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Poemas neste tema

Família

Martha Medeiros

Martha Medeiros

Vampiros

Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo. 

Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne. 

Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor. 

Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
1 095
Ruy Belo

Ruy Belo

Prince Caspian

Quantas vezes subimos para ele se porventura é ele como a raiz da terra sequiosa?
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?

As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados

Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.

Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural

Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde

E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.

Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar

Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis

Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim

Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
  

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000

1 349
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bem sei que tudo é natural

Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...

Boa noite e merda!...
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)

Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar

Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.

Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)

O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebezinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.

Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
1 443
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IN THE STREET

I pass before the windows lit
        With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
        The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.

And I feel cold and feel alone,
        Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
        As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.

If l were born not to aspire
        Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
        Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;

Could I no more aspire than these,
        Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
        Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.

But oh! I have within my heart
        Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
        An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.

I, the eternally excluded
        From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
        The soul that gave it birth ­-
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.

And cold before the normal, cold
        And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
        That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.

How good after dinner to chat
        And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
        An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.

A home, a rest, a child, a wife ­-
        None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
        That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.

Some in some theatre are away
        Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
        That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.

A cosiness these homes must steep
        In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
        ......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?

Oh joy! oh height of happiness!
        To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
        By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.

I weep sad tears - oh, not to live
        As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
        Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.

Sometimes I dream that I might sit
        By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
        In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.

Sometimes I dream one of these homes
        Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
        Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.

But as the thought of such a glad
        Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
        As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.

I dread to think of a life sweet
        By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
        And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.

So always incompatible
        And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
        That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.

And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
        Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.

I pass. The windows are behind,
        And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
        I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
1 576
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Com as malas feitas e tudo a bordo

Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.

Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.

Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.

A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...

E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!

Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...

Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).

Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...

Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando

IV

Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
1 664
Charles Olson

Charles Olson

Maximus para Gloucester, Carta 27 [retida]

Eu retorno a tal geografia,
a terra descendo à esquerda
onde meu pai atirava seu golfe ronhoso
e o resto de nós jogava beisebol
noite de verão adentro até haver mosca
nenhuma à vista e voltávamos para casa
em nossas várias piazzas onde mulheres
sibilavam

À esquerda a terra descia até a cidade,
à direita descia até o mar

Eu era tão jovem minha primeira memória
é de uma tenda armada para alimentar com lagostas
membros de uma convenção da Rexall, e meu pai,
piadista, saía da tenda rugindo
com uma faca de pão entre os dentes para cuidar
do farmacêutico que lhe disseram havia cantado
minha mãe, ela gargalhando, tão segura, redonda
como seu rosto, Hines rosácea e maçã,
sob um chapéu armado das mulheres de então

Isto não é adição nua
de novidade em forma abstrata, isto

não é tumulto ou as formas
de tais eventos, isto,

Gregos, é o término
da batalha

....................É a imposição
de todas aquelas ascendências passadas, os antepassados

meus, a geração daqueles fatos
que são minhas palavras, provêm

de tudo o que não sou mais, contudo sou,
o movimento lento de leste a oeste

de mais do que eu sou

Não há ordem estritamente pessoal
para a minha herança.

....................Grego nenhum será capaz
de discriminar meu corpo.

....................Um americano
é um complexo de ocasiões,
elas mesmas uma geometria
de natureza espacial.

....................Eu tenho esta noção
de que sou um
com minha pele

Mais isto - mais isto:
que eternamente a geografia
que sobre mim se debruça
eu ponho-me a coagir
retroativo a coagir Gloucester
a render-se, a
mudar

....................Pólis
é isto



tradução de Ricardo Domeneck



Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]


I come back to the geography of it,
the land falling off to the left
where my father shot his scabby golf
and the rest of us played baseball
into the summer darkness until no flies
could be seen and we came home
to our various piazzas where the women
buzzed

To the left the land fell to the city,
to the right, it fell to the sea

I was so young my first memory
is of a tent spread to feed lobsters
to Rexall conventioneers, and my father,
a man for kicks, came out of the tent roaring
with a bread-knife in his teeth to take care of
the druggist they"d told him had made a pass at
my mother, she laughing, so sure, as round
as her face, Hines pink and apple,
under one of those frame hats women then


This, is no bare incoming
of novel abstract form, this

is no welter or the forms
of those events, this,

Greeks, is the stopping
of the battle

....................It is the imposing
of all those antecedent predecessions, the precessions

of me, the generation of those facts
which are my words, it is coming

from all that I no longer am, yet am,
the slow westward motion of

more than I am


There is no strict personal order
for my inheritance.


........................No Greek will be able
to discriminate my body.

....................An American
is a complex of occasions,
themselves a geometry
of spatial nature.


....................I have this sense,
that I am one
with my skin

....................Plus this-plus this:
that forever the geography
which leans in
on me I compell
backwards I compell Gloucester
to yield, to
change

....................Polis
is this


1 122
Kenneth Koch

Kenneth Koch

Um trem pode esconder outro

Um trem pode esconder outro
(sinal num cruzamento de trem no Quênia)
Num poema uma linha pode esconder outra linha,
Como num cruzamento, um trem pode esconder outro trem
Isto é, se você está esperando para atravessar
Os trilhos, espere ao menos um momento depois que
O primeiro trem tiver partido. Também ao ler
Espere até você ter lido a linha seguinte –
Só então é seguro prosseguir a leitura.
Numa família uma irmã pode ocultar outra,
Então, quando você estiver paquerando uma delas, é melhor ter todas à vista
Caso contrário, ao descobrir uma você pode já estar amando outra
Se você é mulher, um pai ou um irmão podem esconder
O homem que você esperou para amar
Assim, sempre em frente a uma coisa, a outra
Como as palavras à frente dos objetos, sentimentos e idéias.
Um desejo pode esconder outro. E a reputação de alguém
Pode esconder a reputação de outro. Um cão pode ocultar
Outro num gramado, e se você consegue fugir do primeiro não necessariamente está a salvo
Um lilás pode esconder outro e então vários lilases e na Via Ápia uma sepultura
Pode esconder uma quantidade de outras sepulturas. No amor, uma censura pode esconder outra,
Uma pequena queixa pode esconder outra enorme.
Uma injustiça pode esconder outra – um colono pode esconder outro
Um uniforme vermelho gritante, outro e, outro, uma coluna inteira. Um banho pode apagar outro banho
Como quando depois de tomar banho você sai na chuva
Uma idéia pode esconder outra: A vida é simples
Esconder a vida é incrivelmente complexo, como na prosa de Gertrude Stein
Uma linha esconde outra e é outra ao mesmo tempo. E no laboratório
Uma invenção pode esconder outra invenção,
Uma noite pode esconder outra, uma sombra, um ninho de sombras
Um vermelho escuro, ou um azul, ou um púrpura – esta é uma pintura
Feita depois de Matisse. Alguém espera nos trilhos até que eles tenham passado,
Esses duplos escondidos ou, às vezes, parecidos. Um gêmeo idêntico
Pode esconder o outro. E pode mesmo haver mais ali! O obstetra
Olha para o Valley of the Var. Eu e minha mulher vivíamos ali, mas
Uma vida escondeu outra vida. Então ela se foi e eu fiquei.
Uma mãe agitada esconde a filha desengonçada. A filha por sua vez esconde
Sua própria filha agitada. Elas estão em
Uma estação de trem e a filha está carregando uma bolsa
Tão maior que a bolsa da mãe que acaba por escondê-la com êxito.
Ao se oferecer para carregar a bolsa da filha, vê-se confrontando pela mãe
E obrigado a carregar sua bolsa também. Alguém que pede carona
Pode esconder outra pessoa de propósito e uma xícara de café
Outra até que a pessoa fique ultra agitada. Um amor pode esconder outro amor ou o mesmo amor
Como quando “eu te amo” soa muito falso e encontra-se um
Amor melhor à espreita, como quando “estou cheio de dúvidas”
Esconde “tenho certeza de apenas uma coisa e é isso”
E também um sonho pode esconder outro como todos sabem, sempre. No Jardim do Éden
Adão e Eva podem esconder os verdadeiros Adão e Eva.
Jerusalém pode esconder outra Jerusalém.
Quando você chega a algo, pare para deixá-lo passar
Só então você poderá ver o que mais há ali. Em casa, não importa onde,
Caminhos internos apresentam perigo também; uma memória
Certamente esconde outra, de que fala aquela memória,
Como uma sucessão eterna para trás de entidades contempladas. Ao terminar de ler Uma viagem sentimental procure ao seu redor o Tristam Shandy, e veja se ele
Ainda está na estante, ele deve estar, e estará ainda mais forte
E mais denso e, conseqüentemente, tão escondido como Santa Maria Maggiore
Deve estar escondida por igrejas similares em Roma. Uma calçada
Pode esconder outra, como quando você adormece ali, e
Uma canção pode esconder outra canção: por exemplo “Stardust”
Esconde “What have they done to the Rain?” Ou vice-versa. Uma batida no andar de cima
Esconde o batuque da percussão. Um amigo pode esconder o outro, você se senta
[ao pé de uma árvore
Com um amigo e quando você se levanta para ir embora encontra outro
Com quem você teria preferido passar as horas conversando. Um professor,
Um médico, um êxtase, uma doença, uma mulher, um homem
Podem esconder outro. Pare para deixar o primeiro passar.
Você pensa Agora é seguro passar e então você é atropelado pelo seguinte.
Pode ser importante
Ter esperado pelo menos um momento para ver o que já estava ali.
(tradução de Marília Garcia,
publicada originalmente na revistaInimigo Rumor n. 20)
1 448
Pierre Albert-Birot

Pierre Albert-Birot

Décimo-Terceiro Poema

Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
744
Jacques Brel

Jacques Brel

O último jantar

Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
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