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Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Ezra Pound

Ezra Pound

Canto I

And then went down to the ship,

Set keel to breakers, forth on the godly sea, and

We set up mast and sail on tha swart ship,

Bore sheep aboard her, and our bodies also

Heavy with weeping, so winds from sternward

Bore us out onward with bellying canvas,

Circes this craft, the trim-coifed goddess.

Then sat we amidships, wind jamming the tiller,

Thus with stretched sail, we went over sea till days end.

Sun to his slumber, shadows oer all the ocean,

Came we then to the bounds of deepest water,

To the Kimmerian lands, and peopled cities

Covered with close-webbed mist, unpierced ever

With glitter of sun-rays

Nor with stars stretched, nor looking back from heaven

Swartest night stretched over wretched men there.

The ocean flowing backward, came we then to the place

Aforesaid by Circe.

Here did they rites, Perimedes and Eurylochus,

And drawing sword from my hip

I dug the ell-square pitkin;

Poured we libations unto each the dead,

First mead and then sweet wine, water mixed with white flour.

Then prayed I many a prayer to the sickly deaths-head;

As set in Ithaca, sterile bulls of the best

For sacrifice, heaping the pyre with goods,

A sheep to Tiresias only, black and a bell-sheep.

Dark blood flowed in the fosse,

Souls out of Erebus, cadaverous dead, of brides

Of youths and at the old who had borne much;

Souls stained with recent tears, girls tender,

Men many, mauled with bronze lance heads,

Battle spoil, bearing yet dreory arms,

These many crowded about me; with shouting,

Pallor upon me, cried to my men for more beasts;

Slaughtered the heards, sheep slain of bronze;

Poured ointment, cried to the gods,

To Pluto the strong, and praised Proserpine;

Unsheathed the narrow sword,

I sat to keep off the impetuous impotent dead,

Till I should hear Tiresias.

But first Elpenor came, our friend Elpenor,

Unburied, cast on the wide earth,

Limbs that we left in the house of Circe,

Unwept, unwrapped in sepulchre, since toils urged other.

Pitiful spirit. And I cried in hurried speech:

"Elpenor, how art thou come to this dark coast?

Camst thou afoot, outstripping seamen?"

And he in heavy speech:

"Ill fate and abundant wine. I slept in Circes ingle.

Going down the long ladder unguarded,

I fell against the buttress,

Shattered the nape-nerve, the soul sought Avernus.

But thou, O King, I bid remember me, unwept, unburied,

Heap up mine arms, be tomb by sea-bord, and inscribed:

A man of no fortune, and with a name to come.

And set my oar up, that I swung mid fellows."

And Anticlea came, whom I beat off, and then Tiresias Theban,

Holding his golden wand, knew me, and spoke first:

"A second time? why? man of ill star,

Facing the sunless dead and this joyless region?

Stand from the fosse, leave me my bloody bever

For soothsay."

And I stepped back,

And he stong with the blood, said then: "Odysseus

Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas,

Lose all companions." And then Anticlea came.

Lie quiet Divus. I mean, that is Andreas Divus,

In officina Wecheli, 1538, out of Homer.

And he sailed, by Sirens and thence outward and away

And unto Circe.

Venerandam,

In the Creatans phrase, with the golden crown, Aphrodite,

Cypri munimenta sortita est, mirthful, orichalchi, with golden

Girdles and breast bands, thou with dark eyelids

Bearing the golden bough of Argicida. So that:

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Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Goliardos

A Xisto Bahia Filho
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.

Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre

ávido de sensualidade
mais que de saúde.

Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.

O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões

e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.

As formas pensam.

O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.

No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.

A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.

Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.

Il confond trop
LIdéal avec le Réel.

Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."

Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.

O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.

O ranger dos bambus
me diz que neva.

Notas do poema Goliardos

Goliardos

Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.

A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.

......

Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.

Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".

"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"

"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.

À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"

Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.

De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.

"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40

De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.

"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.

Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:

"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"

Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar

O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.

De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.

Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :

" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".

Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
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Gil Vicente

Gil Vicente

Tanto que o Frade foi embarcado

Tanto que o Frade foi embarcado, veio üa Alcoviteira, per nome Brízida Vaz, a qual chegando à barca infernal, diz desta maneira:

BRÍZIDA Hou lá da barca, hou lá!
DIABO Quem chama?
BRÍZIDA Brízida Vaz.
DIABO E aguarda-me, rapaz?
Como nom vem ela já?
COMPANHEIRO Diz que nom há-de vir cá
sem Joana#de#Valdês.
DIABO Entrai vós, e remarês.
BRÍZIDA Nom quero eu entrar lá.

DIABO Que sabroso arrecear!
BRÍZIDA No é essa barca que eu cato.
DIABO E trazês vós muito fato?
BRÍZIDA O que me convém levar.
Día. Que é o que havês d'embarcar?
BRÍZIDA Seiscentos virgos postiços
e três arcas de feitiços
que nom podem mais levar.

Três almários de mentir,
e cinco cofres de enlheos,
e alguns furtos alheos,
assi em jóias de vestir,
guarda-roupa d'encobrir,
enfim - casa movediça;
um estrado de cortiça
com dous coxins d'encobrir.

A mor cárrega que é:
essas moças que vendia.
Daquestra mercadoria
trago eu muita, à bofé!
DIABO Ora ponde aqui o pé...
BRÍZIDA Hui! E eu vou pera o Paraíso!
DIABO E quem te dixe a ti isso?
BRÍZIDA Lá hei-de ir desta maré.

Eu sô üa mártela tal!...
Açoutes tenho levados
e tormentos suportados
que ninguém me foi igual.
Se fosse ò fogo infernal,
lá iria todo o mundo!
A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que é mais real.

chegando à Barca da Glória diz ao Anjo:

Barqueiro mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz.
ANJO: Eu não sei quem te cá traz...
BRÍZIDA Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,

a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.

Santa#Úrsula nom converteu
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu
que nenhüa se perdeu.
E prouve Àquele do Céu
que todas acharam dono.
Cuidais que dormia eu sono?
Nem ponto se me perdeu!

ANJO Ora vai lá embarcar,
não estês importunando.
BRÍZIDA Pois estou-vos eu contando
o porque me haveis de levar.
ANJO Não cures de importunar,
que não podes vir aqui.
BRÍZIDA E que má-hora eu servi,
pois não me há-de aproveitar!...

torna-se Brízida Vaz à Barca do Inferno, dizendo:

BRÍZIDA Hou barqueiros da má-hora,
que é da prancha, que eis me vou?
E já há muito que aqui estou,
e pareço mal cá de fora.
DIABO Ora entrai, minha senhora,
e sereis bem recebida;
se vivestes santa vida,
vós o sentirês agora...

tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel#dos#danados, diz:

JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro!
DIABO Oh! Que má-hora vieste!...
JUDEU Cuj'é esta barca que preste?
DIABO Esta barca é do barqueiro.
JUDEU. Passai-me por meu dinheiro.
DIABO E o bode há cá de vir?
JUDEU Pois também o bode há-de vir.
DIABO Que escusado passageiro!

JUDEU Sem bode, como irei lá?
DIABO Nem eu nom passo cabrões.
JUDEU Eis aqui quatro tostões
e mais se vos pagará.
Por vida do Semifará
que me passeis o cabrão!
Querês mais outro tostão?
DIABO Nem tu nom hás-de vir cá.

JUDEU Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIABO E o fidalgo, quem lhe deu...
JUDEU O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!

Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
Dize, filho da cornuda!

PARVO Furtaste a chiba cabrão?
Parecês-me vós a mim
gafanhoto d'Almeirim
chacinado em um seirão.
DIABO Judeu, lá te passarão,
porque vão mais despejados.
PARVO E ele mijou nos finados
n'ergueja de São#Gião!

E comia a carne da panela
no dia de Nosso Senhor!
E aperta o salvador,
e mija na caravela!
DIABO Sus, sus! Demos à vela!
Vós, Judeu, irês à toa,
que sois mui ruim pessoa.
Levai o cabrão na trela!

vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando à barca do Inferno, com sua vara na mão, diz:

CORREGEDOR Hou da barca!
DIABO Que quereis?
CORREGEDOR Está aqui o senhor juiz?
DIABO Oh amador de perdiz.
Gentil cárrega trazeis!
CORREGEDOR No meu ar conhecereis
que nom é ela do meu jeito.
DIABO Como vai lá o direito?
CORREGEDOR Nestes feitos o vereis.

DIABO Ora, pois, entrai. Veremos
que diz i nesse papel...
CORREGEDOR E onde vai o batel?
DIABO No Inferno vos poeremos.
CORREGEDOR Como? À terra dos demos
há-de ir um corregedor?
DIABO Santo descorregedor,
embarcai, e remaremos!

Ora, entrai, pois que viestes!
CORREGEDOR Non#est#de#regulae#juris, não!
DIABO Ita, Ita! Dai cá a mão!
Remaremos um remo destes.
Fazei conta que nacestes
pera nosso companheiro.
- Que fazes tu, barzoneiro?
Faze-lhe essa prancha prestes!

CORREGEDOR Oh! Renego da viagem
e de quem me há-de levar!
Há 'qui meirinho do mar?
DIABO Não há tal costumagem.
CORREGEDOR Nom entendo esta barcagem,
nem hoc#non#potest#esse.
DIABO Se ora vos parecesse
que nom sei mais que linguagem...

Entrai, entrai, corregedor!
CORREGEDOR Hou! Videtis#qui#petatis -
Super#jure#magestatis
tem vosso mando vigor?
DIABO Quando éreis ouvidor
nonne#accepistis#rapina?
Pois ireis pela bolina
onde nossa mercê for...

Oh! Que isca esse papel
pera um fogo que eu sei!
CORREGEDOR Domine,#memento#mei!
DIABO Non#est#tempus, bacharel!
Imbarquemini in batel
quia#judicastis#malitia.
CORREGEDOR Semper#ego#justitia
fecit, e bem por nivel.

DIABO E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
CORREGEDOR Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som peccatus#meus,
peccavit#uxore#mea.
DIABO Et#vobis#quoque#cum#ea,
não temuistis#Deus.

A largo modo adquiristis
sanguinis#laboratorum
ignorantis#peccatorum.
Ut#quid#eos#non#audistis?
CORREGEDOR Vós, arrais, nonne#legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed#aliquid#tradidistis...

DIABO Ora entrai, nos negros fados!
Ireis ao lago dos cães
e vereis os escrivães
como estão tão prosperados.
CORREGEDOR E na terra#dos#danados
estão os Evangelistas?
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Gil Vicente

Gil Vicente

Fidalgo que chega com um Paje

O primeiro interlocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.

DIABO À barca, à barca, houlá!
que temos gentil maré!
- Ora venha o carro a ré!
COMPANHEIRO Feito, feito!
Bem está!
Vai tu muitieramá,
e atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
pera a gente que virá.

À barca, à barca, hu-u!
Asinha, que se quer ir!
Oh, que tempo de partir,
louvores a Berzebu!
- Ora, sus! que fazes tu?
Despeja todo esse leito!
COMPANHEIRO Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaixa aramá esse cu!

Faze aquela poja lesta
e alija aquela driça.
COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa.
Verga alta! Âncora a pique!
- Ó poderoso dom Anrique,
cá vindes vós?... Que cousa é esta?...

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida,
e há-de partir logo ess'ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço...
DIABO Porque a vedes lá de fora.

FIDALGO Porém, a que terra passais?
DIABO Pera o inferno, senhor.
FIDALGO Terra é bem sem-sabor.
DIABO Quê?... E também cá zombais?
FIDALGO E passageiros achais
pera tal habitação?
DIABO Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais...

FIDALGO Parece-te a ti assi!...
DIABO Em que esperas ter guarida?
FIDALGO Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO Quem reze sempre por ti?! ..
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?!...

Embarca - ou embarcai...
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.

Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.

FIDALGO A estoutra barca me vou.
Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!...
(Pardeus, aviado estou!
Cant'a isto é já pior...)
Oue jericocins, salvanor!
Cuidam cá que são#eu#grou?

ANJO Que quereis?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo#de#solar,
é bem que me recolhais.

ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria...
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

DIABO À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!

Diz, cantando:

Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes.

FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.

Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.
DIABO Embarque vossa doçura,
que cá nos entenderemos...
Tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos serviremos.

FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.
Dia, Que se quer matar por ti?!...
FIDALGO Isto bem certo o sei eu.
DIABO Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!...

FIDALGO Como pod'rá isso ser,
que m'escrevia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias,
e tu... morto de prazer!...
FIDALGO Pera que é escarnecer,
quem nom havia mais no bem?
DIABO Assi vivas tu, amém,
como te tinha querer!

FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço...
DIABO Pois estando tu expirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
FIDALGO Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
DIABO E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!

Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.
FIDALGO Cant'a ela, bem chorou!
DIABO Nom há i choro de alegria?..
FIDALGO E as lástimas que dezia?
DIABO Sua mãe lhas ensinou...

Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé...
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

Diz o Diabo ao Moço da cadeira:

DIABO Nom entras cá! Vai-te d'i!
A cadeira é cá sobeja;
cousa que esteve na igreja
nom se há-de embarcar aqui.
Cá lha darão de marfi,
marchetada de dolores,
com tais modos de lavores,
que estará fora de si...

À barca, à barca, boa gente,
que queremos dar à vela!
Chegar ela! Chegar ela!
Muitos e de boamente!
Oh! que barca tão valente!

Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:

ONZENEIRO Pera onde caminhais?
DIABO Oh! que má-hora venhais,
onzeneiro, meu parente!

Como tardastes vós tanto?
ONZENEIRO Mais quisera eu lá tardar...
Na safra do apanhar
me deu Saturno quebranto.
DIABO Ora mui muito m'espanto
nom vos livrar o dinheiro!...
ONZENEIRO Solamente para o barqueiro
nom me leixaram nem tanto...

DIABO Ora entrai, entrai aqui!
ONZENEIRO Não hei eu i d'embarcar!
DIABO Oh! que gentil recear,
e que cousas pera mi!...
ONZENEIRO Ainda agora faleci,
leixa-me buscar batel!
DIABO Pesar de Jam#Pimentel!
Porque não irás aqui?..
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SANTO ANTÓNIO

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia –
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração –
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que – aos peixes ou não – a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real por mal ou bem,
Que coisas, ou não-coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até já que te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu –
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António –
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?


9-6-1935.
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Gil Vicente

Gil Vicente

Auto da Feira

A obra seguinte é chamada Auto da Feira. Foi representada ao mui excelente Príncipe El Rei Dom João, o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre leal cidade de Lisboa, às matinas do Natal, na era do Senhor de 1527.

Figuras:

Mercúrio, Tempo, Serafim, Diabo, Roma, Amâncio Vaz, Diniz Lourenço, Branca Anes, Marta Dias, Justina, Leonarda, Teodora, Moneca, Giralda, Juliana, Tesaura, Merenciana, Doroteia, Gilberto, Nabor, Dionísio, Vicente, Mateus.


Entra primeiramente Mercúrio, e posto em seu assento, diz:

MERCÚRIO

Pera que me conheçais,
e entendais meus partidos,
todos quantos aqui estais
afinai bem os sentidos,
mais que nunca, muito mais.
Eu sou estrela do céu,
e depois vos direi qual,
e quem me cá descendeu
e a quê, e todo o al
que me a mi aconteceu.

E porque a astronomia
anda agora mui maneira,
mal sabida e lisonjeira,
eu, à honra deste dia,
vos direi a verdadeira.
Muitos presumem saber
as operações dos céus,
e que morte hão-de morrer,
e o que há-de acontecer
aos anjos e a Deus,

e ao mundo e ao diabo.
E que o sabem têm por fé;
e eles todos em cabo
terão um cão polo rabo,
e não sabem cujo é.
E cada um sabe o que monta
nas estrelas que olhou;
e ao moço que mandou,
não lhe sabe tomar conta
d' um vintém que lh' entregou.

Porém, quero-vos pregar,
sem mentiras nem cautelas,
o que per curso d' estrelas
se poderá adivinhar,
pois no céu nasci com elas.
E se Francisco#de#Melo,
que sabe ciência avondo,
diz que o céu é redondo,
e o sol sobre amarelo;
diz verdade, não lh' o escondo.

Que se o céu fora quadrado,
não fora redondo, senhor.
E se o sol fora azulado,
d' azul fora a sua cor
e não fora assi dourado.
E porque está governado
per seus cursos naturais,
neste mundo onde morais
nenhum homem aleijado,
se for manco e corcovado,
não corre por isso mais.

E assi os corpos celestes
vos trazem tão compassados,
que todos quantos nascestes,
se nascestes e crescestes,
primeiro fostes gerados.
E que fazem os poderes
dos sinos resplandecentes?
Que fazem que todalas gentes
ou são homens ou mulheres,
ou crianças inocentes.

E porque Saturno a nenhum
influi vida contina,
a morte de cada um
é aquela de que se fina,
e não d' outro mal nenhum.
Outrossim o terremoto,
que às vezes causa perigo,
faz fazer ao morto voto
de não bulir mais consigo,
cantá de seu próprio moto.

E a claridade encendida
dos raios piramidais
causa sempre nesta vida
que quando a vista é perdida,
os olhos são por demais.

E que mais quereis saber
desses temporais e disso,
senão que, se quer chover,
está o céu pera isso,
e a terra pera a receber?
a lüa tem este jeito:
vê que clérigos e frades
já não têm ao Céu respeito,
mingua-lhes as santidades,
e cresce-lhes o proveito.

Et#quantum#ad#stella#Mars, speculum belli, et Venus, Regina musicae, secundum Joanes#Monteregio:

Mars, planeta dos soldados,
faz nas guerras conteúdas,
em que os reis são ocupados,
que morrem de homens barbados
mais que mulheres barbudas.
E quando Vénus declina,
e retrogada em seu cargo,
não se paga o desembargo
no dia que s' ele assina
mas antes por tempo largo.

[IEt#quantum#ad#Taurus#et#Aries, Cancer Capricornius positus in firmamento coeli:

E quanto ao Touro e Carneiro,
são tão maus d' haver agora
que quando os põe no madeiro,
chama o povo ao carniceiro
Senhor, c' os barretes fora.
Depois do povo agravado,
que já mais fazer não pode,
invoca o signo do Bode,
Capricórnio chamado,
porque Libra não lhe acode.

E se este não hás tomado,
nem Touro, Carneiro assi,
vai-te ao sino do Pescado,
chamado Piscis em latim,
e serás remedeado:
e se Piscis não tem ensejo,
porque pode não no haver,
vai-te ao signo do Cranguejo,
Signum#Cancer, Ribatejo,
que está ali a quem no quer.

Sequuntur#mirabilia#Jupiter#Rex#regum, Dominus dominantium.

Júpiter, rei das estrelas,
deus das pedras preciosas,
mui mais precioso qu' elas
pintor de todalas rosas,
rosa mais fermosa delas;
é tão alto seu reinado ,
influência e senhoria,
que faz percurso ordenado
que tanto vale um cruzado
de noite como de dia.

E faz que üa nau veleira
mui forte, muito segura,
que inda que o mar não queira,
e seja de cedro a madeira,
não preste sem pregadura.

Et#quantum#ad#duodecim#domus#Zodiacus, sequitur declaratio operationem suam.

Ao Zodíaco acharão
doze moradas palhaças,
onde os sinos estão
no Inverno e no Verão,
dando a Deus infindas graças.
Escutai bem, não durmais,
sabereis por conjeituras
que os corpos celestiais
não são menos nem são mais
que suas mesmas granduras.

E os que se desvelaram,
se das estrelas souberam,
foi que a estrela que olharam,
está onde a puseram,
e faz o que lhe mandaram.
E cuidam que Ursa#Maior,
Ursa Menor e o Dragão,
e Lepus, que têm paixão,
porque um corregedor
manda enforcar um ladrão.

Não, porque as constelações
não alcançam mais poderes,
que fazer que os ladrões
sejam filhos de mulheres,
e os mesmos pais varões.
E aqui quero acabar.
E pois vos disse atéqui
o que se pode alcançar,
quero-vos dizer de mi,
e o que venho buscar.

Eu são Mercúrio, senhor
de muitas sabedorias,
e das moedas reitor,
e deus das mercadorias:
nestas tenho meu vigor.
Todos tratos e contratos,
valias, preços, avenças,
carestias e baratos,
ministro suas pertenças,
até às compras dos sapatos.

E porquanto nunca vi
na corte de Portugal
feira em dia de Natal,
ordeno üa feira aqui
pera todos em geral.
Faço mercador-mor
ao Tempo, que aqui vem;
e assi o hei por bem.
E não falte comprador.
Porque o tempo tudo tem.

Entra o Tempo, e arma üa tenda com muitas cousas e diz:

TEMPO

Em nome daquele que rege nas praças
d'Anvers e Medina as feiras que têm,
começa-se a feira chamada das Graças,
à honra da Virgem parida em Belém.
Quem quiser feirar,
venha trocar, qu' eu não hei-de vender;
todas virtudes qu' houverem mister
nesta minha tenda as podem achar,
a troco de cousas que hão-de trazer.

Todos remédios, especialmente
contra fortunas ou adversidades
aqui se vendem na tenda presente;
conselhos maduros de sãs qualidades
aqui se acharão.
A mercadorias d' amor a rezão
justiça e verdade, a paz#desejada,
porque a Cristandade é toda gastada
só em serviço da opinião.

Aqui achareis o temor de Deus,
que é já perdido em todos Estados;
aqui achareis as chaves dos Céus,
muito bem guarnecidas em cordões dourados.
E mais achareis
soma de contas, todas de contar
quão poucos e poucos haveis de lograr
as feiras mundanas; e mais contareis
as contas sem conto qu' estão por contar.
E porque as virtu
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