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Poemas neste tema

Alma

Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Elegia dum incoerente

Tua Presença
É o todo-inteiro,
Real, verdadeiro,
De que a beleza
É um fragmento;
Tua Presença
Lembra um Mosteiro,
É como um claustro,
Como um convento
Onde se bebe
Recolhimento,
E cada qual
Se sente menos
Preso da Vida
Que a carne tenra
Recém-nascida
Se prende à vida
Pelo cordão
Umbilical.

A tua Ausência
É o todo-inteiro
Real, verdadeiro,
De que o Inferno
É um fragmento;
A tua Ausência
Lembra as galés,
Traz-nos atados
De mãos e pés,
Remando sós
Pelos infinitos
Mares deste mundo,
Seguindo o rumo
Dos Desvairados,
Como proscritos,
Como gafados.
A tua Ausência!
Antes ser cego,
Antes cativo,
Antes ser posto
Num caixão estreito,
Levado à cova
E sepulto vivo.

Tua Presença
É como nave
De Catedral,
Dum goticismo
Tão trabalhado,
Tão requintado,
Que são aladas
As próprias pedras
Das arcarias
Abobadadas,
E os capitéis
Das colunatas
Fogem em bandos,
Em revoadas
Ascensionais,
Para aquele ponto,
Exterior ao mundo,
Pra onde tendem
As catedrais!

A tua Ausência
É um oceano
Glauco e sem fundo
Onde naufragam
Os bens do mundo;
É uma imagem
Tumultuária
Dos Derradeiros
Dias Finais;
É como um campo aberto
Para a pilhagem
Das tentações,
Dos desatinos,
Das abjecções;
A tua Ausência
É cavalgada
Desenfreada
DApocalipse,
É o remorso
De quem celebra,
Com mãos profanas,
Ritos sagrados,
É um telescópio
Das dores humanas

Tua Presença
Dimana graças
De iluminura;
Foi modelada
Num raio fulvo
De luz sidéria;
Tem os caprichos,
As fantasias,
Duma voluta
De incenso em brasa;
Tua Presença
Foi feita à imagem
Das vagas névoas,
Sonhos dispersos
Pelos rutilantes
Rubros gritantes
Da madrugada,
E em si resume
O azul doente
Em que dilui
A macerada
Melancolia
Do Sol poente.
É essência Pura
Do ideal,
É um vitral
Que transfigura
Raios de Sol
Que correm montes
Buscando fontes
Para as calar

Sòmente estou triste,
Pois sei que a Presença
Que eu canto em bravatas
Com coros de latas
E versos quebrados,
Enfim, só existe
Na minha Elegia,
Nas minhas bravatas,
Se um dia tombar.

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Herberto Helder

Herberto Helder

Demão

Retorna à escuridão
o rosto: entre centelhas, Ficasse tão maduro quando
de te tragar
estremecesses, Que o animassem
os elementos: um interior: um limite do mundo,
E se afinasse como
um galho de marfim
cheio de lume, Que fosse um instrumento
de crescer na terra: um golpe
nela, Abraço,
Com a mão coroada,
Até à bolsa com a lua dentro,
No ovo está o astro, Se pelos dedos
nesse rosto
te plantasses todo na riqueza do sono,
Soldado a nervos: osso:
feixes de fibras:
tímpanos, E as faíscas saltando pelas unhas
as deixassem ígneas,
E uma veia arpoasse igneamente a massa
muscular, Ou
a aorta sorvesse a matéria
tremenda
ao seu abismo, E te encharcasse até às pálpebras,
Essa púrpura por válvulas
contra os dentes, Nos fundamentos há
vezes
em que és ligeiro ao movimento da água,
Ou nas paredes onde os canos se cruzam
como um corpo onde se cruzam
órgãos
tubos, Um alento das coisas: dos tecidos
do mundo, E por exemplo se a louça e o inox
brilhados de dentro: à mesa,
E a madeira respira mais rápida,
E uma grande massa orgânica magnífica
cercada de membros
como um homem,
Essas pinças na cabeça entre as meninges
extraindo
uma estrela, Os canais luminosos da cabeça
iluminam-te todo, Iluminas-te
quando se arranca a língua e há um soluço da fala,
Levantas-te soberbamente
ao rosto, Como a vara
do vèdor fica acesa
pelas ramas de água, Como que salga
o aparelho
do corpo: e o torna substância
alta: giratória, Ou se fulgura a trama
cristalográfica
terrífica da música, Se levanta
entre dedos e cordas
fundidos, De sangue e ar no escuro:
música,
O medo do poder: esta ferida
tão de um nó de músculos estrangulando
uma leveza,
O barro violento, A manobra
das vozes, Fechas os olhos: e as
coisas não te vêem,
As mãos brilham-te abertas,
A morte aumenta a cara


1981.
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Odorico Mendes

Odorico Mendes

Hino à Tarde

Que amável hora! Expiram os favônios;
Transmonta o Sol; o rio se espreguiça;
E, a cinzenta alcatifa desdobrando
Pelas azuis diáfanas campinas,
Na carroça de chumbo assoma a tarde...
Salve, moça tão meiga e sossegada;
Salve, formosa virgem pudibunda,
Que insinuas cos olhos doce afeto,
Não criminosa abrasadora chama!
Em ti repousa a triste humana prole
Do trabalho do dia, nem já lavra
Juiz severo a bárbara sentença,
Que há de a fraqueza conduzir ao túmulo.
Lasso o colono, mal avista ao longe
A irmã da noite coa-lhe nos membros
Plácido alívio: — posta a dura enxada,
Limpa o suor que em bagas vai caindo..
Que ventura! A mulher o espera ansiosa
Cos filhinhos em braço, e já deslembra
O homem dos campos a diurna lida;
Com entranhas de pai ledo abençoa
A progênie gentil que a olho pula.
Não vês como o fantasma do silêncio
Erra, e pára o bulício dos viventes?
Só quebra esta mudez o pastor simples,
Que, trazendo o rebanho dos pastios,
Coa suspirosa frauta ameiga os bosques...
Feliz! que nunca o ruído dos banquetes
Do estrangeiro escutou, nem alta noite
Foi à porta bater de alheio alvergue.
Acha no humilde colmo os seus penates,
Como acha o grande em soberbões palácios.

Ali também no ouvido lhe estremecem
De mãe, de amigo os maviosos nomes;
Conviva dos festins da natureza,
Vê perfazerem-se as funções mais altas:
— O homem nascer, morrer, e deixar prantos...
Agora ia entre prados, após Laura,
O ardido vate magoando as cordas;
E a selvática virgem, recolhendo
A grave dor cristã, que a assoberbava
Do mancebo cedia à paixão nobre,
Grande e sublime, como os troncos do ermo...
Ai! mísera Atalá!... mas rasga o fogo,
E o sino soa pelas brenhas broncas.
Tarde, serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio dalma?
Amiga terna, diz-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? Que apenas dás rebate,
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Ante os olhos medonha condensar-se.
Longe dos pátrios lares, quem não sente
Os arrebóis da tarde contemplando
Um súbito alvoroço? Então pendíamos
Dos contos arroubados que verteram
Propícios deuses nos maternos lábios;
E branda mão apercebia o berço
Em que ternos vagidos
Infausto anúncio de vindouras penas.
Sobre o poial sentada a fiel serva
Que vezes atentei chamando ao pouso
A ave tão útil que arrebanha os filhos,
E adeja e canta, e pressurosa acode!
Coa turba de inocentes companheiros,
Agora sobre a encosta da colina,
A casta Lua como mãe saudávamos,
E suplicando que nos fosse amparo,
Em jubilosa grita o ar rompíamos.
Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha; e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando.
A quem ficou a angústia que moderas,
Ó compassiva tarde? Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes:
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando (tão livre) o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo os ventos, murmurando as sombras,
Tudo, em cadência harmônica, lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
Não mais, ó musa, basta; que da noite
Os pardos horizontes se tingiram,
E me pesa e carrega a escuridade.
Oh! venha a feliz era que da pátria
Nessas fecundas, dilatadas veigas
Tu mais suave a lira me temperes
Da singela Eponina acompanhado
Na escura gruta que nos cava o tempo
Hei de ao vale ensinar canções melífluas
Nos lindos olhos, nos mimosos beiços,
Nos alvos pomos, no ademã altivo
Irei tomar as cores que retratem
Da natureza os íntimos segredos.
Do ardor da esposa; do sorrir da filha;
Do rio que espontâneo se oferece
Da terra que dá fruto sem o arado
Da árvore agreste que na densa grenha
Abriga da pendente tempestade
A sobreolhar aprenderei haveres,
A fazer boa sombra ao peregrino,
A dar quartel a errado viandante
Lá estendendo pelos livres ares
Longas vistas, nas dobras do futuro,
Entreverei o derradeiro dia...
Venha; que acha os despojos do homem justo
Ó esperança, toma-me em teus braços;
Com a imagem da pátria me consola!

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Neimar de Barros

Neimar de Barros

No Vento Livre do Seu Arbítrio

No Vento Livre do Seu Arbítrio

Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou tá vivendo de gorgeta?
Sim, porque depois dos 50, é gorgeta.
Neste mundo poluído, conturbado,
Passar dos 50 é fazer 13 pontos...

Quantos anos você tem?
Você tem idade para saber o que é certo
Ou você só tem idade para viver o que é errado?

Quantos anos você tem?
Você tem idade para tomar vergonha
Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?

Quantos anos você tem?
Você tem idade para enfrentar, assumir e realizar
Ou você só tem idade para entrar na onda?

Você é um rato ou um homem?
Você prefere queijo ou amor?
Você está na ratoeira da massificação
Ou está no vento livre do seu arbítrio?

Quantos anos você tem?
Você sabe que não existe presente?
Que o "que" desta linha já é passado
E o futuro é o "que" que não escrevi?

Quantos anos você tem?
Você sabe que o presente não é deste mundo,
O presente é a eternidade vivida.

Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?
O que é que você já fez?
Atravessou cego na rua?
Deu esmola?
Pô, isso qualquer escoteiro faz!...
Quantos anos você tem de GENTE?
Você já despertou como GENTE?
Você já andou como GENTE?
Ou até agora foi um instrumento de repetição?
Você sabe o seu papel no mundo,
Ou é um espermatozóide crescido,
Na eterna espera de um óvulo?

Quem é você?
Quantos anos você tem?
Olha, só a sua consciência pode responder isso!

Hoje, eu sei quem eu sou,
Sei minha idade,
Mas já fui um autômano como você,
Felizmente, me encontrei,
Me encontrei, no vento livre do meu arbítrio!

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