Reirazinho

Reirazinho

n. 1999 BR BR

Túneis de pensamentos perdidos.

n. 1999-01-09

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Mórbida Reflexão

Mais um anoitecer pensando em outrora, nostalgia que deveria me pungir, só me deixa desvairado com uma utópica felicidade. Algo falta para compensar o meu vazio. Aniquilo a mim mesmo com meus devaneios[...]. O perecimento me trará paz.
O desejo de eliminar-se desse mundo funesto, como um solitário no alto de um edifício, um problema qualquer no sistema de controle, emerge e cresce. Refletindo aqui não chegarei a lugar nenhum? Seria eu sadomasoquista mental? Por que tantas questões? Seria eu um alheio ao rebanho ou um inconsequente se preocupando com coisas banais?

''A vida a doce ilusão; a realidade a solidão; o abismo o medo; as correntes o eterno pesadelo''.

Clamo por felicidade nesse universo errôneo. Queria sentir o sabor da famosa felicidade; o paladar da existência. Enquanto isso não acontece, sentirei a dor na pele a doença chamada vida corroer-me por dentro. Agonia infernal inerente, talvez contingente. Para retribuí-la, sinto o sangue mortuário exaurir de minhas veias.
Minha alma aqui jaz...
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Poemas

48

Falso super-homem

I: Imaginativa

Ele está aqui, mais ácido do que nunca, do mais alto amargor ele volta das cinzas. Das profundezas do amor fati, do açoite moral, levanta da lama e vai aos céus. Os raios cortam a garganta dos incrédulos. Sua destreza ontológica deixa rachaduras no solo, estremece os vermes para logo em seguida pisoteá-los. A sociedade não poderia esperar por isso, até cogitou sua inexistência, todavia, as águas começaram a escurecer como quando em outrora, Alexandre o Grande, prematuro guerreiro, banhou-se. Ele também deleitou-se nessas águas, contudo, dessa vez em enxofre e lava; a piromania moral é tão alta que ele não se permite ser infectado pelos limites do bem e mal. O homem mais perigoso chegou, todos os saúdam em gloriosus dei: ave Übermensch, magnânimo rei.  

II: Arrogantia

Tudo está abaixo de mim, eu sou o homem do futuro, a força e bravura são meu domo espiritual. Venci os dragões draconianos políticos. Como Luís XVI, todos decapitados pela navalha beatitude. Sou o império romano, malejo os deuses sob meus pés, como uma criança pueril dirige a vida da colônia de formigas, sabendo que as matará somente pela diversão. Destemido e amortal, as únicas leis prorrogadas em minha autocracia. 

III: Decadentia

Eu queria ser como o Übermensch, desbravar os mares da moral, domar os anseios do ressentimento. Sou um soberbo megalomaníaco, na imaginação, a quimera transmuta a dor em prazer. Horas no formato super-homem, onde as configurações do ego me levam na sinergia nietzschiana. Simples homem mais fatigado que ressentidos esperando o pós-vida, depressivo homem malhando seus ossos na melancolia de um dia perdido. Levanto do caixão, como praxe, a monótona vida me aguarda. Não sou um além-homem, nunca serei, tudo em vão. O fim me é benéfico como o fel de abelha, assim como a causa final de um objeto é sua predeterminação. Quero me matar imediatamente porque a transvaloração dos valores é utópica, inefável como o fantástico Deus, um mero ideal para um amanhã.
165

O Cubículo

O mundo como um cubo mágico, onde as paredes são vértices — limitam a criatividade. A criatividade: delimitada pelas cores destoantes dos cômodos, ceção dada pela superficialidade. A soberba de achar o esquema lógico cobrindo o painel da razão. Razão: conceito vazio trancado e zombado pelas seis faces do quadrado. Seis emoções básicas que modelam meu ser a uma forma euclidiana; cólera por não sair do cubículo. Tristeza por se autodeterminar nesta posição. Alegria pela possibilidade de destruir este sólido. Nojo pelo bolor comendo não só os cantos do cubo, mas meu espírito. Surpresa por se surpreender em como as coisas são incertas. Medo por acabar sendo esmagado pelo fruto da displicência.
170

Morte ao sol

Estrela de Rá, sua existência
a mim, é tartamuda!
Seu calor derrete meu humor,
congela meu bem-estar,
estoura o fragor dos tímpanos e
homicida meu amor a ti.
Vossa luz derrama lágrimas
do velcro que separa o bem
e o mal; a vinda da lua: bênção
que socorre a enfermidade.
Soando rancor nas estranhas
dos meus podres órgãos.
O eclipse é a esperança final
de um tempo agradável.
A morte do deus-sol é a missa
que clamo aos domingos.
Minha barganha é sofrer no
calor de meus ossos, quando
volto ao meu caixão escuro.
Ao menos lá não existe
O idiota sol.
187

Repressão Poética

Caminhando entre versos perdidos
na mão, os papiros ditando as regras
da razão. Sílabas nas construções,
nos grandes muros, sermões;
exército marchando a pátria
poética, cantarolando na mira
de rima noética.

Ele atira contra a vanguarda:
sangra o civil em desalento.
Exaure sua mágoa, escreve
antologia de lamento, e apaga
o macabro livro, suspira...
vidas perdidas um dia.
359

O Náufrago Penoso

Ocultaria de ossos sangrentos,
a cerimônia festiva dos ventos.
Oh, amada, sua ausência carrega
toneladas de amargor, que nega
a apoteose da paixão, o véu
queimado do suicídio do céu;
tempestade opaca, sussurra
o murmúrio da voz que urra
o tormento dos mares sombrios.
Semeada a vontade de amar, só
o coração morre, a forca do nó,
eliminou a possível retratação
da remota ideia de sublimação.
A folha da árvore de outono
foi-se embora com o sono.
Não consigo mais descansar
quando a alma inferniza meu penar.
211

Lain

Séculos de armazenamento evolutivo, comportamento recarregado pelas baterias da configuração sociobiológica. A sombra do simulacro no jugo do real permanece, o mito da caverna mais presente do que nunca: eis a história do mundo. Exaustação, exaustação, a nova liturgia do pós-moderno, fatigado por si, escravizado pelo seu Eu-superior; Deus morto, mas mais vivo do que antes, a tecnologia é o evento antecedente à moral, a você e tudo o que ex-siste. Sua forma e essência são fagulhas do seu eu limitado, o seu eu primitivo. Seu protocolo é a sua mixaria de prazer, um amor-ódio denunciado pelo transhumanismo. Você será substituído, iminentemente, pela lei de Moore, os transistores já são a pedra filosofal de uma sociedade. O subúrbio interno de um ser morre diariamente, a vida é transitória e mais incerta do que tudo, tudo é efêmero e muito confuso em simultâneo.
 
 
 
 
 
 
 
253

Deus não cabe em um quadro

Deus não cabe em um quadro, muito menos em multiplicidade mística ou religiosa. Hoje sonhei com ele, não era lá como teurgias e artes eclesiásticas da renascença. Um monstro, digno de terror lovecraftiano, com voz gutural falando em semântica desconhecida; algo como Penderecki orquestrava majestosamente bem em seus concertos. Saiu de uma parede como um ectoplasma, ironicamente de uma igreja católica. Regurgitei sua existência em meio cristão, porém, ainda sim, é miúdo comparado a sua essência, por isso, Deus não cabe em caixinhas. O Criador, inefável monte cósmico, permanece fora e dentro do amor, no máximo isso, uma pane-existência que mais faz sentido, diferente de sua manifestação dada pelos humanos; o homem tentou entender, mas falhou e ainda persiste em falhar, porque O Verbo não pode se ofender com palavras mundanas, é cômico a blasfêmia ser um problema. A linguagem é uma simplificação complexificada que permite utilizar uma parte da interatividade cerebral, construir-reconstruir uma nova complexidade discursiva e assim dialogar com a estrutura do real. O Todo Poderoso seria a quintessência da mesquinhez se assim o fosse, mais stricto sensu do que uma norma jurídica. Ele é maior que a psicologização filosófica que faço agora, um mero humano compreendendo a hipertotalidade do Absoluto; a nossa forma de ajuizá-lo é uma lógica a priori advinda da razão limitada, não só pela lógica em si, mas pela delimitação histórica de determinada época. O Absoluto inexiste, apercebido, inconcebível, e isso não é um problema. Deus no máximo é anuente: nós o permitimos ser o que ele é.
 
 
 
 
 
 
 
200

Ressurreição

Eu não irei voltar! Não volto ao refúgio carnal que de seu asilo trancafiou-me. Quase um século de volúpia contra meu prazer, cativando a soberba do ego; décadas de ignomínia sob o solo dos ratos beirando minha masmorra. Bastardos do rei, poderoso rei, vilipendiou-me nas frestas da esperança, quando vosso austero coração derretia conforme o batimento de teu filho queimava na peremptória piedade não atendida. Afogado pelo sangue opressivo que cachoava, infelizmente, meu funesto corpo; o mar vermelho de minhas entranhas banha o sol como a vertigem de marte. O céu, sujo céu, que de seu belo eclesiástico e celeste tom, dava vazão à minha atômica misantropia por cada molécula presente na existência. Como eu sacrilégio o viver, não há amor, muito menos carisma em levantar mais um dia. A fatigada e vil dona morte deveria ceifar minha garganta, espalhar minhas folhas de kalanchoe sobre o vento último da solidão; sobrepujar-me a impotência soberana do fim. Gostaria de ser o fantasmagórico assombro que perturba os moradores de alguma região. Velar o espírito podre dos esotéricos ocultistas, sucumbi-los. A morada da importância balsa a força que tenho em saber que posso matar e morrer ao mesmo tempo; dualidade cartesiana imoral. A bandeira de minha nação é meu próprio crânio, meu brasão é meu corpo putrefato, minha honraria é ter deixado a vida de tantos honrados. Sou aquele que peca sem olhar a quem, sou o renegado ignóbil homem que dança na lama preta de um ritual. Nas trevas habito meu mundo, a desgraça teve que ser assim, o caixão teve que ser minha mansão e meu velório teve de ser meu baile de gala que tanto desejei.
206

Reminiscência

Todo dia infelizmente esqueço de alguma coisa. Quando não é um horário, é um compromisso importante. Me peguei uma vez errando o caminho pro trabalho, sendo que minha rotina é a mesma: passar o café, um pão com manteiga, colocar meu terno e ir ao trabalho. O gerente lá da empresa já pegou muito no meu pé, às vezes porque não lembrava até o número de telefone dos revendedores deles.

Em casa uma vez acordei com uma mulher mexendo nas minhas coisas com uma cara angustiada. Ouvi um barulho na sala e resolvi checar. Vejo uma senhora com vários álbuns de fotos. Eu não lembrava direito o rosto dela, mas não me parecia ser desconhecida. Parecia que já tinha a visto. Foi quando exclamei a ela: ‘’Quem é você!?’’. A velha desmaiou no chão como um bloco. Aí me deu, final e infelizmente, um lapso de memória. Esqueci que aquela era minha mãe e nem vivo eu mais estava.
201

Infância

Garotinho regou a alegria inebrie, 
Afagava seu tronco em seu brincar,
O lavro do cultivo, o fértil desabrochar. 
Da terra pura frutou sua ávida febre.

Febre essa que queima sua inquietude,
Quando os feixes luzentes do sol
Dão combustão ao velho farol, 
girando seu mundo na erma virtude.

Seu sorriso intuía o ato mais perene
Do mais querido, a inocência tão bela
Seu oceano era uma besteira singela,
Quando chorava ainda ficava tão serene.

Sua angústia era perder, não aceitava,
Menino que falava baixo, voz austera,
Silencioso comitê de sua quimera:
Mas quando fantasiava, sua asa voava.

Curiosamente sendo calado no meio,
Suas amizades não houveram limites,
como cavalos livres sem afoites; 
A corrida dos ajustados não teve freio.

Com brinquedos, a fantasia final. 
Dormia mais um dia na linha de frente, 
Como convertia sua simples mente;
Na guerra contra o batalhão infernal.  
204

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