Poemas neste tema
Vida e Existência
Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
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António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
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António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
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António Borges Coelho
Não tenhas medo
Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas
do corpo enfeitado pelas balas
894
1
Marco Lucchesi
Farmácia
Eu nada sei
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
770
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Marco Lucchesi
Farmácia
Eu nada sei
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
770
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Marco Lucchesi
Farmácia
Eu nada sei
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
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Marco Lucchesi
Farmácia
Eu nada sei
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
do mal de que padeço
e todavia confesso
o que me aflige
Sinto dores fortes
quando vejo o azul
a beleza me fere
espanta e fascina
o passar do tempo
me dá vertigem
e me prende
em suas teias irreversíveis
os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso
e quando vejo seu rosto
meu coração dispara
Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.
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Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
706
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
706
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
706
1
Daniel Jonas
OPACIDADE
Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
731
1
D. Dinis
Amigo, Queredes-Vos Ir?
- Amigo, queredes-vos ir?
- Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convém daqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
mi será, pois me sem vós vir!
- Amig', e de mim que será?
- Bem, senhor bõa e de prez;
e, pois m'eu for daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar,
mais pass'o voss'ũa vez já.
- Amig', eu sem vós morrerei.
- Nom querrá Deus esso, senhor;
mais, pois u vós fordes nom for,
o que morrerá eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar;
ca eu sem vós de morrer hei!
- Queredes-mi, amigo, matar?
- Nom, mia senhor; mais, por guardar
vós, mato-mi, que mi o busquei.
- Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convém daqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
mi será, pois me sem vós vir!
- Amig', e de mim que será?
- Bem, senhor bõa e de prez;
e, pois m'eu for daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar,
mais pass'o voss'ũa vez já.
- Amig', eu sem vós morrerei.
- Nom querrá Deus esso, senhor;
mais, pois u vós fordes nom for,
o que morrerá eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar;
ca eu sem vós de morrer hei!
- Queredes-mi, amigo, matar?
- Nom, mia senhor; mais, por guardar
vós, mato-mi, que mi o busquei.
959
1
Soares de Passos
Amor e Eternidade
Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
859
1
Soares de Passos
Amor e Eternidade
Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
859
1
D. Dinis
Que Prazer Havedes, Senhor,
Que prazer havedes, senhor,
de mi fazerdes mal por bem
que vos quig'e quer'? E por en
peç'eu tant'a Nostro Senhor:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Prazer havedes do meu mal
pero vos amo mais ca mi;
e por en peç'a Deus assi,
que sabe quant'é o meu mal:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Muito vos praz do mal que hei,
lume daquestes olhos meus;
e por esto peç'eu a Deus,
que sab'a coita que eu hei,
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes tam sem razom.
E se vo-lo mudar, entom
poss'eu viver [e] se nom, nom.
de mi fazerdes mal por bem
que vos quig'e quer'? E por en
peç'eu tant'a Nostro Senhor:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Prazer havedes do meu mal
pero vos amo mais ca mi;
e por en peç'a Deus assi,
que sabe quant'é o meu mal:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Muito vos praz do mal que hei,
lume daquestes olhos meus;
e por esto peç'eu a Deus,
que sab'a coita que eu hei,
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes tam sem razom.
E se vo-lo mudar, entom
poss'eu viver [e] se nom, nom.
1 527
1
Daniel Jonas
UMA SAISON NOS INFERNOS
Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
751
1
Golgona Anghel
Quando sair daqui
Quando sair daqui,
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
1 280
1
Marília Garcia
blind light
aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
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Marília Garcia
blind light
aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
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