Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quero novos caminhos para mim; terra selvagem, bruta, primordial, um verde que não deixe ver seu fim, um mundo, onde nada é tal e qual...
As flores de perfume sem igual, o canto celestial dos serafins, o cheiro familiar do meu quintal, detalhes sobre a fonte de onde vim.
Num bosque onde jamais vão me encontrar habita a solidão... A paz ofusca e faz do meu saber o meu fracasso.
Porém, se abro a trilha com meu braço, quero cobrir de véus o céu da busca, guardar algum mistério no que faço.
Nilza Azzi
46
Campo limpo
Levanta — meu senhor! — O dia brilha intenso, nas terras logo além, germinam as sementes, assume o teu papel, não sejas indolente; se tudo é sempre igual, a língua perde senso. Nem todos são os grãos que vingam, entrementes, ganhar a luz do dia envolve uma disputa! — O verso não quer mais uma palavra enxuta, procura pela voz versátil das vertentes. Senhora dos vergéis, estranha ao vil concreto, de nível superior, os modos imponentes, (o som escapa forte, é sopro contra os dentes) desmonta de uma vez o berço analfabeto.
No fundo do crisol, mistura delirante espalha pelo ar as luzes do levante.
Nilza Azzi
219
Tempo-será
Tão breve o tempo de ilusões pueris e forte o alento que é da juventude! Somente um vento, porém nos ilude, na forma vaga, um mero pingo em giz,
nos foge o tempo e morre num palude. O que nos falta, o que é viver feliz, parece um bem que escapa por um triz, mas quem resolve essa questão tão rude?
Se estoura a bolha e nada mais espio, é claro então que essa ilusão não rende e um novo mundo emerge do vazio.
Solto no vácuo, como fora um rio, vai meu passado, ao longe ele se estende, e apenas sigo a ponta desse fio.
Nilza Azzi
161
Perguntas
– Vovô, se toda noite o céu se acende e as luzes já começam a brilhar, existe algum anjinho ou um duende, que junta cada estrela com seu par?
– Quando era tão pequeno como eu sou, vovô, você sabia de onde vinha o brilho desse céu que Deus criou e lá, sabia achar sua estrelinha?
– Depois que tudo já foi apagado, onde é que o anjo guarda aquelas luzes? O armário é bem grandão e bem escuro?
– E quando a Terra vira pro outro lado, as estrelinhas, já com seus capuzes, estão dormindo num lugar seguro?
Nilza Azzi
217
Ultrassensual
Numa casa de pedra, entre azuis trepadeiras, ao abrigo do olhar indiscreto e alheio, nós fruímos, do amor, sem cansaço ou receio, o prazer sensual e as delícias inteiras.
O teu beijo começa a aquecer-me. Tonteio... Some o mundo ao redor e um espasmo se abeira: – só desejo elevar-te ao meu nível de anseio e deixar-me viver as paixões verdadeiras.
E no instante em que a morte me toma, um reflexo, só percebo que a alma, indistinta do sexo, mal percebe, do corpo, os limites externos.
Assim quando, no amar, o momento é eterno, e um olhar cede ao outro um delírio complexo, reconheço que a vida é real, tem um nexo.
Nilza Azzi
158
Ultrarromântico
A Lua segue a noite... A luz depura e aclara a solidão – fel dos meus dias. Busquei-te em todo canto e, com candura, clamava só por ti, mas não me ouvias.
Deixaste, sem aviso, a noite escura... Amor, não entendeste o que eu queria? Sufoco, tenho a febre que não curas, e morro: – Vem juntar minhas mãos frias!
Distante, o meu amado segue a aurora e deixo, aos borbotões, fluir meu pranto, convulso, pela dor que me devora.
Tão só, na vastidão deste meu canto, não sei o que será de mim agora, porque te disse não, mas te amo tanto...
Nilza Azzi
166
Singularidade
Oh, estrela do céu! Tão distante de mim, esse brilho que tens reverbera sem fim. És passado, porém, és de outro universo, paralelo a este meu, singular e perverso.
Oh, meu raio de luz! Tão perfeito és assim como eu vejo daqui, ideal serafim. Da matéria que és, sou grãozinho disperso, da poeira que sou, és completo, o inverso.
Num carbono da Terra, em diverso sentido, vislumbrei a razão de um planeta perdido, que não teme o calor das estrelas candentes.
Dele posso tocar o meu sol de mais perto, sem notar um senão que me impeça. Deserto! Desafio estas leis – luto contra as correntes.
Nilza Azzi
156
Senhora dos meus sonhos
Duas da tarde: – O céu tornou-se escuro, manteve acima a cor do seu recado, depois verteu o cinza concentrado e derramou-se para além do muro.
Às três e meia, tudo já mudado, brilhava o sol um brilho prematuro, a esticar seus raios com apuro, por entre o ar chovido, o seu traçado.
Às quatro horas, quase ao fim da tarde, a brisa leve seca o mundo em volta. O tempo pausa, em súbito sossêgo...
A cor azul, lembrança de um mar grego, despega um tom e surge em viravolta: – Senhora dos meus sonhos, tempestades.
Nilza Azzi
159
Preamar
Como se fosse o mar, assim o amor, vasto, inconstante e muito perigoso, jamais conhece, do ir e vir, repouso, e quando encrespa – que avassalador!
Se brilha ao sol, reflete azul formoso, ou bem confunde e mostra verde cor, e sobre nós dispõe, só por dispor, pois nos atrai ao seu deleite e gozo.
E o mar cuja canção nos delicia – o marulhar das ondas sobre a areia, num forte estrondo, o choque nas falésias –
revela sobre amar verdades régias, senhor desse poder que nos alteia, de amar – essa tristeza, essa alegria...
Nilza Azzi
245
Porto
Quando Augusto sorriu, foi o bastante... – Armadilha de amor – fez-me cativa! Do seu beijo, bebi doce saliva, sem querer me perdi. Fui mais adiante.
No frescor das manhãs de Sol radiante, a caminho da escola, eu, sempre viva, era a mulher fatal, a eterna diva, era enfim sedutora, embora infante.
Quando Augusto partiu, sem mais aviso, restou-me suportar a triste história, sofrer, sentir a alma merencória.
Mas não vou dar a mão á palmatória. É só saber poupar e ter juízo... – Nas terras d’além-mar, um dia piso!