Calma
No espelho do lago brilha o luar;
a brisa é suave, o som saudosista.
as flores do Ipê parecem dançar:
um breve amarelo surpreende a vista.
A crista da serra escura refaz
fugaz ligação ao alto e conquista
a calma azulada, o céu em que jaz.
Um bosque à direita mostra a silhueta
e a estrela pequena refulge atrás;
espia a paisagem: − É Vênus, planeta!
Longe, a miragem de um cume ao final
coroa as encostas, úmidas, pretas,
a noite é um fato estranho, irreal!
O orvalho recobre o capim vergado,
ao longe, o barqueiro dirige a nau.
Desvio o olhar, contemplo outro lado.
Esconde a planície um manto sem fim
que de pirilampos vai constelado.
Ares rescendem a cravo e jasmim,
a alma percebe o quanto é pequena!
Não guardo memória, mas sei que assim
passo a integrar o delírio da cena.
Jamais vou saber o que foi que eu fiz,
mas estou aqui e bem vale a pena
ainda que falte base ou raiz...
Nilza Azzi
#terza rima
Madrigal das margaridas
No verde dos canteiros, surgem os botões
que vão tomando forma, esticam sua haste
e deixam ver o branco, em tímido contraste.
Passeiam joaninhas, buscam os pulgões,
numa colônia imensa, parecem milhões...
Nem mesmo água de fumo, nada há que os devaste!
É deixar que algum tempo passe e os afaste...
Passeio diariamente a olhar esses canteiros
e um dia percebo que se abrem os primeiros
botões, cuja pureza envolve o amarelo,
num branco petalado, em torno do miolo.
Depois é um mar gentil de flores espalhadas;
esqueça o bem-me-quer... Isso é papel de tolo!
Nilza Azzi
Melancolia
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho
a suplantar a dor e o mais medonho
temor... Porque partir dói como espinho
que fere sem aviso, é um mal mesquinho,
é perda bem maior do que suponho.
Inútil conservar uma esperança,
de forças para tanto, não disponho...
Mergulho num viver casual, tristonho,
a ausência de poesia isso afiança.
Nos rumos da fatal melancolia,
a voz da solidão não denuncia
nenhuma das palavras. Já sem eco
o canto das manhãs, pois não componho
poemas sem paixão, apenas peco,
vagando neste ritmo enfadonho,
Bruxuleante, percebo a luz de um sonho.
Nilza Azzi
Primavera ardente
A tarde estava quente e seca
o ar pesava sobre a Terra,
havia um coração ferido,
nos termos qua a razão alerta,
as nuvens combinavam cinzas
com esta dor que existe em mim,
os sorrisos não afloravam,
o olhar mantinha-se triste,
morava o horizonte distante;
na atmosfera tudo para;
logo a tempestade dispara.
Nilza Azzi
#retranca
Desculpa
Amar-te é como ser feliz,
esquecer o peso do fardo,
é quase acreditar ser bom,
o amor, se existe; o amor, se há,
o amor inventado por mim,
ilusão fatal do caminho,
amar-te é quase algo real,
espécie de convencimento,
coisa de poeta sem causa,
sem motivo ou razão de ser
− evasivas do acontecer.
Nilza Azzi
#retranca
Rua
Num caminho diferente
Passeiam gentes e sonhos
Estes são muito concretos
Aqueles totalmente aéreos
Ninguém encontra conversa
A rua é vasta e desocupada
E no fim é tudo igual
Nilza Azzi
Safra antiga
Do seio de Deméter a fartura
depende da semente e cada grão
brotado é uma seara já madura,
oferta aos ceifadores que virão.
Perséfone acompanha seu marido
e desce às profundezas... Chora a terra!
O inverno deixa o mundo comprimido
e um branco vasto e puro se descerra.
Porém, na primavera, ela retorna
ao lar da deusa Ceres, linda e pura.
Florescem campos, vales, e a bigorna
trabalha admirável armadura.
A força produtiva, o alento pródigo,
suspenso no recesso, ausente a filha,
Deméter, ressarcida, entrega o código
e assim a safra d’ouro ao sol rebrilha.
Nilza Azzi
Sangria
Dentre essas formas mortais, restos que eu vejo,
estranha luz que se apaga e não retorna,
como a tinta descascada de azulejo
nos mostra uma tela insípida e sem forma,
as tristezas, que suporto, e não confesso,
têm resíduos poderosos, resistentes,
pois no fundo de minh’alma, no recesso,
é impossível de se achar, mesmo com lentes,
alguma causa real que as justifique.
Se as mantenho ali contidas por um dique,
muitas vezes não parece que consigo...
Da precária segurança eu sinto medo;
sempre há fendas mal vedadas, um perigo.
Então choro – essa sangria eu me concedo.
Nilza Azzi
Reverso de amor
Não foi contigo que ficaram os meus rastros,
porque vivemos uma história sem fronteiras
e, sem perigo de prisões, sobrou-me a glória,
mas entre os faustos do prazer me fazes falta.
Chega de assalto esta saudade e me convence,
de que retalhos de emoção deitam-se fora,
para não termos despertada na memória,
a dor profunda pelas nossas despedidas!
Se em meus guardados eu conservo os teus papéis
e remexendo uma gaveta eu encontrei,
pelo contrário, uma lembrança que deixaste,
em nossas vidas o reverso aconteceu.
Ao nada foi-se a impressão que em ti deixei,
porque hoje habitas qualquer mundo indecifrável.
E quanto a mim, não tive a sorte que sonhei,
pois da matéria desses sonhos incorretos,
componho as frases que ficaram por dizer
e se palpita o inviolável coração,
não saberia se razão há para tanto.
Não sem espanto, nos teus braços eu deixei
a expressão mais verdadeira do que sou
e agora vou, nesse meu passo sem sentido,
mais uma vez guardar retalhos coloridos.
Nilza Azzi
Modulações
Houve um dia, nas brumas que se foram
em que acreditei no que compunha
num sonho destemido
a desfilar palavras cruas
portando uma bandeira
Nesse passado estranho havia a forma
num bastar-se, num ser talvez completo
algum sinal de uma entidade confiável
um momento em que as juras
deveriam jamais ser enunciadas.
Esse estereótipo de fundo tão complexo
nunca dirá do que me vai por dentro
ou de tuas confusões inevitáveis
das dores do percurso, a linha vã
sem fim e sem propósito palpável
Na lágrima perdida o ar escuta
apenas o soluço, o vago balbuciar
não há mais no que crer
nem mesmo o signo
é digno...
Nilza Azzi