Poemas neste tema
Outros
Adélia Prado
Pranto Para Comover Jonathan
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
6 628
2
Michelangelo
AL COR DI ZOLFO
Um coração de enxofre, a carne estopa,
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,
cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.
E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...
Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,
cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.
E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...
Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.
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2
Michelangelo
AL COR DI ZOLFO
Um coração de enxofre, a carne estopa,
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,
cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.
E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...
Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,
cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.
E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...
Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.
1 406
2
Juan Ramón Jiménez
DE VOLTA
Devagar voltamos,
Com tudo já dito.
Tu me olhas ainda,
Eu já não te fito.
Tu tocas nas flores,
Eu vou beira-rio.
Que modo diverso
O de nós sorrirmos!
A grande lua branca
Em nosso caminho!
A ti ela aquece,
A mim me dá frio.
Com tudo já dito.
Tu me olhas ainda,
Eu já não te fito.
Tu tocas nas flores,
Eu vou beira-rio.
Que modo diverso
O de nós sorrirmos!
A grande lua branca
Em nosso caminho!
A ti ela aquece,
A mim me dá frio.
3 341
2
Castro Alves
QUEM DÁ AOS POBRES, EMPRESTA A DEUS
Eu, Que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis -- aos miseráveis grandes -- ,
Eu, que sou cego, -- mas só peço luzes...
Que sou pequeno, -- mas só fito os Andes....
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande nada dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão...
Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma -- é um livro laureado em luzes...
Outra -- uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear coto sabre...
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
-- Mulher fecunda, que não cria escravos -- ,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
Parti -- soldados, mas voltei-me -- bravos!
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram -- foi no chão da história...
Se tropeçaram -- foi na eternidade...
Se naufragaram -- foi no mar da glória...
E hoje o que resta dos heróis gigantes?...
Aqui -- os filhos que vos pedem pão...
Além -- a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa -- fulminado cedro --
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece...
E grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai -- a esmola, e colhereis -- a prece!.
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
-- O rir do infante, -- o descansar do morto..
O berço -- é a barca, que encalhou na vida,
A cova -- é a barca do sidéreo porto...
E vós dissestes para o berço -- Avante! --
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos -- os rebentos novos -- !
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um bravo! altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão!...
Dei aos heróis -- aos miseráveis grandes -- ,
Eu, que sou cego, -- mas só peço luzes...
Que sou pequeno, -- mas só fito os Andes....
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande nada dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão...
Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma -- é um livro laureado em luzes...
Outra -- uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear coto sabre...
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
-- Mulher fecunda, que não cria escravos -- ,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
Parti -- soldados, mas voltei-me -- bravos!
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram -- foi no chão da história...
Se tropeçaram -- foi na eternidade...
Se naufragaram -- foi no mar da glória...
E hoje o que resta dos heróis gigantes?...
Aqui -- os filhos que vos pedem pão...
Além -- a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa -- fulminado cedro --
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece...
E grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai -- a esmola, e colhereis -- a prece!.
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
-- O rir do infante, -- o descansar do morto..
O berço -- é a barca, que encalhou na vida,
A cova -- é a barca do sidéreo porto...
E vós dissestes para o berço -- Avante! --
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos -- os rebentos novos -- !
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um bravo! altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão!...
6 003
2
John Donne
GO AND CATCH A FALLING STAR
Agarra a estrela cadente,
mandrágora vê se emprenhas,
encontra o tempo fugente,
quem ao Diabo deu as manhas,
diz-me como ouvir sereias,
não sofrer de invejas feias
e que brisa
nos avisa
dos caminhos que alma pisa.
Se é teu destino buscar
que não há quem veja ou meça,
noite e dia hás-de trotar
té que a neve te embranqueça,
e ao voltar dirás que baste
maravilhas que passaste
e que não
viste então
uma mulher sem senão.
Se uma achaste verdadeira,
valeu-te a pena a cruzada.
Mas eu não caio na asneira
de tê-la por minha amada.
Honesta seria ainda
ao tempo da tua vinda.
Mas agora
já teve hora
de a dois ou três ser traidora.
mandrágora vê se emprenhas,
encontra o tempo fugente,
quem ao Diabo deu as manhas,
diz-me como ouvir sereias,
não sofrer de invejas feias
e que brisa
nos avisa
dos caminhos que alma pisa.
Se é teu destino buscar
que não há quem veja ou meça,
noite e dia hás-de trotar
té que a neve te embranqueça,
e ao voltar dirás que baste
maravilhas que passaste
e que não
viste então
uma mulher sem senão.
Se uma achaste verdadeira,
valeu-te a pena a cruzada.
Mas eu não caio na asneira
de tê-la por minha amada.
Honesta seria ainda
ao tempo da tua vinda.
Mas agora
já teve hora
de a dois ou três ser traidora.
2 137
2
Inácio José de Alvarenga Peixoto
Liras
(A Bárbara Heleodora, sua esposa, remetidas
do cárcere da Ilha das Cobras)
Bárbara bela,
Do norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste, somente
As horas passo
A suspirar.
Por entre as penhas
De incultas brenhas,
Cansa-me a vista
De te buscar;
Porém não vejo
Mais que o desejo
Sem esperança
De te encontrar.
Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar;
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Tu, entre os braços,
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar;
Priva-me a estrela
De ti e dela,
Busca dois modos
De me matar!
do cárcere da Ilha das Cobras)
Bárbara bela,
Do norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente,
Triste, somente
As horas passo
A suspirar.
Por entre as penhas
De incultas brenhas,
Cansa-me a vista
De te buscar;
Porém não vejo
Mais que o desejo
Sem esperança
De te encontrar.
Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar;
Mas orgulhosa
Sorte invejosa
Desta fortuna
Me quer privar.
Tu, entre os braços,
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar;
Priva-me a estrela
De ti e dela,
Busca dois modos
De me matar!
3 378
2
Castro Alves
Rezas
Álvares de Azevedo
NA HORA em que a terra dorme
Enrolada em frios véus,
Eu ouço uma reza enorme
Enchendo o abismo dos céus...
Acendem-se os bentos círios
Dos vaga-lumes sutis!
"Ave!" murmuram os lírios,
"Ave!" dizem os covis!
Nos boqueirões há soluços...
Tem remorso o vendaval...
O mar se atira de bruços,
Coas barbas pelo areal.
As nuvens ajoelhadas
Nos claustros ermos e vãos,
Passam as contas doiradas
Das estrelas pelas mãos.
A açucena, por criança,
Junta os dedos... reza e ri!
A palmeira larga a trança...
Reza nua como a huri.
A ventania que emboca
Pela serra colossal
É o organista que toca
Nos sifões da catedral.
Que fanatismos divinos
Nas lapas do campo alvar!
Da onça os olhos felinos
Dizem rezas ao luar.
Há luzes fosforescentes
Acesas pelos marnéis...
São as larvas penitentes
Rezando pelos fiéis.
Monstro e anjo a noite grupa
No pedestal da oração...
Quem sabe se a catadupa
Bate nos peitos do chão?
Pelo cipó solitário
Gota a gota o orvalno cai
Como as bagas do rosário
De filha que chora o pai.
Reza tudo que tem boca
Cheia de graça ou terror...
O ninho — junto da toca!
A cratera ao pé da flor!
Só enquanto a reza enorme
Reboa pela amplidão...
Como Ló... o Homem dorme
No colo da criação!!!
NA HORA em que a terra dorme
Enrolada em frios véus,
Eu ouço uma reza enorme
Enchendo o abismo dos céus...
Acendem-se os bentos círios
Dos vaga-lumes sutis!
"Ave!" murmuram os lírios,
"Ave!" dizem os covis!
Nos boqueirões há soluços...
Tem remorso o vendaval...
O mar se atira de bruços,
Coas barbas pelo areal.
As nuvens ajoelhadas
Nos claustros ermos e vãos,
Passam as contas doiradas
Das estrelas pelas mãos.
A açucena, por criança,
Junta os dedos... reza e ri!
A palmeira larga a trança...
Reza nua como a huri.
A ventania que emboca
Pela serra colossal
É o organista que toca
Nos sifões da catedral.
Que fanatismos divinos
Nas lapas do campo alvar!
Da onça os olhos felinos
Dizem rezas ao luar.
Há luzes fosforescentes
Acesas pelos marnéis...
São as larvas penitentes
Rezando pelos fiéis.
Monstro e anjo a noite grupa
No pedestal da oração...
Quem sabe se a catadupa
Bate nos peitos do chão?
Pelo cipó solitário
Gota a gota o orvalno cai
Como as bagas do rosário
De filha que chora o pai.
Reza tudo que tem boca
Cheia de graça ou terror...
O ninho — junto da toca!
A cratera ao pé da flor!
Só enquanto a reza enorme
Reboa pela amplidão...
Como Ló... o Homem dorme
No colo da criação!!!
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2
Castro Alves
Durante um Temporal
VAI FUNDA a tempestade no infinito,
Ruge o ciclone túmido e feroz...
Uiva a jaula dos tigres da procela
— Eu sonho tua voz —
Cruzam as nuvens refulgentes, negras,
Na mão do vento em desgrenhados elos...
Eu vejo sobre a seda do corpete
Teus lúbricos cabelos ...
Do relâmpago a luz rasga até o fundo
Os abismos intérminos do ar...
Eu sondo o firmamento de tua alma,
À luz de teu olhar ...
Sobre o peito das vagas arquejantes
Borrifa a espuma em ósculos o espaço...
Eu — penso ver arfando, alvinitentes,
As rendas no regaço.
A terra treme... As folhas descaídas
Rangem ao choque rijo do granizo
Como acalenta um coração aflito,
Como é bom teu sorriso,....
Que importa o vendaval, a noite, os euros,
Os trovões predizendo o cataclismo...
Se em ti pensando some-se o universo
E em ti somente eu cismo...
Tu és a minha vida ... o ar que aspiro ...
Não há tormentas quando estás em calma.
Para mim só há raios em teus olhos,
Procelas em tua alma!
Ruge o ciclone túmido e feroz...
Uiva a jaula dos tigres da procela
— Eu sonho tua voz —
Cruzam as nuvens refulgentes, negras,
Na mão do vento em desgrenhados elos...
Eu vejo sobre a seda do corpete
Teus lúbricos cabelos ...
Do relâmpago a luz rasga até o fundo
Os abismos intérminos do ar...
Eu sondo o firmamento de tua alma,
À luz de teu olhar ...
Sobre o peito das vagas arquejantes
Borrifa a espuma em ósculos o espaço...
Eu — penso ver arfando, alvinitentes,
As rendas no regaço.
A terra treme... As folhas descaídas
Rangem ao choque rijo do granizo
Como acalenta um coração aflito,
Como é bom teu sorriso,....
Que importa o vendaval, a noite, os euros,
Os trovões predizendo o cataclismo...
Se em ti pensando some-se o universo
E em ti somente eu cismo...
Tu és a minha vida ... o ar que aspiro ...
Não há tormentas quando estás em calma.
Para mim só há raios em teus olhos,
Procelas em tua alma!
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2
Francesco Petrarca
ITE, RIME DOLENTI, AL DURO SASSO
Oh, vai, verso dolente, à pedra dura
Que o meu caro tesouro em terra esconde,
E chama quem do céu inda responde,
Se bem que o corpo esteja em tumba escura.
Diz-lhe que vivo exausto de amargura,
De navegar sem já saber por onde,
Salvando apenas sua esparsa fronde
De perder-se na morte que se apura,
Sempre arrazoando dela, viva e morta,
Como se viva e já feita imortal,
Para que o mundo a reconheça e ame.
E que lhe praza ser quem me conforta
No instante que se apressa. Venha e, qual
Está no céu, a si me leve e chame.
Que o meu caro tesouro em terra esconde,
E chama quem do céu inda responde,
Se bem que o corpo esteja em tumba escura.
Diz-lhe que vivo exausto de amargura,
De navegar sem já saber por onde,
Salvando apenas sua esparsa fronde
De perder-se na morte que se apura,
Sempre arrazoando dela, viva e morta,
Como se viva e já feita imortal,
Para que o mundo a reconheça e ame.
E que lhe praza ser quem me conforta
No instante que se apressa. Venha e, qual
Está no céu, a si me leve e chame.
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2
Castro Alves
A Violeta
(A uma icógnita... )
AROSA vermelha
Semelha
Beleza de moça vaidosa, indiscreta.
As rosas são virgens
Que em doudas vertigens
Palpitam,
Se agitam
E murcham das salas na febre inquieta.
Mas ai! Quem não sonha num trêmulo anseio
Prendê-las no seio
Saudoso o Poeta.
Camélias fulgentes,
Nitentes,
Bem como o alabastro de estátua quieta...
Primor... sem aroma!
Partida redoma!
Tesouro
Sem ouro!
Que valem sorrisos em boca indiscreta?
Perdida! Não sonha num tremulo anseio
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta
Bem longe da festa
Modesta
Prodígios de aroma guardando discreta
Existe da sombra,
Na lânguida alfombra,
Medrosa,
Mimosa,
Dos anjos errantes a flor predileta
Silêncio! Consintam que em trêmulo anseio
Prendendo-a no seio
Suspire o Poeta.
Ó Filha dos ermos
Sem temos!
O casta, suave, serena Violeta
Tu és entre as flores
A flor dos amores
Que em magos
Afagos
Acalma os martírios de uma alma inquieta.
Por isso é que sonha num trêmulo anseio,
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta! ...
AROSA vermelha
Semelha
Beleza de moça vaidosa, indiscreta.
As rosas são virgens
Que em doudas vertigens
Palpitam,
Se agitam
E murcham das salas na febre inquieta.
Mas ai! Quem não sonha num trêmulo anseio
Prendê-las no seio
Saudoso o Poeta.
Camélias fulgentes,
Nitentes,
Bem como o alabastro de estátua quieta...
Primor... sem aroma!
Partida redoma!
Tesouro
Sem ouro!
Que valem sorrisos em boca indiscreta?
Perdida! Não sonha num tremulo anseio
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta
Bem longe da festa
Modesta
Prodígios de aroma guardando discreta
Existe da sombra,
Na lânguida alfombra,
Medrosa,
Mimosa,
Dos anjos errantes a flor predileta
Silêncio! Consintam que em trêmulo anseio
Prendendo-a no seio
Suspire o Poeta.
Ó Filha dos ermos
Sem temos!
O casta, suave, serena Violeta
Tu és entre as flores
A flor dos amores
Que em magos
Afagos
Acalma os martírios de uma alma inquieta.
Por isso é que sonha num trêmulo anseio,
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta! ...
5 084
2
Castro Alves
A Violeta
(A uma icógnita... )
AROSA vermelha
Semelha
Beleza de moça vaidosa, indiscreta.
As rosas são virgens
Que em doudas vertigens
Palpitam,
Se agitam
E murcham das salas na febre inquieta.
Mas ai! Quem não sonha num trêmulo anseio
Prendê-las no seio
Saudoso o Poeta.
Camélias fulgentes,
Nitentes,
Bem como o alabastro de estátua quieta...
Primor... sem aroma!
Partida redoma!
Tesouro
Sem ouro!
Que valem sorrisos em boca indiscreta?
Perdida! Não sonha num tremulo anseio
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta
Bem longe da festa
Modesta
Prodígios de aroma guardando discreta
Existe da sombra,
Na lânguida alfombra,
Medrosa,
Mimosa,
Dos anjos errantes a flor predileta
Silêncio! Consintam que em trêmulo anseio
Prendendo-a no seio
Suspire o Poeta.
Ó Filha dos ermos
Sem temos!
O casta, suave, serena Violeta
Tu és entre as flores
A flor dos amores
Que em magos
Afagos
Acalma os martírios de uma alma inquieta.
Por isso é que sonha num trêmulo anseio,
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta! ...
AROSA vermelha
Semelha
Beleza de moça vaidosa, indiscreta.
As rosas são virgens
Que em doudas vertigens
Palpitam,
Se agitam
E murcham das salas na febre inquieta.
Mas ai! Quem não sonha num trêmulo anseio
Prendê-las no seio
Saudoso o Poeta.
Camélias fulgentes,
Nitentes,
Bem como o alabastro de estátua quieta...
Primor... sem aroma!
Partida redoma!
Tesouro
Sem ouro!
Que valem sorrisos em boca indiscreta?
Perdida! Não sonha num tremulo anseio
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta
Bem longe da festa
Modesta
Prodígios de aroma guardando discreta
Existe da sombra,
Na lânguida alfombra,
Medrosa,
Mimosa,
Dos anjos errantes a flor predileta
Silêncio! Consintam que em trêmulo anseio
Prendendo-a no seio
Suspire o Poeta.
Ó Filha dos ermos
Sem temos!
O casta, suave, serena Violeta
Tu és entre as flores
A flor dos amores
Que em magos
Afagos
Acalma os martírios de uma alma inquieta.
Por isso é que sonha num trêmulo anseio,
Prender-te no seio
Saudoso o Poeta! ...
5 084
2
Francesco Petrarca
ANIMA BELLA DA QUEL NODO SCIOLTA
ANIMA BELLA DA QUEL NODO SCIOLTA
Alma tão bela desse nó já solta
Que mais belo não sabe urdir natura,
Tua mente volve à minha vida obscura
Do céu à minha dor em choro envolta.
Da falsa suspeição liberta e absolta
Que outrora te fazia acerba e dura
A vista em mim pousada, ora segura
Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.
Olha do Sorge a montanhosa fonte
E verás lá aquele que entre o prado e o rio
De recordar-te e de desgosto é insonte.
Onde está teu albergue, onde existiu
O amor que abandonaste. E o horizonte
De um mundo que desprezas, torpe e frio.
Alma tão bela desse nó já solta
Que mais belo não sabe urdir natura,
Tua mente volve à minha vida obscura
Do céu à minha dor em choro envolta.
Da falsa suspeição liberta e absolta
Que outrora te fazia acerba e dura
A vista em mim pousada, ora segura
Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.
Olha do Sorge a montanhosa fonte
E verás lá aquele que entre o prado e o rio
De recordar-te e de desgosto é insonte.
Onde está teu albergue, onde existiu
O amor que abandonaste. E o horizonte
De um mundo que desprezas, torpe e frio.
3 085
2
Juan Ramón Jiménez
UNIVERSO
Teu corpo: ciúmes do céu.
Minhalma: ciúmes do mar.
(Pensa minhalma outro céu.
Teu corpo sonha outro mar.)
Minhalma: ciúmes do mar.
(Pensa minhalma outro céu.
Teu corpo sonha outro mar.)
2 614
2
William Shakespeare
Soneto XV
Se considero quanto cresce vivo,
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;
se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;
então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.
Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que ele te rouba, eu te reponho aqui.
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;
se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;
então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.
Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que ele te rouba, eu te reponho aqui.
2 404
2
Bráulio de Abreu
Vida e Sonhos
Eu quero a vida com sonhos,
eu quero os sonhos com vida.
Não quero a vida sem sonhos,
não quero os sonhos sem vida.
Nos dias de grande lida,
os instantes mais risonhos
são sempre cheios de vida,
são sempre cheios de sonhos.
Esta vontade mantida
com muita vida, com sonhos,
é porque os sonhos têm vida
e porque a vida vida tem sonhos.
Que viva a vida com sonhos,
que vivam sonhos com vida,
e morra a vida sem sonhos,
e morram sonhos sem vida.
eu quero os sonhos com vida.
Não quero a vida sem sonhos,
não quero os sonhos sem vida.
Nos dias de grande lida,
os instantes mais risonhos
são sempre cheios de vida,
são sempre cheios de sonhos.
Esta vontade mantida
com muita vida, com sonhos,
é porque os sonhos têm vida
e porque a vida vida tem sonhos.
Que viva a vida com sonhos,
que vivam sonhos com vida,
e morra a vida sem sonhos,
e morram sonhos sem vida.
1 807
2
Giacomo Leopardi
O INFINITO
Sempre cara me foi esta erma altura
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído... Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar.
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído... Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar.
4 691
2
Giacomo Leopardi
O INFINITO
Sempre cara me foi esta erma altura
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído... Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar.
Com esta sebe que por tanta parte
Do último horizonte a visão exclui.
Sentado aqui, e olhando, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios, e profunda quietude,
Eu no pensar evoco; onde por pouco
O coração não treme. E como o vento
Ouço gemer nas ervas, eu àquele
Infinito silêncio esta voz
Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,
E as idades já mortas, e a presente
E viva, e seu ruído... Assim, por esta
Imensidade a minha ideia desce:
E o naufragar me é doce neste mar.
4 691
2
Adolfo Casais Monteiro
Aço
Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!
2 034
2
Adolfo Casais Monteiro
Aço
Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!
2 034
2
Álvares de Azevedo
Lágrima de Sangues
Taedet animam meam vitae meae.
Jó
Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!
Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minhalma.
Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo...
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.
Indolente Vestal, deixei no templo
A pira se apagar — na noite escura
O meu gênio descreu.
Voltei-me para a vida... só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
Morre! — tudo morreu!
Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
Ressurge-te ao amor!
Malicento, da minhas agonias
Eu deixaria as multidões do povo
Para amar o Senhor!
Do leito aonde o vício acalentou-me
O meu primeiro amor fugiu chorando.
Pobre virgem de Deus!
Um vendaval sem norte arrebatou-me,
Acordei-me na treva... profanando
Os puros sonhos meus!
Oh! se eu pudesse amar!... — É impossível!
Mão fatal escreveu na minha vida;
A dor me envelheceu.
O desespero pálido, impassível
Agoirou minha aurora entristecida,
De meu astro descreu.
Oh! se eu pudesse amar! Mas não:
agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,
Quero na cruz sangrenta
Derramá-los na lágrima que implora,
Que mendiga perdão pela agonia
Da noite lutulenta!
Quero na solidão — nas ermas grutas
A tua sombra procurar chorando
Com meu olhar incerto:
As pálpebras doridas nunca enxutas
Queimarei... teus fantasmas invocando
No vento do deserto.
De meus dias a lâmpada se apaga:
Roeram meu viver mortais venenos;
Curvo-me ao vento forte.
Teu fúnebre clarão que a noite alaga,
Como a estrrla oriental me guie ao menos
Té o vale da morte!
No mar dos vivos o cadáver bóia
— A lua é descorada como um crânio,
Este sol não reluz:
Quando na morte a pálpebra se engóia,
O anjo se acorda em nós — e subitâneo
Voa ao mundo da luz!
Do val de Josafá pelas gargantas
Uiva na treva o temporal sem norte
E os fantasmas murmuram...
Irei deitar-me nessas trevas santas,
Banhar-me na frieza lustral da morte
Onde as almas se apuram!
Mordendo as clinas do corcel da sombra,
Sufocando, arquejante passarei
Na noite do infinito.
Ouvirei essa voz que a treva assombra,
Dos lábios de minhalma entornarei
O meu cântico aflito!
Flores cheias de aroma e de alegria,
Por que na primavera abrir cheirosas
E orvalhar-vos abrindo?
As torrentes da morte vêm sombrias,
Hão de amanhã nas águas tenebrosas
Vos rebentar bramindo.
Morrer! morrer! É voz das sepulturas!
Como a lua nas salas festivais
A morte em nós se estampa!
E os pobres sonhadores de venturas
Roxeiam amanhã nos funerais
E vão rolar na campa!
Que vale a glória, a saudação que enleva
Dos hinos triunfais na ardente nota,
E as turbas devaneia?
Tudo isso é vão, e cala-se na treva
— Tudo é vão, como em lábios de idiota
Cantiga sem idéia.
Que importa? quando a morte se descarna,
A esperança do céu flutua e brilha
Do túmulo no leito:
O sepulcro é o ventre onde se encama
Um verbo divinal que Deus perfilha
E abisma no seu peito!
Não chorem! que essa lágrima profunda
Ao cadáver sem luz não dá conforto...
Não o acorda um momento!
Quando a treva medonha o peito inunda,
Derrama-se nas pálpebras do morto
Luar de esquecimento!
Caminha no deserto a caravana,
Numa noite sem lua arqueja e chora...
O termo... é um sigilo!
O meu peito cansou da vida insana;
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora
Eu dormirei tranqüilo!
Dorme ali muito amor... muitas amantes,
Donzelas puras que eu sonhei chorando
E vi adormecer.
Ouço da terra cânticos errantes,
E as almas saudosas suspirando,
Que falam em morrer...
Aqui dormem sagradas esperanças,
Almas sublimes que o amor erguia...
E gelaram tão cedo!
Meu pobre sonhador! aí descansas,
Coração que a existência consumia
E roeu um segredo! ...
Quando o trovão romper as sepulturas,
Os crânios confundidos acordando
No lodo tremerão.
No lodo pelas tênebras impuras
Os ossos estalados tiritando
Dos vales surgirão!
Como rugindo a chama encarcerada
Dos negros flancos do vulcão rebenta
Goltejando nos céus,
Entre nuvem ardente e trovejada
Minhalma se erguerá, fria, sangrenta,
Ao trono de meu Deus...
Perdoa, meu Senhor! O errante crente
Nos desesperos em que a mente abrasas
Não o arrojes plo crime!
Se eu fui um anjo que descreu demente
E no oceano do mal rompeu as asas,
Perdão! arrependi-me!
Jó
Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!
Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minhalma.
Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo...
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.
Indolente Vestal, deixei no templo
A pira se apagar — na noite escura
O meu gênio descreu.
Voltei-me para a vida... só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
Morre! — tudo morreu!
Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
Ressurge-te ao amor!
Malicento, da minhas agonias
Eu deixaria as multidões do povo
Para amar o Senhor!
Do leito aonde o vício acalentou-me
O meu primeiro amor fugiu chorando.
Pobre virgem de Deus!
Um vendaval sem norte arrebatou-me,
Acordei-me na treva... profanando
Os puros sonhos meus!
Oh! se eu pudesse amar!... — É impossível!
Mão fatal escreveu na minha vida;
A dor me envelheceu.
O desespero pálido, impassível
Agoirou minha aurora entristecida,
De meu astro descreu.
Oh! se eu pudesse amar! Mas não:
agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,
Quero na cruz sangrenta
Derramá-los na lágrima que implora,
Que mendiga perdão pela agonia
Da noite lutulenta!
Quero na solidão — nas ermas grutas
A tua sombra procurar chorando
Com meu olhar incerto:
As pálpebras doridas nunca enxutas
Queimarei... teus fantasmas invocando
No vento do deserto.
De meus dias a lâmpada se apaga:
Roeram meu viver mortais venenos;
Curvo-me ao vento forte.
Teu fúnebre clarão que a noite alaga,
Como a estrrla oriental me guie ao menos
Té o vale da morte!
No mar dos vivos o cadáver bóia
— A lua é descorada como um crânio,
Este sol não reluz:
Quando na morte a pálpebra se engóia,
O anjo se acorda em nós — e subitâneo
Voa ao mundo da luz!
Do val de Josafá pelas gargantas
Uiva na treva o temporal sem norte
E os fantasmas murmuram...
Irei deitar-me nessas trevas santas,
Banhar-me na frieza lustral da morte
Onde as almas se apuram!
Mordendo as clinas do corcel da sombra,
Sufocando, arquejante passarei
Na noite do infinito.
Ouvirei essa voz que a treva assombra,
Dos lábios de minhalma entornarei
O meu cântico aflito!
Flores cheias de aroma e de alegria,
Por que na primavera abrir cheirosas
E orvalhar-vos abrindo?
As torrentes da morte vêm sombrias,
Hão de amanhã nas águas tenebrosas
Vos rebentar bramindo.
Morrer! morrer! É voz das sepulturas!
Como a lua nas salas festivais
A morte em nós se estampa!
E os pobres sonhadores de venturas
Roxeiam amanhã nos funerais
E vão rolar na campa!
Que vale a glória, a saudação que enleva
Dos hinos triunfais na ardente nota,
E as turbas devaneia?
Tudo isso é vão, e cala-se na treva
— Tudo é vão, como em lábios de idiota
Cantiga sem idéia.
Que importa? quando a morte se descarna,
A esperança do céu flutua e brilha
Do túmulo no leito:
O sepulcro é o ventre onde se encama
Um verbo divinal que Deus perfilha
E abisma no seu peito!
Não chorem! que essa lágrima profunda
Ao cadáver sem luz não dá conforto...
Não o acorda um momento!
Quando a treva medonha o peito inunda,
Derrama-se nas pálpebras do morto
Luar de esquecimento!
Caminha no deserto a caravana,
Numa noite sem lua arqueja e chora...
O termo... é um sigilo!
O meu peito cansou da vida insana;
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora
Eu dormirei tranqüilo!
Dorme ali muito amor... muitas amantes,
Donzelas puras que eu sonhei chorando
E vi adormecer.
Ouço da terra cânticos errantes,
E as almas saudosas suspirando,
Que falam em morrer...
Aqui dormem sagradas esperanças,
Almas sublimes que o amor erguia...
E gelaram tão cedo!
Meu pobre sonhador! aí descansas,
Coração que a existência consumia
E roeu um segredo! ...
Quando o trovão romper as sepulturas,
Os crânios confundidos acordando
No lodo tremerão.
No lodo pelas tênebras impuras
Os ossos estalados tiritando
Dos vales surgirão!
Como rugindo a chama encarcerada
Dos negros flancos do vulcão rebenta
Goltejando nos céus,
Entre nuvem ardente e trovejada
Minhalma se erguerá, fria, sangrenta,
Ao trono de meu Deus...
Perdoa, meu Senhor! O errante crente
Nos desesperos em que a mente abrasas
Não o arrojes plo crime!
Se eu fui um anjo que descreu demente
E no oceano do mal rompeu as asas,
Perdão! arrependi-me!
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2
Alípio Nunes da Mata
Habeo Tibi Gratiam
Em mãos a tua poética saudação
que me será o bom farol na vida,
pois ela me aponta o caminho à lida
e a terei como verdadeira bênção.
Bem vejo que é um homem de grande alma
e qual nobre sacerdote de Cristo
de tua bondade o gesto ficou visto
na fidalguia de tua formosa calma.
Teu soneto enaltece a gente minha
que admira a pulcritude do bem estro
que, em tempos vividos, eu também tinha.
que me será o bom farol na vida,
pois ela me aponta o caminho à lida
e a terei como verdadeira bênção.
Bem vejo que é um homem de grande alma
e qual nobre sacerdote de Cristo
de tua bondade o gesto ficou visto
na fidalguia de tua formosa calma.
Teu soneto enaltece a gente minha
que admira a pulcritude do bem estro
que, em tempos vividos, eu também tinha.
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Alípio Nunes da Mata
Habeo Tibi Gratiam
Em mãos a tua poética saudação
que me será o bom farol na vida,
pois ela me aponta o caminho à lida
e a terei como verdadeira bênção.
Bem vejo que é um homem de grande alma
e qual nobre sacerdote de Cristo
de tua bondade o gesto ficou visto
na fidalguia de tua formosa calma.
Teu soneto enaltece a gente minha
que admira a pulcritude do bem estro
que, em tempos vividos, eu também tinha.
que me será o bom farol na vida,
pois ela me aponta o caminho à lida
e a terei como verdadeira bênção.
Bem vejo que é um homem de grande alma
e qual nobre sacerdote de Cristo
de tua bondade o gesto ficou visto
na fidalguia de tua formosa calma.
Teu soneto enaltece a gente minha
que admira a pulcritude do bem estro
que, em tempos vividos, eu também tinha.
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