Poemas neste tema
Corpo
Herberto Helder
As Palavras 5
As flores que devoram mel ficam negras em frente dos espelhos.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos ficam brancos por detrás dos pêlos ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam, atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate, os lençóis cobrem-se de imagens respiradoras — quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate, corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros torcem-se os cabelos, e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato, sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração silenciosa.
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco, é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras, atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso — somos assim obscuros.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos ficam brancos por detrás dos pêlos ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam, atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate, os lençóis cobrem-se de imagens respiradoras — quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate, corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros torcem-se os cabelos, e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato, sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração silenciosa.
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco, é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras, atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso — somos assim obscuros.
1 051
Herberto Helder
Onde Não Pode a Mão 1
Como se uma estrela hidráulica arrebatada das poças,
Tu sim deslumbras, Por coroação:
por regiões activas de levantamento:
por azougue da cabeça,
Brilhas pela testa acima,
Ceptro: potência — ah sempre que o chão crepita
dos charcos de ouro,
E no corpo trancado a veias
e nervos: o sangue que se afunda e faz tremer
tudo, Tocas
com um arrepio de unha a unha
o mundo, Pontada
que te abre e aumenta
ou
— onde se um troço dessa massa
intestina: e como respirada: às queimaduras
primitivas — Boca:
sexo: viveza
das tripas: uma glândula que te move
ao centro, Amadureces como um ovo,
Na traça carnal: todo
com um golpe com muita força para dentro
Tu sim deslumbras, Por coroação:
por regiões activas de levantamento:
por azougue da cabeça,
Brilhas pela testa acima,
Ceptro: potência — ah sempre que o chão crepita
dos charcos de ouro,
E no corpo trancado a veias
e nervos: o sangue que se afunda e faz tremer
tudo, Tocas
com um arrepio de unha a unha
o mundo, Pontada
que te abre e aumenta
ou
— onde se um troço dessa massa
intestina: e como respirada: às queimaduras
primitivas — Boca:
sexo: viveza
das tripas: uma glândula que te move
ao centro, Amadureces como um ovo,
Na traça carnal: todo
com um golpe com muita força para dentro
1 098
Alice Vieira
Taxidermias
(para o Frederico Klumb, por ocasião de um tropeço-comum)
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
699
Herberto Helder
Os Ritmos 2
Por acidente: fui ter ao inferno.
Eu passeava à hora mais movimentada, na parte baixa da cidade.
Era a minha cidade, a cidade onde vivo, de que tão bem conheço as ruas e casas, os labirintos, os nomes, a secreta matemática dos fluxos e refluxos, as temperaturas.
Não é preciso ser estrangeiro — tomar comboios ou aviões, atravessar as águas.
O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano.
A multidão andava de um lado para outro, era primavera.
A luz varria o ar.
Eu olhava as pessoas envolvidas exaltantemente por essa luz pura.
Pensava no corpo das pessoas, a alegria fervia dentro dos corpos — via-se isso.
A alegria passava de dentro dos corpos para fora, para os vestidos e fatos — e as ruas e prédios pareciam levitar.
Eu procurava palavras, para oferecer às alegrias das coisas, e uma palavra para a geral alegria do mundo.
Estava a olhar uma mulher, segui-a um pouco pela rua principal da cidade, vi-a desaparecer numa tabacaria.
Hesitei, parei à porta, estive a examinar as revistas expostas na entrada.
Via a mancha branca da mulher, lá dentro, junto ao balcão.
Pensava nos nomes.
Ocorriam-me: Corpo — Idade do Ouro — Liberdade.
De repente, eu recuperara a inocência.
Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.
Nas capas das revistas havia cores explosivas, primitivas.
As letras saltavam como pequenos animais cheios de respiração e circulações de sangue.
Entrei na tabacaria e surpreendi-me por lá não ver a mulher.
Pensei: saiu sem que eu desse por isso.
Mas eu já perdera a inocência.
É assim: por uma distracção, por querer olhar para todos os lados da inocência, a gente perde a inocência.
Comprei cigarros, saí.
Mas as capas das revistas já não eram as mesmas.
Estavam mortas e sobre elas respirava agora ferozmente um alfabeto sombrio e indecifrável.
Salvação, pensei, preciso salvar-me, preciso ressuscitar no meio desta cidade branca, elevar-me aos nomes justos, ao conhecimento dos corpos ambulatórios.
Mas aquela rua não era já a rua principal da cidade de que eu conhecia a matemática e a meteorologia, as imagens e os altos sons vivos.
Andei pela rua, olhando os rostos desconhecidos, e as vozes diziam palavras de uma língua estrangeira.
Em que cidade de que país deambulava um homem perdido, de súbito órfão dos seres e das coisas, dos vocabulários e gestos — órfão do seu contexto diário?
E voltei atrás, procurando a mesma tabacaria, uma referência no caos — um ponto sólido neste espaço inimigo.
Mas já nada reconhecia, e a tabacaria em que entrei era diferente da outra.
Ao fundo havia uma porta onde me pareceu ver escrita, na minha língua, a palavra: ENTRE.
E então entrei.
Atravessei um corredor, desci escadas, percorri novos corredores, e uma exaltação maligna obrigava-me a um enredamento cada vez mais desesperado em escadas e corredores.
Sim, os labirintos sempre me fascinaram.
E de novo a alegria, mas agora uma espécie de alegria negra, brotava não sei de que obscuros lugares da minha já grande idade.
Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas.
Encontrava-me eu então num subterrâneo de pedra, cercado de prateleiras onde se alinhavam muitos recipientes de forma rectangular.
Nesse instante revelou-se-me o verdadeiro silêncio.
Não aquela pausa feita para se reconhecer o valor da voz que parou ou que se erguerá, mas um silêncio sem vozes antes ou depois: o silêncio.
Contudo, alguma coisa riscava esse silêncio.
Parecia-me o ruído de pequenas rodas metálicas no chão de pedra.
Uma enfermeira empurrava um carrinho de criança e, quando se aproximou de mim, vi que sobre o carrinho estava colocado um recipiente igual aos que se encontravam nas prateleiras.
Um ser inqualificável metido em gelo, ele próprio uma vaga forma azulada, congelada, com escamas, uma espécie de peixe.
Estava na caixa rectangular.
Apenas a cabeça fora relativamente salvaguardada.
Tinha guelras, sim, e a boca era uma boca de peixe desesperado — uma boca que quisesse falar, não pudesse falar.
A boca abria-se e fechava-se, sim, como a de um peixe fora de água, as guelras batiam.
Procuravam o idioma, a água.
Alguma coisa fora salvaguardada.
Era uma cabeça quase humana.
Havia o cabelo, os olhos aterrorizados, a testa nobre dos homens.
E então gritei: não — gritei: não, não.
Porque eu sabia: aquilo era a loucura.
Com uma facilidade extraordinária, a mulher levantou o recipiente do carrinho e arrumou-o numa prateleira.
Agora chegavam enfermeiras de todos os lados, empurrando carrinhos.
Ouvia-se o bater das bocas e das guelras dos peixes.
Eu procurava fugir, mas estava cercado pelos muros de pedra, não havia portas.
Via aqueles paralelepípedos de gelo em que seres fusiformes batiam a boca sem voz.
Não, não.
Mas uma das enfermeiras solicitava-me doce e energicamente.
Era persuasiva, a enfermeira.
E eu meti-me dentro do recipiente onde a água principiava a gelar.
O meu corpo transformava-se no de um peixe, sentia escamas nascerem na carne, formarem-se dentro de mim e rebentarem para fora, duras, frias, azuladas, insensíveis.
A intensidade do corpo diminuía, diminuía.
Mal o sentia, agora.
Não, pensava ainda, mas a carne mergulhara no gelo, e eu não tinha braços e pernas, nem tinha coxas, nem pénis, nem ventre, nem peito.
Só a cabeça saía do pescoço de gelo, a boca batia desalmadamente, sem linguagem.
Eu estava morto, e toda a antiga intensidade das mãos, dos pés, do sexo e do coração — todo o fogo dos órgãos trepidantes subira à cabeça.
Eu estava morto, mas atrozmente vivo pela cabeça — pensando a uma velocidade terrível, com força, com muita força.
Encerrado num subterrâneo, numa caixa de gelo, batendo a boca de peixe, sem um só nome para a louca e brutal multiplicidade dos pensamentos, com toda a minha delirante inteligência, sob o doce sorriso de uma enfermeira antisséptica.
Eu passeava à hora mais movimentada, na parte baixa da cidade.
Era a minha cidade, a cidade onde vivo, de que tão bem conheço as ruas e casas, os labirintos, os nomes, a secreta matemática dos fluxos e refluxos, as temperaturas.
Não é preciso ser estrangeiro — tomar comboios ou aviões, atravessar as águas.
O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano.
A multidão andava de um lado para outro, era primavera.
A luz varria o ar.
Eu olhava as pessoas envolvidas exaltantemente por essa luz pura.
Pensava no corpo das pessoas, a alegria fervia dentro dos corpos — via-se isso.
A alegria passava de dentro dos corpos para fora, para os vestidos e fatos — e as ruas e prédios pareciam levitar.
Eu procurava palavras, para oferecer às alegrias das coisas, e uma palavra para a geral alegria do mundo.
Estava a olhar uma mulher, segui-a um pouco pela rua principal da cidade, vi-a desaparecer numa tabacaria.
Hesitei, parei à porta, estive a examinar as revistas expostas na entrada.
Via a mancha branca da mulher, lá dentro, junto ao balcão.
Pensava nos nomes.
Ocorriam-me: Corpo — Idade do Ouro — Liberdade.
De repente, eu recuperara a inocência.
Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.
Nas capas das revistas havia cores explosivas, primitivas.
As letras saltavam como pequenos animais cheios de respiração e circulações de sangue.
Entrei na tabacaria e surpreendi-me por lá não ver a mulher.
Pensei: saiu sem que eu desse por isso.
Mas eu já perdera a inocência.
É assim: por uma distracção, por querer olhar para todos os lados da inocência, a gente perde a inocência.
Comprei cigarros, saí.
Mas as capas das revistas já não eram as mesmas.
Estavam mortas e sobre elas respirava agora ferozmente um alfabeto sombrio e indecifrável.
Salvação, pensei, preciso salvar-me, preciso ressuscitar no meio desta cidade branca, elevar-me aos nomes justos, ao conhecimento dos corpos ambulatórios.
Mas aquela rua não era já a rua principal da cidade de que eu conhecia a matemática e a meteorologia, as imagens e os altos sons vivos.
Andei pela rua, olhando os rostos desconhecidos, e as vozes diziam palavras de uma língua estrangeira.
Em que cidade de que país deambulava um homem perdido, de súbito órfão dos seres e das coisas, dos vocabulários e gestos — órfão do seu contexto diário?
E voltei atrás, procurando a mesma tabacaria, uma referência no caos — um ponto sólido neste espaço inimigo.
Mas já nada reconhecia, e a tabacaria em que entrei era diferente da outra.
Ao fundo havia uma porta onde me pareceu ver escrita, na minha língua, a palavra: ENTRE.
E então entrei.
Atravessei um corredor, desci escadas, percorri novos corredores, e uma exaltação maligna obrigava-me a um enredamento cada vez mais desesperado em escadas e corredores.
Sim, os labirintos sempre me fascinaram.
E de novo a alegria, mas agora uma espécie de alegria negra, brotava não sei de que obscuros lugares da minha já grande idade.
Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas.
Encontrava-me eu então num subterrâneo de pedra, cercado de prateleiras onde se alinhavam muitos recipientes de forma rectangular.
Nesse instante revelou-se-me o verdadeiro silêncio.
Não aquela pausa feita para se reconhecer o valor da voz que parou ou que se erguerá, mas um silêncio sem vozes antes ou depois: o silêncio.
Contudo, alguma coisa riscava esse silêncio.
Parecia-me o ruído de pequenas rodas metálicas no chão de pedra.
Uma enfermeira empurrava um carrinho de criança e, quando se aproximou de mim, vi que sobre o carrinho estava colocado um recipiente igual aos que se encontravam nas prateleiras.
Um ser inqualificável metido em gelo, ele próprio uma vaga forma azulada, congelada, com escamas, uma espécie de peixe.
Estava na caixa rectangular.
Apenas a cabeça fora relativamente salvaguardada.
Tinha guelras, sim, e a boca era uma boca de peixe desesperado — uma boca que quisesse falar, não pudesse falar.
A boca abria-se e fechava-se, sim, como a de um peixe fora de água, as guelras batiam.
Procuravam o idioma, a água.
Alguma coisa fora salvaguardada.
Era uma cabeça quase humana.
Havia o cabelo, os olhos aterrorizados, a testa nobre dos homens.
E então gritei: não — gritei: não, não.
Porque eu sabia: aquilo era a loucura.
Com uma facilidade extraordinária, a mulher levantou o recipiente do carrinho e arrumou-o numa prateleira.
Agora chegavam enfermeiras de todos os lados, empurrando carrinhos.
Ouvia-se o bater das bocas e das guelras dos peixes.
Eu procurava fugir, mas estava cercado pelos muros de pedra, não havia portas.
Via aqueles paralelepípedos de gelo em que seres fusiformes batiam a boca sem voz.
Não, não.
Mas uma das enfermeiras solicitava-me doce e energicamente.
Era persuasiva, a enfermeira.
E eu meti-me dentro do recipiente onde a água principiava a gelar.
O meu corpo transformava-se no de um peixe, sentia escamas nascerem na carne, formarem-se dentro de mim e rebentarem para fora, duras, frias, azuladas, insensíveis.
A intensidade do corpo diminuía, diminuía.
Mal o sentia, agora.
Não, pensava ainda, mas a carne mergulhara no gelo, e eu não tinha braços e pernas, nem tinha coxas, nem pénis, nem ventre, nem peito.
Só a cabeça saía do pescoço de gelo, a boca batia desalmadamente, sem linguagem.
Eu estava morto, e toda a antiga intensidade das mãos, dos pés, do sexo e do coração — todo o fogo dos órgãos trepidantes subira à cabeça.
Eu estava morto, mas atrozmente vivo pela cabeça — pensando a uma velocidade terrível, com força, com muita força.
Encerrado num subterrâneo, numa caixa de gelo, batendo a boca de peixe, sem um só nome para a louca e brutal multiplicidade dos pensamentos, com toda a minha delirante inteligência, sob o doce sorriso de uma enfermeira antisséptica.
1 035
Herberto Helder
Mão: a Mão
O coração em cheio
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
1 347
Herberto Helder
Os Ritmos 4
Contou que caminhava pela praia, nu, correndo.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
A areia, o sol, o mar e a profundidade extenuante do céu embriagavam-no.
Tinha extrema consciência da sua nudez, e isso também o embriagava.
Ia com um projecto, ou uma missão, estava carregado disso, mas tratava-se de uma coisa inominável.
Na praia havia gente, gente — parece — com aquela disponibilidade sem expectativa de gente na praia.
Estavam em fato de banho, ociosos e alheios, e quando ele passou pelo meio dessa gente, a nudez que tinha ainda o embriagou mais.
Depois encontrou três degraus de pedra, e subiu-os.
Continuou a correr, mas — segundo contou — o céu, a água e a areia, agora perdidos, haviam deixado nele um espaço vazio onde a ideia de missão se pôs a crescer, de modo que ele se encontrava como que louco da pressa e densidade da missão.
Corria por um labirinto de pedra negra, e nos corredores estreitos havia casas baixas, também de pedra, sem telhado e sem portas e janelas.
Eram cubos negros abertos em cima e com buracos rectangulares a diversos níveis.
Correndo pelos labirintos, cheio da sua pressa e com a espessa ansiedade daquela mensagem tão obscura, viu de súbito que tinha dois longos pénis brancos, delgados e longos como duas serpentes, e que se contorciam e enroscavam um no outro.
Não sentiu medo, sequer espanto, pois imaginava que isso também fazia parte da missão.
Mas quando avistou uma mulher que vinha em sentido contrário ao dele, procurou tapar com as mãos aqueles pénis-serpentes nascidos da mesma sombria raiz, quando corria pelos labirintos.
As serpentes, no entanto, escapavam-se por entre os dedos, desciam-lhe pelas pernas, subiam pelo ventre até ao peito, avançavam em todas as direcções, com as suas pequenas cabeças cruéis, sagazes e esfaimadas.
Cheio de terror, parou em frente de uma daquelas casas.
Quando entrou — contou ele — havia já perdido a sua força e leveza de mensageiro, e apenas sentia medo.
A casa estava vazia como todas as outras e, como elas, sem tecto e sem portas e janelas.
Naquele cubo negro e devassado, onde adivinhava excrementos e restos podres de comida, através de uma luz sinistra, pensou que viera de longe, percorrendo com a sua nudez os caminhos do dia e estes labirintos tenebrosos, apenas para se encontrar vazio, cercado pela podridão.
As duas serpentes brancas continuavam a fremir entre as suas pernas abertas.
1 078
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 4
O sangue que treme na cama: a cama
que treme na casa: a casa
que treme, A paisagem arrancada
ao chão,
Furos de lume, Os tecidos do corpo,
Não é doce esta bolsa
de sangue, Que te adiantes: cabeça
estelar de tigre, O dia empurra as suas massas,
Máquina planetária: Deus: uma faísca
em cheio, Ou um dedo apenas direito
estendido:
com a unha veemente entrando,
Que a obra espacial da luz se acomode
à tua plumagem, Em que poça de ouro
se implanta
soberbamente a mão?,
Às vezes és uma vara calcinada,
Arrebatas a claridade dos mortos: a sua
estrela aberta por todos os lados,
Não sabes dormir: com a força das entranhas,
Apenas um nervo alto
te sustenha, O poder devia encher-te
de tendões: o implacável
prodígio do mundo devia
encher-te de ossos — pôr-te estacas,
Que raiz de espinho na testa por dentro se embrenhasse
— através
de soluços: medo: carne
estrangulada — até à leveza: à qualidade
diáfana
do sopro, Onde te concentras: tão
trémulo e translúcido:
tão
levantado como a chama que brota: flor
na candeia,
Afundas-te iluminadamente na riqueza
violenta, A noite bate em branco,
Que ardas,
Arde tudo, Fora dentro
dos buracos,
As labaredas atravessam as membranas
que treme na casa: a casa
que treme, A paisagem arrancada
ao chão,
Furos de lume, Os tecidos do corpo,
Não é doce esta bolsa
de sangue, Que te adiantes: cabeça
estelar de tigre, O dia empurra as suas massas,
Máquina planetária: Deus: uma faísca
em cheio, Ou um dedo apenas direito
estendido:
com a unha veemente entrando,
Que a obra espacial da luz se acomode
à tua plumagem, Em que poça de ouro
se implanta
soberbamente a mão?,
Às vezes és uma vara calcinada,
Arrebatas a claridade dos mortos: a sua
estrela aberta por todos os lados,
Não sabes dormir: com a força das entranhas,
Apenas um nervo alto
te sustenha, O poder devia encher-te
de tendões: o implacável
prodígio do mundo devia
encher-te de ossos — pôr-te estacas,
Que raiz de espinho na testa por dentro se embrenhasse
— através
de soluços: medo: carne
estrangulada — até à leveza: à qualidade
diáfana
do sopro, Onde te concentras: tão
trémulo e translúcido:
tão
levantado como a chama que brota: flor
na candeia,
Afundas-te iluminadamente na riqueza
violenta, A noite bate em branco,
Que ardas,
Arde tudo, Fora dentro
dos buracos,
As labaredas atravessam as membranas
1 107
Herberto Helder
De Antemão 1
Tocaram-me na cabeça comum dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
1 069
Fernando Fitas
Deitado foi teu corpo
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
715
Bernardo Pinto de Almeida
As mãos
Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.
Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.
Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.
E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.
Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.
Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.
Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.
E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.
Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.
872
Bernardo Pinto de Almeida
No bicentenário de Kant
Sim —
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.
Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.
Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.
Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.
Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.
Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.
Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
623
Pero da Ponte
Marinha Foça Quis Saber
Marinha Foça quis saber
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
444
Matilde Campilho
Descrição da Cidade de Lisboa
A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
1 116
Fernão Garcia Esgaravunha
Nenguem-Mim, Que Vistes Mal Doente
Nenguem-mim, que vistes mal doente
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
596
Rui Queimado
Dom Estêvam, Em Grand'entençom
Dom Estêvam, em grand'entençom
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!
E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.
Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!
E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.
Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
648
Pedro Amigo de Sevilha
Moitos S'enfingem Que Ham Gaanhado
Moitos s'enfingem que ham gaanhado
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.
Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.
Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.
E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.
Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.
Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.
E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
516
Pedro Amigo de Sevilha
Meus Amigos, Tam Desaventurado
Meus amigos, tam desaventurado
me fez Deus, que nom sei hoj'eu quem
fosse no mund'em peor ponto nado,
pois ũa dona [mi] fez querer gram bem,
fea e velha, nunca eu vi tanto;
e esta dona puta é já quanto,
por que eu moir', amigos, mal pecado.
[Ca] esta dona de pram há jurado,
meus amigos, por que perca meu sem,
que jasca sempre, quand'houver guisado,
ela com outr', e nom dê por mim rem;
e, com tod'aquesto, se Deus mi valha,
jasc'eu morrendo d'amor, e sem falha,
polo seu rostro velh'e enrugado.
E desta dona moito bem diria,
se mi val[vesse]...
me fez Deus, que nom sei hoj'eu quem
fosse no mund'em peor ponto nado,
pois ũa dona [mi] fez querer gram bem,
fea e velha, nunca eu vi tanto;
e esta dona puta é já quanto,
por que eu moir', amigos, mal pecado.
[Ca] esta dona de pram há jurado,
meus amigos, por que perca meu sem,
que jasca sempre, quand'houver guisado,
ela com outr', e nom dê por mim rem;
e, com tod'aquesto, se Deus mi valha,
jasc'eu morrendo d'amor, e sem falha,
polo seu rostro velh'e enrugado.
E desta dona moito bem diria,
se mi val[vesse]...
618
Pedro Amigo de Sevilha
Elvir', a Capa Velha Dest'aqui
Elvir', a capa velha dest'aqui,
que te vendess'um judeu corretor,
e ficou contig'outra mui peior,
Elvir', a capa velha, que t'eu vi;
ca, queres sempre por dinheiros dar
a melhor capa e queres leixar
a capa velha, Elvira, pera ti.
Por que te fiqu', assi Deus ti perdom,
a capa velh', Elvira, que trager
nom quer nulh'home mais, dás a vender
melhor capa velha doutra sazom.
Elvira, nunc'a ti capa darám,
ca ficas, destas capas que ti dam,
com as mais usadas no cabeçom.
E a capa, velh'Elvira, mi pesou,
porque nom é já pera cas d'el-rei
a capa velh', Elvira, que eu sei
muit'usa[da] que contigo ficou:
ca pera corte sei que nom val rem
a capa, velh'Elvira, que já tem
pouco cabelo, tam muito s'usou.
que te vendess'um judeu corretor,
e ficou contig'outra mui peior,
Elvir', a capa velha, que t'eu vi;
ca, queres sempre por dinheiros dar
a melhor capa e queres leixar
a capa velha, Elvira, pera ti.
Por que te fiqu', assi Deus ti perdom,
a capa velh', Elvira, que trager
nom quer nulh'home mais, dás a vender
melhor capa velha doutra sazom.
Elvira, nunc'a ti capa darám,
ca ficas, destas capas que ti dam,
com as mais usadas no cabeçom.
E a capa, velh'Elvira, mi pesou,
porque nom é já pera cas d'el-rei
a capa velh', Elvira, que eu sei
muit'usa[da] que contigo ficou:
ca pera corte sei que nom val rem
a capa, velh'Elvira, que já tem
pouco cabelo, tam muito s'usou.
560
Martim Soares
Pero Que Punh'em Me Guardar
Pero que punh'em me guardar
eu, mia senhor, de vos veer,
per rem nom mi o querem sofrer
estes que nom poss'eu forçar:
meus olhos e meu coraçom
e Amor; todos estes som
os que m'e[n] nom leixam quitar.
Ca os meus olhos vam catar
esse vosso bom parecer
e non'os poss'end'eu tolher
nen'o coraçom de cuidar
em vós; e a toda sazom
tem com eles Amor e nom
poss'eu com tantos guerr[ei]ar.
Ca lhi nom poderei guarir
nelhur, se o provar quiser;
e por esto nom mi há mester
de trabalhar em vos fogir;
ca eu como vos fugirei,
pois estes, de que tal med'hei,
me nom leixam de vós partir?
E pois m'alhur nom leixam ir,
estar-lhis-ei, mentr'eu poder,
u vos vejam, se vos prouguer;
e haver-lhis-ei a comprir
esto que lhis praz, eu o sei;
e outro prazer lhis farei:
morrer-lhis-ei, pois vos nom vir.
eu, mia senhor, de vos veer,
per rem nom mi o querem sofrer
estes que nom poss'eu forçar:
meus olhos e meu coraçom
e Amor; todos estes som
os que m'e[n] nom leixam quitar.
Ca os meus olhos vam catar
esse vosso bom parecer
e non'os poss'end'eu tolher
nen'o coraçom de cuidar
em vós; e a toda sazom
tem com eles Amor e nom
poss'eu com tantos guerr[ei]ar.
Ca lhi nom poderei guarir
nelhur, se o provar quiser;
e por esto nom mi há mester
de trabalhar em vos fogir;
ca eu como vos fugirei,
pois estes, de que tal med'hei,
me nom leixam de vós partir?
E pois m'alhur nom leixam ir,
estar-lhis-ei, mentr'eu poder,
u vos vejam, se vos prouguer;
e haver-lhis-ei a comprir
esto que lhis praz, eu o sei;
e outro prazer lhis farei:
morrer-lhis-ei, pois vos nom vir.
612
João Soares Coelho
Martim Alvelo
Martim Alvelo,
desse teu cabelo
te falarei já:
cata capelo
que ponhas sobr'elo,
ca mui mester ch'há;
ca o topete
pois mete
cãos mais de sete,
e mais, u mais há,
muitos che vejo
sobejo:
e que grand'entejo
tod'a molher há!
E das trincheiras
e das trasmoleiras
ti quero dizer:
vejo-chas veiras
e von'as carreiras,
polas defender;
ca a velhece,
pois crece,
sol nom quer sandece,
al é de fazer:
ca essa tinta
mal pinta;
e que val a enfinta
u nom há foder?
Messa os cãos
e filh'os soumãos,
e nom ch'há mester
panos louçãos;
abr'i deles mãos,
ca tod'a molher
a tempo cata
quem s'ata
a esta barata
que t'ora disser:
d'encobrir anos
com panos;
aquestes enganos
per rem nõn'os quer.
desse teu cabelo
te falarei já:
cata capelo
que ponhas sobr'elo,
ca mui mester ch'há;
ca o topete
pois mete
cãos mais de sete,
e mais, u mais há,
muitos che vejo
sobejo:
e que grand'entejo
tod'a molher há!
E das trincheiras
e das trasmoleiras
ti quero dizer:
vejo-chas veiras
e von'as carreiras,
polas defender;
ca a velhece,
pois crece,
sol nom quer sandece,
al é de fazer:
ca essa tinta
mal pinta;
e que val a enfinta
u nom há foder?
Messa os cãos
e filh'os soumãos,
e nom ch'há mester
panos louçãos;
abr'i deles mãos,
ca tod'a molher
a tempo cata
quem s'ata
a esta barata
que t'ora disser:
d'encobrir anos
com panos;
aquestes enganos
per rem nõn'os quer.
626
João Soares Coelho
Luzia Sánchez, Jazedes Em Gram Falha
Luzia Sánchez, jazedes em gram falha
comigo, que nom fodo mais nemigalha
d'ũa vez; e, pois fodo, se Deus mi valha,
fic'end'afrontado bem por tercer dia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Vejo-vos jazer migo muit'aguada,
Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;
mais se eu vos per i houvesse pagada,
pois eu foder nom posso, peer-vos-ia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que já nom pode sol cospir a saíva
e, de pram, semelha mais morta ca viva,
e se lh'ardess'a casa, nom s'ergeria.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Deitarom-vos comigo os meus pecados;
cuidades de mi preitos tam desguisados,
cuidades dos colhões, que trag'inchados,
ca o som com foder e é com maloutia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
comigo, que nom fodo mais nemigalha
d'ũa vez; e, pois fodo, se Deus mi valha,
fic'end'afrontado bem por tercer dia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Vejo-vos jazer migo muit'aguada,
Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;
mais se eu vos per i houvesse pagada,
pois eu foder nom posso, peer-vos-ia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que já nom pode sol cospir a saíva
e, de pram, semelha mais morta ca viva,
e se lh'ardess'a casa, nom s'ergeria.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
Deitarom-vos comigo os meus pecados;
cuidades de mi preitos tam desguisados,
cuidades dos colhões, que trag'inchados,
ca o som com foder e é com maloutia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
656
João Soares Coelho
Maria do Grave, Grav'é de Saber
Maria do Grave, grav'é de saber
porque vos chamam Maria do Grave,
ca vós nom sodes grave de foder,
e pero sodes de foder mui grave;
e quer', em gram conhocença, dizer:
sem leterad'ou trobador seer,
nom pod'homem departir este grave.
Mais eu sei bem trobar e bem leer
e quer'assi departir este grave:
vós nom sodes grav'em pedir haver
por vosso con', e vós sodes grave,
a quem vos fode muito, de foder;
e por aquesto se dev'entender
porque vos chamam Maria do Grave.
E pois vos assi departi este grave,
tenho-m'end'ora por mais trobador;
e bem vos juro, par Nostro Senhor,
que nunca eu achei [molher] tam grave
come Maria - e já o provei -
do Grav'; e nunca pois molher achei
que a mi fosse de foder tam grave.
porque vos chamam Maria do Grave,
ca vós nom sodes grave de foder,
e pero sodes de foder mui grave;
e quer', em gram conhocença, dizer:
sem leterad'ou trobador seer,
nom pod'homem departir este grave.
Mais eu sei bem trobar e bem leer
e quer'assi departir este grave:
vós nom sodes grav'em pedir haver
por vosso con', e vós sodes grave,
a quem vos fode muito, de foder;
e por aquesto se dev'entender
porque vos chamam Maria do Grave.
E pois vos assi departi este grave,
tenho-m'end'ora por mais trobador;
e bem vos juro, par Nostro Senhor,
que nunca eu achei [molher] tam grave
come Maria - e já o provei -
do Grav'; e nunca pois molher achei
que a mi fosse de foder tam grave.
648
João Soares Coelho
Quem Diz de Dom 'Stêvam Que Nom Vê Bem
Quem diz de Dom 'Stêvam que nom vê bem
dig'eu que mente, ca diz mui gram falha;
e [eu] mostrar-lh'-ei que nom disse rem
nem é recado que nulha rem valha;
pero mostrado devia seer
ca nom pode, per nulha rem, veer
mal home que nom vêe nemigalha.
E quem lho diz, sei que lhe nom diria
ca vêe mal, se migo falass'ante,
ou se o visse andar fora da via,
como o eu vi, junt'a Amarante,
que nom sabia, sair d'um tojal;
por en vos digo que nom vêe mal
quem vêe de redo quant'é deante.
dig'eu que mente, ca diz mui gram falha;
e [eu] mostrar-lh'-ei que nom disse rem
nem é recado que nulha rem valha;
pero mostrado devia seer
ca nom pode, per nulha rem, veer
mal home que nom vêe nemigalha.
E quem lho diz, sei que lhe nom diria
ca vêe mal, se migo falass'ante,
ou se o visse andar fora da via,
como o eu vi, junt'a Amarante,
que nom sabia, sair d'um tojal;
por en vos digo que nom vêe mal
quem vêe de redo quant'é deante.
552
João Garcia de Guilhade
Dona Ouroana, Pois Já Besta Havedes
Dona Ouroana, pois já besta havedes,
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
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