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Consciência e autoconhecimento

Paulo Leminski

Paulo Leminski

Primeiras páginas

ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
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Maura Lopes Cançado

Maura Lopes Cançado

permitam-me destruir o livro do Sagan

1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
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Maura Lopes Cançado

Maura Lopes Cançado

O Quadrado de Joana

Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, o ombro direito junto à parede. Teima em flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante – até o fim da linha onde junta ombro esquerdo e marcha de costas na retidão da parede.
Finalmente, acha-se na metade da quarta vez, todo pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo, o muro. Repete, sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais, porque cumpre um dever.
Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo?
– Ninguém sabe. Nem Joana.
Vê-se parada, imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo, fora de perigo. Perfeitamente integrada, em forma. Uma pausa completa. Como na pedra. Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado, porque novo. Um novo tempo, nascido duro, sofredor. O quadrado das horas.
No meio do pátio, parada, obedecendo a ordem. Não sabe por que, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como uma ameaça remota. Um orifício no muro, meio de fuga.
– Para onde e por quê?
Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não pode deixar-se trair. Entretanto, não sabe de régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há neste verbo precisar uma sinuosidade que vagamente percebe e isto é uma ameaça. Não poderá admitir contrariando sua posição na vida como verbo poder, neste tempo, fere sua época.
Época de Joana.
Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários.
– Não pensar, em posição de sentido, é a ordem, por enquanto.
E Joana enquadra-se no momento.
Plana – lisa – justa.
Um marco no novo tempo. Cumprido o dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido e o olhar, reto como lâmina sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis. Joana está certa no plano vertical.
Ela somente compreende o grande significado disto. Imóvel poupando o corpo, principalmente o rosto que sente duro na parte inferior, sustentando o quadro. Não pode mutilar-se na lisura da curva. Não pode perder a forma. Mas a impertinência do seu nome é uma realidade e Joana escuta-o num tom irritado, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar anda de costas dois passos, sofrendo as modulações das vozes, que como um espelho mostram-se refletidas no corpo de Joana; como um espelho o corpo reflete sem aberturas. Na perfeição do quadro, sente-se sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo.
Entretanto, está só, num quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. Num tempo quadrado, vive-se sem elas na perfeição das coisas, mas a dança dos sons é característica fútil dum subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio e vê-se refletida no muro cinzento. Uma nova figura, um destino.
Nasceu, inaugurando um tempo. É o marco da nova época.
Entretanto, um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem. Fugindo das palavras, pensa em números certos, como 44 e 77. Desenha-os mentalmente no muro para a sua sobrevivência, até que estremece na sinuosidade do 60. Ah! Joana não sabe por que, mas o número 60 aproxima-se qual cobrinha traiçoeira. Uma áspide. Também os números têm nome. Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõem-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças, porque estas chegariam sinuosas, e isto é outro mundo.
– A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra.
Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar, correr o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfacelada, sem significado. Joana ignora, propositadamente, a curva duma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores e espera sons rápidos, retos, geométricos para fazer-se entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidade que tentam atrair-lhe atenção.
– não cede um milímetro para não desmoralizar-se. Deve sobreviver.
Alarmada, sente o suor correr-lhe pela testa, numa linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos.
– Não, não admito bagas de suor.
Haverá sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Porque uma pocinha
seria seu afogamento.
Foge do círculo.
– Mas a linha é formada de pontos!
Não no seu tempo, raciocina rápido, quadrando o pensamento.
Joana não pode sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto. Significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma?
– Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente?
Ah! Como faltam instrumentos!
– Joana, saia do pátio, venha para o dormitório.
Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto, escutou quase contorcendo-se. Não pode responder, que não tem ainda meio de expressão. Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de um pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la e nuances, mesmo de cores ou principalmente cores, seriam, a sua perdição. Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do tempo morto. É aí que Joana inveja a estátua imóvel há muitos anos. Não sabe que a estátua perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para cama. A realidade é a pedra.
Joana pode dependurar a hora na parede e acrescentar realidade a isto. Foi feita certa, num tempo certo, num mundo remoto. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar. Joana é grande e teme um laço de fita cor de rosa. Não pode ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar.
Está sozinha neste novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Mas nunca poderá deitar-se que isto é cair escombrada num monte. Tenta observar as regras absolutamente certas, mas não compreendidas. Joana está só. Por exemplo: qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal se vergar-se, perdendo-se. Decididamente não pode deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção.
Será seu destino se for para a cama.
– Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar e a boca no ângulo direito da porta principal.
Os olhos, sim, estes verão as noites enquadradas nos azulejos frente à janela do banheiro.
Sim, porque na melhor das hipóteses, Joana ficará no arranha-céu, mas sem a marcha que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa.
Joana não pode, não deixar-se perder.
– Joana.
Movem-se ao seu redor. Sente que alguém quer forçá-la. Joana, sem virar-se, marcha de costas dois passos para sentir-se hirta ainda antes da queda. Não sabe onde estão os olhos teimosos olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte. Mais que isso, ruída.
Joana ruiu.
Os olhos enfrentam rostos impacientes.
Fica no ar uma palavra nova:
Catatônica.
Joana gostaria de medi-la:
Ca-ta-tô-ni-ca.
Pensa desesperada: será o princípio da nova língua, agora que estou desmoronada?
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Tchicaya U Tam'si

Tchicaya U Tam'si

O signo do sangue ruim

Eu sou o Bronze a liga do sangue forte que esguicha quando sopra o vento das marés salientes

O destino das divindades antigas através do meu será razão de dançar sempre ao avesso a canção?

Eu era amante a cabriolar com as libélulas; era meu passado – minha mãe colocou uma flor de verbena sobre a menina dos meus olhos brunos.

Eu senti a liga do meu sangue ensurdecer cadências roucas onde bocejavam sapos pios como amigos.

Puríssimo o destino de um sapo!

Um país todo laterita, pesadelos que fendem o crânio com o machado das febres.

Acuso a luz de me haver traído.

Acuso a noite de me ter perdido.

Em vão, levo para passear uma morte no meu destino e o riso das mães e meu coração que se afunda e esse rio tão liso onde não brotará a convúlvula fina eu trago aos mundos duas mãos e seus dedos para uma aritmética elementar onde se cifram nascer amar morrer e o corolário que é coral colorido.

De memória de homem o orgulho foi vício eu faço disso um Deus para viver à altura dos homens de honestas fortunas.

Sou homem sou negro por que isso tem o sentido de uma decepção?

Dez dedos para uma aritmética elementar.

De nada adiantou ser o Bronze ele me faz lembrar: todo judeu é um regicida nato o cristo é um inocente e é preciso que morram os inocentes, mas eu não ouso meu suicídio.

Então o Gólgota o que é? Eu não escolhi ser bastardo. Veio a crueldade salvá-la nos lábios.

A lógica quer: é preciso construir o mundo...

Mas foi preciso gravar sobre as pedras outros símbolos e ver a todo custo no mundo olhares que se afundam em lágrimas.

Eu teria pagado meu tributo.
Esplendor!...

Rio não mar não lago não, árvore sim árvore malva a caminho do sol redondo, árvore a noite mil e mil pirilampos fazem um diamante bruto como o nascimento e eu abro meus braços para procurar uma mãe-Miséria! Piedade! Esplendor! Clop-clop claudicante de infernal cadência! rio mar lago não não virá o ourives Eu fecharei meus braços para reencontrar o coração de pedra. Racha então.

Antes escuta é o canto do galo a terra é luz nós vamos morrer o círculo da vida vai se desfechar sobre nós seu enigma os bichos são fantasmas nós somos sua consciência, psshht! A lua... eu morri por vilania morte morte sangrante – Esplêndida! Por um luar do algodão branco em minhas narinas negras.

Os chacais se calaram para me ouvir cantar Ó terra habitada Três vezes eu te exorcizo. Sou eu – eu chamo loucura o que é desfecho do homem.

As lesmas alisam seu caminho não falam de audácia onde encontrar um símbolo forte: os piolhos atacam meu corpo.

Dança ele dança no meu coração como um terror. Eu bocejo como um Cristão Viva eu – nem quente nem frio nem castrado vivendo em meio à luxúria.

Eles marcham a passos lentos órfãos nus de vergonha como se com o sentido que temos do mundo fosse permitido a órfãos privilegiados ser sem pai Que comédia!...

Eles têm unhas as fazem cada manhã quando a alva estoura e eles veem no deserto dos espelhos o pouco de profundeza que têm suas almas eles despelam o coração.

Não retornemos à Matéria O fogo arde a água molha a luz não deixa rastros.

O vinho bebido me levava a esta outra certeza é preciso sofrer para ser um homem de verdade e ter fora dos delírios dos castelos na Espanha – (a Espanha é um falso país) – Um homem de verdade quer dizer um homem demente um homem no sentido baixo da palavra homem – um “agá” mudo um “eu te amo” um nó um M anasalado abstrai o corolário uma aritmética elementar...

Os corvos como as codornas veneram os espantalhos. São dizem eles ídolos humanos; nós somos pela igualdade, o respeito das culturas das ante-sessões! E eles abrem grandes suas asas e cantam Te Deum em baixo latim codornas-corvos.

Não adiantou eu ser o Bronze se não me falha a memória é permitido ser um regicida é ruim ser portador de uma coroa de espinhos mesmo para inocentar um povo inocente.

Meus pés sobre minha savana inscreverão caminhos a calma Alva estoura na minha garganta eu pinto a noite para que o dia seja eternidade. Eu crio a Fraternidade uma vez que Cristo esse Judeu vendido pagou por todas as almas danadas. Havia cascalhos negros e pontudos no caminho que levava ao Gólgota. Portanto eu proclamo a força e a cifra humanas. Eu não grito o ódio eu irei por toda parte procurar aonde se dispersaram todos os meus fetiches de pregos para lhes retirar os três pregos da cruz. O cristo se serviu de uma cruz de madeira para usurpar contra o tempo o destino de um povo mais concreto que todos os punhais tirados do crime.

Aí está esses são os tratores que esgoelam na minha savana.

Não é meu sangue em minhas veias!

Ó sangue ruim!

(tradução de Leo Gonçalves)

:

Le signe du mauvais sang
Tchicaya U Tam´si

Je suis le Bronze l’alliage du sang fort qui gicle quand souffle le vent des marées saillantes

Le destin des divinités anciennes en travers du mien est-ce raison de danser toujours à rebours la chanson ?

J’étais amant à folâtrer avec les libellules ; c’était mon passé – ma mère me mit une fleur de verveine sur ma prunelle brune.

Je sentis mon sang allié sourdre des cadences rauques où bâillaient des crapauds pieux comme des amis.

Très pur le destin d’un crapaud !

Un pays tout latérite, des cauchemars qui fendent le crâne avec la hache des fièvres.

J’accuse la lumière de m’avoir trahi.

J’accuse la nuit de m’avoir perdu.

En vain, je promène une morte dans mon destin et le rire des mères et mon cœur enlisant et ce fleuve si lisse où ne poussera le liseron fin je porte aux mondes deux mains et leurs dix doigts pour une arithmétique élémentaire où se chiffrent naître aimer mourir et le corollaire qui est du corail colorié.

De mémoire d’homme l’orgueil fut vice j’en fais un Dieu pour vivre à la hauteur des hommes d’honnêtes fortunes.

Je suis homme je suis nègre pourquoi cela prend-il le sens d’une déception ?

Dix doigts pour une arithmétique élémentaire.

J’ai beau être le Bronze il m’en souvient : tout Juif est un régicide-né le Christ est un innocent et il faut que meurent les innocents, mais moi je n’ose mon suicide.

Alors le Golgotha c’est quoi ? Je n’ai pas choisi d’être bâtard. Vint la cruauté la saveur aux lèvres.

La logique veut : il faut construire le monde…

Mais il eût fallu graver sur les pierres d’autres symboles et voir à tout prix dans le monde des regards qui fondent en larmes.

J’aurais payé mon tribut.
Splendeur !...

Fleuve non mer non lac non, arbre oui arbre mauve à l’endroit du soleil rond, arbre la nuit mille et mille lucioles en font un diamant brut comme la naissance et j’ouvre mes bras pour me chercher une mère misère ! Pitié ! Splendeur ! Clopin-clopant infernale cadence ! fleuve mer lac non non viendra l’orfèvre Je fermerai mes bras pour retrouver un cœur de pierre. Crève donc !

Avant écoute c’est le chant du coq la terre est lumière nous allons mourir le cercle de la vie va nouer sur nous son énigme les bêtes sont des fantômes nous sommes leur conscience chut ! la lune… je suis mort par vilenie mort mort sanglant – Splendide ! par un clair de lune du coton blanc dans mes narines noires.

Les chacals se sont tus pour m’entendre chanter Ô terre hantée Trois fois je t’exorcise. C’est moi – j’appelle folie ce qui dénoue l’homme.

Les limaces lissant leur chemin ne parlent pas d’audace où trouver un symbole fort : les poux tenaient à mon corps.

Danse il danse dans mon cœur comme une terreur. Je bâille à la Chrétienté Vive moi – ni chaud ni froid ni châtré parmi la luxure.

Ils marchent à pas lents des orphelins nuns de honte comme si avec le sens que nos avons du monde il est permis à des orphelins privilégiés d’être sans père Quelle comédie !...

Ils ont des ongles qu’ils se font chaque matin quand l’aube éclate et ils voient dans le désert des miroirs le peu de profondeur qu’ont leurs âmes ils s’écorchent le cœur.

Non nous retournons à la Matière Le feu brûle l’eau mouille la lumière n’a pas de trace.

Le vin bu me ramenait à cette autre certitude-ci il faut souffrir pour être un homme comme il faut et avoir hors des songeries des châteaux en Espagne – (l’Espagne est un faux pays) – Un homme comme il faut c’est-à-dire un homme dément un homme au bas sens du mot homme - un « hache » aspirée deux « je t’aime » un nœud E muet abstrait le corollaire une arithmétique élémentaire…

Les corbeaux comme les pies vénèrent les épouvantails. Ce sont disent-ils des idoles humaines ; nous nous sommes pour la légalité, le respect des cultures, des préséances ! Et ils ouvrent grandes leurs ailes et chantent des Te Deum en bas latin pies-corbeaux.

J’ai beau être le Bronze il m’en souvient il est permis d’être un régicide il est mal de porter une couronne d’épines même pour innocenter un peuple innocent.

Mes pieds sur ma savane inscriront des chemins l’Aube douce éclate dans ma gorge je peins la nuit pour que le jour soit éternité. Je crée la Fraternité puisque le Christ ce Juif vendu a payé pour toutes les âmes damnées. Il y avait des cailloux noirs et blessants sur les sentiers qui menait au Golgotha. Je ne crie pas la haine j’irai partout chercher où sont dispersés tous mes fétiches à clous pour leur retrancher les trois clous de la croix. Le Christ se servit d’une croix de bois pour usurper contre le temps le destin d’un peuple plus concret que tous les couteaux tirés du crime.

Ça y est ce sont bien les tracteurs qui s’engueulent sur ma savane.

Non c’est mon sang dans me veines !
Quel mauvais sang !

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Francis Ponge

Francis Ponge

A forma do mundo

É preciso, antes de tudo, que eu confesse uma tentação absolutamente encantadora, longa, característica, irresistível para meu espírito.
É a de dar ao mundo, ao conjunto das coisas que vejo ou que concebo através da visão, não, como faz a maioria dos filósofos, e como é certamente razoável, a forma de uma grande esfera, de uma grande pérola, mole e nebulosa, como que brumosa, ou, ao contrário, cristalina e límpida, da qual, como disse um deles, o centro estaria em toda parte e a circunferência em nenhuma, nem tampouco a de uma "geometria no espaço", a de um incomensurável tabuleiro, ou a de uma colmeia com inumeráveis alvéolos ao mesmo tempo vivos e habitados, ou mortos e abandonados, como certas igrejas que se tornaram celeiros ou cocheiras, como certas conchas, outrora adjacentes a um corpo em movimento e voluntário de molusco, as quais flutuam vazias pela morte, e não hospedam nada além da água e um pouco de pedregulho, até o momento em que um bernardo-eremita as escolherá para habitáculo e nelas se pregará pela cauda, e nem mesmo a de um imenso corpo da mesma natureza que o corpo humano, do mesmo modo que o poderíamos imaginar, considerando-se os sistemas planetários como equivalentes aos sistemas moleculares, e aproximando-se o telescópico do microscópico.
Mas, antes, de um modo bem arbitrário ao mesmo tempo, a forma das coisas mais particulares, as mais assimétricas e de reputação contingente (e não apenas a forma, mas todas as características, as particularidades de cores, de perfumes), como, por exemplo, um ramo de lilases, um camarão no aquário natural de rochas no molhe de Grau-du-Roi, uma esponja na minha banheira, um buraco de fechadura com uma chave dentro.
E com razão poderão zombar de mim, ou me pedirão que preste contas a um asilo, mas nisso encontro toda a minha alegria.
(Proêmes. Gallimard, 1948; Tradução: Adalberto Müller - Inédita)
:
La forme du monde
Francis Ponge
Il faut d’abord que j’avoue une tentation absolument charmante, longue, caractéristique, irrésistible pour mon esprit.
C’est de donner au monde, à l’ensemble des choses que je vois ou que je conçois pour la vue, non pas comme le font la plupart des philosophes et comme il est sans doute raisonnable, la forme d’une grande sphère, d’une grande perle, molle et nébuleuse, comme brumeuse, ou au contraire cristalline et limpide, dont comme l’a dit l’un d’eux le centre serait partout et la circonférence nulle part, ni non plus d’une "géométrie dans l’espace", d’un incommensurable damier, ou d’une ruche aux innombrables alvéoles tour à tour vivantes et habitées, ou mortes et désaffectées, comme certaines églises sont devenues des granges ou des remises, comme certaines coquilles autrefois attenues à un corps mouvant et volontaire de mollusque, flottent vidées par la mort, et n’hébergent plus que de l’eau et un peu de fin gravier jusqu’au moment où un bernard-l’hermite les choisira pour habitacle et s’y collera par la queue, ni même d’un immense corps de la même nature que le corps humain, ainsi qu’on pourrait encore l’imaginer en considérant dans les systèmes planétaires l’équivalent des systèmes moléculaires et en rapprochant le télescopique du microscopique.
Mais plutôt, d’une façon tout arbitraire et tour à tour, la forme de choses les plus particulières, les plus asymétriques et de réputation contingentes (et non pas seulement la forme mais toutes les caractéristiques, les particularités de couleurs, de parfums), comme par exemple une branche de lilas, une crevette dans l’aquarium naturel des roches au bout du môle du Grau-du-Roi, une serviette-éponge dans ma salle de bain, un trou de serrure avec une clef dedans.
Et à bon droit sans doute peut-on s’en moquer ou m’en demander compte aux asiles, mais j’y trouve tout mon bonheur.
(1928)
1 468
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Contra Jaime Gil de Biedma

Que adianta, gostaria de saber, mudar de casa,
deixar para trás uma cave mais negra
que a minha fama – e já é dizer muito –,
por cortinas brancas
e arranjar criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens tu depois, calaceiro,
embaraçoso hóspede, pateta vestido com meus fatos,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com tuas mãos lavadas,
sujar-me a casa e comer no meu prato?

Acompanham-te os balcões dos bares
derradeiros da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da alvorada
e os ascensores de luz amarelenta
quando, bêbado, chegas
e páras a olhar no espelho
a cara destruída,
com olhos ainda violentos
que não queres fechar. E se te increpo,
ris-te, recordas-me o passado
e dizes que envelheço.

Poderia lembrar-te que já não tens graça.
Que teu estilo casual, teu desenfado
chegam a ser truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e o teu encantador
sorriso de jovem sonolento
– certo de agradar – é um resto pungente,
um propósito patético.
Enquanto me fitas com teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não o fazes mais.

Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há algum tempo,
que és forte quando sou débil
e que és débil quando me enfureço...
De teus regressos guardo uma impressão confusa
de pânico, pena e descontentamento,
e o desespero
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, outra vez mais,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.

Com muito custo, levar-te-ei pra cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo a cada passo de impotência,
tropeçando nos móveis,
às cegas, atravessamos o andar
torpemente abraçados, vacilando
de álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
que é amar-se a si próprio!

(de Poemas Póstumos)

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Audre Lorde

Audre Lorde

Uma mulher fala

A lua marcada e tocada pelo sol
minha mágica é ágrafa
mas quando o mar der as costas,
deixará para trás meu formato.
Não busco favor
intocado pelo sangue
implacável como a praga do amor
permanente como meus equívocos
ou meu orgulho
Eu não misturo
amor com piedade
nem ódio com desdém
e se você me conhecesse
olhe dentro das entranhas de Urano
onde os oceanos sem sossego calcam

Eu não habito
em meu nascimento nem em minhas divindades
que sou sem idade e meio-formada
e ainda em busca
de minhas irmãs
bruxas em Daomé
me vestem em seus tecidos em camadas
como nossa mãe fazia
de luto.

Eu sou mulher
há muito tempo
cuidado com meu sorriso
Eu sou dissimulada, mágica velha
e a fúria nova do meio-dia
com todos os teus futuros largos
em promessa
Eu sou
mulher
e não branca

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

A Woman Speaks
Audre Lorde

Moon marked and touched by sun
my magic is unwritten
but when the sea turns back
it will leave my shape behind.
I seek no favor
untouched by blood
unrelenting as the curse of love
permanent as my errors
or my pride
I do not mix
love with pity
nor hate with scorn
and if you would know me
look into the entrails of Uranus
where the restless oceans pound.

I do not dwell
within my birth nor my divinities
who am ageless and half-grown
and still seeking
my sisters
witches in Dahomey
wear me inside their coiled cloths
as our mother did
mourning.

I have been woman
for a long time
beware my smile
I am treacherous with old magic
and the noon's new fury
with all your wide futures
promised
I am
woman
and not white.

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