Poemas neste tema
Amizade
Rui Costa
Diálogo
Não acredites: as pessoas que te falam em diálogo
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser «cultivada» - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.
(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.
Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor –
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água –
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e – foi assim connosco mas já não é –
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)
Ainda pensas que te darei uma definição do amor?
Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ar luminoso e irascível!
– e nenhum deus invoco ou minimizo.
Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser «cultivada» - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.
(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.
Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor –
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água –
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e – foi assim connosco mas já não é –
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)
Ainda pensas que te darei uma definição do amor?
Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ar luminoso e irascível!
– e nenhum deus invoco ou minimizo.
Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.
593
Rui Costa
O acidente IV
Levanta as tuas mãos
e se um dia te cansares
eu estarei pronto como o lugar da queda.
e se um dia te cansares
eu estarei pronto como o lugar da queda.
760
Rui Costa
A matéria do ar
Bom dia. Também eu sou feito de marfim.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.
Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.
Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.
Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.
Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.
585
Rui Costa
Acidente I (helderiana virulenta)
eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
496
Rui Costa
Ao lado
Há nomes que assustam os insectos
e nas folhas deslumbram a casa até quase
noite. As asas batem a penumbra
mas a história dos dias nunca
lhes pertence.
Em pontas de pés esfregam-se nas janelas
com os bicos postos
e só a tempestade lhes garante o sono
e a salvação.
Eu conheço homens assim quando
o tempo acalma.
Têm mil bolsos preparados para esconder
as mãos.
Praticam os espelhos
Com esforço miudinho, quotidianamente
soletrando os amigos
muitas vezes.
E quando à noite se reúnem para fabricar os sinos
ouvem palavras com o seu nome voando
eternamente
ao lado
e nas folhas deslumbram a casa até quase
noite. As asas batem a penumbra
mas a história dos dias nunca
lhes pertence.
Em pontas de pés esfregam-se nas janelas
com os bicos postos
e só a tempestade lhes garante o sono
e a salvação.
Eu conheço homens assim quando
o tempo acalma.
Têm mil bolsos preparados para esconder
as mãos.
Praticam os espelhos
Com esforço miudinho, quotidianamente
soletrando os amigos
muitas vezes.
E quando à noite se reúnem para fabricar os sinos
ouvem palavras com o seu nome voando
eternamente
ao lado
602
Rui Costa
J.
Na bicicleta tão pequena tu eras grande
demais. Saltando muros, levantando a
roda, até os meus tios vinham ver-te
às voltas no terreiro de asas nas rodas
e jeito tão azul. Mas um dia
ganhei-te na corrida. Tu sorriste,
deste-me piratas e eu nunca soube bem porquê.
Mas não foi por causa disso que morreste.
Um dia de manhã os teus pés parados sem saber.
Morreste nesse dia e eu nem sequer
chorei. Não é preciso, amigo.
Chegaste primeiro desta vez. És o maior:
A morte é uma bicicleta, tenho
a certeza disso.
demais. Saltando muros, levantando a
roda, até os meus tios vinham ver-te
às voltas no terreiro de asas nas rodas
e jeito tão azul. Mas um dia
ganhei-te na corrida. Tu sorriste,
deste-me piratas e eu nunca soube bem porquê.
Mas não foi por causa disso que morreste.
Um dia de manhã os teus pés parados sem saber.
Morreste nesse dia e eu nem sequer
chorei. Não é preciso, amigo.
Chegaste primeiro desta vez. És o maior:
A morte é uma bicicleta, tenho
a certeza disso.
578
Filipa Leal
O medo
Não tenho o hábito dos cafés, nunca tive,
mas aquele ficara-me de um livro de Al Berto.
Eu falava do medo, não do medo de Al Berto,
do meu, e a minha amiga dizia-me qualquer coisa
amiga. Falávamos de amor, e ela talvez me dissesse
para não ter medo do medo de Al Berto
nem do meu.
Confesso: de tudo o que me disse a minha amiga,
ficou-me apenas a palavra
granito.
mas aquele ficara-me de um livro de Al Berto.
Eu falava do medo, não do medo de Al Berto,
do meu, e a minha amiga dizia-me qualquer coisa
amiga. Falávamos de amor, e ela talvez me dissesse
para não ter medo do medo de Al Berto
nem do meu.
Confesso: de tudo o que me disse a minha amiga,
ficou-me apenas a palavra
granito.
778
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Ele me contou a história em um tom baixo de voz. Terminaram a relação, mas a cicatriz não havia fechado. Ele ainda gostava dela, só que não deu certo. Namoraram durante quase um ano, ele morando em Porto Alegre, ela em Vitória do Espírito Santo. Mais de 2.000km os separavam. Não podiam pegar um avião todos os meses. Tinham seus empregos, suas famílias. Culpava a distância pelo fim. Agora era tratar de conhecer outra pessoa para se reerguer. “Já entrei no Tinder”, disse ele. Tive vontade de rir, mas ele não parecia estar fazendo piada. Fiz cara de “agora vai”, sem convicção.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
596
Marcelo Montenegro
Literatura comparada
Quando o MUNDO é um cruzamento
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
1 084
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Ornatos
O vinho cor-de-rosa é bom, ó companheiros.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
1 173
Herberto Helder
Os Ritmos 15
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
612
Valter Hugo Mãe
nenhum amor escapa impune
deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
603
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
750
Nuno Fernandes Torneol
Preguntam-Me Por Que Ando Sandeu
Preguntam-me por que ando sandeu,
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
727
Rui Queimado
Dom Marco, Vej'eu Muito Queixar
Dom Marco, vej'eu muito queixar
Dom Estêvam de vós, ca diz assi:
que, pero foi mui mal doent'aqui,
que vos nunca quisestes trabalhar
de o veer, nen'o vistes; mais bem
jura que o confonda Deus por en
se vos esto per casa nom passar.
Qual desdém lhi vós fostes fazer
nunca outr'home a seu amigo fez;
mais ar fará-vo-lo [el], outra vez,
se mal houverdes: nom vos ar veer;
ca x'é el home que x'há poder tal,
bem come vós, se vos ar veer mal,
de vos dar en pelo vas'a bever.
Diz que o nom guii Nostro Senhor,
se vos mui ced'outr'atal nom fezer:
nom vos veer quando vos for mester,
poilo nom vistes; aind'al diz peior,
um verv'antigo, com sanha que há:
"como lhi cantardes, bailar-vos-á",
ca nom há porque vos baile melhor.
Dom Estêvam de vós, ca diz assi:
que, pero foi mui mal doent'aqui,
que vos nunca quisestes trabalhar
de o veer, nen'o vistes; mais bem
jura que o confonda Deus por en
se vos esto per casa nom passar.
Qual desdém lhi vós fostes fazer
nunca outr'home a seu amigo fez;
mais ar fará-vo-lo [el], outra vez,
se mal houverdes: nom vos ar veer;
ca x'é el home que x'há poder tal,
bem come vós, se vos ar veer mal,
de vos dar en pelo vas'a bever.
Diz que o nom guii Nostro Senhor,
se vos mui ced'outr'atal nom fezer:
nom vos veer quando vos for mester,
poilo nom vistes; aind'al diz peior,
um verv'antigo, com sanha que há:
"como lhi cantardes, bailar-vos-á",
ca nom há porque vos baile melhor.
669
Pedro Amigo de Sevilha
Amiga, Vistes Amigo
- Amiga, vistes amigo
d'amiga que tant'amasse,
que tanta coita levasse
quanta leva meu amigo?
- Non'o vi nem quen'o visse
nunca vi, des que fui nada,
mais vej'eu vós mais coitada.
- Amiga, vistes amigo
que por amiga morresse
que tanto pesar sofresse
[quanto sofre meu amigo]?
- Non'o vi nem quen'o visse
nunca v,i des que fui nada,
mais vej'eu vós mais coitada.
- Amiga, vistes amigo
que tam muito mal houvesse
d'amiga que bem quisesse
quant'há por mi meu amigo?
- Non'o vi nem quen'o visse
nunca vi, des que fui nada,
mais vej'eu vós mais coitada.
Que mui maior mal havedes
ca el, que morrer veedes.
d'amiga que tant'amasse,
que tanta coita levasse
quanta leva meu amigo?
- Non'o vi nem quen'o visse
nunca vi, des que fui nada,
mais vej'eu vós mais coitada.
- Amiga, vistes amigo
que por amiga morresse
que tanto pesar sofresse
[quanto sofre meu amigo]?
- Non'o vi nem quen'o visse
nunca v,i des que fui nada,
mais vej'eu vós mais coitada.
- Amiga, vistes amigo
que tam muito mal houvesse
d'amiga que bem quisesse
quant'há por mi meu amigo?
- Non'o vi nem quen'o visse
nunca vi, des que fui nada,
mais vej'eu vós mais coitada.
Que mui maior mal havedes
ca el, que morrer veedes.
689
Pedro Amigo de Sevilha
Pero D'ambroa, Tal Senhor Havedes
Pero d'Ambroa, tal senhor havedes,
que nom sei quem se dela nom pagasse
[...............................]
e ajudei-vos eu, como sabedes,
escontra ela mui de bõa mente;
e diss'ela: - Fazede-me-lh'enmente,
ainda hoje vós migo jaredes,
por seu amor; ca x'anda tam coitado
que, se vós hoje migo nom jouverdes,
será sandeu; e, se o nom fezerdes,
nom se terrá de vós por ajudado;
mais enmentade-me-lhi ũa vegada,
e marrei eu vosc'em vossa pousada,
e o cativo perderá cuidado.
E já que lhi vós amor demonstrades,
semelh'ora que lhi sodes amigo:
jazede logo aquesta noite migo,
e des i pois crás, u quer que o vejades,
dizede-lhi que comigo albergastes,
por seu amor, e que me lh'enmentastes,
e nom tenha que o pouc'ajudades.
que nom sei quem se dela nom pagasse
[...............................]
e ajudei-vos eu, como sabedes,
escontra ela mui de bõa mente;
e diss'ela: - Fazede-me-lh'enmente,
ainda hoje vós migo jaredes,
por seu amor; ca x'anda tam coitado
que, se vós hoje migo nom jouverdes,
será sandeu; e, se o nom fezerdes,
nom se terrá de vós por ajudado;
mais enmentade-me-lhi ũa vegada,
e marrei eu vosc'em vossa pousada,
e o cativo perderá cuidado.
E já que lhi vós amor demonstrades,
semelh'ora que lhi sodes amigo:
jazede logo aquesta noite migo,
e des i pois crás, u quer que o vejades,
dizede-lhi que comigo albergastes,
por seu amor, e que me lh'enmentastes,
e nom tenha que o pouc'ajudades.
506
Pedro Amigo de Sevilha
Por Meu Amig', Amiga, Preguntar
- Por meu amig', amiga, preguntar-
-vos quer'eu ora, ca se foi daqui
mui meu sanhud'e nunca o ar vi,
se sabe já ca mi quer outro bem.
- Par Deus, amiga, sab', [e] o pesar
que hoj'el há nom é per outra rem.
- Amiga, pesa-mi de coraçom
porque o sabe, ca de o perder
hei mui gram med', e ide-lhi dizer
que lhi nom pês, ca nunca lh'en verrá
mal; e pois el souber esta razom,
sei eu que log'aqui migo será.
E dizede-lhi ca poder nom hei
de me partir, se me gram bem quiser,
que mi o nom queira, ca nom sei molher
que se del[e] possa partir per al,
senom per esto que m'end'eu farei:
nom fazer rem que mi tenham por mal.
E pois veer meu amigo, bem sei
que nunca pode per mi saber al.
-vos quer'eu ora, ca se foi daqui
mui meu sanhud'e nunca o ar vi,
se sabe já ca mi quer outro bem.
- Par Deus, amiga, sab', [e] o pesar
que hoj'el há nom é per outra rem.
- Amiga, pesa-mi de coraçom
porque o sabe, ca de o perder
hei mui gram med', e ide-lhi dizer
que lhi nom pês, ca nunca lh'en verrá
mal; e pois el souber esta razom,
sei eu que log'aqui migo será.
E dizede-lhi ca poder nom hei
de me partir, se me gram bem quiser,
que mi o nom queira, ca nom sei molher
que se del[e] possa partir per al,
senom per esto que m'end'eu farei:
nom fazer rem que mi tenham por mal.
E pois veer meu amigo, bem sei
que nunca pode per mi saber al.
694
Pedro Amigo de Sevilha
Amiga, Voss'amigo Vi Falar
- Amiga, voss'amigo vi falar
hoje com outra, mais nom sei em qual
razom falavam, assi Deus m'empar,
nem se falavam por bem, se por mal.
- Amiga, fale com quem x'el quiser,
enquant'eu del, com'estou, estever;
ca 'ssi tenh'eu meu amigo em poder
que quantas donas eno mundo som
punhem ora de lhi fazer prazer,
ca mi o nom tolherám, se morte nom.
- Amiga, med'hei de prenderdes i
pesar, ca já m'eu vi quem fez assi
e vós faredes pois: em voss'amor
vos esforçades tanto [e]no seu,
[qu]e vós vos acharedes en peior
ca vós cuidades, e digo-vo-l'eu.
- Amiga, nom, ca mi quer mui gram bem
e sei que tenh'e[m] el e el que tem
em mim, ca nunca nos partirám já,
senom per morte nos podem partir;
e, pois eu esto sei, u al nom há,
mando-me-lh'eu falar com quantas vir.
- Com voss'esforç', amiga, pavor hei
de perderdes voss'amigo, ca sei,
per bõa fé, outras donas que ham
falad'em como vo-lo tolherám.
- Amiga, nom, ca o poder nom é
seu nem delas, mais meu, per bõa fé.
hoje com outra, mais nom sei em qual
razom falavam, assi Deus m'empar,
nem se falavam por bem, se por mal.
- Amiga, fale com quem x'el quiser,
enquant'eu del, com'estou, estever;
ca 'ssi tenh'eu meu amigo em poder
que quantas donas eno mundo som
punhem ora de lhi fazer prazer,
ca mi o nom tolherám, se morte nom.
- Amiga, med'hei de prenderdes i
pesar, ca já m'eu vi quem fez assi
e vós faredes pois: em voss'amor
vos esforçades tanto [e]no seu,
[qu]e vós vos acharedes en peior
ca vós cuidades, e digo-vo-l'eu.
- Amiga, nom, ca mi quer mui gram bem
e sei que tenh'e[m] el e el que tem
em mim, ca nunca nos partirám já,
senom per morte nos podem partir;
e, pois eu esto sei, u al nom há,
mando-me-lh'eu falar com quantas vir.
- Com voss'esforç', amiga, pavor hei
de perderdes voss'amigo, ca sei,
per bõa fé, outras donas que ham
falad'em como vo-lo tolherám.
- Amiga, nom, ca o poder nom é
seu nem delas, mais meu, per bõa fé.
732
Pedro Amigo de Sevilha
Nom Sei No Mundo Outro Homem Tam Coitado
Nom sei no mundo outro homem tam coitado
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
665
Pedro Amigo de Sevilha
Par Deus, Amiga, Podedes Saber
- Par Deus, amiga, podedes saber
como podesse mandad'enviar
a meu amigo, que nom há poder
de falar mig', e morr'en com pesar?
E bem vos digo, se el morr'assi,
que nom viverei [já mais] des ali.
- Amiga, sei [eu] que nom pod'haver
meu amig'arte de migo falar,
e houv'eu art'e figi-lhe fazer
por outra dona um mui bom cantar;
e, pois por aquela dona trobou,
cada [que] quis, sempre migo falou.
- O meu amigo nom é trobador,
pero tam grand'é o bem que m'el quer
que filhará outra entendedor
e trobará, pois que lho eu disser;
mais, amiga, per quen'o saberá
que lho eu mando ou quem lho dirá?
- Eu, amiga, o farei sabedor
que tanto que el um cantar fezer
por outra dona, e pois por seu for,
que falará vosco quando quiser;
mais há mester de lho fazer el bem
creent', e vós nom o ceardes en.
- Amiga, per ceos é quant'eu hei
de mal, mais nunca o já cearei.
- Mester vos é, ca vo-lo entenderám,
se o ceardes, [e] guardar-vos-am.
como podesse mandad'enviar
a meu amigo, que nom há poder
de falar mig', e morr'en com pesar?
E bem vos digo, se el morr'assi,
que nom viverei [já mais] des ali.
- Amiga, sei [eu] que nom pod'haver
meu amig'arte de migo falar,
e houv'eu art'e figi-lhe fazer
por outra dona um mui bom cantar;
e, pois por aquela dona trobou,
cada [que] quis, sempre migo falou.
- O meu amigo nom é trobador,
pero tam grand'é o bem que m'el quer
que filhará outra entendedor
e trobará, pois que lho eu disser;
mais, amiga, per quen'o saberá
que lho eu mando ou quem lho dirá?
- Eu, amiga, o farei sabedor
que tanto que el um cantar fezer
por outra dona, e pois por seu for,
que falará vosco quando quiser;
mais há mester de lho fazer el bem
creent', e vós nom o ceardes en.
- Amiga, per ceos é quant'eu hei
de mal, mais nunca o já cearei.
- Mester vos é, ca vo-lo entenderám,
se o ceardes, [e] guardar-vos-am.
717
Paio Gomes Charinho
Voss'amigo Que Vos Sempre Serviu
- Voss'amigo que vos sempre serviu,
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.
- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.
- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.
- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.
- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
754
Lourenço
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
591