Poemas neste tema
Vida e Existência
Stéphane Mallarmé
O TÚMULO DE EDGAR POE
(Tradução de Jorge de Sena)
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
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Stéphane Mallarmé
O TÚMULO DE EDGAR POE
(Tradução de Jorge de Sena)
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
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Paulo Leminski
PROFISSÃO DE FEBRE
quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
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Paulo Leminski
PROFISSÃO DE FEBRE
quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
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Paulo Leminski
ERRA UMA VEZ
nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
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Rosa Lobato de Faria
Vimos chegar as andorinhas
Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranqüilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranqüilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
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2
Antero de Quental
Lacrimae Rerum
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
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2
Antero de Quental
Lacrimae Rerum
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
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Vladimir Maiakovski
DEDUÇÃO
Não acabarão com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
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Vladimir Maiakovski
DEDUÇÃO
Não acabarão com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
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Gabriela Mistral
A oração da mestra
Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o
nome de mestra, que Tu levaste pela Terra.
Dá-me o amor único de minha escola; que nem a queimadura da
beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a
mesquinha insinuação de protesto que sobe de mim quando me ferem.
Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensine.
Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender
como elas o que não é carne de minha carne. Dá-me que alcance
a fazer de uma de minhas crianças meu verso perfeito e a deixar-lhe
cravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais.
Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não
renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Põe em minha escola democrática o resplendor que se discernia sobre
tua roda de meninos descalços.
Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre;
faz-me desprezadora de todo poder que não seja puro, de toda pressão
que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida.
nome de mestra, que Tu levaste pela Terra.
Dá-me o amor único de minha escola; que nem a queimadura da
beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a
mesquinha insinuação de protesto que sobe de mim quando me ferem.
Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensine.
Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender
como elas o que não é carne de minha carne. Dá-me que alcance
a fazer de uma de minhas crianças meu verso perfeito e a deixar-lhe
cravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais.
Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não
renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Põe em minha escola democrática o resplendor que se discernia sobre
tua roda de meninos descalços.
Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre;
faz-me desprezadora de todo poder que não seja puro, de toda pressão
que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida.
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2
Augusto dos Anjos
Alucinação à Beira Mar
Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros me assombrava!
Mas a alga usufructuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!
Noite alta. Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros me assombrava!
Mas a alga usufructuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!
2 278
2
Augusto dos Anjos
Soneto
Ao meu primeiro filho nascido
morto com sete meses incompletos
2 de fevereiro de 1911
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral ?!...
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisteicamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER !
morto com sete meses incompletos
2 de fevereiro de 1911
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral ?!...
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisteicamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER !
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2
Augusto dos Anjos
Soneto
Ao meu primeiro filho nascido
morto com sete meses incompletos
2 de fevereiro de 1911
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral ?!...
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisteicamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER !
morto com sete meses incompletos
2 de fevereiro de 1911
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral ?!...
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisteicamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER !
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2
Arthur Rimbaud
A ESTRELA CHOROU ROSA
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.
5 644
2
Augusto dos Anjos
As Montanhas
I
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!
Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!
Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,
Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!
II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!
No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!
Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,
Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!
Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!
Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,
Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!
II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!
No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!
Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,
Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!
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2
Augusto dos Anjos
As Montanhas
I
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!
Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!
Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,
Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!
II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!
No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!
Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,
Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!
Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!
Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,
Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!
II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!
No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!
Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,
Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!
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2
Charles Baudelaire
ORAÇÃO
Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!
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2
Stéphane Mallarmé
BRINDE FÚNEBRE
Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!
Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.
Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.
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Stéphane Mallarmé
BRINDE FÚNEBRE
Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!
Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.
Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.
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2
Paulo Leminski
LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
3 026
2
Maria Azenha
Talvez
Talvez até a Vida seja simples
Os meus lábios são por exemplo
Feitos de vento
E a minha voz é uma cortina de fumo
Para me defender do frio
Lembrei-me um dia
De cortar os dedos
Para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!…)
Hoje tenho a convicção das dunas.
E sei que os meus cabelos
Escrevem 365 livros por ano
E
Procuro sozinha o Infinito.
Os meus lábios são por exemplo
Feitos de vento
E a minha voz é uma cortina de fumo
Para me defender do frio
Lembrei-me um dia
De cortar os dedos
Para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!…)
Hoje tenho a convicção das dunas.
E sei que os meus cabelos
Escrevem 365 livros por ano
E
Procuro sozinha o Infinito.
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2
Paulo Leminski
Amor, então,
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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Martha Medeiros
Eu Minto, Confesso
eu minto, confesso
me faço de boba, verdade
escondo a idade, me calo,
me sinto tão mal, um inferno
represento um papel, principal
sou mesmo uma atriz, infeliz
quem diz que eu não quero, eu consigo
viver por um triz, enlouqueço
te esqueço e te mato, te amo
atrás de um muro, qualquer
outro dia amanheço, de novo
e falo bobagens, pudera
não sou tão sensata, avisei
sem nada de mais, me despeço
me faço de boba, verdade
escondo a idade, me calo,
me sinto tão mal, um inferno
represento um papel, principal
sou mesmo uma atriz, infeliz
quem diz que eu não quero, eu consigo
viver por um triz, enlouqueço
te esqueço e te mato, te amo
atrás de um muro, qualquer
outro dia amanheço, de novo
e falo bobagens, pudera
não sou tão sensata, avisei
sem nada de mais, me despeço
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