Falta de Tróia e das suas torres
Falta de Tróia e das suas torres,
Onde estão as suas fortes mulheres,
Que ontem sonharam comigo nos braços,
E acordaram enlaçadas aos filhos e maridos com olhos lassos?
Onde pairam os pardais que carregam minha alma,
Quando eu sonho tão perto da eterna calma,
Os restolhar do seu bando, os seus mil olhos.
Viajo e vou ver os mortos que amei nos seus poemas,
As telas que me envolvem nos seus temas,
Os amantes falecidos nos tempos perdidos,
Todos vivos na morte que me espera lá sentada a rir.
Nado no naufrágio do Indianápolis e grita o meu colega do lado,
O braço arrancado pelo grande branco de raspão.
A agua quente mexe com o medo feito ansia de nadar,
Nadar e afundar, reassomar entre os perdidos até o tempo acabar.
Sento-me na minha cadeira de rodas no couraçado,
Os três a posar para a fotografia, o Stalin mais sério,
E penso nestes mandatos que cumpri, e nos livros que perdi,
Não sei a razão da guerra, só o palco me diz os discursos que proferi.
Estive tão perto do polo Sul, a tempestade uiva ao meu redor,
Penso como vão encontrar a base abandonada,
E se os nossos fantasmas cantarão no vento gelado,
No futuro de uma Antártida habitada.
Falhei o lago Vitória por que lutei por erros diversos.
As nascentes tão almejadas e os mortos alinhados,
Não sei se porque o meu coronel não obedece à razão
Que se desvanece nos assomos desta emoção.
Olho a dançarina de preto e ouro no pátio sobre a planície do rio,
Queria roubar a coreografia dos seus decididos passos,
A noite cai e as borboletas de ouro voam à nossa volta,
Sinto uma desatinada alegria, não sei se já estou morta.
Tanta porta onde não bati neste alto do Vidigal,
Estou na varanda da casa a olhar para o mar que me diz segredos,
Diz que eu não sou nada além da alegria de o ver,
E que ter é sempre perder, como o esqueleto da baleia morta,
Perdeu a direção, morreu nos meus braços deitada na praia.
Como um Ulisses encalhado na ilha do caminho perdido,
Uma Eloisa ajoelhada na certeza de um Abelardo já ido.
Um mendigo invejado pelo poeta só por não ser como ele.
Sou um ao lado de um mundo tangente
Cego face à multiplicidade tão candente
Que me ensurdece e isola em bolhas de sabão.
Sem direção sem saber dizer que não, Oxalá,
Deixa lá, aceita e deita sobre os vidros, estilhaços,
Longos lamentos baços por inalcançáveis abraços.
Mesura imprecisa
Que está no menu de hoje
Além de alguma decisão,
De tomar alguma acção
Evitar as crevasses deste glaciar
Rodar no céu indistinto deste meu instinto?
A lista é curta e concisa
A intenção é precisa e definida,
Face a uma meta comprida,
Agir precisa, rima é brisa ferida,
Pintada sem paleta
O medo da sarjeta.
O medo não sabe o que teme,
Ou se se chama ira que se não retira.
Há uma disciplina prístina nesta rima que me desatina e desanima.
(Ladrem os cães inocentes latidos dos treinadores presentes
E siga eu ignoto e irado, em passo controlado,
Cada pisar obrigado, agradeçido por ainda não ter matado)
Vê-de lá! Rio
Nunca mais chego, nunca vou chegar,
Nunca nunca nunca,
A espera nunca alcança nada
Nunca.
Testemunha privada ensimesmada,
Memória descentrada, descordenada,
Nada nada nada.
Nunca,
Nada
Motor alheio que ronrona na tua rua,
Rotação de pistão bi-multi-monocilíndrica
Tua rua, tua, que este nunca verá sua,
Fria alma sempre fria sempre nua, nua,
Capa vazia de transparente portfólio
Glass house, empty mouse, rato sem tato,
Biblioteca invisitada, vide vide, vê-de lá!
Tu n'appartiens pas, tu es le perpétuel vide
Tu pars, du nord sud, rotted rotten, Norway
You, you never really here, nor a day, anyway
Cais apodrecido, perdu perdu, Vê-de lá!
Sem fé sans femme, chulé no pé, ué!
Sozinho, sem vinho, sem tiraninho.
Sinergia solipsística solipessoal
Sussuro, urro, indécence vide, vide!
Vejam o vazio, sintam o frio,
Deitem-se ao rio onde me afoguei outrora,
Sintam o vazio, vejam esse frio, frio,
Sombra, umbra, penumbra sem hora, agora!
Hora da morte, falta de sorte, mentira, ira, ira
Physical, emotional health gone, astray, astray
Rage rage, fallen mage, forgotten sage, willow,
Willow overbent, subjugué / subjuguée
Ye ye, five point, maple, no syrup, leaf leaf,
Feuilles subjugués, arbres désolés
Personnes vides incapables d'aimer
Passadas frias, almas vadias, dias, dias
Idos, perdidos, perdidos, caidos no rio frio.
Gargalhadas gritadas, rio, rio, rio,
A hora de chorar não ficou.
Passou.
Vê-de lá!
Outrora
Outrora uma hora livre ou ocupada.
Agora a hora passa pensando nela.
Outrora passava uma hora de carros,
Agora passa a hora a saber se morre.
Outrora lia revistas de astronomia
Agora Eta Pegasi, não sendo, é de matar.
Outrora a hora não pensava em matar
Agora a hora diz q talvez seja morrer só,
Outrora não gostaria que o sangrassem
Numa tarde comum, por um motivo fútil
Como a hora muda ao longo do tempo!
Domingos a penas, vazios e frios
Domingos apenas, inutilmente, sofridos,
Tão raramente vividos nestes anos corridos,
Onde me enredam em passos a reparar danos...
Melhor quando saía sem dormir
Cansado do amor suado, skoll matinal,
O papo pouco banal, os cães a conversar
As pessoas a comprar pão e eu a disfarçar
A comprar o que não havia de emborcar
Ou até fumar uma preta, que era raro,
Uma loira com a branca de qualidade,
Essa era a dona do domingo de verdade.
Domingos cheios de intencionalidade
Tardes de calor, água ,sexo, insanidade,
Até sobrevir a prisão de decidir contra o falso pão
Optar pela saúde, sem fito, a matar-me desde então.
A lutar contra a minha natureza, a minha certeza
A amarrar-me à decadência sem qualquer beleza,
Pois mais vale uma manhã daquelas que este pardieiro,
Trocava uma dessas por este frio fosso, ano inteiro,
De provar que prescindo, canudo da faculdade,
De existir, realmente, saciedade de conselhos,
Uma década roubada, a que mais vos faltava,
Sem civilidade, mudas acusações, paradigmas
Enterrado, sufocado no jogo, sem rapar pintelhos,
Olhos velhos, refratados em míriades de lágrimas.
Que no dia de ficar mudo, hei-de sorrir
Ao lembrar todo o dia o que vos ouvi mentir
A tentar trazer uma razão
Que não aceito neste porvir,
Quisera jazer contorcido
Num plano esburacado, perdido.
Sempre, estejam certos, a final,
Deitarei onde quiser, ou se não puder,
Numa simbólica Pasárgada qualquer.
Se gostas de Walt Witmann
Se gostas de Walt Witmann, fazes um bom haiku,
És aberto na expressão, capaz de escrever cú,
Isso é a faca dos dois legumes, um puxa para a bandeira,
A vulgaridade, o outro que diz for I being poor, lança
Realmente a poesia aos vossos pés, só o que de si,
De tanta merda e prejuízo desta vida cheia de mal,
Esse ajoelha aos pés de quem merece e pede,
Ouçam as minha frases gastas, as palavras repetidas,
Porque palavras ao vento é como o absurdo de tomar banho,
Todos dias diferentes e assim iguais, Mesma merda, Diferente dia,
Como dizia o Stephen King (ssdd), com quem aprendi muito.
O mar que bate na rocha é o que sou, os meus poemas,
Envergonhados, vergados, escondidos, fora de tempo,
Eles não são o que eu sou e todavia um caminho para mim.
Erguem-se à volta minha interesses em mudar o que sou,
E esse muda como uma bola de bilhar, alterando o rumo
Cresce e apodrece como um bolbo de lírio azul, morre e vive
Dorme e acorda e ama todos vocês que me criticam
Vós que me desejam retorno dos defeitos tantos que tenho e carrego.
Minhas filhas, incríveis forças, sabem a minha fé
E vós hão dizer coisas que não projeto para este futuro
Cego enledo de amores perdidos.
Onde estão os raios dos sois amigos da melanina
Amiga morena, água morna da cachoeira,
As cobras de água em festa de verão, hoje melhor,
Amanhã lindo de morrer na praia,
Praia do inferno, ponta do ardor deste pau
Que é o fim do coxasso e a antecipação da menina linda filha querida,
Melhor o sexo, mais querida a descendência. O resto é racionalização
Somos centelhas de coração selvagem num livro meio impresso,
Um vídeo meio postado, nunca será acabado, depois do fim vem os créditos,
E a raiva de viver acumulada acorda a fera preparada para enganar,
Pronta sem o saber, a reagir parada, a fazer amor num olhar decidido
Pronto para roubar se assim for o blues a tocar, insanamente.
Nós somos ladrões sem ocasião, a natureza de querer o alheio está no sangue.
E olhamos as estrelas sem querer saber, só bebemos a beleza do cintilar,
Uma noite de lua nova e as estrelas aos milhares, erguidas no alto do mar.
As crianças a crescer, as mulheres a mandar, a roda a girar, eu que vou parar.
Salto de anseio
Adiante de uma porta raramente aberta
Há uma lânguida sexualidade desperta.
Vermelho desbotado, tarado, crente
numa vida que podia ser e não é,
Gozadas, orgasmos que corro a pontapé
Num precipício em que anseio por este pé,
O outro no ar num salto de fé, não sei se é,
Ou toda esta doença de saúde adiada
Apenas uma macabra festa sonhada,
Psicopatia de uma besta aprisionada.
Balada do irrelevante
Hei-de estar morto quando a vossa perna
Me alcançar e pisar deitado no meu leito
Ferido de mil golpes infligidos, mil golpes
Derrotado na pedra tão fria como o cadáver
Que um dia nunca se deu por vencido,
Que menos o imaginam, de si esquecido
Que todo o mundo é apenas todo um globo
Povoado pela vida de tantas extinções,
Ó povo
Hei-de encarar-vos morto, tão partido, torto,
Minha face esfacelada calma e persistente
Tão certa de si, tão descrente, ora ausente.
Eu que persigo a Chimera que me espera
Esfíngica e à qual nunca responderei,
As mesmas respostas que nunca vos dei.
As que amei, ao revolto destino abandonei,
As crianças que riem no sonhos suprimidos,
O sangue escorrido dos membros feridos
Em mãos atadas no cume dos esquecidos.
Os sonhos que não sabem que sonhei,
O coartado acto que não, nunca vos prestei.
Ignomínia antiga, dum vivamus, vivamus
É um ponto na planta onde já não encontramos
As coordenadas possíveis de alguma presença,
Um passo congelado no fim destes anos,
Agora que as árvores velhas que passamos
São testemunhas que já cá não estamos.
A vós a vida que levaram por mim
A vós uma ode insana e sem fim
Pois comecei a partir bem antes de cá vir.
Sede, que eu fui e esfumei-me
No loop do coup-de-grâce
Como se não me amasse
Neste idílico momento, abracei-me
E esse sangue escorreu-me exangue
Eu que não me dou por vencido
Na louca teimosia, já esquecido.
Filha sem flores
Sentado no banco de perna cruzada,
Segura uma esterlícia com os dedos.
Vê, cruzando seu campo de visão,
crianças saltando e de volta no chão.
Tão colorida a rápida criançada,
ambiente galhardo, coreto enfeitado.
Que tempo, já mal o lembra,
em que rodava no ar a menina,
amada, meia gente, sua sina
nascida de um amor grande,
enorme como a dor de a perder,
que por cá anda tudo aos pares.
Como um passo num precipício,
foi a querida menina, filha sem flores,
pesar tão profundo, escuros mares,
águas infinitas onde descança a vista,
vagueando a memória sem história
de apontar, roubada, sempre presente.
Precipício
Adiante de uma porta raramente aberta
Há uma lânguida sexualidade desperta.
Vermelho desbotado, tarado, crente
numa vida que podia ser e não é,
Gozadas, orgasmos que corro a pontapé
Num precipício em que anseio por este pé,
O outro no ar num salto de fé, não sei se é,
Ou toda esta doença de saúde adiada
Apenas uma macabra festa sonhada,
Psicopatia de uma besta aprisionada.