Cidade e Cotidiano
Barbara Guest
Uma razão
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
Zbigniew Herbert
O Sr. Cogito lê o jornal
120 soldados mortos
a guerra foi longa
você se acostuma
bem ao lado a notícia
de um crime incrível
e a foto do assassino
o olhar do Sr Cogito
se move indiferente
pela hecatombe de soldados
e mergulha com deleite
no macabro quotidiano
camponês de trinta anos
então maníaco depressivo
matou a própria esposa
e mais duas criancinhas
contam o modo exato
com que foram mortos
a posição dos corpos
e outros detalhes
é inútil tentar achar
120 perdidos num mapa
a distância tão remota
esconde como floresta
não falam à imaginação
há demasiados deles
o zero no fim os transforma
em mera abstração
um tema para refletir:
a aritmética da compaixão.
(tradução de Dirceu Villa)
.
.
.
Sandro Penna
A Eugenio Montale
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
Sandro Penna
Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
Ted Berrigan
Soneto 55
Sandro Penna
Como é belo seguir-te
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
Sandro Penna
Como é forte o ruído da aurora
Feito de coisas mais que de pessoas.
Precede-o às vezes um sibilo breve,
uma voz que alegre desafia o dia.
Mas logo na cidade tudo é imerso
e a minha estrela é aquela estrela pálida
minha lenta morte sem desesperança.
:
Come è forte il rumore dell’alba!
Fatto di cose più che di persone.
Lo precede talvolta in fischio breve,
una voce che lieta sfida il giorno.
Ma poi nella città tutto è sommerso.
e la mia stella è questa stella scialba
mia lenta morte senza disperazione.
de Come è forte il rumore
Paulo Colina
Solitude
Maura Lopes Cançado
permitam-me destruir o livro do Sagan
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
Jaroslav Seifert
Retrato molhado
Ted Berrigan
Soneto 2
Paulo Colina
Espreita noturna
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
Patrícia Galvão
Canal
Henriqueta Lisboa
Denúncia
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.
de Pousada do ser (1982)
António José Forte
Retrato do Artista em Cão Jovem
Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos
aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra
Leónidas Lamborghini
Falando sozinho
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
Sebastião Alba
Como os outros
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
Leónidas Lamborghini
Bíblica
o homem
que vende a Bíblia
e escutou sua palavra
em um café qualquer
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que apoiado em sua mesa
quando está
olhando para o vazio
é interrompido
pela palavra deste homem
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que escuta
aturdido
falar de revelação
entre o barulho das xícaras
cercado pela fumaça
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que em seguida
afasta
o rosto desse homem
e volta a olhar
fixamente o vazio
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que fica assim
depois
apoiado em sua mesa
enquanto sua cabeça mistura
a Palavra com o preço
e o Espírito com a encadernação
como esse
como esse
– Na verdade, na verdade lhes digo.
Leónidas Lamborghini
Lendo o jornal
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
Akiko Yosano
Tanka VII
a dançarina
de rosto maquilado
golpeada em sua testa estreita
pelo granizo miúdo do entardecer
Wisława Szymborska
Estação
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
Max Martins
Num bar
meu último poema..............................Arrisco-o
ao azar do sangue sobre a mesa......mapa
de crises....cicatrizes......moscas
...........................................Gravo-o
fala de mim demão e nódoa
nós e tábua deste barco-bar
........................................que arrumo e rimo:
........................................verso-trapézio osso
........................................troço de ser
........................................escada onde
..........................................................lunar oscilo
..........................................................solitário
quando
vieram uns anjos
de gravata e me disseram: Fora!
Jaime Gil de Biedma