Poemas neste tema
Felicidade e Alegria
Herberto Helder
Tríptico - Iii
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
821
Matilde Campilho
Veleiro
Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 598
Fernando Fitas
Havia um barco
Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
668
Matilde Campilho
Estação do Trem
Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
1 395
Matilde Campilho
Chapéu de Palha
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
784
Nuno Fernandes Torneol
Ai Madr', o Meu Amigo Que Nom Vi
Ai madr', o meu amigo que nom vi
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
622
Paio Gomes Charinho
Disserom-M'hoj', Ai Amiga, Que Nom
Disserom-m'hoj', ai amiga, que nom
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
o que do mar meu amigo sacou,
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
o que do mar meu amigo sacou,
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
476
Lourenço
Amiga, Quero-M'ora Cousecer
Amiga, quero-m'ora cousecer
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
658
Juião Bolseiro
Ai Meu Amigo, Meu, Per Bõa Fé,
Ai meu amigo, meu, per bõa fé,
e nom doutra, per bõa fé, mais meu,
rog'eu a Deus, que mi vos hoje deu,
que vos faça tam ledo seer migo
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Bom dia vejo, pois vos vej'aqui,
meu amigo, meu, a la fé, sem al;
faça-vos Deus ledo, que pod'e val,
seer migo, meu bem e meu desejo,
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Meu gasalhado, se mi valha Deus,
e amigo meu e meu coraçom,
faça-vos Deus em algũa sazom
seer migo tam led'e tam pagado
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
e nom doutra, per bõa fé, mais meu,
rog'eu a Deus, que mi vos hoje deu,
que vos faça tam ledo seer migo
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Bom dia vejo, pois vos vej'aqui,
meu amigo, meu, a la fé, sem al;
faça-vos Deus ledo, que pod'e val,
seer migo, meu bem e meu desejo,
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Meu gasalhado, se mi valha Deus,
e amigo meu e meu coraçom,
faça-vos Deus em algũa sazom
seer migo tam led'e tam pagado
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
583
Juião Bolseiro
Da Noite D'eire Poderam Fazer
Da noite d'eire poderam fazer
grandes três noites, segundo meu sem,
mais na d'hoje mi vẽo muito bem,
ca vẽo meu amigo,
e, ante que lh'ouvisse dizer rem,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E pois m'eu eire senlheira deitei,
a noite foi e vẽo e durou,
mais a d'hoje pouco a semelhou,
ca vẽo meu amigo,
e, tanto que mi a falar começou,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E comecei eu eire de cuidar
[e] começou a noite de crecer,
maila d'hoje nom quis assi fazer,
ca vẽo meu amigo,
e, faland'eu com el a gram prazer,
vẽo a luz e foi logo comigo.
grandes três noites, segundo meu sem,
mais na d'hoje mi vẽo muito bem,
ca vẽo meu amigo,
e, ante que lh'ouvisse dizer rem,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E pois m'eu eire senlheira deitei,
a noite foi e vẽo e durou,
mais a d'hoje pouco a semelhou,
ca vẽo meu amigo,
e, tanto que mi a falar começou,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E comecei eu eire de cuidar
[e] começou a noite de crecer,
maila d'hoje nom quis assi fazer,
ca vẽo meu amigo,
e, faland'eu com el a gram prazer,
vẽo a luz e foi logo comigo.
612
Juião Bolseiro
Fui Hoj'eu, Madre, Veer Meu Amigo
Fui hoj'eu, madre, veer meu amigo,
que envio[u] muito rogar por en,
porque sei eu ca mi quer mui gram bem;
mais vedes, madre, pois m'el vio consigo,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
Quand'eu cheguei, estava el chorando
e nom folgava o seu coraçom,
cuidand'em mi, se iria, se nom,
mais, pois m'el viu, u m'el estava asperando,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
E, pois Deus quis que eu fosse u m'el visse,
diss'el, mia madre, como vos direi:
"Vej'eu viir quanto bem no mund'hei";
e vedes, madre, quand'el esto disse,
foi tam ledo que, des que eu naci,
nunca tam led'home com molher vi.
que envio[u] muito rogar por en,
porque sei eu ca mi quer mui gram bem;
mais vedes, madre, pois m'el vio consigo,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
Quand'eu cheguei, estava el chorando
e nom folgava o seu coraçom,
cuidand'em mi, se iria, se nom,
mais, pois m'el viu, u m'el estava asperando,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
E, pois Deus quis que eu fosse u m'el visse,
diss'el, mia madre, como vos direi:
"Vej'eu viir quanto bem no mund'hei";
e vedes, madre, quand'el esto disse,
foi tam ledo que, des que eu naci,
nunca tam led'home com molher vi.
693
João Soares Coelho
Fremosas, a Deus Louvado, Com Tam Muito Bem Como Hoj'hei
Fremosas, a Deus louvado, com tam muito bem como hoj'hei,
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
495
João Soares Coelho
Amigas, Por Nostro Senhor
Amigas, por Nostro Senhor,
andade ledas migo,
ca puj'antre mia madr'amor
e antr'o meu amigo
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei [d]'andar leda
e andade migo ledas.
Pero mia madre nom foss'i,
mandou-mi que o visse;
nunca tam bom mand[ad]'oí
come quando mi o disse
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
E mandou-o migo falar
(vedes que bem mi há feito)
e venho-mi-vos en loar,
ca puji já assi o preito
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
andade ledas migo,
ca puj'antre mia madr'amor
e antr'o meu amigo
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei [d]'andar leda
e andade migo ledas.
Pero mia madre nom foss'i,
mandou-mi que o visse;
nunca tam bom mand[ad]'oí
come quando mi o disse
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
E mandou-o migo falar
(vedes que bem mi há feito)
e venho-mi-vos en loar,
ca puji já assi o preito
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
619
João Garcia de Guilhade
Quer'eu, Amigas, o Mundo Loar
Quer'eu, amigas, o mundo loar
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
606
João Garcia de Guilhade
Fostes, Amig', Hoje Vencer
Fostes, amig', hoje vencer
na voda, em bafordar bem,
tôdolos outros e praz-m'en;
ar direi-vos outro prazer:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E, poilos vencedes assi,
nunca deviam a lançar
vosc', amigo, nem bafordar;
ar falemos logo de mi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E muito mi praz do que sei
que vosso bom prez verdad'é,
meu amigo, e, per bõa fé,
outro gram prazer vos direi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
A tôdalas donas pesou
quando me virom sigo estar,
e punharom de s'afeitar,
mais praza-vos de como eu vou:
a leva do parecer da voda
per bõa fé, eu mi a levo toda.
na voda, em bafordar bem,
tôdolos outros e praz-m'en;
ar direi-vos outro prazer:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E, poilos vencedes assi,
nunca deviam a lançar
vosc', amigo, nem bafordar;
ar falemos logo de mi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E muito mi praz do que sei
que vosso bom prez verdad'é,
meu amigo, e, per bõa fé,
outro gram prazer vos direi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
A tôdalas donas pesou
quando me virom sigo estar,
e punharom de s'afeitar,
mais praza-vos de como eu vou:
a leva do parecer da voda
per bõa fé, eu mi a levo toda.
620
João Airas de Santiago
Algum Bem Mi Deve Ced'a Fazer
Algum bem mi deve ced'a fazer
Deus, e fará-mi-o quando Lh'aprouguer:
sempr'ando led'e quem mi falar quer
em pesar, nom lho posso padecer,
mais fuj'ant'el e nom lho quer'oir;
des i ar hei gram sabor de guarir
com quem sei que quer falar em prazer.
Ca todos andam cuidando em haver
e outra rem nom querem cuidar já,
e morrem ced'e fica tod'acá;
mais esto migo nom podem põer
- que trob'e cant'e cuido sempr'em bem,
e tenh'amiga que faz mui bom sem,
[e] pod'o tempo passar em prazer.
Nostro Senhor, que há mui gram poder,
é sempre ledo no seu coraçom,
e som mui ledos quantos com El som;
por en faz mal, quant'é meu conhocer,
o que trist'é, que sempre cuida mal,
ca um pobre ledo mil tanto val
ca rico triste em que nom há prazer.
Deus, e fará-mi-o quando Lh'aprouguer:
sempr'ando led'e quem mi falar quer
em pesar, nom lho posso padecer,
mais fuj'ant'el e nom lho quer'oir;
des i ar hei gram sabor de guarir
com quem sei que quer falar em prazer.
Ca todos andam cuidando em haver
e outra rem nom querem cuidar já,
e morrem ced'e fica tod'acá;
mais esto migo nom podem põer
- que trob'e cant'e cuido sempr'em bem,
e tenh'amiga que faz mui bom sem,
[e] pod'o tempo passar em prazer.
Nostro Senhor, que há mui gram poder,
é sempre ledo no seu coraçom,
e som mui ledos quantos com El som;
por en faz mal, quant'é meu conhocer,
o que trist'é, que sempre cuida mal,
ca um pobre ledo mil tanto val
ca rico triste em que nom há prazer.
577
João Airas de Santiago
Que Mui Leda Que Eu Mia Madre Vi
Que mui leda que eu mia madre vi
quando se foi meu amigo daqui,
e eu nunca fui leda nem dormi,
amiga, depois que s'el foi daquém;
e ora já dizem-mi del que vem,
e mal grad'haja mia madre por en.
Ela foi [mui] leda, poilo viu ir,
e eu mui triste, poilo vi partir
de mi, ca nunca mais pudi dormir,
amiga, depois que s'el foi daquém;
e ora já dizem-mi del que vem
e mal grad'haja mia madre por en.
De[s] quando s'el foi daqui a [e]l- rei,
foi mia madre mui led[a], e[u] o sei,
[e] eu fui [mui] triste sempr'e chorei,
amiga, depois que s'el foi daquém;
e ora já dizem-mi del que vem
e mal grad'haja mia madre por en.
quando se foi meu amigo daqui,
e eu nunca fui leda nem dormi,
amiga, depois que s'el foi daquém;
e ora já dizem-mi del que vem,
e mal grad'haja mia madre por en.
Ela foi [mui] leda, poilo viu ir,
e eu mui triste, poilo vi partir
de mi, ca nunca mais pudi dormir,
amiga, depois que s'el foi daquém;
e ora já dizem-mi del que vem
e mal grad'haja mia madre por en.
De[s] quando s'el foi daqui a [e]l- rei,
foi mia madre mui led[a], e[u] o sei,
[e] eu fui [mui] triste sempr'e chorei,
amiga, depois que s'el foi daquém;
e ora já dizem-mi del que vem
e mal grad'haja mia madre por en.
569
D. Dinis
Amigo, Pois Vos Nom Vi
Amigo, pois vos nom vi,
nunca folguei nem dormi,
mais ora já des aqui
que vos vejo, folgarei
e verei prazer de mi,
pois vejo quanto bem hei.
Pois vos nom pudi veer,
jamais nom houvi lezer,
e, u vos Deus quis trager,
que vos vejo, folgarei
e verei de mim prazer,
pois vejo quanto bem hei.
Des que vos nom vi, de rem
nom vi prazer e o sem
perdi, mais, pois que mi avém
que vos vejo, folgarei
e verei todo meu bem,
pois vejo quanto bem hei.
De vos veer a mim praz
tanto que muito é assaz,
mais, u m'este bem Deus faz
que vos vejo, folgarei
e haverei gram solaz,
pois vejo quanto bem hei.
nunca folguei nem dormi,
mais ora já des aqui
que vos vejo, folgarei
e verei prazer de mi,
pois vejo quanto bem hei.
Pois vos nom pudi veer,
jamais nom houvi lezer,
e, u vos Deus quis trager,
que vos vejo, folgarei
e verei de mim prazer,
pois vejo quanto bem hei.
Des que vos nom vi, de rem
nom vi prazer e o sem
perdi, mais, pois que mi avém
que vos vejo, folgarei
e verei todo meu bem,
pois vejo quanto bem hei.
De vos veer a mim praz
tanto que muito é assaz,
mais, u m'este bem Deus faz
que vos vejo, folgarei
e haverei gram solaz,
pois vejo quanto bem hei.
860
D. Dinis
Pois Que Diz Meu Amigo
Pois que diz meu amigo
que se quer ir comigo,
pois que a el praz,
praz a mi, bem vos digo,
est'é o meu solaz.
Pois diz que todavia
nos imos nossa via,
pois que a el praz,
praz-m'e vej'i bom dia,
est'é o meu solaz.
Pois m'e[n]de levar vejo
que est'é o seu desejo,
pois que a el praz,
praz-mi muito sobejo,
est'é o meu solaz.
que se quer ir comigo,
pois que a el praz,
praz a mi, bem vos digo,
est'é o meu solaz.
Pois diz que todavia
nos imos nossa via,
pois que a el praz,
praz-m'e vej'i bom dia,
est'é o meu solaz.
Pois m'e[n]de levar vejo
que est'é o seu desejo,
pois que a el praz,
praz-mi muito sobejo,
est'é o meu solaz.
657
Estêvão da Guarda
Disse-M'hoj'assi Um Home
Disse-m'hoj'assi um home:
- Vai-se daqui um ric'home.
Dix[i]-lh'eu: - Per com'el come,
pois que m'eu fiqu'em Lixboa!
Já que se vai o ric'home,
varom, vá-s'em hora boa.
E disse-m'el: - Per Leirea
se vai, caminho de Sea.
Dixi-lh'eu: - Per com'el cea,
pois eu fiqu'em Stremadura!
Se vai caminho de Sea
el, vá-s'em boa ventura.
Disse-m'el: - Este caminho
se vai d'Antre Doir'e Minho.
Dix'eu: - Pois bevo bom vinho
aqui, u com'e nom conto,
se vai Antre Doir'e Minho,
senher, vaa-s'em [bom] ponto.
- Vai-se daqui um ric'home.
Dix[i]-lh'eu: - Per com'el come,
pois que m'eu fiqu'em Lixboa!
Já que se vai o ric'home,
varom, vá-s'em hora boa.
E disse-m'el: - Per Leirea
se vai, caminho de Sea.
Dixi-lh'eu: - Per com'el cea,
pois eu fiqu'em Stremadura!
Se vai caminho de Sea
el, vá-s'em boa ventura.
Disse-m'el: - Este caminho
se vai d'Antre Doir'e Minho.
Dix'eu: - Pois bevo bom vinho
aqui, u com'e nom conto,
se vai Antre Doir'e Minho,
senher, vaa-s'em [bom] ponto.
675
D. Dinis
Vi-Vos, Madre, Com Meu Amig'aqui
Vi-vos, madre, com meu amig'aqui
hoje falar e houv'en gram prazer
porque o vi de cabo vós erger
led', e tenho que mi faz Deus bem i,
ca, pois que s'el ledo partiu daquém,
nom pode seer senom por meu bem.
Ergeu-se ledo e riiu já quê,
o que mui gram temp'há que el nom fez,
mais, pois já esto passou esta vez,
fic'end'eu leda, se Deus bem mi dê,
ca, pois que s'el ledo partiu daquém,
nom pode seer senom por meu bem.
El pôs os seus olhos nos meus entom,
quando vistes que xi vos espediu,
e tornou contra vós led'e riiu,
e por end'hei prazer no coraçom,
ca, pois que s'el ledo partiu daquém,
nom pode seer senom por meu bem.
E, pero m'eu da fala nom sei rem,
de quant'eu vi, madr', hei gram prazer en.
hoje falar e houv'en gram prazer
porque o vi de cabo vós erger
led', e tenho que mi faz Deus bem i,
ca, pois que s'el ledo partiu daquém,
nom pode seer senom por meu bem.
Ergeu-se ledo e riiu já quê,
o que mui gram temp'há que el nom fez,
mais, pois já esto passou esta vez,
fic'end'eu leda, se Deus bem mi dê,
ca, pois que s'el ledo partiu daquém,
nom pode seer senom por meu bem.
El pôs os seus olhos nos meus entom,
quando vistes que xi vos espediu,
e tornou contra vós led'e riiu,
e por end'hei prazer no coraçom,
ca, pois que s'el ledo partiu daquém,
nom pode seer senom por meu bem.
E, pero m'eu da fala nom sei rem,
de quant'eu vi, madr', hei gram prazer en.
309
D. Dinis
Amiga, Bom Grad'haja Deus
Amiga, bom grad'haja Deus
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
806
D. Dinis
O Gram Viç'e o Gram Sabor
O gram viç'e o gram sabor
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.
Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.
E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.
Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.
E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
672
Bernardo Bonaval
Fremosas, a Deus Grado, Tam Bom Dia Comigo
Fremosas, a Deus grado, tam bom dia comigo,
ca novas mi disserom ca vem o meu amigo;
ca vem o meu amigo,
tam bom dia comigo.
Tam bom dia comigo, fremosas, a Deus grado,
ca novas mi disserom ca vem o meu amado;
ca vem o meu [amado]
fremosas, a Deus grado.
Ca novas mi disserom que vem o meu amigo
e and'end'eu mui leda, pois tal mandad'hei migo;
pois tal mandad'hei migo
ca [vem o meu amigo].
Ca novas mi disserom ca vem o meu amado
e and'[end]'eu mui leda, pois mig'he[i] tal mandado;
pois mig'he[i] tal mandado
que vem o meu amado.
ca novas mi disserom ca vem o meu amigo;
ca vem o meu amigo,
tam bom dia comigo.
Tam bom dia comigo, fremosas, a Deus grado,
ca novas mi disserom ca vem o meu amado;
ca vem o meu [amado]
fremosas, a Deus grado.
Ca novas mi disserom que vem o meu amigo
e and'end'eu mui leda, pois tal mandad'hei migo;
pois tal mandad'hei migo
ca [vem o meu amigo].
Ca novas mi disserom ca vem o meu amado
e and'[end]'eu mui leda, pois mig'he[i] tal mandado;
pois mig'he[i] tal mandado
que vem o meu amado.
1 106