Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Chacal
Curral de Deus
cães ladram ao longe
galos abrem o berreiro
cigarras se despedem da vida
sapos coacham a verdade
e assim vai mais um dia
nesse curral de Deus.
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.40. (Cantadas literárias, 48
galos abrem o berreiro
cigarras se despedem da vida
sapos coacham a verdade
e assim vai mais um dia
nesse curral de Deus.
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.40. (Cantadas literárias, 48
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1
Mário Faustino
Viagem
Apago a vela, enfuno as velas: planto
Um fruto verde no futuro, e parto
De escuna virgem navegante, e canto
Um mar de peixe e febre e estirpe farto—
E ardendo em festas fogo-embalsamadas
Amo em tropel, corcel, centauramente,
Entre sudários queimo as enfaixadas
Fêmeas que me atormentam, musamente —
E espuma desta vaga danço e sonho
Com címbalo e símbolos, harmônio
Onde executo a flor que em mim se embebe,
Centro e cetro, curvando-se ante a sebe
Divina — a própria morte hoje defloro
E vida eterna engendro: gero, adoro.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Um fruto verde no futuro, e parto
De escuna virgem navegante, e canto
Um mar de peixe e febre e estirpe farto—
E ardendo em festas fogo-embalsamadas
Amo em tropel, corcel, centauramente,
Entre sudários queimo as enfaixadas
Fêmeas que me atormentam, musamente —
E espuma desta vaga danço e sonho
Com címbalo e símbolos, harmônio
Onde executo a flor que em mim se embebe,
Centro e cetro, curvando-se ante a sebe
Divina — a própria morte hoje defloro
E vida eterna engendro: gero, adoro.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 845
1
Stella Leonardos
Azul Menino
ONDE AZULA
na campina
um menino
de azul-fino,
pés descalços,
braços nus,
do azul lado
da campina
de azulado
mais celeste
que os celestes
mais azuis,
onde os ares
azuleam
de árias de águas
de cachoeira
de cantar a-
zuis cantares,
onde as águas
burborejam
burburinho
de azuis círculos
e áreas se asam
de azuis asas,
uma infância
de azul leste
de azul lesto
de azul terno
no azul presto
cantoeterno.
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
na campina
um menino
de azul-fino,
pés descalços,
braços nus,
do azul lado
da campina
de azulado
mais celeste
que os celestes
mais azuis,
onde os ares
azuleam
de árias de águas
de cachoeira
de cantar a-
zuis cantares,
onde as águas
burborejam
burburinho
de azuis círculos
e áreas se asam
de azuis asas,
uma infância
de azul leste
de azul lesto
de azul terno
no azul presto
cantoeterno.
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
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1
Sílvio Romero
A Moura
(Pernambuco)
Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!
Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!
Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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1
Sílvio Romero
Reisado da Borboleta, do Maracujá e do Pica-Pau
CENA 2a.
(Aparece uma figura representando a borboleta)
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal,
Venha cantar doces hinos
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Deus lhe dê mui boa noite,
Boa noite lhe dê Deus;
Que eu não sou mal ensinada,
Ensino meu pai me deu.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal;
Venha cantar doces hinos,
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Sou linda, sou feiticeira;
Ando no meio da casa,
Procurando quem me queira.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Verde da cor da esperança,
Ando no meio da casa,
Com alegria e bonança.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Vivo de ar e de luz;
Ando no meio da casa
Com minhas asas azuis.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Adeus, senhores, adeus,
Já são horas de partir;
Entre a bonina e a açucena
Já são horas de dormir.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.150-151. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
(Aparece uma figura representando a borboleta)
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal,
Venha cantar doces hinos
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Deus lhe dê mui boa noite,
Boa noite lhe dê Deus;
Que eu não sou mal ensinada,
Ensino meu pai me deu.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal;
Venha cantar doces hinos,
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Sou linda, sou feiticeira;
Ando no meio da casa,
Procurando quem me queira.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Verde da cor da esperança,
Ando no meio da casa,
Com alegria e bonança.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Vivo de ar e de luz;
Ando no meio da casa
Com minhas asas azuis.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Adeus, senhores, adeus,
Já são horas de partir;
Entre a bonina e a açucena
Já são horas de dormir.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.150-151. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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1
Paulo Eiró
Barra de Santos
(Carolina)
Praia, que o mar brandamente
Repele ou acaricia,
Em que as auras vêm carpir-se
A volta do meio-dia,
E a tarde espalhar frescura,
Sombras e melancolia;
Linda praia, debruada
De alvejante, fina areia,
Porque só tua lembrança
O espírito me encadeia?
Quem te deu tamanho encanto?
Onde está tua sereia?
À solidão de minha alma
Chega teu som lastimoso,
Eco prolongado e triste
De cavo búzio lustroso;
Meu coração todo abala,
Qual voz de amigo extremoso.
Vejo a ti, pego infinito,
Como a um cativo sultão,
Que ora, com pátrios cantares,
Suaviza a escravidão
Ora, espumando, se atira
Contra as grades da prisão.
Vejo-te a face que o posto
Sol doura, avermelha, inflama,
E o horizonte que se ignora
Onde repousa, onde clama,
Como um segundo oceano
Que sobre ti se derrama.
Vejo, surgindo das águas,
A solitária "Moela";
O cabo que se adianta
E, ao longe, perdida vela...
Vejo a "terra da saudade"!
Das praias vejo a mais bela!
Santos, 1855
Poema integrante da série Boninas, 1855.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
Praia, que o mar brandamente
Repele ou acaricia,
Em que as auras vêm carpir-se
A volta do meio-dia,
E a tarde espalhar frescura,
Sombras e melancolia;
Linda praia, debruada
De alvejante, fina areia,
Porque só tua lembrança
O espírito me encadeia?
Quem te deu tamanho encanto?
Onde está tua sereia?
À solidão de minha alma
Chega teu som lastimoso,
Eco prolongado e triste
De cavo búzio lustroso;
Meu coração todo abala,
Qual voz de amigo extremoso.
Vejo a ti, pego infinito,
Como a um cativo sultão,
Que ora, com pátrios cantares,
Suaviza a escravidão
Ora, espumando, se atira
Contra as grades da prisão.
Vejo-te a face que o posto
Sol doura, avermelha, inflama,
E o horizonte que se ignora
Onde repousa, onde clama,
Como um segundo oceano
Que sobre ti se derrama.
Vejo, surgindo das águas,
A solitária "Moela";
O cabo que se adianta
E, ao longe, perdida vela...
Vejo a "terra da saudade"!
Das praias vejo a mais bela!
Santos, 1855
Poema integrante da série Boninas, 1855.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 536
1
Álvaro Moreyra
Do Outono e do Silêncio
Ah como eu sinto o outono
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.37-38. (Os Mais belos poemas de amor
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.37-38. (Os Mais belos poemas de amor
2 328
1
Santa Rita Durão
Canto VII [Distingue-se entre as mais na forma e gosto
XLV
Distingue-se entre as mais na forma e gosto,
Pendente de alto ramo o coco duro,
Que em grande casca no exterior composto,
Enche o vaso int'rior de um licor puro;
Licor que, à competência sendo posto,
Do antigo néctar fora o nome escuro;
Dentro tem carne branca como a amêndoa,
Que a alguns enfermos foi vital, comendo-a.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.172. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
Distingue-se entre as mais na forma e gosto,
Pendente de alto ramo o coco duro,
Que em grande casca no exterior composto,
Enche o vaso int'rior de um licor puro;
Licor que, à competência sendo posto,
Do antigo néctar fora o nome escuro;
Dentro tem carne branca como a amêndoa,
Que a alguns enfermos foi vital, comendo-a.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.172. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
2 049
1
Álvaro Moreyra
A Mangueira e o Sabiá
O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 333
1
Álvaro Moreyra
A Mangueira e o Sabiá
O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste mas toda cheia de
mangas.
Mangas doces, tão bonitas, a mangueira nunca
deu.
Deu agora de saudade, porque a mangueira
sofreu.
Quanta mulher sabiá!
E quanto homem mangueira!...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
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1
Joaquim Manuel de Macedo
Canto I - A Rocha Negra
VI
(...)
Dizem que ali na turva penha imensa
Em velhas eras se acoutava insana
Mulher sabida em mágicas tremendas,
Que ensinam maus espíritos; formosa,
Inda aos cem anos moça como aos vinte,
Vê-la um momento era adorá-la sempre;
E amá-la eterno perdimento d'alma.
Gênio das trevas, só da lua amiga,
Fugia à luz do sol; mercê d'encantos,
Durante a noite mística pairava
No espaço em torno à rocha densa nuvem,
Em cujo seio toda se embebia,
Mal se abriam no céu rosas d'aurora;
Chamavam-a por isso a Nebulosa.
(...)
Tempo, que se não mede, assim vivera
Sempre moça e gentil, mau grado os anos;
Uma noite porém de tredo olvido
(Foi castigo de Deus) ao mar se atira,
Sem que antes repetisse as da cabala.
Satânicas palavras; tarde as lembra...
Mais tarde as balbucia... os pés se molham...
Vai sentindo afundar-se... em vão braceja...
Ruge a tormenta... súbito revolto
A juba monstruosa o mar encrespa,
E no abismo e no céu jogam madrias;
D'encontro à rocha-negra bravas ondas
O corpo arrojão da esquecida maga;
Debalde a miseranda estende os braços;
Se à pedra quer ligar-se, as mãos lhe faltam,
Pelo dorso escabroso escorregando,
As unhas lasca em vão e fere os dedos;
Uma, dez, vinte vezes... sempre o mesmo,
Dúbia esperança, e desengano certo!...
Volve os olhos ao céu... cintila aurora;
Quebra-se à luz do sol de todo o encanto;
Ai da fada gentil!... solta no espaço
A nuvem protetora, mago asilo,
Vai fugindo a embeber-se no horizonte,
Como no mar imenso abandonada
Erma barquinha que a corrente alonga!...
Não pode mais com a vida... perde as forças...
Um derradeiro arranco... inda é baldado...
Último foi: — abriu medonha boca
O pego vingador, e absorveu-a,
Dando-lhe cova aos pés da rocha-negra.
V
Ninguém da maga diz que o corpo exânime
Boiasse à flor das águas; um mistério
Foi sua vida, igual mistério a morte:
Contam muitos, porém, que nas desoras
Das noites em que a lua aclara a terra.
No turvo cimo da tremenda rocha
Vem sentar-se a cismar branco fantasma:
Que tão profundos ais longos desata,
Como nunca exalara humano seio;
Que há frio gelador da rocha em torno.
Esse fantasma... é ela; e canta e chora,
E com pérfido choro e tredos cantos,
Os incautos atrai, que ao mar se arrojam
De súbita loucura arrebatados,
Ou por negros contratos se escravizam
Ao império fatal da Nebulosa.
Imagem - 01210002
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.3-6
NOTA: O "Canto I - A Rocha Negra" é composto de 36 parte
(...)
Dizem que ali na turva penha imensa
Em velhas eras se acoutava insana
Mulher sabida em mágicas tremendas,
Que ensinam maus espíritos; formosa,
Inda aos cem anos moça como aos vinte,
Vê-la um momento era adorá-la sempre;
E amá-la eterno perdimento d'alma.
Gênio das trevas, só da lua amiga,
Fugia à luz do sol; mercê d'encantos,
Durante a noite mística pairava
No espaço em torno à rocha densa nuvem,
Em cujo seio toda se embebia,
Mal se abriam no céu rosas d'aurora;
Chamavam-a por isso a Nebulosa.
(...)
Tempo, que se não mede, assim vivera
Sempre moça e gentil, mau grado os anos;
Uma noite porém de tredo olvido
(Foi castigo de Deus) ao mar se atira,
Sem que antes repetisse as da cabala.
Satânicas palavras; tarde as lembra...
Mais tarde as balbucia... os pés se molham...
Vai sentindo afundar-se... em vão braceja...
Ruge a tormenta... súbito revolto
A juba monstruosa o mar encrespa,
E no abismo e no céu jogam madrias;
D'encontro à rocha-negra bravas ondas
O corpo arrojão da esquecida maga;
Debalde a miseranda estende os braços;
Se à pedra quer ligar-se, as mãos lhe faltam,
Pelo dorso escabroso escorregando,
As unhas lasca em vão e fere os dedos;
Uma, dez, vinte vezes... sempre o mesmo,
Dúbia esperança, e desengano certo!...
Volve os olhos ao céu... cintila aurora;
Quebra-se à luz do sol de todo o encanto;
Ai da fada gentil!... solta no espaço
A nuvem protetora, mago asilo,
Vai fugindo a embeber-se no horizonte,
Como no mar imenso abandonada
Erma barquinha que a corrente alonga!...
Não pode mais com a vida... perde as forças...
Um derradeiro arranco... inda é baldado...
Último foi: — abriu medonha boca
O pego vingador, e absorveu-a,
Dando-lhe cova aos pés da rocha-negra.
V
Ninguém da maga diz que o corpo exânime
Boiasse à flor das águas; um mistério
Foi sua vida, igual mistério a morte:
Contam muitos, porém, que nas desoras
Das noites em que a lua aclara a terra.
No turvo cimo da tremenda rocha
Vem sentar-se a cismar branco fantasma:
Que tão profundos ais longos desata,
Como nunca exalara humano seio;
Que há frio gelador da rocha em torno.
Esse fantasma... é ela; e canta e chora,
E com pérfido choro e tredos cantos,
Os incautos atrai, que ao mar se arrojam
De súbita loucura arrebatados,
Ou por negros contratos se escravizam
Ao império fatal da Nebulosa.
Imagem - 01210002
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.3-6
NOTA: O "Canto I - A Rocha Negra" é composto de 36 parte
2 748
1
Stella Leonardos
Barinel
VAGAS VAN e vagas ven.
Meu coraçon valedor:
valha-mi Deus que amo ben.
"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".
Vagas van e vagas ven?
Meu coraçon: val amor,
todolo mar de amar ben.
"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".
Poema integrante da série Códice Ancestral.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9).
NOTA: Barinel= antiga embarcação à vela. Val= vale. Todolo= todo
Meu coraçon valedor:
valha-mi Deus que amo ben.
"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".
Vagas van e vagas ven?
Meu coraçon: val amor,
todolo mar de amar ben.
"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".
Poema integrante da série Códice Ancestral.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9).
NOTA: Barinel= antiga embarcação à vela. Val= vale. Todolo= todo
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1
Stella Leonardos
Amanhecência
ALGO PEÇO? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas
das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam
nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.
Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas
das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam
nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.
Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
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Stella Leonardos
Amanhecência
ALGO PEÇO? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas
das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam
nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.
Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas
das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam
nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.
Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
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1
Álvaro Moreyra
Canção Dolente
Salgueiros trêmulos, belos!
meus camaradas tão bons!
vós sois como violoncelos
onde o vento acorda sons...
Melodia dos destinos!
voz do tempo! voz plangente!
Ah! na saudade dos sinos,
canta a saudade da gente...
Corujas de vida obscura!
a vossa sorte me diz
que a verdadeira ventura
é não tentar ser feliz...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.23-24. (Letras rio-grandenses
meus camaradas tão bons!
vós sois como violoncelos
onde o vento acorda sons...
Melodia dos destinos!
voz do tempo! voz plangente!
Ah! na saudade dos sinos,
canta a saudade da gente...
Corujas de vida obscura!
a vossa sorte me diz
que a verdadeira ventura
é não tentar ser feliz...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.23-24. (Letras rio-grandenses
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1
Rubens Rodrigues Torres Filho
Trovas Populares
I
Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete
II
Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis
III
Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais
IV
Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?
V
Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca
VI
Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr
VII
Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar
(...)
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.
NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete
II
Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis
III
Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais
IV
Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?
V
Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca
VI
Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr
VII
Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar
(...)
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.
NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
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1
Antônio Barreto
E o menino dormia e sonhava
E o menino dormia e sonhava
que o mundo era grande e o que era?
— Era a mágica música das fadas
cantarolando no escuro?
— Ou a rua que morava em tudo,
no mundo que ele imaginava?
E no mundo cabia o Circo, o peixe, o gorila.
E no mundo cabia o riso, o palhaço, a nuvem
e cabia também no mundo
formiga lutando boxe...
e a barata tirando a roupa, pra nadar na poça d'água
e a minhoca de patins, com seu penteado esquisito
e a lesma veloz que corria, atrás de sua própria sombra
e o percevejo percebendo que a perereca pulava
e a pulga de pára-quedas descendo num cão deitado
(...)
e o tatu-bola bolando um plano pra chegar do outro lado
e aquela baleia de nuvem que o vento desenhava no céu
e o dinossauro correndo da lagartixa marrom
e o jacaré com ciúmes de antepassado tão bom!
e o peru que bebia pinga, um dia antes do Natal,
e o galo conferindo as horas, no seu relógio de bolso,
e o pinhé trepado no boi, catando os seus carrapatos,
e a cegonha que nunca teve filho, por falta de tempo e mais,
nada
e a alva elegância da garça, doendo de branco no verde!
(...)
E o menino espichava a janela
pra ver se era tudo verdade:
era a Lua encurralada na rua enluarada
dormindo bem fresquinha
numa poça d'água.
In: BARRETO, Antônio. Lua no varal. Il. Paulo Bernardo F. Vaz. Belo Horizonte: Miguilim, 1987. p.18. Poema integrante da série A Poça d'Água
que o mundo era grande e o que era?
— Era a mágica música das fadas
cantarolando no escuro?
— Ou a rua que morava em tudo,
no mundo que ele imaginava?
E no mundo cabia o Circo, o peixe, o gorila.
E no mundo cabia o riso, o palhaço, a nuvem
e cabia também no mundo
formiga lutando boxe...
e a barata tirando a roupa, pra nadar na poça d'água
e a minhoca de patins, com seu penteado esquisito
e a lesma veloz que corria, atrás de sua própria sombra
e o percevejo percebendo que a perereca pulava
e a pulga de pára-quedas descendo num cão deitado
(...)
e o tatu-bola bolando um plano pra chegar do outro lado
e aquela baleia de nuvem que o vento desenhava no céu
e o dinossauro correndo da lagartixa marrom
e o jacaré com ciúmes de antepassado tão bom!
e o peru que bebia pinga, um dia antes do Natal,
e o galo conferindo as horas, no seu relógio de bolso,
e o pinhé trepado no boi, catando os seus carrapatos,
e a cegonha que nunca teve filho, por falta de tempo e mais,
nada
e a alva elegância da garça, doendo de branco no verde!
(...)
E o menino espichava a janela
pra ver se era tudo verdade:
era a Lua encurralada na rua enluarada
dormindo bem fresquinha
numa poça d'água.
In: BARRETO, Antônio. Lua no varal. Il. Paulo Bernardo F. Vaz. Belo Horizonte: Miguilim, 1987. p.18. Poema integrante da série A Poça d'Água
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1
Gregório de Matos
Por Ocasião do Dito Cometa
Que esteja dando o Francês
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
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Alberto de Oliveira
Aspiração
Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
..........................................
Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).
In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
..........................................
Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).
In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
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Alberto de Oliveira
Aspiração
Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
..........................................
Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).
In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
..........................................
Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).
In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
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Alberto de Oliveira
Aspiração
Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
..........................................
Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).
In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est'alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só;
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais — homem — dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
— Poeta — bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
..........................................
Publicado no livro Versos e rimas: primeira parte (1895).
In: Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. (Fluminense
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Afrânio Peixoto
Pétala caída
Pétala caída
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta!
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 236
NOTA: Tradução de haicai de Moritak
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta!
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 236
NOTA: Tradução de haicai de Moritak
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Afrânio Peixoto
Pétala caída
Pétala caída
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta!
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 236
NOTA: Tradução de haicai de Moritak
Que torna de novo ao ramo:
Uma borboleta!
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 236
NOTA: Tradução de haicai de Moritak
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Antônio Barreto
Roda Ecológica
Abanando o rabo
a cachorrinha serelepe
abrindo o leque do pavão.
— Olha que calor dentro do parque!
Menininha molequinha
tá com cara de soneca?
Sonhe com gatos e ratos,
dê pipoca pros patos,
pra mim seu coração.
Seu coração de boneca
é algodão-doce no olhar
do menino enamorado
de um balão lá no céu.
Vou buscar um girassol
pra colorir de sol e mel
a roupa velha da onça.
Roda o gigante do elefante
no trem
dos lábios livres
da infância.
Um menino espanta um zangão
na orelha do rinoceronte
e ri do gesto do macaco:
— Vem cá, bicho safado,
tem banana no buraco!
E uma fada dorminhoca,
de maiô, queimadinha de sol,
transforma tudo o que toca
em doce, sorvete e pipoca.
In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.18-19. (Falas poéticas
a cachorrinha serelepe
abrindo o leque do pavão.
— Olha que calor dentro do parque!
Menininha molequinha
tá com cara de soneca?
Sonhe com gatos e ratos,
dê pipoca pros patos,
pra mim seu coração.
Seu coração de boneca
é algodão-doce no olhar
do menino enamorado
de um balão lá no céu.
Vou buscar um girassol
pra colorir de sol e mel
a roupa velha da onça.
Roda o gigante do elefante
no trem
dos lábios livres
da infância.
Um menino espanta um zangão
na orelha do rinoceronte
e ri do gesto do macaco:
— Vem cá, bicho safado,
tem banana no buraco!
E uma fada dorminhoca,
de maiô, queimadinha de sol,
transforma tudo o que toca
em doce, sorvete e pipoca.
In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.18-19. (Falas poéticas
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