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Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Marcelo Gama

Marcelo Gama

Mulheres

Pela simples razão de eu ser viril e poeta
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.

Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.

E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.

Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...

E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.

Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.

De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.

Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".

(...)

Rio de Janeiro - 1909.


Poema integrante da série Dispersos.

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
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Luís Gama

Luís Gama

A um Fabricante de Pírulas

Exulta, ó Paulicéia, a fronte eleva
Sorri da Grécia e de Esculápio estulto,
Afronta o velho mundo, ousada rompe,
Nas aras da memória ergue o teu vulto.

Cidade eterna de prodígios altos,
Que o gênio domas de Misray potente,
Encrava em bronze com douradas letras
Teu nome excelso de poder ingente.

O Cairo, a Grécia, a Babilônia antiga,
A culta França e a Bretanha ousada,
Ouvindo a fama que o teu nome alteia,
Vacilam, tombam do letargo ao nada!

Os vultos da ciência purgatória
Osiris e Quiron, o louro Apolo,
Vencidos de terror medrosos tremem,
E as frontes curvam no gretado solo!

Quem há que possa competir contigo,
Viçoso berço de varões preclaros?
Nem Podaliros de saber profundo,
Ou d'áurea Praxítea os filhos caros!

Se alguém tentar sobrepujar teu nome,
De inveja prenhe e de letal veneno,
Soberba aponta para o vulto hercúleo
Do Pirulista de assombroso aceno.

Herói fulgente, qual não viu Atenas
Em almos dias que a ciência esmaltam;
Professor magnus de purgantes acres —
Em piruletas que curando matam!

Impando afirma — que com bravas ervas
Sarou morféia, e tudo mais que diz,
Tornou formosos carcomidos corpos,
Com pele e carne e magistral nariz.

Famintos cura de dinheiro a falta,
Cabeças ocas de juízo ausência,
Barriga dura, catarral defluxo,
A hidropisia e perenal demência!

E para assombro, do teu nome, amostra,
Em um — Correio Paulistano — antigo,
O selo, a prova desta grã-verdade,
Depois o prega em bestelhal postigo.

Caducas velhas de viver cansadas,
Que têm na cama clarabóia imensa,
Tomando as dores do doutor chanfarra
Concebem, parem, sem temer doença!

Eis troam, rugem na rotunda pança
Trovões soturnos, sibilantes ventos,
Farpados raios coruscantes ardem
Na cava estreita, em barrigais tormentos!

Tomou aquela, por debique ou luxo,
Das tais pírulas seis macitos — só!
Da pança em fora descretou bramindo
Maçada horrenda, ventania e pó!

E de improviso, por mistério oculto,
Ou providência do remédio santo,
Sentiu crescer-lhe a barrigaça a velha —
Um filho teve por fatal encanto!

Lá mais dois casos de eternal memória
Um velho rengo, uma viúva anosa;
Purgado, aquele se transforma em jovem,
A velha em moça virginal, formosa!

(...)


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.55-57. (Últimas gerações, 4
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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Embarcado Já o Poeta

Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.

Imagem - 00080001


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Pedro Nava

Pedro Nava

Reflexos

Poça

Pedra

Tibloung
blong

A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água

Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando

CONCÊNTRICOS

anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando

uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da

Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas

Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
b a m b o s
rolando
no reflexo imprevisto

Onda
margem
schlapp
plap
plaff

O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo - le - men - te

Os telhados bêbados
tentaculisam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar

O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL

Janelas

parando

parando

paradas

pregadas

no espelho achatado das águas pesadas.


In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP

NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "Reflexos também é bom. Me lembra Ravel, Debussy. Alguns efeitos são realmente admiráveis. Aquele 'Onda-margem-schlapp-plap-plaff' é perfeito. Olhe: schlapp em alemão é: eu bamboleio. Acho bom você modificar a grafia, aliás injustificável no 'ch' quando temos um sinal puro para grafá-lo, o x. Bote xlapp, ou sxclapp. Tome também cuidado com certos exageros de síntese. Eu por mim confesso que já vou perdendo o entusiasmo que tive por essas tentativas
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Thiago de Mello

Thiago de Mello

Notícia da Manhã

Para Milu e Ângelo


Eu sei que todos a viram
e jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormidos — e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração —
a todos que não a viram
contarei desta manhã
— manhã é céu derramado
é cristal de claridão —
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar — na cidade.

Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).

(...)

Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens, das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
na torre das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonitos!

(...)

A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade
Não: a manhã se deu ao povo.

A manhã é geral.

As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde,
os passarinhos namorando
— ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgraçados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.
E de repente a manhã
— manhã é céu derramado,
é claridão, claridão —
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.

9 de julho de 1954
S. Sebastião do Rio de Janeiro

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Poema integrante da série O Andarilho e a Manhã, 1953/1955.

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984
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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Visão do Último Trem Subindo ao Céu

II
As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.

Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?

Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.

Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;

Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.

E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).

— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.


Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.124-125
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Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

A Cidade no Mar

Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.

Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oecano lívido
invade dos torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.

Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portenhosa
dos ídolos com olhos de diamente,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas nào contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.

Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
e dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.

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Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

A Granja dos Séculos

A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.

E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...

E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...

Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.

E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!

Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...

Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.

O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.

E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...

E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.

Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.

Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.

Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!

Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.

Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!

Granja, 30 de agosto de 1957

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