Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Ofélia
Que perfil perdi no vento
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.
Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada —
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.
Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.
Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.
Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada —
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.
Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.
Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.
944
2
Sidónio Muralha
Boa noite
A zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama
— teve que se deitar
porque estava de pijama.
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama
— teve que se deitar
porque estava de pijama.
1 786
2
Herberto Helder
Quinze Haikus Japoneses
Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
1 687
2
Herberto Helder
Quinze Haikus Japoneses
Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
1 687
2
Herberto Helder
Quinze Haikus Japoneses
Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
1 687
2
Herberto Helder
Quinze Haikus Japoneses
Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
1 687
2
José Saramago
Ergo Uma Rosa
Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
1 492
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Espera
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene
1 712
2
Pablo Neruda
A Noite Na Ilha
Toda a noite dormi contigo
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
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2
Pablo Neruda
A Noite Na Ilha
Toda a noite dormi contigo
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
2 662
2
Manuel Bandeira
O Martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
2 478
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Vento
O vento sopra contra
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
As janelas fechadas
Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,
E os cabelos do ar ondulam loucos
Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida
Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.
E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
2 609
2
Affonso Romano de Sant'Anna
Meu Cão
Meu cão ouve comigo
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
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2
Affonso Romano de Sant'Anna
Meu Cão
Meu cão ouve comigo
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
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2
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 313
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Reza da Manhã de Maio
Senhor, dai-me a inocência dos animais
Para que eu possa beber nesta manhã
A harmonia e a força das coisas naturais.
Apagai a máscara vazia e vã
De humanidade,
Apagai a vaidade,
Para que eu me perca e me dissolva
Na perfeição da manhã
E para que o vento me devolva
A parte de mim que vive
À beira dum jardim que só eu tive.
Para que eu possa beber nesta manhã
A harmonia e a força das coisas naturais.
Apagai a máscara vazia e vã
De humanidade,
Apagai a vaidade,
Para que eu me perca e me dissolva
Na perfeição da manhã
E para que o vento me devolva
A parte de mim que vive
À beira dum jardim que só eu tive.
2 072
2
Manuel Bandeira
Na Solidão das Noites Úmidas
Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
1 703
2
Pablo Neruda
10
Perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
1 205
2
Pablo Neruda
10
Perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
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Soares de Passos
O Noivado do Sepulcro
Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.
Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.
Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.
Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:
"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?
"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?
"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!
"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.
"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!
- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda,
Responde um eco suspirando além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.
"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.
"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?
"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
- "Oh vejo sim... recordação fatal!
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.
"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"
E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.
Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.
Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.
Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.
Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.
Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:
"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?
"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?
"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!
"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.
"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!
- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda,
Responde um eco suspirando além...
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.
"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.
"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?
"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
- "Oh vejo sim... recordação fatal!
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.
"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"
E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.
Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.
Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.
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Manuel Bandeira
Ubiquidade
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Petrópolis, 11.3.1943
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Petrópolis, 11.3.1943
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2
José Saramago
Água Azul
Altos segredos escondem dentro de água
O reverso da carne, corpo ainda.
Como um punho fechado ou um bastão,
Abro o líquido azul, a espuma branca,
E por fundos de areia e madrepérola,
Desço o véu sobre os olhos assombrados.
(Na medida do gesto, a largueza do mar
E a concha do suspiro que se enrola.)
Vem a onda de longe, e foi um espasmo,
Vem o salto na pedra, outro grito:
Depois a água azul desvenda as milhas,
Enquanto um longo, e longo, e branco peixe
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.
O reverso da carne, corpo ainda.
Como um punho fechado ou um bastão,
Abro o líquido azul, a espuma branca,
E por fundos de areia e madrepérola,
Desço o véu sobre os olhos assombrados.
(Na medida do gesto, a largueza do mar
E a concha do suspiro que se enrola.)
Vem a onda de longe, e foi um espasmo,
Vem o salto na pedra, outro grito:
Depois a água azul desvenda as milhas,
Enquanto um longo, e longo, e branco peixe
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.
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Vinicius de Moraes
A Estrela Polar
Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
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José Saramago
Física
Colho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
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