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Poemas neste tema

Corpo

Afonso X

Afonso X

Dom Gonçalo, Pois Queredes Ir Daqui Pera Sevilha

Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.

Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.

E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.

E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.

Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.

Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.

E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.

E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.

Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.

E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.

E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.

E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
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Joaquim Paço d'arcos

Joaquim Paço d'arcos

Negra que vieste da sanzala

Negra que vieste da sanzala
E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,
Recusando o leito branco e macio;
Negra que trazias no corpo o cheiro do capim
E da terra molhada,
E o travo das queimadas;
Negra que trazias nos olhos castanhos
Sede de submissão,
Que tudo aceitaste em silêncio
E lentamente desnudaste o teu corpo...

Estátua de ébano,
Animada pelo sopro da lascívia
e pela febre do desejo;
Negra vinda das terras altas de Chimoio
À cidade que o branco plantou à beira-mar.
Vinda para te venderes...
Comprada a uma preta velha e desdentada,
A troco dum gramofone;
Vendida e trespassada de mão em mão.

Que é do pano branco de chita
Em que envolvias teu corpo
E escondias tua carne tremente
De tanta volúpia que guardava?
Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo
E vibrou tua carne?
Onde vão as noites de África,
Encharcadas de cacimba,
Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?
Luminosas, serenas...

Vinham do pátio as vozes em surdina
Dos teus irmãos em cor...
Vinham do mato os gritos roucos das hienas
E o seu choro lamentoso,
De acentos prolongados,
Tal o de meninos magoados...

Tu prendias-te a mim.
Abandonava-te na esteira
E, quando o dia surgia,
No soalho nu havia a esteira nua
E nada mais.
Tinhas partido para a sanzala,
Envolta no pano de chita branca
E no silêncio molhado da cacimba
Da noite transluzente e profunda.
Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.
Fazia por te odiar...
Mas, ao sol escaldante do dia,
Queimava-me de novo,
Em ardência e secura,
A sede do teu corpo,
Até que a noite voltava,
Tudo aguando de cacimba...
E na esteira gasta
O teu corpo nu
Voltava a ser
Uma serpe negra...

Negra que vieste da sanzala..
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Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

CANÇÃO DA MANHÃ

como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como   as   esmeraldas   que   formam   as   asas   dos   teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes

Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti

e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
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Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

claridade dada pelo tempo

I

Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos

deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Re-Nato]

O poder da respiração—entrando e saindo do corpo

e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo

Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.

(Às vezes me sinto sem pé, submerso).

Saia para uma caminhada pelo bairro

(Como entendo essa língua em que me falam?)

Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.

Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.

Deus veio tocar Rachmaninoff

e tocou pior que Rachmaninoff

(era eu)

A perfeição não é fazer tudo perfeito

Tudo acontece para o melhor

Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.

Esse ato de violência inaugurou nova vida,

o caminho de volta.

Hoje amo o assassino sinceramente.

Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.

O amor está na respiração profunda.

Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!

Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.

Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.

No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias

A vida humana é longa
Se cada instante é doce

aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço

(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania

(que importância um nome tem?)

Sou todo mundo,
agora você sou eu

(Uma mente sem fantasias):

Abra-te Coração.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Hosana]

Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada

o seu uma vermelha?

Podemos viver sem o corpo
apenas mente

e sua matéria rara?

Qual a distância correta?

euforia e desamparo

Amamos melhor quando amamos em Presença?

Asa-palavra

Esse é um poema fora de órbita

Stella do Patrocínio:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu quero sempre, em suspenso

—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.

—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.

—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.

—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.

—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.

—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.

—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.

—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.

—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.

Quem quer se casar comigo?

Deus, quer se casar comigo?

Estrela
Eu-sou
Eu-posso

Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio

Oh, Goethe!
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