Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Afrânio Peixoto
Perfume Silvestre
As coisas humildes
Têm seu encanto discreto:
O capim melado...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Têm seu encanto discreto:
O capim melado...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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Ulisses Tavares
Maravilhas da Fauna
Vacas de açougue,
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.60. (Jovens do mundo todo
tigres de circo,
patos que apitam,
peixes contaminados,
aves sem pés nem cabeça
quietas no supermercado.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.60. (Jovens do mundo todo
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Juó Bananére
O Lobo i o Gordeirigno
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére
Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.
Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.
O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:
— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?
— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...
Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?
— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.
— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!
— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.
— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.
— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.
I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.
MORALE: O que vale nista vida é o muque!
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó Du Bananére
Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.
Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.
O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:
— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?
— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...
Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?
— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.
— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!
— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.
— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.
— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.
I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.
MORALE: O que vale nista vida é o muque!
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
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Pedro Kilkerry
Vinho, 1909
Alma presa da Grécia, em prisão de turquesa!
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!
Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!
Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...
Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!
Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!
Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...
Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
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Joaquim Cardozo
Visão do Último Trem Subindo ao Céu
II
As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.
Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?
Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.
Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;
Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.
E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).
— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.
Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.124-125
As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.
Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?
Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.
Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;
Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.
E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).
— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.
Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.124-125
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Maria Helena Nery Garcez
Romantismo
Venho das ruas molhadas e desertas.
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
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Aureliano Lessa
O Eco
Quando eu era pequenino
Subia alegre e traquino
Da montanha o alto pino,
Para os ecos escutar;
Supondo ser uma fada
Que me falava ocultada,
Para ouvir sua toada,
Gritava à toa no ar.
(...)
Ouvir do eco eu queria
Todo o nome que eu dizia;
Mas o eco repetia
Só das palavras o fim;
De certo, o mesmo falando
Estava o mesmo pensando;
E o eco me confirmando,
Eu ia dizendo assim:
"Se o teu amiguinho
Fiel não te enfada,
Fada,
Vem já responder-me
Com tua voz linda,
Inda
Se as coisas bonitas
Que alguns me disseram,
Eram
Verdade ou mentira.
Meu peito esta tarde
Arde
Por saber se as fadas
Um belo condão
Dão,
Que faz criar asas;
Que vai se volvendo,
Vendo
Jardins de outras terras
Cheios de cheirosas
Rosas
Ao pé de uma fonte...
Oh! isto é assim?...
Sim!
Pois, dai-me umas asas,
Quero ir na corrente
Rente,
Ter a mãe das águas
Que está no profundo
Fundo;
E ver perto a nuvem
Que no céu desliza
Liza;
E ver se as estrelas
São frias, ou quentes
Entes:
Se há anjos na lua.
Se o sol tem cabelos
Belos...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Subia alegre e traquino
Da montanha o alto pino,
Para os ecos escutar;
Supondo ser uma fada
Que me falava ocultada,
Para ouvir sua toada,
Gritava à toa no ar.
(...)
Ouvir do eco eu queria
Todo o nome que eu dizia;
Mas o eco repetia
Só das palavras o fim;
De certo, o mesmo falando
Estava o mesmo pensando;
E o eco me confirmando,
Eu ia dizendo assim:
"Se o teu amiguinho
Fiel não te enfada,
Fada,
Vem já responder-me
Com tua voz linda,
Inda
Se as coisas bonitas
Que alguns me disseram,
Eram
Verdade ou mentira.
Meu peito esta tarde
Arde
Por saber se as fadas
Um belo condão
Dão,
Que faz criar asas;
Que vai se volvendo,
Vendo
Jardins de outras terras
Cheios de cheirosas
Rosas
Ao pé de uma fonte...
Oh! isto é assim?...
Sim!
Pois, dai-me umas asas,
Quero ir na corrente
Rente,
Ter a mãe das águas
Que está no profundo
Fundo;
E ver perto a nuvem
Que no céu desliza
Liza;
E ver se as estrelas
São frias, ou quentes
Entes:
Se há anjos na lua.
Se o sol tem cabelos
Belos...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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Aureliano Lessa
O Eco
Quando eu era pequenino
Subia alegre e traquino
Da montanha o alto pino,
Para os ecos escutar;
Supondo ser uma fada
Que me falava ocultada,
Para ouvir sua toada,
Gritava à toa no ar.
(...)
Ouvir do eco eu queria
Todo o nome que eu dizia;
Mas o eco repetia
Só das palavras o fim;
De certo, o mesmo falando
Estava o mesmo pensando;
E o eco me confirmando,
Eu ia dizendo assim:
"Se o teu amiguinho
Fiel não te enfada,
Fada,
Vem já responder-me
Com tua voz linda,
Inda
Se as coisas bonitas
Que alguns me disseram,
Eram
Verdade ou mentira.
Meu peito esta tarde
Arde
Por saber se as fadas
Um belo condão
Dão,
Que faz criar asas;
Que vai se volvendo,
Vendo
Jardins de outras terras
Cheios de cheirosas
Rosas
Ao pé de uma fonte...
Oh! isto é assim?...
Sim!
Pois, dai-me umas asas,
Quero ir na corrente
Rente,
Ter a mãe das águas
Que está no profundo
Fundo;
E ver perto a nuvem
Que no céu desliza
Liza;
E ver se as estrelas
São frias, ou quentes
Entes:
Se há anjos na lua.
Se o sol tem cabelos
Belos...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Subia alegre e traquino
Da montanha o alto pino,
Para os ecos escutar;
Supondo ser uma fada
Que me falava ocultada,
Para ouvir sua toada,
Gritava à toa no ar.
(...)
Ouvir do eco eu queria
Todo o nome que eu dizia;
Mas o eco repetia
Só das palavras o fim;
De certo, o mesmo falando
Estava o mesmo pensando;
E o eco me confirmando,
Eu ia dizendo assim:
"Se o teu amiguinho
Fiel não te enfada,
Fada,
Vem já responder-me
Com tua voz linda,
Inda
Se as coisas bonitas
Que alguns me disseram,
Eram
Verdade ou mentira.
Meu peito esta tarde
Arde
Por saber se as fadas
Um belo condão
Dão,
Que faz criar asas;
Que vai se volvendo,
Vendo
Jardins de outras terras
Cheios de cheirosas
Rosas
Ao pé de uma fonte...
Oh! isto é assim?...
Sim!
Pois, dai-me umas asas,
Quero ir na corrente
Rente,
Ter a mãe das águas
Que está no profundo
Fundo;
E ver perto a nuvem
Que no céu desliza
Liza;
E ver se as estrelas
São frias, ou quentes
Entes:
Se há anjos na lua.
Se o sol tem cabelos
Belos...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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Alphonsus de Guimaraens
VIII [Ai dos que vivem, se não fora o sono
Ai dos que vivem, se não fora o sono!
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.
E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.
Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.
Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte...
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!
Publicado no Jornal do Comércio (Juiz de Fora, 23 mar. 1919).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 334. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.
E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.
Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.
Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte...
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!
Publicado no Jornal do Comércio (Juiz de Fora, 23 mar. 1919).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 334. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Raul Pompéia
Verão
La Débauche et la Mort sont deux animables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l'éternel labeur n'a jamais enfanté.
C. BAUDELAIRE
O verão é o êxtase do fogo.
Desabrocha francamente a primavera púbere. O esplendor
viçoso das formas da juventude aguarda a carícia da asa do
estio que aquece e fecunda. Chega então a festa do amor, a
orgia do fogo.
Fulge no abrasado zênite o sol, como um troféu de espadas
nuas e a natureza enleada pelas serpentes da lascívia estival,
debate-se à luz, vencida, — bela amante que sucumbe
ao amor carnívoro, pungente de um semideus guerreiro, na
própria tenda de campanha, bêbedo ainda do furor do recontro,
excitado pelo cheiro cruento da matança.
Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e
aérea criança, no fundo misterioso do sangue.
Amor de verão!
Viver a intensidade mortal da vida, arder, arder e morrer,
como o fogo que cresce, cresce e de si mesmo morre, enfermo
do seu triunfo.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.56. (Vera Cruz, 324c
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l'éternel labeur n'a jamais enfanté.
C. BAUDELAIRE
O verão é o êxtase do fogo.
Desabrocha francamente a primavera púbere. O esplendor
viçoso das formas da juventude aguarda a carícia da asa do
estio que aquece e fecunda. Chega então a festa do amor, a
orgia do fogo.
Fulge no abrasado zênite o sol, como um troféu de espadas
nuas e a natureza enleada pelas serpentes da lascívia estival,
debate-se à luz, vencida, — bela amante que sucumbe
ao amor carnívoro, pungente de um semideus guerreiro, na
própria tenda de campanha, bêbedo ainda do furor do recontro,
excitado pelo cheiro cruento da matança.
Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e
aérea criança, no fundo misterioso do sangue.
Amor de verão!
Viver a intensidade mortal da vida, arder, arder e morrer,
como o fogo que cresce, cresce e de si mesmo morre, enfermo
do seu triunfo.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.56. (Vera Cruz, 324c
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Juvenal Galeno
Alface
A alface das nossas hortas
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.
Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.
Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.
As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.
In: GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Apres. Oswaldo Riedel. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.
Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.
Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.
As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.
In: GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Apres. Oswaldo Riedel. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
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2
Pedro Nava
Reflexos
Poça
Pedra
Tibloung
blong
A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água
Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando
CONCÊNTRICOS
anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando
uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da
Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas
Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
b a m b o s
rolando
no reflexo imprevisto
Onda
margem
schlapp
plap
plaff
O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo - le - men - te
Os telhados bêbados
tentaculisam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar
O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL
Janelas
parando
parando
paradas
pregadas
no espelho achatado das águas pesadas.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "Reflexos também é bom. Me lembra Ravel, Debussy. Alguns efeitos são realmente admiráveis. Aquele 'Onda-margem-schlapp-plap-plaff' é perfeito. Olhe: schlapp em alemão é: eu bamboleio. Acho bom você modificar a grafia, aliás injustificável no 'ch' quando temos um sinal puro para grafá-lo, o x. Bote xlapp, ou sxclapp. Tome também cuidado com certos exageros de síntese. Eu por mim confesso que já vou perdendo o entusiasmo que tive por essas tentativas
Pedra
Tibloung
blong
A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água
Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando
CONCÊNTRICOS
anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando
uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da
Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas
Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
b a m b o s
rolando
no reflexo imprevisto
Onda
margem
schlapp
plap
plaff
O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo - le - men - te
Os telhados bêbados
tentaculisam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar
O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL
Janelas
parando
parando
paradas
pregadas
no espelho achatado das águas pesadas.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "Reflexos também é bom. Me lembra Ravel, Debussy. Alguns efeitos são realmente admiráveis. Aquele 'Onda-margem-schlapp-plap-plaff' é perfeito. Olhe: schlapp em alemão é: eu bamboleio. Acho bom você modificar a grafia, aliás injustificável no 'ch' quando temos um sinal puro para grafá-lo, o x. Bote xlapp, ou sxclapp. Tome também cuidado com certos exageros de síntese. Eu por mim confesso que já vou perdendo o entusiasmo que tive por essas tentativas
2 011
2
Guilherme de Almeida
Cinema
Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.
Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.
E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.
Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.
E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;
são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...
É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.
Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.
E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.
Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.
E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;
são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...
É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
4 833
2
Raul Pompéia
Inverno
Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.
J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).
Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.
Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.
J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).
Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.
Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
2 962
2
Guilherme de Almeida
Velocidade
Não se lembram do Gigante das Botas de Sete Léguas?
Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de asas cegas,
as distâncias...
E dispara,
nunca pára,
nem repara
para os lados,
para frente,
para trás...
Vai como um pária...
E vai levando um novelo embaraçado de fitas:
fitas
azuis,
brancas,
verdes,
amarelas...
imprevistas...
Vai varando o vento: — e o vento, ventando cada vez mais,
desembaraça o novelo, penteando com dedos de ar
o feixe fino de riscas,
tiras,
fitas,
faixas,
listas...
E estira-as,
puxa-as,
estica-as,
espicha-as bem para trás:
E as cores retesas dançam, sobem, descem de-va-gar
paralelamente,
paralelamente
horizontais,
sobre a cabeça espantada do Pequeno Polegar...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série III - Sete Poemas.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de asas cegas,
as distâncias...
E dispara,
nunca pára,
nem repara
para os lados,
para frente,
para trás...
Vai como um pária...
E vai levando um novelo embaraçado de fitas:
fitas
azuis,
brancas,
verdes,
amarelas...
imprevistas...
Vai varando o vento: — e o vento, ventando cada vez mais,
desembaraça o novelo, penteando com dedos de ar
o feixe fino de riscas,
tiras,
fitas,
faixas,
listas...
E estira-as,
puxa-as,
estica-as,
espicha-as bem para trás:
E as cores retesas dançam, sobem, descem de-va-gar
paralelamente,
paralelamente
horizontais,
sobre a cabeça espantada do Pequeno Polegar...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série III - Sete Poemas.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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2
Affonso Ávila
Os Negros de Itaverava
Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
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2
Bernardino Lopes
A Condessa
III
Morria o som da última habanera
Saudoso e lento no metal da orquestra,
Quando esse arrojo da beleza, mestra
Dos floreios do baile, o carro espera.
Daquele boca salta a primavera
Bafejando-lhe o termo da palestra...
E já, sorrindo e meneando a destra,
A mesura simbólica fizera.
Acompanhando-a como que suspira
A ronda alerta dos olhares... Sente
Tão fria a noite! E o conde, sem detê-la,
Naqueles ombros pálidos atira
A seda azul da capa rescendente,
— Um pedaço de céu sobre uma estrela!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Morria o som da última habanera
Saudoso e lento no metal da orquestra,
Quando esse arrojo da beleza, mestra
Dos floreios do baile, o carro espera.
Daquele boca salta a primavera
Bafejando-lhe o termo da palestra...
E já, sorrindo e meneando a destra,
A mesura simbólica fizera.
Acompanhando-a como que suspira
A ronda alerta dos olhares... Sente
Tão fria a noite! E o conde, sem detê-la,
Naqueles ombros pálidos atira
A seda azul da capa rescendente,
— Um pedaço de céu sobre uma estrela!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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2
Olavo Bilac
Rio Abaixo
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.
In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p.138. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.
In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p.138. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
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Olavo Bilac
Rio Abaixo
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.
In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p.138. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.
In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p.138. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
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Olavo Bilac
Rio Abaixo
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.
In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p.138. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.
In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p.138. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
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Manoel de Barros
Infância
Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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2
Raimundo Correia
Plenilúnio
Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...
Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!
Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!
Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...
Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.
Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!
E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!
Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!
Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...
Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.
E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...
Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...
Publicado no livro Poesias (1898).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...
Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!
Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!
Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...
Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.
Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!
E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!
Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!
Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...
Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.
E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...
Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...
Publicado no livro Poesias (1898).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
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Raimundo Correia
Plenilúnio
Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...
Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!
Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!
Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...
Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.
Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!
E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!
Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!
Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...
Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.
E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...
Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...
Publicado no livro Poesias (1898).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...
Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!
Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, notâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!
Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...
Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.
Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!
E assim, fitando-a noites inteiras;
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!
Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!
Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...
Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.
E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas e flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...
Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...
Publicado no livro Poesias (1898).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.156-157.
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Thiago de Mello
Notícia da Manhã
Para Milu e Ângelo
Eu sei que todos a viram
e jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormidos — e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração —
a todos que não a viram
contarei desta manhã
— manhã é céu derramado
é cristal de claridão —
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar — na cidade.
Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).
(...)
Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens, das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
na torre das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonitos!
(...)
A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade
Não: a manhã se deu ao povo.
A manhã é geral.
As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde,
os passarinhos namorando
— ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgraçados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.
E de repente a manhã
— manhã é céu derramado,
é claridão, claridão —
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.
9 de julho de 1954
S. Sebastião do Rio de Janeiro
Imagem - 00850001
Poema integrante da série O Andarilho e a Manhã, 1953/1955.
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984
Eu sei que todos a viram
e jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormidos — e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração —
a todos que não a viram
contarei desta manhã
— manhã é céu derramado
é cristal de claridão —
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar — na cidade.
Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).
(...)
Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens, das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
na torre das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonitos!
(...)
A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade
Não: a manhã se deu ao povo.
A manhã é geral.
As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde,
os passarinhos namorando
— ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgraçados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.
E de repente a manhã
— manhã é céu derramado,
é claridão, claridão —
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.
9 de julho de 1954
S. Sebastião do Rio de Janeiro
Imagem - 00850001
Poema integrante da série O Andarilho e a Manhã, 1953/1955.
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984
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