O eterno tema
Era você num raio de luar,
no brilho vacilante de uma estrela...
Era você, mas não podia vê-la
na inútil transparência navegar.
Como a centelha a mergulhar no mar,
sim, era ele e o medo de perdê-la
na substância da neblina e pela
insensatez de quem não sabe amar.
A impermanência de uma nuvem torta,
desfeita pelo vento, desconforta
o olhar que não entende essa paisagem.
As lentes mal focadas não reagem
ao mundo da ilusão e dos mistérios,
à fonte dos desejos deletérios.
Nilza Azzi
Quietude
O céu guardou as luzes cintilantes,
o mar, as suas conchas sob a areia.
A mata viu o Sol como era antes,
no início deste mundo que clareia.
A Terra reduziu alguns instantes
seu giro e a rotação que voluteia
não traz alterações mirabolantes.
A Lua ainda nos mostra a face cheia.
A jovem, quando encontra o namorado,
espera que ele seja delicado
e entenda os seus desejos mais secretos.
As flores, portadoras de sementes,
atraem os insetos sencientes
– meus olhos permanecem mais quietos.
Nilza Azzi
Nuvens
O tempo andava estranho, inquietante,
parado, com um peso assaz fatal
e olhando para o céu, a todo instante,
a cor que eu vislumbrava era anormal.
― São coisas do verão, alguém garante,
fazendo um comentário bem banal,
falando ao meu ouvido, num rompante,
num tom de voz que só me deixou mal.
Mas vence a natureza! É poderosa
e prova ― nessa vida tudo muda,
sem precisar de nós, nenhuma ajuda.
Ao meu redor a vida se aveluda,
pois de repente vejo-me ditosa,
numa nuvem de pétalas de rosa!
Nilza Azzi
Novos caminhos
Caminhos que segui, não por acaso,
em todos fui deixando as minhas marcas.
Às vezes as venturas foram parcas,
mas tudo que tu vives serve de azo
a que vás navegar em outras barcas...
A dores que vivi, não extravaso
à toa. Guardo a todas sem descaso,
não quero alimentar as vãs fuzarcas
—viver já não tem sido um mar de rosas!
Um céu que prenuncia o frio de agosto,
não deixa ver caírem meteoritos...
As esperanças movem os aflitos,
enquanto atrás do espaço do Sol posto,
o cinza ganha cores mais formosas.
Nilza Azzi
Ninhos
Migrante, ao alçar voo e ir embora,
− nem sempre enfrenta inverno tenebroso −
pode a ave, achar água e repouso
e cantar todo o dia, desde a aurora.
— Na terra das palmeiras, quanto gozo —
a água das nascentes, quando aflora,
é pura e vai descendo, sem demora,
a mata mostra um verde estrepitoso.
Há ninhos que recebem todo ano
os bandos que retornam da jornada
e enfrentam o bulício quotidiano,
à força da energia acumulada.
A quietude é o que impera no altiplano,
mas há mais alimento na baixada.
Nilza Azzi
O singular plural
Despencam águas claras das vertentes.
É ilusão o que nos move, é sonho?
Espanto abominável, mal medonho,
destinos controversos, diferentes...
O céu exibe o cinza, o tom tristonho,
e nunca são os fatos permanentes.
Presságios! Neles não creem os crentes,
mas fé em tal descrença jamais ponho.
Não há em fonte alguma a clara voz
do som que atravessou o temporal.
O lago deixará a calma após
a fúria de algum vento ocasional.
O alívio da verdade cabe a nós
no encontro singular, talvez plural.
Nilza Azzi
Miscelânea
Fora da tampa, o meu amor por ti,
pois do comum das massas vou distante.
Teu rastro eu sigo alegre, sempre adiante:
― A amar assim, jamais eu me atrevi!
E se eu passasse a régua e, num rompante,
andasse no caminho que escolhi,
ao teu redor, seria um colibri,
num voo atordoado e delirante.
Beijar-te-ia os pés, a fronte a face,
em busca da doçura que extravasa,
até fazer só minha, a tua casa.
Depois, talvez aos pés de Deus pousasse
e Lhe fizesse apenas um pedido,
que amar tivesse um tempo indefinido.
Nilza Azzi
Migração
Nos leitos em que se deita minha canoa,
nas águas pouco profundas, deveras calmas,
navegam alienadas diversas almas:
– A vida nessas paragens já não é boa.
Nas linhas que desenharam a minha palma,
no curso desse remanso tudo destoa
e o canto repete em ecos a mesma loa:
– À margem do sentimento, a dor se espalma.
Nos sonhos, onde flutuam desejos tristes
e a capa da realidade não vê futuro,
estranho, por meus sentidos, tudo que existe.
À falta de algo mais belo, intenso e puro
a sombra, parada ao lado, a tudo assiste:
– Resvalo no meu murmúrio e a esconjuro.
Nilza Azzi
Migalhas poéticas
Sou um cisco da luz, fragmento ou migalha,
uma lágrima anã do negro firmamento;
sou poeira, quiçá, que o forte vento espalha,
nos confins desse azul, não me julgo a contento.
Não sou nem mesmo a chuva, a martelar na calha,
e menos sou o mar, poder e movimento:
– da rocha faz areia e sem cessar trabalha –
na praia breve bolha, ali mal me sustento.
Num plano que é imenso, a ponto de infinito,
sou fóton sem ter par, vagando pelo espaço.
Habito, tão pequena, os vastos universos,
sem entender porque o mundo é tão bonito.
Se não tenho grandeza em nada do que faço,
o meu querer espalho, em migalhas de versos.
Nilza Azzi
Mercado de ilusões
Vive o homem num mar de sentimentos,
a confundir amores e paixões,
a fazer das paixões o seu tormento
e dos amores, leque de ilusões.
Quando viveu de amores, já um cento,
fez das paixões inúteis ligações,
devota aos seus propósitos isentos
o respingo de suas libações.
No entanto, por rotina, cada espécie
entrega ao mundo a prole, seus rebentos
e assim se desenrola esse novelo.
Mas sofre, a minha alma, por não tê-lo,
o coração, por atos desatentos,
salvo do mal da luta que inda tece.
Nilza Azzi