Amargo de pais, país que fiz
Amargo de boca, e todo o céu da boca
Se solta de uma assentada, o pai teve,
Sempre me manteve na sua esperança
Pelas ruas das minhas agruras se conteve
Sem criticar, a aconselhar, a gerir a tempestade
Coisa ruim, pomba gira baixou, a mulher que amava
Quando a viu, esta partiu, já lá não estava
Não mais lar ou jantar, um campo de batalha
Um lugar de confrontação, uma danação.
Todos os dias de negrura em forma de malha,
Cânticos de guerra épica, triste canção,
E poucos dos que sabem ainda cá estão.
Assim fica o lamento do derrotado, vergado,
A recordação daquele tempo embruxado,
Que as há, há, e uma, ainda me encara
Me grita e amaldiçoa enquanto me ampara
Para sísifamente repetir o ciclo de valpúrgis
Porque tanto se usa os cornos do tinhoso
Que se veste a pele do lobo, segunda natureza
Hábito interiorizado, espelho de Dorian Gray
Calendas perdidas, uma mandou, eu ajoelhei.
Olhei e não tinha pernas, escutei as órbitas vazias,
Gritei com a laringe, que os dentes casaram com a língua
E migraram para um jazz club em Tribeca
Onde entoam, melodiosos, cantos do arco da velha,
Separados, livres da ovelha negra atada ao vodu
Macumba de amarração, feitiço da inação.
Sem forças Coriolis para me trazer a Monção
Preso a este passado, sem mim ou redenção
Ergo um facho de sombra e presto homenagem
A esta personagem travestida que me fita nas quebras
De todos os espelhos de sete vezes três anos, estilhaços
Acima do mar sem mim, erecto no promontório de nenhuns abraços.
Órbitas vazias de olhos perdidos num dia negado e querido,
Ulular sincopado, lamento ignorado, época sem abrigo.
Um Rei nunca coronado (utopia)
Quem mais vale, se os vivos se os partidos?
Tenho pensado e pesado e matutado,
Não sou um coitado que se debruça sobre alto passadio
Nem um arredio de franja de reflexão ociosa
Não é questão caprichosa, é uma opção ponderosa,
Pois nenhum pode ter primazia sem se quebrar a possível utopia
De existirmos nós simultánea e não sucessivamente.
Escravos da seta do tempo impávido,
Que nos torna presa de um ser-se ávido
Pelo hic et nunc, o carpe diem,
Pois que diferença fará um dia, um dia,
Se a diferença fores tu meu amor que te espero,
Se a diferença for um dia de limpa energia,
Ou o olhar de esperança de todas as crianças dentro da mesma dança?
Quebrar a seta desse impávido sujeito
Desse rei nunca coronado,
Um dia há-de ser destronado,
Conceito ultrapassado dum existir partilhado!
(horizonte do evento, revela o teu momento, desvela a tua corona!)
Domingos a penas, vazios e frios
Domingos apenas, inutilmente, sofridos,
Tão raramente vividos nestes anos corridos,
Onde me enredam em passos a reparar danos...
Melhor quando saía sem dormir
Cansado do amor suado, skoll matinal,
O papo pouco banal, os cães a conversar
As pessoas a comprar pão e eu a disfarçar
A comprar o que não havia de emborcar
Ou até fumar uma preta, que era raro,
Uma loira com a branca de qualidade,
Essa era a dona do domingo de verdade.
Domingos cheios de intencionalidade
Tardes de calor, água ,sexo, insanidade,
Até sobrevir a prisão de decidir contra o falso pão
Optar pela saúde, sem fito, a matar-me desde então.
A lutar contra a minha natureza, a minha certeza
A amarrar-me à decadência sem qualquer beleza,
Pois mais vale uma manhã daquelas que este pardieiro,
Trocava uma dessas por este frio fosso, ano inteiro,
De provar que prescindo, canudo da faculdade,
De existir, realmente, saciedade de conselhos,
Uma década roubada, a que mais vos faltava,
Sem civilidade, mudas acusações, paradigmas
Enterrado, sufocado no jogo, sem rapar pintelhos,
Olhos velhos, refratados em míriades de lágrimas.
Que no dia de ficar mudo, hei-de sorrir
Ao lembrar todo o dia o que vos ouvi mentir
A tentar trazer uma razão
Que não aceito neste porvir,
Quisera jazer contorcido
Num plano esburacado, perdido.
Sempre, estejam certos, a final,
Deitarei onde quiser, ou se não puder,
Numa simbólica Pasárgada qualquer.
Quinta dissonante
Estou na casa que não tenho.
Vou para a rua e seu desdenho?
Ó Amores, eu nunca vos tive.
Ó mãe, perversidade às escuras,
Ó filhos que nunca mantive
Ó estrelas escuras, razões obscuras,
Meu céu noturno, firmamento
Que não ouço teu negro vento.
Rodeado de pressões,
Atentamente ignorado.
Plaino povoado de gente,
Ora ora, epifania intermitente,
Ondas mil de sensações.
Nada há, São João passado,
Amnésia de ter provado rojões.
Plaino empedrado, não vamos cantar
A balada dissonante onde vamos parar
Oitavas e quintas, la quinte du loup.
Cactus ensimesmado, ausência de troupe.
Eixo
A espera acabouO leite azedou
E o vento rodou no seu eixo
Como eu que há tanto vos deixo
Ausente presente d/no dia
Porque hoje é sábado, tantas vezes li
Porque hoje é sábado, querido Vinicius.
Hoje, morituri, Si vis pacem, para bellum,
Se quero paz a guerra é inevitável,
E então estou hoje derrotado,
porque hoje é Sabado,
Todos os dias massacrado e mais,
Porque hoje é Sábado.
Amanhã, acordarei ou não e o Sol,
O Sol da alegria, esse o não o verei
porque estou emparedado,
Cansado de terem feito força comigo,
De eu ser amigo de quem não enganei.
Amanhã é a repetição de hoje,
Escreverei coisas dispensáveis
Lamentarei não ter a estirpe do matador
E assim ser eu o vaso da dor
E não aqueles que deveria dispor.
Poderei ter sido enganado e vendido.
Poderei ter sido um boneco sem decisão
Poderá não haver amanhã cor de rosa
Poderei mandar-vos foder em prosa.
E hoje, ficar com o poeta,
no sábado de Ipanema,
Alheio,
Se é esse o do poema,
Pois, na verdade, aqui,
o Sábado, sem poena,
é por demais triste e feio.
A um ódio antigo
A um ódio antigo que trago comigo
A uma raiva amarga que embarga
Pensamentos coerentes em displicentes
Não sabeis vós
Não sabeis vós
O que nunca vos confessarei
Do que restará enterrado
Apartado, nada, ausência de legado
Pois quem já partiu nunca terá chegado
Pois quem vos diz
Pois quem vos diz
É filho de um ódio antigo e nunca partido
É quem levantará ferro de deixará um berro
Um ulular incessante uma raiva lancinante
Que nunca haverá doravante
Balada do irrelevante
Hei-de estar morto quando a vossa perna
Me alcançar e pisar deitado no meu leito
Ferido de mil golpes infligidos, mil golpes
Derrotado na pedra tão fria como o cadáver
Que um dia nunca se deu por vencido,
Que menos o imaginam, de si esquecido
Que todo o mundo é apenas todo um globo
Povoado pela vida de tantas extinções,
Ó povo
Hei-de encarar-vos morto, tão partido, torto,
Minha face esfacelada calma e persistente
Tão certa de si, tão descrente, ora ausente.
Eu que persigo a Chimera que me espera
Esfíngica e à qual nunca responderei,
As mesmas respostas que nunca vos dei.
As que amei, ao revolto destino abandonei,
As crianças que riem no sonhos suprimidos,
O sangue escorrido dos membros feridos
Em mãos atadas no cume dos esquecidos.
Os sonhos que não sabem que sonhei,
O coartado acto que não, nunca vos prestei.
Ignomínia antiga, dum vivamus, vivamus
É um ponto na planta onde já não encontramos
As coordenadas possíveis de alguma presença,
Um passo congelado no fim destes anos,
Agora que as árvores velhas que passamos
São testemunhas que já cá não estamos.
A vós a vida que levaram por mim
A vós uma ode insana e sem fim
Pois comecei a partir bem antes de cá vir.
Sede, que eu fui e esfumei-me
No loop do coup-de-grâce
Como se não me amasse
Neste idílico momento, abracei-me
E esse sangue escorreu-me exangue
Eu que não me dou por vencido
Na louca teimosia, já esquecido.
Filha sem flores
Sentado no banco de perna cruzada,
Segura uma esterlícia com os dedos.
Vê, cruzando seu campo de visão,
crianças saltando e de volta no chão.
Tão colorida a rápida criançada,
ambiente galhardo, coreto enfeitado.
Que tempo, já mal o lembra,
em que rodava no ar a menina,
amada, meia gente, sua sina
nascida de um amor grande,
enorme como a dor de a perder,
que por cá anda tudo aos pares.
Como um passo num precipício,
foi a querida menina, filha sem flores,
pesar tão profundo, escuros mares,
águas infinitas onde descança a vista,
vagueando a memória sem história
de apontar, roubada, sempre presente.
Se gostas de Walt Witmann
Se gostas de Walt Witmann, fazes um bom haiku,
És aberto na expressão, capaz de escrever cú,
Isso é a faca dos dois legumes, um puxa para a bandeira,
A vulgaridade, o outro que diz for I being poor, lança
Realmente a poesia aos vossos pés, só o que de si,
De tanta merda e prejuízo desta vida cheia de mal,
Esse ajoelha aos pés de quem merece e pede,
Ouçam as minha frases gastas, as palavras repetidas,
Porque palavras ao vento é como o absurdo de tomar banho,
Todos dias diferentes e assim iguais, Mesma merda, Diferente dia,
Como dizia o Stephen King (ssdd), com quem aprendi muito.
O mar que bate na rocha é o que sou, os meus poemas,
Envergonhados, vergados, escondidos, fora de tempo,
Eles não são o que eu sou e todavia um caminho para mim.
Erguem-se à volta minha interesses em mudar o que sou,
E esse muda como uma bola de bilhar, alterando o rumo
Cresce e apodrece como um bolbo de lírio azul, morre e vive
Dorme e acorda e ama todos vocês que me criticam
Vós que me desejam retorno dos defeitos tantos que tenho e carrego.
Minhas filhas, incríveis forças, sabem a minha fé
E vós hão dizer coisas que não projeto para este futuro
Cego enledo de amores perdidos.
Onde estão os raios dos sois amigos da melanina
Amiga morena, água morna da cachoeira,
As cobras de água em festa de verão, hoje melhor,
Amanhã lindo de morrer na praia,
Praia do inferno, ponta do ardor deste pau
Que é o fim do coxasso e a antecipação da menina linda filha querida,
Melhor o sexo, mais querida a descendência. O resto é racionalização
Somos centelhas de coração selvagem num livro meio impresso,
Um vídeo meio postado, nunca será acabado, depois do fim vem os créditos,
E a raiva de viver acumulada acorda a fera preparada para enganar,
Pronta sem o saber, a reagir parada, a fazer amor num olhar decidido
Pronto para roubar se assim for o blues a tocar, insanamente.
Nós somos ladrões sem ocasião, a natureza de querer o alheio está no sangue.
E olhamos as estrelas sem querer saber, só bebemos a beleza do cintilar,
Uma noite de lua nova e as estrelas aos milhares, erguidas no alto do mar.
As crianças a crescer, as mulheres a mandar, a roda a girar, eu que vou parar.