidade
E acredito que essa é a condição essencial da minha utilidade.
Aceitar tudo, compreender, incapaz de fazer
Há-de haver uma razão de ser,
Que evidente pode ser apenas nada
E, assim sendo, ser o motor da manada
Enquanto isso vivo as vidas ficcionadas
Habito realidades alteradas
Visito mundos paralelos
Impávido face ao legado de folículos que crescem
Atento aqui, alheio em geral,
Ausente da natureza natural.
E suspiro ao saber que este minuto de relatividade
Durou para outros toda uma eternidade.
Sangue matinal
Tenho muito sono de manhã
Esqueço o amor daquela noite
Que amanheceu na cobardia
De não encarar de frente o novo dia
Tenho mil coisas solitárias
Panfletária natureza isolada
Um milhar de sonhos de concretização negada
Vem para mim amor dessa matina
Deixa eu acordar
Devolve essa sina
Qualquer palavra tua para vestir
Aquecer esta alma nua
Haja sangue na na rua
Haja sirene, o homem do Leme
Olhar fito naquilo que teme,
Olhar perdido no que há por vir
Nascida alta
Notável acreditava ser um dia,
Charmosa nesta hora imediata,
Mulher que os ata pela pose,
Erotismo com que se retrata.
Nascida alta o pai lhe dera o nome
A mãe a formação para o carregar.
Hoje a inclinação do vento, dobra
Suas costas, fitadas, fundo no rio,
Sentem o correr do sombrio arrepio,
A esticar o passo na umbra, desvario.
Beleza dominada por Newton
Porque cais agora, que és tudo
O que nunca fiz de mim, sobretudo?
A sereia já nada nas vagas do rio,
Ou assenta no fundo um segundo,
Fleuma para despedida do mundo.
Nascida alta descansa no lodo.
Todos mortos na família,
Não haverá vigília
Não há mais quem a procure,
Nem um sinal que perdure.
Escala de Mohs
Cada olhar de faca enferrujada,
É uma estocada, cada vez que a ira
O ignoto desprezo, o juízo sem peso
Me tocam, eu regozijo, esquivo, altivo,
Alimento a distância que nos separa.
Esquecida vara que me açoita, atitude afoita,
O meu passo parece esquecer as grilhetas
E o seu peso ausente, ilusão de não mais preso,
Sentenciado, todavía, todo o santo ou profano dia.
Cada censura perdura em mim numa carapaça,
Uma coisa dura que me ultrapassa,
Não sei o que seja,
Não é que se veja,
Uma subida de Mohs, um salto na escala,
Até que um dia, breve, riscados sereis apenas, afinal, vós!
Que nos leve a ceifadora desta estada breve,
Que nada afinal transpareça do que ora
Se escreve.
Não interessa essa ideia de tantos conteúdos,
Como um velho lord inglês tinha de sobretudos.