Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Hoje abandono o canto da poesia; escolho uma palavra e vou pra farra, ajunto-lhe a segunda, que me esbarra, e uma terceira, ah, quase me fugia...
Em cada esquina, alguma se desgarra atrás de si estende a sombra esguia; samba no pé, desfila a fantasia depois se vai, fazendo uma algazarra.
E a poesia, esse ideal tão nobre, nessas palavras já não se descobre; vistas do avesso, repudia as três.
Quando retorno, não me reconhece e me abandona, tira-me a benesse, e o meu sentido esvai-se de uma vez.
Nilza Azzi
53
A dança cósmica
Convém entrar na dança criativa deste momento, o único presente, e na roda lembrar que assim faz Shiva em movimento eterno, permanente.
E enquanto dança e a natureza aviva, em seu cabelo a forma de um crescente, já conduz outra força, a destrutiva, e tudo volta ao caos de anteriormente.
O mestre, que é senhor do espaço e tempo, e vive em reclusão nos Himalaias, dançando sobre a neve é que ele ensaia
o antigo ritual; nesse entretempo, logo o gelo derrete e um fio esguio d‘água alimenta a vida – e forma um rio.
Nilza Azzi
64
A cartomante
Ela agitou a bola e olhou bem fundo; logo explicou, tudo é ilusão da mente e sei por que é assim, exatamente, é que te opões ao bom e velho mundo.
Tu sofres tanto, quando ninguém sente a solidão e a dor, cada segundo, se nessa opinião eu me aprofundo, é porque és forte, além de renitente.
Mas ninguém leva um fardo além das forças! Se acreditar em Maya leva adiante e nos solapa a paz de cada instante,
mesmo que finjas e a visão distorças, o que o cristal revela, sem embargo, é que essa escolha deixa gosto amargo.
Nilza Azzi
72
Livro das horas
O outono retornou. De Vésper, às completas, cintila já uma luz, no vasto escuro, ao passo que a noite, protetora, acolhe num abraço, abrigo encantador das obras insurretas.
À terça, à sexta, à nona, ouvir a homilia, ao frágil coração, dita os sagrados hinos. Fiz votos de louvor e aceitação divinos, meu elevado amor, que a mim reconcilia.
Horas em sucessão, quais contas peroladas, passam por minhas mãos, desde o primeiro raio da aurora que as transforma em verdes esmeraldas.
A veste faiscante, a chama, o alvorar e o Salmo que ressoa, das matinas às laudas, correm da fonte ao rio, sem nunca desviar.
Nilza Azzi
(tradução do Soneto Mestre) Livre d'heures - Couronne de sonets Luce Bühler - Péclard e-mail: [email protected]
49
Balada do amor além do tempo
O sol se foi, a tarde é quente, ao longe canta o sabiá, e o meu amor que vive ausente, por onde andou, onde andará? Mas o que importa? É indiferente se o coração nem se entristece, procura a paz e tão somente vive da ausência e cede à prece.
E a solidão é a consulente, pensa em escolhas, mas não há na vida, um dom que represente a garantia; o que nos dá, depois nos tira. E segue em frente, quem mais souber ou quem merece e, por saber-se impermanente, vive da ausência e cede à prece.
E o que será do ser ingente, como escapar da força má que assombra a alma, persistente, não cede e nunca cederá? Tudo é acaso, um acidente, pois quem de amor, pobre, padece, não tem futuro, nem presente; vive da ausência e cede á prece.
Ofertório A ti senhor e confidente, mais te diria se pudesse a trovadora que, silente, vive da ausência e cede à prece.
Nilza Azzi
86
Tempo improvável
Quando contempla a sucessão dos dias, esse rosário de infinitas contas, que lhe escorregam pelas mãos vazias, por dedos pasmos, ante as horas tontas,
guarda a tristeza das ave-marias, das ilusões e das certezas prontas... Se redescobre o amor e as fantasias, como afastar as dúvidas e afrontas?
Livra ao silêncio um grito sufocado, de extrema rebelião, pelo pecado de amar assim a quem amar não deve.
Mas o inimigo é sempre mais feroz, tempo suspenso que lhe cala a voz, pelo impossível desse sonho breve.
Nilza Azzi
199
Lapso
Quando seu coração cansou do sobressalto e a voz da sua mente ousou falar mais alto, o Amor sentiu a dor infame da ousadia: murchou de uma só vez, os sonhos que floria.
Cupido recolheu as flechas, pois tomara, quisera para si a pétala mais cara, da rosa ainda fresca, incólume perfume. – Depois quedou no ninho, a pobre ave implume!
Passou um tempo assim, nas asas da crisálida, mas, da transformação, cingiu a forma válida, no afã de reviver a intrépida aventura;
a vida sem amor é triste, vaga, escura... – Desperta, ó bel Cupido e atira as tuas setas, destina a criatura às núpcias seletas.
Nilza Azzi
55
A flor e a terra
Então pediu a flor, à terra por mais viço. Riscou com a raiz, caminhos rumo à seiva, depois curvou-se ao sol – perfeita rosa – ei-la brilhante em seu jardim, porém sem saber disso.
(Fechada em seu botão, à beira de uma leiva esconde no interior perfumes e feitiços; contempla o céu azul e o seu corpo roliço, a chuva, quando cai, de leve, apenas beija.)
Até que desdobrou – tão rosa e delicada a roupa que ela veste ao tempo da florada! – aos poucos seu matiz, em pétalas iguais.
Nutriu nesse jardim, até não poder mais, em busca de seu mel, abelhas, borboletas, até que desfolhou tingindo a terra preta!
Nilza Azzi
333
O tigre
Dorme, sob essa pele espessa e quente, e sonha devagar, sonha sem pressa, fera que só conhece, do presente, esta calma aparente e apenas essa.
No interior da pupila, em cada lente, rememora a savana e assim regressa à paz mais essencial, enquanto sente o mundo que evolui dessa promessa.
Na perfeição que a natureza pinta, carrega, das espécies, tão distinta, a marca que lhe coube por herança,
cada detalhe em preto sobre o branco... Visão tão surreal, chega a ser franco, o brilho desse olhar que o tigre lança.
Nilza Azzi
62
Solvência
Solve-me inteira, no calor do teu desejo, sol dos meus dias, força mágica, escaldante. Enquanto espero no suspense deste instante, perscruto além desse horizonte em que te vejo.
Enquanto a lua enluarada num lampejo, morre de inveja por saber-te meu amante, ao céu diurno vem, espia e segue adiante, pois não consegue compreender o que eu festejo.
Como é que posso ser feliz se me desfaço, se do meu ser sobram faíscas e estilhaços, sou só um gasto de energia e me consumo?
Vivo feliz, porque a fusão torna evidentes as diretrizes que norteiam o meu rumo; só me diluo porque a alma assim consente.