Poemas neste tema
Vida e Existência
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
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1
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
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1
Nelson Motta
barato zen
louco de fumo diante da tv
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
1 027
1
R. Petit
Deixem!
Deixem que eu viva ao léu como um rochedo
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.
Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.
Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.
Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.
Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.
Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.
Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...
923
1
Venceslau Queiroz
Gelo Polar
Role do tempo na limosa penha
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
941
1
Jonas da Silva
Paisagens da Carne
O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
951
1
Beni Carvalho
O Flamboyant
Forte, esgalhado, heril, o flamboyant, de flores
Rubras, na antiga fronde, ostentava a vitória
De púrpura triunfal, na opulência da glória
Do sol, no alto do Azul, todo em chama e fulgores.
Lutou. Venceu heróico! A conquista, na história
Vegetal, alcançou no meio de esplendores:
— Ora, altivo, pompeando à luz as rubras cores;
— Ora, verde, a cantar a Esperança ilusória!
Hoje, porém, descansa o flamboyant por terra,
Sangrenta a floração, circundando-o, morrendo,
À agonia mortal, que o seu martírio encerra:
— Egrégio lutador que, na refrega, exangue,
Fulminado, semelha, a cair, combatendo,
Um cadáver de herói, salpintado de sangue!
Rubras, na antiga fronde, ostentava a vitória
De púrpura triunfal, na opulência da glória
Do sol, no alto do Azul, todo em chama e fulgores.
Lutou. Venceu heróico! A conquista, na história
Vegetal, alcançou no meio de esplendores:
— Ora, altivo, pompeando à luz as rubras cores;
— Ora, verde, a cantar a Esperança ilusória!
Hoje, porém, descansa o flamboyant por terra,
Sangrenta a floração, circundando-o, morrendo,
À agonia mortal, que o seu martírio encerra:
— Egrégio lutador que, na refrega, exangue,
Fulminado, semelha, a cair, combatendo,
Um cadáver de herói, salpintado de sangue!
1 364
1
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
912
1
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
912
1
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
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1
Everaldo Moreira Verás
Estranhas Formas
O zumbido me atormenta
já cresceu tanto que me engravidou.
De onde vem?
Por que me persegue?
Sei que não sei
mas sei
que é regular
singular
como a máquina fabricando o demônio de três pernas.
Esta ressonância equilibrada
me confunde:
a espada de fogo me aponta
direções opostas e complicadas.
Se corro — a repetição me busca.
Se paro — a desigualdade me ofusca.
Tenho dois ouvidos incompletos.
Por um entra a disciplina
da razão calma e delicada.
Por outro o desconexo, triste grito,
em ritmo de
eu-tu-ele-nós-vós-eles.
já cresceu tanto que me engravidou.
De onde vem?
Por que me persegue?
Sei que não sei
mas sei
que é regular
singular
como a máquina fabricando o demônio de três pernas.
Esta ressonância equilibrada
me confunde:
a espada de fogo me aponta
direções opostas e complicadas.
Se corro — a repetição me busca.
Se paro — a desigualdade me ofusca.
Tenho dois ouvidos incompletos.
Por um entra a disciplina
da razão calma e delicada.
Por outro o desconexo, triste grito,
em ritmo de
eu-tu-ele-nós-vós-eles.
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1
Celso Pinheiro
Manhã Prestes a Abrir
Manhã prestes a abrir o cálice doirado!
Na casinha de palha andam todos alerta.
Pois antes que a manhã seja uma rosa aberta,
Há de este amor surgir o fruto iluminado!...
Dona Flor com o semblante heril transfigurado,
Tem anseios de mãe... A parteira desperta,
Pitando o seu cachimbo, aguarda a hora certa,
E me diz que não tenha o mínimo cuidado!...
De súbito, porém, a sombra de um perigo...
Eu, pálido, a tremer, minha alegria tolho,
E vou ver o Dr. — velho médico amigo!
Mas ao volver ao lar me comovo e confundo:
Ela, ingênua, a sorrir, mostrando-me o pimpolho,
Sugere-me votivo o seu nome — Raimundo!...
Na casinha de palha andam todos alerta.
Pois antes que a manhã seja uma rosa aberta,
Há de este amor surgir o fruto iluminado!...
Dona Flor com o semblante heril transfigurado,
Tem anseios de mãe... A parteira desperta,
Pitando o seu cachimbo, aguarda a hora certa,
E me diz que não tenha o mínimo cuidado!...
De súbito, porém, a sombra de um perigo...
Eu, pálido, a tremer, minha alegria tolho,
E vou ver o Dr. — velho médico amigo!
Mas ao volver ao lar me comovo e confundo:
Ela, ingênua, a sorrir, mostrando-me o pimpolho,
Sugere-me votivo o seu nome — Raimundo!...
1 051
1
Adelmar Tavares
Francisco, Meu Pai
Como que o vejo... O chapelão caído
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
1 694
1
Adelmar Tavares
Francisco, Meu Pai
Como que o vejo... O chapelão caído
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
1 694
1
Adelmar Tavares
Francisco, Meu Pai
Como que o vejo... O chapelão caído
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
1 694
1
Vitorino Nemésio
Requiescat
Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
1 813
1
Afonso Lopes de Almeida
Vida
Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
1 135
1
Afonso Lopes de Almeida
Vida
Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
1 135
1
Afonso Lopes de Almeida
Vida
Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
1 135
1
Francisco Tribuzi
Momento-interno
No ar o sentido do mistério
Em mim essa dor sem remédio
No vago um momento sério
Na vida esse inconfundível tédio.
Qual de mim já foi quem em outras era(s)
Um navegar de azul me influiu quimera(s)
Que em ser outra vida talvez dessa invertida
Hoje a sinto perdida.
Se sinto a impressão que já vi outro céu que não esse:
Manchado, escurecido
Que andei por ruas-rosas distâncias formosas me hei
Esquecido?...
Onde estão meus antigos pensares?
Noutros céus? Noutros mares?
Que hoje só guardo pesares
A que distância de mim me encontro?
... (?) Sinto as canções do meu caminho
Por que essa tristeza de eu ser outro
Perdido no vácuo, sozinho
Que madrugada guardou o meu perfume?
Que a manhã sempre me esconde
Existência gastando o que o ser assume
No ar sem resposta, onde?
Em mim essa dor sem remédio
No vago um momento sério
Na vida esse inconfundível tédio.
Qual de mim já foi quem em outras era(s)
Um navegar de azul me influiu quimera(s)
Que em ser outra vida talvez dessa invertida
Hoje a sinto perdida.
Se sinto a impressão que já vi outro céu que não esse:
Manchado, escurecido
Que andei por ruas-rosas distâncias formosas me hei
Esquecido?...
Onde estão meus antigos pensares?
Noutros céus? Noutros mares?
Que hoje só guardo pesares
A que distância de mim me encontro?
... (?) Sinto as canções do meu caminho
Por que essa tristeza de eu ser outro
Perdido no vácuo, sozinho
Que madrugada guardou o meu perfume?
Que a manhã sempre me esconde
Existência gastando o que o ser assume
No ar sem resposta, onde?
850
1
Walter Queiroz
Retalhos de Hoje
Na confluência das horas
germinarão as manhãs
no esquecimento das cores
gestando flores letais
as margaridas sangrando
no tombamento dos corpos
arribação dos canteiros
habitação nos fuzis
eu sei de loucas bandeiras
subindo o mastro dos sonhos
como notícias estampadas
informando os alumínios
quando as crianças passaram
louvando a festa do sol
eis que o olhar tão ferido
nem soube do feito azul
nem houve tato ao formato
da nave antiga em regresso
as impressões marinheiras
no baile branco das velas
pediu entrada na roda
para brincar de inventor
em silente artesanato
dos ritos para o encontro
porém a mão estendida
girou no ar (só... sobrou)
os gestos estão cravados
nos quinhões já repartidos
na confluência das horas
correm sonoras de fogo
no pavilhão indefeso
bandeiras de ocupação
com notícias estampadas
faca/navalha/cinzel
hábeis de corte fundando
trabalho de sangue novo
a cruz gravada no peito
tem raiz no coração
nos braços um gesto abraço
preparando a comunhão
junto os retalhos de hoje
e não direi da esperança
tornar bandeiras de fogo
em estandartes de paz
germinarão as manhãs
no esquecimento das cores
gestando flores letais
as margaridas sangrando
no tombamento dos corpos
arribação dos canteiros
habitação nos fuzis
eu sei de loucas bandeiras
subindo o mastro dos sonhos
como notícias estampadas
informando os alumínios
quando as crianças passaram
louvando a festa do sol
eis que o olhar tão ferido
nem soube do feito azul
nem houve tato ao formato
da nave antiga em regresso
as impressões marinheiras
no baile branco das velas
pediu entrada na roda
para brincar de inventor
em silente artesanato
dos ritos para o encontro
porém a mão estendida
girou no ar (só... sobrou)
os gestos estão cravados
nos quinhões já repartidos
na confluência das horas
correm sonoras de fogo
no pavilhão indefeso
bandeiras de ocupação
com notícias estampadas
faca/navalha/cinzel
hábeis de corte fundando
trabalho de sangue novo
a cruz gravada no peito
tem raiz no coração
nos braços um gesto abraço
preparando a comunhão
junto os retalhos de hoje
e não direi da esperança
tornar bandeiras de fogo
em estandartes de paz
904
1
Durval de Morais
Doce Lembrança
Mãe de Deus, mãe dos homens! A mais bela
Entre as belas; de todas a mais pura!
Que destino na terra te constela!
Que destino no céu te transfigurar
E ainda tão pequena e pobres... É vê-la,
Com os pés nus sobre a terra negra e dura;
À cabeça trazendo, em vez da estrela,
A bilha de água que ela mal segura!
E, quando passa, as flores dos caminhos,
Galhos, que em vez de flores trazem ninhos,
Inclinam-se saudando a que se humilha...
Como passa a sorrir... lembra uma abelhas
Perdão, meu bom Jesus, se não semelha,
A mesma idade tem da minha filha!
Entre as belas; de todas a mais pura!
Que destino na terra te constela!
Que destino no céu te transfigurar
E ainda tão pequena e pobres... É vê-la,
Com os pés nus sobre a terra negra e dura;
À cabeça trazendo, em vez da estrela,
A bilha de água que ela mal segura!
E, quando passa, as flores dos caminhos,
Galhos, que em vez de flores trazem ninhos,
Inclinam-se saudando a que se humilha...
Como passa a sorrir... lembra uma abelhas
Perdão, meu bom Jesus, se não semelha,
A mesma idade tem da minha filha!
910
1
Aníbal Teófilo
A Cegonha
Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
1 903
1
Ascânio Lopes
Cataguazes
Para Carlos Drummond de Andrade
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
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